terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Favela (Padeirinho & Pessanha)

Ouvir

Gravação: Nara Leão

Numa vasta extensão
Onde não há plantação
Nem ninguém morando lá
Cada um pobre que passa por ali
Só pensa em construir seu lar

E quando o primeiro começa
Os outros depressa procuram marcar
Seu pedacinho de terra pra morar

E assim a região
sofre modificação
Fica sendo chamada de a nova aquarela

E é aí que o lugar
Então passa a se chamar favela

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Espectador dá trote em pastor macumbeiro, e vice-versa (Fala que eu te escuto)



Passar a camisa preta no corpo, dar um nó e levar à Catedral (que fica na "encruzilhada" da Av. João Jorge com Rua Sales de Oliveira) para que o pastor nervosinho resolva o seu problema... Que despacho, ein?

"Não ria não, que o negócio é sério!"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Felicidade (Luis Tatit)


Discover Luiz Tatit!


Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Little Johnny, o Pedrinho deles...

WHAT DOES YOUR DADDY DO?

It was the first day of school and the teacher thought she’d get to know the kids by asking them their names and what their fathers did for a living.
The first little girl said, “My name is Mary and my daddy is a postman.”
The next little boy said, “I’m Andy and my Dad is a mechanic.”
It was then little Johnny’s turn and he said “My name is Johnny and my father is a striptease dancer in a cabaret for gay men.”
The teacher gasped and quickly moved on, but later, in the school yard, the teacher approaches Johnny privately and asks if it was really true that his Dad dances nude in a gay bar.
Little Johnny blushed and said, “Nah, he’s actually an auditor for Arthur Andersen but I was just too embarrassed to say.”

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Business Advice

An American businessman was at the pier of a small coastal Mexican village when a small boat with just one fisherman docked. Inside the small boat were several large yellowfin tuna. The American complimented the Mexican on the quality of his fish and asked how long it took to catch them.
The Mexican replied “Only a little while”. The American then asked why didn't he stay out longer and catch more fish??? The Mexican said he had enough to support his family's immediate needs. The American then asked but what do you do with the rest of your time???
The Mexican fisherman said, “I sleep late, fish a little, play with my children, make siesta with my wife Maria, stroll into the village each evening where I sip wine and play guitar with my amigos. I have a full and busy life, señor".
The American scoffed, “1 am a Harvard MBA and could help you. You should spend more time fishing and with the proceeds buy a bigger boat with the proceeds from the bigger boat you could buy several boats, eventually you would have a fleet of fishing boats. Instead of selling your catch to a middleman you would sell directly to the processor, eventually opening your own cannery.
You would control the product, processing and distribution. You would need to leave this small coastal fishing village and move to Mexico City, then LA and eventually NYC where you will run your expanding enterprise”.
The Mexican fisherman asked, “But señor, how long will this all take???"
To which the American replied, “15 to 20 years”.
“But what then, señor ???”
The American laughed and said that’s the best part, “When the time is right you would announce an IPO and sell your company stock to the public and become very rich, you would make millions”.
“Millions, señor ??? Then what???”
The American said, “Then you would retire. Move to a small coastal fishing village where you would sleep late, fish a little, play with your kids, take siesta with your wife, stroll to the village in the evenings where you could sip wine and play your guitar with your amigos”

sábado, 21 de julho de 2007

Corre, pedala... e nada

Depois do fiasco brasileiro na estréia da Copa América de 2007 (0x3 México), José Simão lançou uma piada em sua coluna, mais ou menos nesses termos: "O Robinho será convocado para a Seleção Brasileira de Triatlo: ele corre, pedala... e nada". Tudo bem que Robinho se recuperou na partida seguinte, fazendo os três gols (pelo menos dois golaços) na vitória contra o Chile. A piada, então, pode estar desatualizada, mas não o interesse lingüístico que se pode ter por ela.

Esse caso parece ser bom para ilustrar a discussão sobre os limites entre sintaxe e semântica. "Corre" e "pedala", tomando como ponto de partida o triatlo, têm uma significação "literal", que é contrastada com uma significação relacionada ao futebol. No primeiro caso, "corre" tem um sentido de finalidade, de especificidade do tal esporte; enquanto que, no segundo, tem um sentido de meio (correr é um meio para se jogar bem futebol). Mas, ainda assim, há muita semelhança entre os dois sentidos do verbo "correr".

Em "pedala", parece que temos dois verbos diferentes, apesar do sentido futebolístico ter uma relação secundária de metônimia em relação ao sentido mais literal, aplicável ao triatlo. Poder-se-ia dizer que, por isso, são um verbo só, e que o sentido futebolístico é um sentido conotativo em relação ao sentido literal de "pedalar". Mas, isso não é um argumento definitivo, porque as histórias das línguas estão cheias de exemplos de verbos que se formaram por deslocamento e se literalizaram depois. Por exemplo, "chegar" origina do verbo latino "plicare", que significava "dobrar". Um argumento para dizer que se trata do mesmo verbo é que o sentido futebolístico não se perdeu totalmente o sentido original. O que não dá para defender é que, por haver a mesma expressão gráfica e acústica (mesmo significante), trata-se necessariamente de um mesmo verbo; as línguas são repletas de homonímias (dois significados para um mesmo significante).

Interesante pensar que o verbo "pedalar" pode ser tanto transitivo direto quanto intransitivo (pode ou não pedir um complemento, ou, nos termos da sintaxe gerativa, pode ter um ou dois argumentos). No sentido do triatlo, mesmo aí podendo haver intransitividade sintática ("eu pedalei por duas horas"), parece estar subentendido um complemento ("eu pedalei [uma bicicleta] por duas horas"); enquanto que no sentido futebolístico, "pedalar" parece ter um caráter somente intransitivo (ninguém pensaria em "eu pedalei a bola" ou "eu pedalei o adversário"). Essa diferença, para alguns teóricos da teoria sintática (não estou falando de Pasquales), seria suficente para atestar que se tratam de dois verbos com a distinção originada desde o léxico ("momento" anterior à DS, deep structure ou estrutura profunda).

Bom, então, temos "corre" como um verbo muito similar nos dois sentidos. Temos "pedala" como um ainda verbo (ou dois verbos), mas que marca uma distância muito maior a depender de qual dos "frames" de significação (o do triatlo e o futebolístico) estamos tratando. Por fim, temos a palavra "nada", que, no frame do triatlo vem do verbo "nadar". Requer-se certo conhecimento enciclopédico do leitor para saber que o triatlo é composto das três modalidades sugeridas. E é por haver essa (ficcional) correspondência (pelo menos no nível do significante) entre as partes da modalidade e o que Robinho faz (ou vinha fazendo) que este seria convocado para a seleção de triatlo (também um "seleção", o que dá a entender que ele faz muito bem as três coisas: mais um exemplo da ironia aplicada ao sarcasmo). O pleno ajuste é um sinal de agudeza do humor nesta peça (poderíamos pensar em termos de coerência, mas isso fica para outro dia).

No frame futebolístico, não há brecha para o sentido anterior de "nada". Temos, então, que invocar nossa memória e pensarmos que expressões do tipo "fez alguma coisa... e nada", ditas com certa entonação, significam que não houve um certo resultado esperável; ou seja, como se o que viesse antes da expressão "e nada" incluísse um pressuposto de um resultado esperado, que não se confirmou: "correr" e "pedalar" são argumentos favoráveis a uma conclusão diferente de "nada". A interrupção tem um caráter adversativo, de mudança da direção argumentativa: "Robinho é esforçado, MAS não está jogando nada". "Ser esforçado" muitas vezes pressupõe uma traço pejorativo: alguém não tem ou não está mostrando talento (muita transpiração e pouca inspiração). Ora, aqui temos "nada" não mais funcionando como um verbo, mas como um advérbio.

Como podemos, a partir da expressão sintática que dá título a esta postagem, saber se "nada" é verbo ou advérbio? É possível somente supor (se os dois primeiros são verbos, o terceiro deve ser) ou ter uma certeza, que pode ser contestada (é o que a piada faz). E o humor joga exatamente com isso, ao mostrar que um outro sentido, uma outra leitura semântica, seria possível de co-habitar a mesma expressão sintática. As reticências promovem a quebra do fluxo; mais que isso, dá à frase uma dicção, próxima ao uso consolidado que mostramos no parágrafo anterior; e, também, promovem um suspense narrativo, que enfatiza a expressão por vir e serve muito bem ao humor.

A convivência entre esses dois domínios de sentido é condição necessária para a estruturação do humor; ao final da piada, retroativamente, ressignificamos tudo o que foi dito, não apagando o sentido inicial (do triatlo), mas fazendo as expressões serem co-habitadas pelos dois sentidos (triatlo e futebol). O que pode ser um indício de que há uma "consciência" e controle do autor, pelo menos no nível de controle (represamento) no desenvolvimento de seu artefato.

Do ponto de vista da semântica, a leitura do título de nossa postagem mostraria que uma interpretação sintática (saber se "nada" é verbo ou advérbio) muitas vezes só é possível de acontecer (ainda no domínio sintático) com a ajuda da semântica. Do ponto de vista da sintaxe, poder-se-ia pensar que os dois sentidos já estavam lá (na mesma frase, ou haveria duas frases?), autorizados pela sintaxe e aguardando um evento do mundo para semânticamente se definir.

domingo, 15 de julho de 2007

As gafes da TV portuguesa



Quem nos pergunta "você sabe que horas são?" não espera que respondamos simplesmente "sim", mas que lhe informemos essa hora que sabemos (ou que buscamos saber para responder). A pragmática buscaria dar conta de entender como os sentidos são completados pela situação imediata em que os interlocutores estão inseridos.

Costuma-se dizer que "português é burro". E já ouvi colegas meus que viajaram a Portugal dizerem que as tolices portuguesas das piadas de fato acontecem, que os portugueses são burros mesmos. Parece que lá em Portugal também fazem piadas sobre as burrices daqui. A questão parece ser, então, de uma interincompreensão, cujas raízes podem ser historicamente buscadas (condições de produção); é claro que não deve ser algo que prejudique irremediavelmente os sentidos, pois uma interincompreensão pode ser superada pelos interlocutores (reformulando suas falas, por exemplo).

Alguns lingüistas já disseram que as piadas de português (e as piadas de brasileiro, lá em Portugal) se sustentam basicamente sobre uma idéia de "burrice", que na verdade não é "burrice" mas saberes pragmáticos diferentes. Afirma-se que os portugueses têm uma tendência a ficarem mais no enunciado explícito e a buscar menos implicitações na situação ou na enunciação.

O vídeo aqui anexado foi editado no Brasil. Em suas escolhas, retrata certa representação que, fanfarrona ou seriamente, boa parte dos brasileiros faz dos portugueses. Vejamos dois trechos desse vídeo:

[Repórter pergunta e senhora responde:]
- O que que a traz cá?
- Uma camionete.

[Repórter pergunta e garotinho responde:]
- Falas com os cavalos?
- Falo.
- E eles respondem?
- Sim.
- O que é que dizem?
- Dizem assim: hiiiiiiiiiiii!

Muitos leitores podem ter a correta idéia: "esses trechos bem que poderiam ser piadas"; ou tirar dessa idéia uma conclusão valorativa mais geral: "nossa, então as piadas de português não são ficções, acontecem, os portugueses são mesmo burros". Será que a senhora e o garotinho foram "burros" por não entenderem a pergunta, ou simplesmente responderam mais "ao pé da letra" o que o enunciado pedia? Se formos pela primeira opção, rimos dos entrevistados (e português seria mesmo burro); se formos pela segunda, rimos do entrevistador (e português seria astuto ao ler o enunciado "ao pé da letra", "juridicamente" poderíamos dizer).

Parece-nos que tanto a senhora quanto o garotinho não estão troçando, zombando dos repórteres: entendem suas respostas como as únicas possíveis, ou as melhores possíveis. Mas, provavelmente, não eram aqueles os sentidos que os repórteres esperavam; isso provaria que não há uma postura pragmática única em Portugal, que talvez lá os dois usos co-ocorram em proporções parecidas, enquanto que no Brasil um dos usos seria muito hegemônico.

Se aquilo que dissemos dos portugueses (uma variação pragmática) for generalizado, as piadas pragmáticas dos portugueses contra os brasileiros seriam menos comuns, ou restritas a alguns usos em que nós não sejamos pragmáticos e eles o sejam. Mas, ainda que a explicação sirva para os dois excertos do vídeo, não deve se aplicar a todos os usos. Pois, pode haver muitos casos em que os portugueses interpretariam mais pragmaticamente um enunciado e que os brasileiros interpretariam mais "ao pé da letra" (ao pé do lingüisticamente explícito no enunciado). E, no sentido das representações de que os países são diferentes (ou que foram diferenciados por políticas no discurso), as piadas se constituíram como apropriações destes casos pragmáticos para se forjar enquanto um dos mais importantes campos da "batalha".

A forma como o jogador de futebol fala à reportagem, neste vídeo, parece ter outra explicação. O ethos, as idéias, as expressões não são esperados a um jogador de futebol; seria mais adequado a um filósofo. Então, a piada poderia ser que a burrice do português não é só pragmática, mas discursiva: há embutida uma noção nos sujeitos falantes, ainda que justificada em um esteriótipo, de que cada domínio social constitui consigo um jeito mais adequado de falar.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Trem do Pantanal (Almir Sater)



Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
As estrelas do Cruzeiro
Fazem um sinal

De que esse é o melhor caminho
Pra quem é como eu
Mais um fugitivo da guerra

Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
O povo lá em casa espera
Que eu mande um postal

Dizendo que eu estou muito bem
E vivo
Rumo a Santa Cruz de la Sierra

Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
Só meu coração está
Batendo desigual

Ele agora sabe que o medo
Viaja também
Sobre todos os trilhos da Terra
Rumo a Santa Cruz de la Sierra
Sobre todos os trilhos da Terra

Na postagem sobre a canção "Odeio rodeio", tentei mostrar como o Chico César brinca com o esteriótipo do "sertanojo", esse gênero musical do "sertão" em tempos de cultura de massas. Naquela canção, Chico César não só retoma e desloca idéias do "sertanojo", marcando uma posição contra elas, como também "incorpora" (ou, finge incorporar) um jeito emocionado de ser do enunciador "sertanojo".

Sei que pejorar não é algo muito bom em ciência, mas, quem disse que esse blog quer fazer ciência? Talvez queira, mas não se obriga a amarrar nada. São idéias soltas que podem ganhar substância em outro lugar, em um artigo, meu ou de outrem. Mas, usei "sertanojo" porque eu falava de certa forma junto com uma posição para quem Zezé di Camargo e afins devem ser excluídos do conjunto dos sertanejos. Ou seja, pode existir música sertaneja boa.

Esta do Almir Sater está na categoria sertanejo mesmo. Não que não haja pontos em comum entre o sertanejo e o sertanojo (posso tirar as aspas já, agora que estamos mais íntimos); há uma zona interdiscursiva entre os dois. E não é corriqueiro que os dois se choquem frontalmente. A migração discursiva do segundo não é opositiva mas apropriativa do primeiro; e o primeiro muitas vezes "deixa pra lá" o segundo, ou se enfraqueceu de tal modo, dadas as condições históricas, que já não pode mais falar direito. O leitor pode tentar comparar por si mesmo esses discursos, a partir desta minha rápida análise.

De acordo com Maingueneau (Análise de textos de comunicação), um discurso não é feito só de idéias. Com isso, Maingueneau abre espaço para pensarmos também o discurso para além do texto. Ou, pelo menos, para pensar como idéias textuais (verbais) se associam a outros elementos na constituição de uma semântica global do discurso. Uma semântica global seria regida por princípios simples e pouco numerosos, que, por sua vez, permitiriam a infinidade dos textos possíveis e de outros elementos anexos (e talvez não menos relevantes que aqueles). E um desses "outros elementos" discursivos para além do texto seria o ethos.

Para ficar mais claro, vamos aplicar isso a uma análise desta canção.

As idéias (textualmente expressas) remetem a um discurso (como todo discurso, subjacente) sertanejo: pacificidade, harmonia com os outros, com a família e com a natureza, tranqüilidade rural ("locus amoenus" caipira), sem estresse ou desarranjos psicológicos, sem esperar da vida grandes projetos e sobressaltos, integração com o Cosmos (este Cosmos pode ser a idéia de Deus: religiosidade sertaneja). Se o coração saltita e se o eu-lírico foge, é para buscar uma harmonia ainda mais profunda. Poder-se-ia dizer que, apesar de bonito, este é um discurso um tanto conformista, uma fuga da política, fuga ainda que inconsciente.

Pois bem. Muitas análises de discursos parariam por aí: relacionar idéias textuais a uma coerência discursa, a qual constituiria uma formação. A noção de "ethos" nos leva além.

A noção de "ethos" busca dar conta de entender o caráter e a corporalidade que um texto atribui ao seu enunciador. Se o texto atribui, ou, como veremos, uma semântica global atribui, o enunciador não ajusta seu corpo e seu tom mais eficiente aos seus propósitos, com a consciência que a tradição retórica supunha. O caso desta canção é interessante porque a correlação a um ethos implica muito mais o locutor (Sater) do que os seus autores; várias razões podem ser buscadas para isso, desde o fato de esses autores serem desconhecidos, até o caráter irremediavelmente presencial de todo ethos.

As posições discursivas (idéias) que dissemos anteriormente constituem uma figura de homem tranqüilo, de respiração compassada (a desritimia do coração é uma desritmia "boa"), de jeito despojado, de prazeres simples etc. O tom de voz é também uma manifestação corporal que configura o ethos: aqui, um tom de voz que, apesar da diferenciação da altura melódica (entre médios e agudos), permanece praticamente com o mesmo volume (sem gritos, sem muitos decibéis). O instrumental também reforça essa entonação.

Seria interessante um estudo que investigasse o ethos por trás dos gêneros e dos recursos musicais (veja uma postagem minha sobre uma canção de Raul Seixas e o ethos roqueiro-inconformado). Em grande medida, falar de um estilo de um cantor é identificar-lhe um ethos.

A caracterização física de Almir Sater neste video é coerente com tal ethos sertanejo: o chapéu, a movimentação corporal medida, o sorriso singelo e feliz. Talvez, não seja só uma conseqüência do ethos mas uma parte igualmente constitutiva deste. Mas, mesmo se só ouvíssemos a canção, poderíamos constiuir essa "figura" do enunciador que canta, darmos este caráter a ele, imaginarmos sua postura corporal.

A hipótese é que haveria uma semântica global que "englobaria" tanto as idéias quanto os "outros elementos", no caso, deste discurso sertanejo. Nesta canção, o traço semântico principal é o da "integração". A partir deste traço semântico básico, podemos derivar outras poucas noções intermediárias (prudência, tranqüilidade, pacificidade etc.), que determinariam tanto o que vai ser dito como a globalidade entre o dito e o agido (ethos).

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ouro de tolo (Raul Seixas)



Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Vou separar esta canção em dois enfoques do eu-lírico, que não coincidem com as duas partes em que a canção é musicalmente dividida. Não vou considerar esses dois enfoques como estanques; uma mesma estrofe pode conter ambos. São do que chamo "primeiro enfoque" os versos em que o eu-lírico demonstra sua insatisfação com um padrão de vida que, implicitamos, seja pretendido pela maioria das pessoas: por isso, o eu-lírico "deveria estar contente", junto com os outros (ou, os sonhos dos outros), mas não está. O segundo enfoque é trazido pelos versos (principalmente ao final de cada parte musical) que apresentam de forma mais elabora as razões de o eu-lírico não estar contente. O que o autorizaria a dizer é o fato de ter experimentado aqueles ideais de vida e não tê-los aprovado; a canção pode, assim, estar marcando a passagem do eu-lírico de um estado a outro.

A posição majoritária trazida pela canção convoca, em um domínio discursivo, vários discursos e instituições interligados, cujo denominador comum é defender uma vida regrada e planejada: do mercado de trabalho (ter um bom e estável emprego é algo valorizado no mundo competitivo), da religião (a prosperidade é alcançada com o apoio de Deus, o descanso do trabalho é sagrado e deve ser aproveitado sem excessos), da família (é bom ter uma família estável e poder dedicar-se a ela, é bom ter uma prole, ter herdeiros), da propriedade (ter um carro, ter uma casa) etc. Em suma, tudo isso pode ser identificado como ideais de classe média; uma vida mediana é o que estaria reservado a uma classe mediana.

É contra esses ideais e, poderíamos dizer também, contra as instituições que os veiculam que o eu-lírico se contrapõe. Para isso, o eu-lírico não só arregimenta a seu favor a memória discursiva do hedonismo (que trataremos a seguir), como pode se associar (na efemeridade de um interdiscurso) ao discurso socialista ou anarquista que se contrapõe àquelas instituições e àquelas ideologias.

Poderíamos encontrar naquela posição majoritária uma memória discursiva presente há muito pela via da tradição estóica, considerada seja na sua versão filosófica seja na vulgarizada. A figura chave para o estoicismo é a "Roda da Fortuna": o sujeito racional e regrado está mais ao centro da Roda e livre dos altos e baixos que o Destino (Fortuna) impõe à borda. O oposto do estoicismo seria o hedonismo, que pregaria a primazia dos prazeres e dos sentidos; é com esta posição que o eu-lírico fecha. A patrística buscou associar a tradição judaico-cristã à tradição filosófica, sobretudo estóica; daí, na canção, o discurso religioso vir a somar-se ao domínio ou à formação discursiva favorável pró-vida regrada pequeno-burguesa (sem "pecados" e com poupança). Por isso, é importante falarmos de memória discursiva, não com anseios empíricos e exaustivos, mas para indicar que os discursos possuem um passado e se organizam e se desorganizam em posições ou em formações discursivas, nunca completamente acabadas.

Observe estes versos:

Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado

Engraçado que a canção diz "aí parado" e não o mais corriqueiro "aqui parado". E isso não é um problema de incoerência, muito pelo contrário; a canção está falando de um eu-lírico que não "pára quieto", que toma por princípio nunca estar em um "aqui" mas sempre se deslocando de um "aí" a outro. Podem ser, então, inúmeros "aís", mas pode ser um só (esta parece ser a melhor leitura): o "aí" marca uma diferenciação entre as duas posições discursivas trabalhadas pela canção; o "aí" é o lugar, agora distante, que o eu-lírico atribui aos acomodados, lugar em que ele não só deseja não mais estar, como já não está mais nele.

Estamos nos domínios de um gênero musical que crivou um dos mais repetidos lemas pró-hedonistas e anti-estoicistas: "sexo, drogas e rock'n'roll". E o eu-lírico (e mesmo, neste caso, o autor da canção) nos reporta este "ethos" de rebeldia, se não através de guitarras barulhentas, através de um outro recurso: falo do recurso ritmico das frases atravessadas, que parecem grandes demais para caberem na frase musical. Isso é condizente com o conteúdo da canção, que fala de alguém que não se adapta a uma vida "quadrada"; alguém que, para atestar que quer se colocar fora dos limites das "cercas e bandeiradas que separam quintais", precisa cantar apressadamente e extrapolando as cercas e bandeiradas que demarcam as frases musicais.

Já que estamos falando da última estrofe, o que dizermos dos dois últimos versos desta? Enigmáticos? Sim, e a linguagem cifrada também pode ser um atestado da não-adaptação do eu-lírico. A canção lança mão de uma metáfora, de grande poder imagético, como síntese definidora daquele eu-lírico. "Sonhar" muitas vezes é tido como "visualizar algo". Pois bem, o que o eu-lírico visualiza não são coisas comportadas, como o faz a maioria das pessoas; o que se "assenta" sobre o seu olhar é algo da ordem do impossível: um disco voador (repete, em certa medida, a caracterização do artista ou do poeta como um visionário ou como um portador de um olhar incomum). Ou melhor, algo ainda mais impossível que o impossível: "a sombra sonora de um disco voador". Essa imagem sinestésica e um tanto quanto inexplicável ganha força exatamente por ser sinestésica e inexplicável: a canção traz uma hipérbole para atestar o quanto o eu-lírico não compartilha os mesmos sentidos das pessoas comuns.

"A sombra sonora de um disco voador" indica a idiossincrasia, a grandeza e a loucura dos projetos do eu-lírico. "A sombra sonora de um disco voador" é principalmente a representação do "incômodo", que o eu-lírico reconhece como destoante do comportamento comum (considera-se um "sujeito chato") e que não pode ser explicado; neste sentido, sua posição hedonista pode não ser tão "feliz" assim.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Dois risos interdiscursivos

Às vezes, incluo nesse blog textos que não diretamente falam de humor, ou porque, à minha leitura, trazem um humor muito sutil, ou porque trazem algum procedimento que guarda semelhanças com a produção e a leitura do humor. Isso me faz pensar que seja possível rir de qualquer coisa; ou seja, acho que há risibilidade em todo o dizer. Não vou defender o subjetivismo, para quem bastaria dizer que toda pessoa pode rir de qualquer coisa, por razões da ordem da individualidade. Não vou me eximir de apontar uma explicação que seja.

Podemos pensar isso pela via discursiva. O riso pode ser um indício da presença do outro no dizer, no ler, no rir. Isso pode ser pensado em termos de interdiscurso, de heterogeneidade discursiva, de polifonia, de polissemia; mas aqui não vou me deter nesses conceitos. Todo dizer é rísivel, então, porque todo dizer nos traz um outro.

Vou me deter em um tipo de riso: é muito comum rirmos de algo que alguém disse com seriedade, disse sem a menor intenção de provocar um riso (ou aquele riso específico que lhe devotamos).

Isso ocorre quando esse alguém é, em algum sentido, reconhecido como nosso adversário. Tão tolo quanto achar que "quem cala, consente" é pensar que "quem ri, consente". Toda proposição seria passível de humor, aos olhos do sujeito-interlocutor, porque toda proposição é passível de ser questionada, é passível de ser vista de um "outro" lugar. Um hipotético ateu, por exemplo, pode achar graça de alto tão sagrado como isso que aparece na sinopse de um DVD bíblico:

"Nossos interiores estão destruídos e precisamos de transformações. Somente o Senhor Jesus Cristo que ressuscitou pode transformar medo em confiança, transformar insegurança em segurança, dor em alívio. A Bíblia diz que o mesmo poder que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos é o poder que opera em nós."

Esse mesmo ateu pode também dar risada de um discurso inverso, sobre o mesmo tema, como o deste trechinho de "O Evangelho Segundo Jesus", de José Saramago:

"Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores."

Ora, me parece que, sendo um mesmo sujeito, não é um mesmo riso, dado o contraste discursivo e este contraste comportar um aspecto constitutivo de sujeitos (crer ou não, crer ou não nesta divindade).

No caso do DVD bíblico, nosso ateu hipotético estaria rindo da ingenuidade da afirmação. Poderíamos dar a este riso o nome de riso irônico, porque, assim como a ironia, o riso estaria funcionando como um "sim" invertido ("não tenho motivos para me alegrar com isso; estou me alegrando para manifestar o contrário: minha indignação"). É como se o riso marcasse um "não" do sujeito que lê antes de todo aquele dizer.

No caso do texto de Saramago, nosso mesmo ateu estaria rindo junto com Saramago (mesmo que Saramago não esteja buscando a graça, ou melhor, o humor) e contra aqueles que divinizam Cristo etc. A este riso, poderíamos dar o nome de riso aclamativo, no sentido que funcionaria como palmas favoráveis ao dizer que confronta uma outra posição, pressuposta ou subentendida (a posição dos cristãos). O riso é, então, favorável a uma posição discursiva exatamente na medida em que reconhece uma posição discursiva contrária, uma "outra" posição.

Por diferentes que sejam, os dois risos são interdiscursivos, isto é, são indícios da reentrância de posições discursivas. É claro que um ateu (diferente do nosso ateu hipotético) pode não achar graça em nenhum dos dois trechos, pois outros fatores estão em jogo. O interdiscurso dá condições para que um dizer sério seja lido com humor; não o obriga ser lido assim.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

As agudezas do humor

Kibeloco. Junho/2007.

Não vou falar das agulhadas do humor, o que também é uma agudeza e, em geral, forjada ao pé da agudeza que vou tratar neste texto (esta charge contém também esta agudeza).

Baltazar Gracián, teórico contemporâneo do Barroco, chamou de "agudeza" a astúcia retórica e artística de dar um salto além em um texto ou uma obra que já tenha ido bastante longe. Assim, um soneto barroco poderia sempre em seu desfecho buscar uma idéia inesperada, uma combinação inusitada, que apresentasse uma inflexão do sentido que vinha sendo construído. Bons retóricos e bons artistas eram os "agudos". Não é a mesma coisa que a idéia romântica de "talento". Em geral, o bom artista para o Barroco seria aquele que traduzisse, para o mundo extenso, por isso indireta e mediadamente, através do engenho artístico, uma parcela do desvendável da Criação divina. Essa seria a verdade possível; e a metáfora seria a melhor das armas.

Pois, essa charge nos traz um pouco das agudezas do humor. Muitas vezes, o humor usa de uma inflexão ou de um aprofundamento para se fazer mais humor. Detalhes dentro de piadas, partes non-senses dentro do "bom" senso.

Nesta charge (uma foto-montagem, pois vê-se Maradona muito "alterado": veja nariz e olhos), o humor básico seria aquele que joga com o Maradona viciado em cocaína. Agora, jogar com isso e ao mesmo tempo, combinando, debochar do outro personagem (debochar de suas "caspas") é a agudeza do humor aqui. Não devem ser caspas de fato; ou é uma característica da própria blusa daquele coadjuvante (desconhecido para nós, desimportante; imaginamos que seja alguém da TV argentina), ou é também um efeito acrescido na montagem da foto.

A blusa preta permite não só inclui-las, mas ter a idéia de fazer humor com a inclusão daquelas caspas. Um sobre-humor, na verdade. Um humor agudo, mas sem o qual não acharíamos graça do intuito do personagem Maradona. Não se tratam de duas piadas; trata-se de uma só, elaborada, pela agudeza do chargista, a partir da combinação de dois elementos: a obsessão de Maradona e as caspas sobre a blusa preta. Ou melhor, a obsessão sóbria ou alterada de Maradona o faz ver cocaína onde só haveriam caspas, e muitas caspas. A agudeza é que, tão "estranha" quanto a obsessão de Maradona é alguém ter aquela quantidade de caspas sobre a blusa.

Lembro-me de uma cena de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni: duas pessoas estão jogando uma partida imaginária de tênis até que a bola, imaginária, cai para fora da quadra; um homem, que observava com reservas aquela cena, então, aceita o pedido dos desconhecidos jogadores e "pega" a bolinha, devolvendo-lhes: se o mundo está louco, participemos dele. No caso de nossa charge, se o homem tem tudo aquilo de caspas e acha normal tê-las assim, a hipótese de Maradona não é tão mais louca (embora seja mais imoral).

Talvez a idéia do chargista na peça aqui tratada tenha se dado a partir de uma foto vista por ele casualmente em um site ou jornal; ou talvez sequer o encontro Maradona-coadjuvante tenha existido e o chargista, pensando na aparência entre cocaína e caspas, tenha imaginado (e executado) a partir daí toda a cena, de Maradona encontrando-se com um personagem de terno preto. A segunda hipótese parece improvável, ou seja, que o encontro em si seja uma foto-montagem. O título no topo da charge parece apontar para algo bastante específico e desnecessário - pressupomos - (a saber, "TV argentina") para não ter de fato ocorrido. A menos que o mundo esteja louco mesmo...

domingo, 17 de junho de 2007

Vencedor do Grande Desafio, domingo, dá nome a asteróide

O título desta postagem é uma manchete do portal da Unicamp, de 15/06/2007.

A chamada na página inicial nos esclarece um pouco aquela estranha manchete:

"Estudantes do ensino fundamental e médio mostram neste domingo, das 9 às 17h30, no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, os trabalhos que produziram para o Grande Desafio. O vencedor do evento organizado pelo Museu Exploratório de Ciências dá nome a um asteróide."

Para ler a matéria inteira, clique aqui, ou melhor, aqui.

Muito engraçada a manchete e a chamada. Um asteróide foi descoberto, e o garoto ou a garota que vencer o tal Grande Desafio na Unicamp tem o direito de dar um nome a essa coisa celeste. Uma "brincadeirinha", uma "gincaninha" (desculpem-me, é um Grande Desafio) vai servir para nomear um asteróide. Mas, quantos e quantos asteróides não foram nomeados "do nada" por vários cientistas? Pode-se dizer que eles tenham mais autoridade; mas o ato de nomeação feito por eles é tão casual quanto o desta gincana. O fato é que atribuímos às palavras uma relação necessária (no sentido filosófico) com as coisas. "É óbvio que mesa é mesa". Como se, inclusive, o nome fosse sempiterno; lembremos que "mesa" vem do latim "mensa" (mas isso já é uma outra história).

O exemplo daquela nomeação de asteróide parece servir para questionar a ilusão da relação de necessariedade nome-coisa.

Lembrei-me do livro de Foucault, "As palavras e as coisas". Ou mesmo do velho Saussure no "Curso de Lingüística Geral". De fato, parece-me haver total arbitrariedade entre significante e significado; isto é, a junção entre significante e significado (ou, em termos mais chulos, som e sentido) seria casual. Do que decorre que um nome seria arbitrariamente atribuído a alguma coisa.

Se eu ganhasse esse Grande Desafio, poderia dar ao asteróide o nome de Mazzaroppi ou de Mesa, ou de KLB. Não sei se aceitariam, pois poderiam tentar restringir minha arbitrariedade: "por que não o nome de um ciclope da mitologia grega?", diriam-me. Mas, os nomes desses ciclopes, ao serem dados pelos gregos de então, também seriam arbitrários, ou se relacionavam a outra coisa naquela Grécia (da mesma forma, arbitrariamente). Ora, ainda assim há arbitrariedade, porque, mesmo minha escolha sendo motivada pela mitologia, poderia sempre ser uma outra.

A famosa passagem de Mallarmé parece-nos calhar: "Un coup de dés jamais n'abolira le hasard" (Um lance de dados jamais abolirá o acaso).

Pressupomos que haja uma convenção internacional que valide a escolha do nome daquele asteróide. E pressupomos que os organizadores do Grande Desafio (do "Museu Exploratório") descobriram ou têm relação com quem descobriu o tal bicho, para que tenham o direito de deixar alguém nomeá-lo. Podemos até entender, pela manchete e pela chamada, que o nome do(a) vencedor(a) será o próprio nome (próprio) do asteróide (o que ainda seria algo arbitrário): "A vencedora é a Marília; então, o asteróide passa a se chamar Marília" (ou "passa a ser chamado de Marília"). Não há nada na manchete e na chamada que desautorize essa leitura; somos nós leitores que implicitamos não deva ser assim. Seguindo em frente: pensamos que, por estar no portal da Unicamp, isso não seja um trote (ops). Uma vez nomeado, todos os astrônomos e todos os que venham a falar desse asteróide terão que chamá-lo de X. Mesmo assim, mesmo nesse caso em que há uma institucionalização do nome (um batismo), pode ser que ele demore a pegar. O nome é algo que demora; demora a pegar e pode demorar a largar.

E. Guimarães, do ponto de vista de sua semântica enunciativa, dirá, a respeito dessas nomeações, que elas possuem um passado, um presente e um futuro. Exemplo: os pais resolvem batizar o filho de "José"; há um passado bíblico-católico (mesmo se os pais forem protestantes, diga-se), uma memória que pode estar dando um sentido a essa nomeação; há um presente, por exemplo quando o pai diz ao escrivão o nome do filho; e há um futuro, pois toda vez que alguém se referir àquele ser, o chamará de "José" (e posteriormente poderão lhe dar um apelido). Esse exemplo da nomeação (nomes próprios) pode de certa forma ser extendido a qualquer nomeação ou até mesmo às referenciações. Podemos ressignificar algo usando seu velho e bom nome, mas podemos fazer isso com um nome novo ou diferente; o velho exemplo de chamar "ocupação" o que outros chamam de "invasão", ou vice-versa. Ou seja, uma mesma coisa pode ter dois ou mais nomes. E, também, um mesmo nome pode ser atribuído a coisas diferentes.

O foco, desta posição e da posição discursiva, é, então, outro: tudo bem que o signo e a nomeação sejam arbitrários, mas o que é relevante em termos lingüísticos é procurar sua justificativa na materialidade histórica, na memória discursiva, nas condições de produção daquela nomeação; não se trata de uma relação mecânica, é claro, mas como possibilidade (no exemplo, a possibilidade daquele menino, nascido daquela família, ser chamado "José" está, por razões discursivas, mais dada do que a de ele ser chamado Mohammed). Interessante pensarmos que dizer "Eu me chamo X" pode ser parte do que a Análise do Discurso chama de ilusão do sujeito; esconde que "Eu fui chamado X", "Eu sou chamado X".

Benveniste (Problemas de lingüística geral), tomando outro foco, vai dizer que significante + significado, uma vez constituídos em signo, formam um todo não-arbitrário, podendo ser arbitrária a relação desse todo com um referente (algo do mundo). Ou seja, o signo não é arbitrário; a relação ente signo e referente pode sê-lo. Assim, o significante "rosa" tem como significado invariavelmente e necessariamente aquele tipo de flor (esse semi-referente embutido no significado é necessário, obrigatório); e, num segundo momento, esse signo "rosa" (significante + significado) pode designar outra coisa ("qualquer ser que tenha por atributo a beleza", por exemplo, como na frase "Maria é uma rosa"), pode se referir a algo diferente no mundo, em um uso idiossincrático, metafórico, que é posto sempre em relação ao significado literal.

Posição mais complicada parece ser a de Jakobson. A relação entre significado e significante não seria totalmente arbitrária; poder-se-ia encontrar na imagem fônica da palavra (significante) algo que tem a ver com o que a palavra denota (seu significado). Poderiam ser exemplos em português: "pico" tem uma sonoridade breve e ríspida (porque designa algo no mundo que é íngreme), ao passo que "montanha" é uma palavra maior e não tão ríspida (porque designa algo no mundo que é mais extenso e menos íngreme que "pico"). Poderíamos, então, comparar palavras aos pares e ver que elas estão nas coisas, ou as coisas nelas. Penso que isso pode até servir à composição poética; mas, não serve para explicar a língua. Poderíamos citar uma série de palavras em que a não-arbitrariedade de Jakobson não é encontrada (a palavra "montanha" poderia ser considerada uma palavra plana); ou poderíamos forçar a barra para a encontrarmos sempre (o "t" dá idéia de relevo e "mon" e "anha" dão idéia de acúmulo). Mesmo as onomatopéias não são dados empíricos; um russo talvez não ouça um bem-te-vi dizer "bem-te-vi". E não há nada no canto desse bicho que nos obrigue a chamá-lo assim; não chamamos um pato de "quá-quá", se é que pato diz (ou melhor, faz) "quá-quá".

Aborto clandestino, com a benção do papa













Angeli. FSP, s/d



Esta charge foi descoberta pelo blog ForSign, do meu amigo Denis. Achei-a interessante e vou postá-la aqui. Não quero fazer um comentário exaustivo (na verdade, nunca consigo).

O título, "Aborto clandestino", é a chave de entrada para compreendermos a cena: com essa informação, excluímos se tratar, por exemplo, de uma cirurgia de apêndice num hospital legalizado. Aliás, "clandestino" é algo que, por alguma razão, não pode se dar a conhecer; partimos do pressuposto que algo assim é "ilegal". A cena mostra sujeira e desorganização; as manchas de sangue na roupa do "médico" aproxima-o de um "açogueiro" (inclusive, costuma-se usar desta palavra para se referir a maus profissionais da área da saúde). Imaginamos que é este quem fala (também pelo aspecto gráfico: ele está de frente), e não a "enfermeira", por supormos que aquela fala deva ser ou de um proprietário (é mais comum que as clínicas sejam de médicos do que de enfermeiras) ou de quem está um nível acima na hierarquia (e teria mais direito de dizê-la).

Se há o imperativo "relaxe" (imperativo mesmo, e talvez por isso sem efeito), pressupõe-se que a paciente (agora sabemos ser uma paciente) não esteja, nem poderia estar, relaxada. "Relaxe" e "super equipada e esterlizada" são ironias; não talvez do personagem (que pode estar acreditando nisso), mas uma marca do autor: o autor nos dá a cena para que a fala do "médico" seja lida ao contrário ("fique tensa", clínica mal-equipada e imunda). O último período traz justificações a favor do enunciado anterior, "Você está em boas mãos". É claro que essa explicação deve ser engraçada; a charge pede um arremate assim.

A graça é permitida pela dupla interpretação de "benção", que entram em combate na charge: 1) no sentido religioso, de interceder pela graça de alguma divinidade ou coisa do tipo; 2) no sentido mais laico, de "aval" (é claro que o sentido laico ainda carrega a memória do sentido religioso). A charge se relaciona com a visita do papa Bento 16 (ou, papa Ratzinger) ao Brasil, em 2007. A charge argumenta na direção de outros textos que definem Ratzinger como um papa reacionário; daí, um papa contra o aborto. Mas, como poderia então o tal papa abençoar a clínica clanestina de aborto? Nós, leitores daquela charge, saímos desesperadamente em busca de outros sentidos, pois sabemos que não se poderia esperar uma heresia de um papa (ainda mais deste papa). A graça da charge está na solução deste (depois aparente) paradoxo.

É tarefa do papa abençoar, no sentido 1. Ao se pronunciar contra o aborto, em visita ao Brasil (coisa que os jornais noticiaram, e a charge em geral gosta deste tipo de intertexto, a saber, intertexto com outras notícias; o "recentemente" tem a ver com isso, é um indicativo para buscarmos a intertextualidade), o papa deu sua benção (no sentido 2; deu seu aval) para que as clínicas clandestinas continuem "operando". E, ainda, numa leitura complementar, o papa dá o aval não só para as clínicas clandestinas de aborto como também para que o próprio aborto continue clandestino, como se a charge nos dissesse: "o papa não pode impedir o aborto, que é algo corriqueiro embora clandestino, ilegal juridicamente e mal-visto pela Igreja". Essa posição, nesta leitura mais sutil (e, poderão dizer, até forçada), opõe-se à Igreja (e até ao Estado) ao relativizar seu poder.

A conclusão da charge é um implícito (eu diria que o autor concorda com essa conclusão, neste caso; mas determinar isso é algo complicado e fica para uma outra hora): aborto ruim é o aborto clandestino; aborto arriscado é o aborto clandestino; e, seja mais ou menos arriscado, seja mais ou menos clandestino, os abortos vão continuar existindo por aí, queira ou não o papa. A linha argumentativa da charge indica uma posição da charge (e talvez do autor) favorável à legalização do aborto.

Não vou aprofundar o debate sobre o aborto. Os meus leitores mais igrejeiros podem estar arrepiados, pensando que essa charge nem deve estar aqui. E é verdade também que algumas pessoas de dentro da Igreja e das igrejas não amaldiçoam o aborto, e alguns sejam até militantes da descriminalização; ou até já o praticaram. Agora, não há problema de se colocar o debate e fazê-lo (como esta charge o faz) em termos mais laicos, mais seculares.

A charge não nos indica; mas aquela clínica retratada poderia corresponder a uma clínica para pobres. Assim, "aborto clandestino" pode estar significando também "aborto perigoso": a prática do aborto seria clandestina para todas as clínicas; mas, dentre as clandestinas, existiriam aquelas duplamente clandestinas, porque não respeitariam procedimentos médicos gerais, como o da esterilização. Porque, embora também clandestinas, existem clínicas caras, que realizam aborto com higiene e baixo risco à paciente. E, dependendo do nível de pobreza da paciente, sequer há a opção de uma clínica precária (usa-se de pontapés no útero, auto-perfuração, super-ingestão de álcool, etc.).

Existem setores da esquerda brasileira favoráveis à legalização do aborto que usam isso como argumento (cito, por exemplo, o PSOL, que em seu recente 1º Congresso - junho/2007 - deliberou favoravelmente à legalização); seria preciso legalizar o aborto para que o Estado (investindo nisso) reduza as mortes, principalmente as mortes entre as mulheres trabalhadoras pobres. Os defensores desta posição poderão usar esta charge em seus materiais, em suas reuniões etc. E poderão, eventualmente, interpretar que a clínica retratada pela charge é não só clandestina (como todas no Brasil, pelo menos em tese) mas também uma clínica clandestina -clandestina, uma clínica clandestina para mulheres pobres.

No dia 16 vacine seu filho. É de graça e não dói nada.

O título desta postagem foi uma chamada da Campanha de Vacinação contra a Pólio, de 16/06/2007. A chamada era rápida e integrava o rápido comercial do Governo Federal veiculado na TV, naquela mesma data do evento divulgado.

Se a chamada diz "vacine seu filho", seleciona como interlocutor ideal os pais; sabemos, pais que têm filhos dentro da faixa etária que deve tomar a tal vacina. Curiosa é a continuidade da chamada, que podemos desmembrar em dois enunciados. O "e" não só está ligando dois elementos desconexos, mas está funcionando como um marcador argumentativo: "temos dois bons motivos para que os senhores pais atendam o nosso pedido anterior: isso E MAIS isso".

"É de graça" é direcionado aos pais; não é preciso dizer que questões como o desemprego e a péssima distribuição de renda marginalizam uma significativa parcela da classe trabalhadora, mais especificamente do lúmpen. O "vacine seu filho" é para todos. O "é de graça" colocaria como interlocutor ideal os pais pobres; ou até os organizadores da Campanha quiseram dirigir-se aos pais que considerava "irresponsáveis" ou "mal-informados" (o que provavelmente não estaria, na imagem feita pela Campanha, fora do conjunto dos "pobres"), para quem a primeira chamada não bastaria. Seriam necessários argumentos; aqui, ligados pelo "e". Inclusive, pela brevidade da chamada, e pelo discurso da brevidade e da eficácia da propaganda em geral, imagina-se que os argumentos tenham que ser bons.

Poucos lugares substancializam seus interlocutores como a "boa" propaganda; embora muitas vezes o faça de forma preconceituosa ou acrítica (não estou dizendo que é o caso da peça publicitária aqui analisada), até por isso mesmo, é inegável que costuma funcionar. Tudo bem que algumas generalizações são inevitáveis, e na peça que aqui analisamos a causa é até nobre; queremos dizer que a propaganda, quase em geral, evidencia-nos que em toda interlocução há um jogo complexo de imagens. Ao dizer, o locutor faz uma imagem do seu interlocutor, e faz também uma imagem da imagem que o interlocutor faz do locutor. E vice-versa; poderíamos tomar a palavra "interlocutores" no sentido geral, para indeterminar quem fala e quem escuta, até porque são lugares que se alternam, e para reforçar que um fala no outro. Mas isso iria , para os limites desta postagem, trazer confusão, maior do que aquela do locutor-interlocutor. É claro que não estamos convocando todo esse jogo de imagens para esta nossa análise, mas apenas parte dele. E, também, queremos mais é pensar quais são os interlocutores evocados pela chamada que dá título a esta postagem.

O recado então vai restringindo os seus interlocutores e nos dando sinais da imagem que faz destes interlocutores: os pais em geral ("vacine seu filho"); os pais pobres, irresponsáveis ou mal-informados ("é de graça"). Com "não dói nada", entra algo novo; a restrição dita anteriormente talvez até continue, mas parece que um interlocutor novo é evocado. Os interlocutores talvez não sejam mais os pais (adultos), mas sim as crianças (estas, mais do que os pais, é que deveriam estão preocupadas se a vacina dói ou não). Mas, a chamada não expressou a mudança de interlocutor (por favor, não me digam que isso é problema de coerência textual; a coisa é mais complexa). "Não dói nada" é argumento a favor da vacinação, direcionado às crianças, e, ao mesmo tempo (por que não?), aos pais. Talvez agora a imagem dos pais seja a daqueles que não têm controle sobre seus filhos. Sendo ou não isso, "não dói nada" é, em última instância direcionado às crianças, do interesse das crianças; o que não impede que os pais (os interlocutores evocados no começo da chamada, e que continuam enquanto tal) façam a mediação entre a propaganda e os filhos.

Mantendo os pais como interlocutores, a propaganda não só diz algo, mas implicita um procedimento que os pais devem adotar com os filhos (imaginando que isso fará com que mais crianças sejam vacinadas), como se lhes dissesse: "´não dói nada´ é um argumento que os senhores pais devem usar junto aos seus filhos". Se "não dói nada", pressupomos que a vacina deva ser de gotinhas; e pressupomos isso a partir do ponto de vista da criança (outro sinal de que esta é a "destinatária" final), para quem uma agulhadinha doeria mais que para os adultos. O "nada" duplica a negação (e a negação da negação nem sempre é afirmação, como pretendem os lógicos), dando-lhe ênfase; e também faz com a frase se aproxime do jeito como os adultos falam com as crianças. O "não dói nada" é uma expressão já quase na boca dos pais, é um argumento da chamada destinado a ser um argumento aos pais. Podemos imaginar um pai dizendo aquilo, ou uma paráfrase daquilo com seus pressupostos: "vamos, não vai doer nada, é de gotinha".

sábado, 16 de junho de 2007

Para riso travado, recomendo a Veja

Esse texto é do Dom Quixote De La Prensa, um dos autores do site Brasil Wiki! O "apelido" retoma não só o nome de Dom Quixote De La Mancha, mas também sua insatisfação e seu reconhecimento da grandiosidade do combate (que outros tenham por imaginário); no caso do De La Prensa, combate não com moinhos, mas com a grande ímprensa. Reproduzo o texto (engraçado e interessante) abaixo, na íntegra. Ao final, uma apresentação do autor, de responsabilidade do mesmo.

Para riso travado, recomendo a Veja (05/06/2007)

Está muito engraçada a Veja desta semana. Acho que vou começar a recomendar a revista para quem está com o riso travado. Como eu parei com as drogas, só fiquei sabendo do assunto porque um amigo recebe a revista de graça e me contou. Uma das reportagens internas tem o seguinte título: Viva o movimento estudantil. Mas a linha fina explica: da Venezuela.

Quer dizer, o movimento estudantil que protesta contra o José Serra não merece uma reportagem digna, explicativa, com a opinião de todos os lados, para que o leitor faça o melhor julgamento. Mas o que protesta contra o Chávez merece todo destaque. Não vou nem me alongar no comentário, está tudo muito claro. Sou contra a proibição das drogas, o leitor é que deve escolher.

Aliás, o Estragão desta terça-feira tem outro factóide do presidente eleito José Serra, (como diz o Paulo Henrique Amorim). Nenhum repórter sequer foi acossá-lo para que explique a crise da autonomia universitária. Mas mandaram cobrir o lançamento de um programa para acabar com as queimadas nos canaviais paulistas, programa que já existe há algum tempo.

Dom Quixote de la Prensa

Um jornalista que vive há mais de 17 anos dentro da fábrica de produtos de lavagem cerebral, nesse jornalismo que sonega informações e manipula a opinião do leitor. Sou um jornalista que acredita na informação como um direito do cidadão, não como mercadoria ou instrumento de deformação do pensamento. Enfim, um Dom Quixote, romântico, idealista, louco, ridículo e incurável. Que teme se identificar e perder o emprego por ter cometido o que em ditaduras se chama de crime de opinião.

Condenado à morte organiza concurso para escolher sua última piada

Yahoo!Notícias. 16/06/2007.

(Esta notícia vai na íntegra; nem vou comentar. A própria notícia é uma piada, de humor negro.)

WASHINGTON (AFP) - Um homem condenado à morte no Texas por duplo homicídio organizou um concurso de piadas na Internet para escolher suas últimas palavras, antes de receber a injeção letal, no dia 26 de junho.

"Aproveitarei meus últimos dias na Terra (...) Peço que divulguem o concurso que estou organizando. Quero que as pessoas me enviem suas melhores piadas para que possamos escolher a melhor, que vou contar antes da execução", disse Patrick Knight, de 39 anos, à rede de televisão CNN nesta sexta-feira.

Knight prometeu que lerá a piada quando lhe perguntarem quais são suas últimas palavras.

Condenado pelo assassinato de dois vizinhos, em 1991, Knight passou os últimos 16 anos no chamado "corredor da morte" em uma prisão do Texas, estado responsável por um terço das execuções nos Estados Unidos.

Knight disse à CNN que o "corredor da morte" precisa de uma "injeção" de humor: "temos uma situação onde há pessoas inocentes, o que não é o meu caso, que precisam das piadas para aliviar a tensão".

O condenado destacou que, já que vai morrer mesmo, é melhor que isso aconteça com uma risada.

Knight chamou sua página na Web de "Dead Man Laughing" (Homem Morto Rindo), uma piada com "Dead Man Walking" (Homem Morto Caminhando), o livro sobre a pena de morte de Helen Prejean, a freira católica defensora do fim das execuções.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Agora, finge de morto!


















Obra dos meus colegas da Camará Comunicação. Maio / 2007.


Charge não é só ilustração, desenho. Já falei antes que uma foto-montagem pode soar como charge, se buscar coisas como humor, relações de implicitação, tratar de um tema político-social, enfim, se cumprir alguns requisitos identificados como identificadores do gênero "charge". Esta imagem nasceu como cartaz; mas aqui tomo-a no que tem de charge (considero apenas imagem e "Agora, finge de morto!" e até mesmo "Decretos de Serra"; desconsidero a propagando pequena no rodapé). Até porque uma charge pode ser publicável em cartaz, isto é, não só integrar um cartaz, como ser ela mesma afixada, fazendo-se cartaz.

Não achei nenhuma charge do governador José Serra segurando a arma. A Folha de São Paulo não trouxe nenhuma charge sobre isso (vou dar uma olhada melhor); no período, tratou (como costuma tratar) mais da política nacional e por vezes internacional (mas eu diria que esse silêncio é significativo). Também, a própria foto já é caricatural; o governador deu sua caricatura já pronta (estou forçando a barra). A foto, na origem, não o é, mas nessa (e noutras) foto-montagem ela é relacionada com os decretos relativos ao ensino superior e ao movimento das universidade públicas paulistas.

Nesta, em específico, é um pressuposto que apontar uma arma é violência. Aliás, poderíamos pensar isso em termos de um silogismo:

Premissa menor: Quem aponta arma é violento
Premissa maior: José Serra aponta a arma
Conclusão: Logo, José Serra é violento

Neste caso, a premissa menor seria um pressuposto, a maior seria um posto e a conclusão, um implícito. O sentido físico de violência armada deriva-se metonimicamente para o sentido de "violência política" atribuído a Serra. Este sentido é relacionado à posição de que a política de Serra é um abuso: "finge de morto" é ordem cabível a cães, ou a torturadores (o "cap" ao fundo pode suscitar uma memória da tortura militar durante a ditadura no Brasil). "Finge de morto" pode ter um sentido implícito de natureza irônica (aos autores da charge) e interdiscursiva: "finja que nada está acontecendo; não reaja!". Os autores deixam o "outro" (Serra) falar algo que esse "outro" na verdade não falou, mas que poderia ter sido dito, ou melhor, poderia ser produzido pelo lugar enunciativo de Serra (governador, considerado "de direita"), pelo menos no nível do que Maingueneau chama de simulacro (na polêmica, o outro fala em nós, mas destacamos e reelaboramos, expressivamente, pontos que nos interessam no embate, silenciando outros).

O "agora" dá idéia ou de urgência ou de que algo já foi exigido antes ("agora, quero outra coisa"); sugere que as ações de Serra são sistemáticas, fazem parte de uma política. O sorrisinho irônico de Serra ajuda esse sentido e faz dele um caricaturável, a um passo da caricatura. Prato cheio para os adversários, como trataremos ao final do texto.

Relaciono esta imagem com aquele clássico cartaz do Tio Sam: "I want you". O Tio foi mais esperto e sua violência foi mais sutil: "só" apontou um dedo. O Tio chama ("I want you"); o Serra também deve ter querido chamar (querendo-se um não-ranzinza ao eleitorado), mas muitos dos usos feitos dessa imagem (por exemplo, a nossa charge) acaba fazendo-o repelir. Este uso (do Serra repelindo) é quase um dado, mas não é um dado; precisa de quem o elabore, de quem ressignifique algo em outra coisa. A "gafe" é uma reconstituição (é um ver com outros olhos, a partir de um outro "eu", um ver da alteridade, da polifonia) até quando o autor dessa gafe se aperceba imediatamente que a "cometeu".

Há um interdiscurso aqui, entre o que se imagina tenha sido a "intenção" do Serra e o que os autores da montagem quiseram dizer. Esse interdiscurso revela um outro: "ironizo Serra porque ele é meu adversário", poderiam dizer os autores da charge. Isso nos sugere que a interdiscursividade não acaba neste ponto, mas pode ser expandida, por contigüidade: proponho a idéia de um "contágio interdiscursivo" (quem sabe um dia isso vire conceito?).

E há ainda uma outra interdiscursividade, que forjei. Em certo sentido sempre forjamos interdiscursividades, pois os discursos e suas reentrâncias não são fatos empiricamente atestáveis e estanques, mas aqui forcei demais a barra, talvez, uma interdiscursividade em mim; eu poderia também dizer intertextualidade, ou interfiguracionalidade. Estou falando, obviamente, da foto do Serra posta em relação à figura do Tio Sam.

Tio Sam: "I want you"










Autoria desconhecida. Cartaz do Tio Sam. "Eu preciso de você".


Não quero discorrer aqui sobre essa imagem. Coloquei-a em relação a uma charge que tomava José Serra como personagem. Veja esta charge e o meu comentário.

Pentágono pensou em utilizar a 'bomba gay' contra os soldados inimigos

O título da postagem é uma manchete do "UOL Ciência e Saúde" de 15/06/2007. Assim diz o primeiro parágrafo:

"Uma 'bomba gay', que transforma os soldados inimigos em homossexuais que preferem fazer amor a fazer a guerra, foi uma idéia destrambelhada proposta nos anos 90 ao Pentágono para resolver seus conflitos bélicos."

Muito bom o uso de "preferem fazer amor a fazer a guerra", neste primeiro parágrafo, que está em relação intertextual com o slogan dos levantes (principalmente os estudantis, principalmente no oeste-europeu e nos EUA): "Façamos amor, não façamos a guerra". A palavra "destrambelhada" dá idéia de que o projeto não deu, nem poderia dar (ao ver do autor), certo. Mostra que o jornalista (ou o redator, ou o portal de notícias, ou o locutor, ou o enunciador, ou a posição discursiva; discuti um pouco dessas coisas em outros textos, neste blog) não é invisível; revela-se aqui em sua espessura. Interessante que o especificador (artigo) "a" na manchete pode indicar que a bomba exista ou tenha existido (alguns diriam que há uma incoerência textual, entre a manchete e o corpo da matéria).

Ao ler a matéria, vemos que não há nada no projeto da bomba que queira estimular a homossexualidade. Esse possível sentido é permitido (ou, até, dado) pela manchete e estaria em relação com a posição que reduz a homossexualidade a algo biológico: quem assim ler, poderia pensar que a bomba pretendia estimular os aspectos biológicos da homossexualidade. Mas, o projeto pretendia aumentar a libido dos soldados inimigos; e como pressupomos / sabemos que entre os soldados só havia (há) homens...

Existe um outro pressuposto (mais um daqueles perigosos) que quer passar que homossexual é menos combativo, pois guerrear seria "coisa de macho". O velho discurso homofóbico, e até machista. Poderíamos dizer que a matéria só ganhou o destaque que ganhou (capa do site UOL naquele dia) porque os editores (ou quem quer que mande lá) sabem que é uma matéria "curiosa", que deve chamar a atenção; isso porque sabem que o discurso homofóbico, inclusive feito de piadas homofóbicas (se neste blog falamos de humor), é muito presente. A própria matéria diz: "Esta história de 'bomba gay' virou prato cheio para piadas e comentários jocosos dos blogueiros".

Algumas piadas vão na direção oposta à pejoração, como a matéria também nos mostra: "'Se tínhamos uma bomba gay, por que não as usamos nas montanhas do Afeganistão?', questiona o republicoft.com, que se identifica como um negro e homossexual que vive em Washington". por não termos o contexto, não sabemos se isso foi colocado em termos de piada (imagino que sim); mesmo se foi, não é por ser piada que vai perder a força ou a validade da crítica (às vezes, a piada dá mais força a uma crítica, sabemos). Esta piada é complexa e vai no sentido que apontamos no começo (a bomba estimulando a homossexualidade e não a libido em geral), pois pode querer: 1) defender o direito de ser homossexual; 2) sugerir que a homossexualidade é algo culturalmente reprimido e que a bomba poderia ajudar a romper as barreiras; 3) criticar o governo Bush ou os governos imperialistas por muitas mortes no Afeganistão; 4) pressupor (evocando uma memória discursiva) que no meio militar (talvez sobretudo o estadunidense) tudo o que de pior que se diz que não existe, existe.

A reportagem em questão tem o mérito de trazer várias posições.

Odeio rodeio (Chico César)



Chico César em Presidente Prudente. 20/05/2007

Odeio rodeio
E sinto um certo nojo
Quando um sertanejo
Começa a tocar
Eu sei que é preconceito
Mas ninguém é perfeito
Me deixem desabafar

A calça apertada
A loura suada
Aquele poeirão
A dupla cantando
E um louco gritando
“Segura peão”

Me tira a calma
Me fere a alma
Me corta o coração
Se é luxo ou é lixo
Quem sabe é bicho
Que sofre o esporão

É bom pro mercado
De disco e de gato
Laranja e trator
Mas quem corta a cana
Não pega na grana
Não vê nem a cor

Respeito Barretos
Franca, Rio Preto
E todo o interior
Mas não sou texano
A ninguém engano
Não me engane, amor

(Chico César, CD Compacto e Simples, 2005)

A música é interessante, a crítica é mordaz. Ótima também para aulas de português, geografia, história, sociologia etc. Quero mais destacar os três primeiros versos da terceira estrofe, e deixar o resto por conta do leitor. Não sei exatamente qual, mas uma canção sertaneja já disse isso antes (se alguém souber, me informe). Mas, saber qual não é o mais importante. Há uma relação de intertextualidade, seja o texto "original" localizável ou sejam os textos dispersos. Eu imagino um sertanejo, com seu "ethos" melodramático, enunciando aquelas frases; é verossímil porque está dentro da tópica (dos temas recorrentes), das frases possíveis e dos jeitos possíveis do discurso néo-sertanejo.

A questão é que, além de intertextualidade (retomar um outro texto), há também interdiscursividade (retomar para se opor). Segundo FIORIN (apud POSSENTI, "Observações sobre interdiscurso", mimeo), toda interdiscursividade é intertextual, mas nem toda intertextualidade é interdiscursiva. Ou seja: intertextualidade é quando um texto retoma um outro texto ou uma dispersão de textos, não importa como; interdiscursividade é retomar o dito, intertextualmente, para deslocá-lo de sua posição, provocando um diálogo entre discursos diferentes (alguns chamam isso de paródia, enquanto que a paráfrase estaria no mesmo espectro discursivo).

Nesta canção, o discurso amoroso do "sertanejo" é deslocado para o discurso politizado de Chico César: é o rodeio, e não a paixão não correspondida, o que tira a calma, fere a alma, corta o coração. Uma sátira parece ser amplificada quando se desloca o sentido do texto do satirizado para devolver o sentido modificado contra ele, o que resulta em um esgarçamento discursivo. Perceba que a letra oficial traz "a dupla cantando", enquanto que Chico César, nesta apresentação "ao vivo", diz "a Sandy cantando"; parece óbvio que "dupla" (sertaneja, claro), na gravação oficial, tem também a finalidade de evitar processos judiciais contra Chico César (o autor é o que responde pela obra, inclusive judicialmente); no show, vai "Sandy" mesmo, para que a crítica ganhe com a especificidade de atacar um "grande" sertanejo, sem perder o caráter geral (exatamente por ser "grande", "Sandy" significa, metonimicamente, o conjunto dos sertanejos que cantam e lucram com os rodeios).

Argumentos de duas formações discursivas não-contíguas (em outras ocasiões podendo ser antagônicas) são os principais, aqui convocados para o eu-lírico justificar sua contrariedade aos rodeios: o discurso anti-capitalista (4ª estrofe) e o discurso preservacionista/ ambientalista (3ª estrofe).

Para terminar, interessante perceber neste clipe a capacidade de "performance" desta canção. Uma canção simples, do tipo "cantar para fora". Os acordes (não-dissonantes), a batida do violão e a "pobreza" do arranjo representam certo despojamento da canção e aproximam esta do gênero musical "sertaneja" (também chamado por alguns de "sertanojo"; e dentre esses alguns, há alguns que o fazem para diferenciar o "sertanojo" do "sertanejo raiz" ou da "nova música de viola"). Talvez o eu-lírico (e ainda mais o autor, podemos dizer) esteja implicitando que não é o gênero musical o objeto do ódio, mas a posição majoritária dos que se vinculam a este gênero.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O implícito no estudo das charges















Angeli. FSP, 21/05/2007.

Depois de um tempo, esse negócio de analisar parece um pouco repetitivo. Analisar esta charge seria falar de novo várias coisas que eu já disse na análise de charges anteriores. Leitor, leia-as, e nos poupe!

Vou começar, então, por um viés novo. Ducrot, em "Princípios de Semântica Geral - Dizer e não dizer", faz um estudo sobre o implícito. Implícito seria aquilo que pode ser deduzido ou do enunciado (do dito) ou da enunciação (do dito nas condições em que é dito). Esta charge faz parte de uma série de charges de Angeli que possuem a mesma estrutura superficial: uma frase no topo, que nos sugere ser uma manchete de notícia, e um desenho (às vezes desenho + fala) ressignificando aquela frase. Essa ressignificação deve ser algo de certa forma inesperado pelo leitor, o que ajuda o humor. A conclusão deve nos aparecer como um "sempre lá" do anterior, no caso, da frase inicial: o sentido inesperado poderia ser implicitado daquela frase.

Pois bem, o implícito seria então o que de não-explícito podemos ou reconstituir ou recriar de um enunciado / de uma enunciação. O sentido implícito não pode ser entendido nem como uma corrupção da boa comunicação lingüística (sic), nem como algo dado empiricamente em todo e qualquer enunciado (se nem o explícito o pode). A depender do caso, a origem do implícito pode ser buscada no locutor, no interlocutor, em ambos, no lapso, na situação, nas condições históricas de produção, na memória, no interdiscurso, no intertexto etc. Para usar de um exemplo do próprio Ducrot, podemos elogiar Paulo não para enaltecer Paulo, mas para dar um modelo a Pedro (não sei se é esta ordem que Ducrot usa, mas ela me agrada).

Nesta charge, a "manchete" deve ser lida em um sentido sério (esperado de manchetes de textos sérios). "Ações contra corrupção aumentam índices de violência" pode querer significar, neste uso sério, que uma corrupção desvendada representam um incremento nos dados estatísticos sobre criminalidade (embora possa-se dizer que "criminalidade" não esteja contido em "violência"). Se recusarem minha leitura, podemos dizer que nenhum sentido muito preciso é dado na "manchete", e, com isso, ela não traria um sentido explícito inicial; só é possível lê-la ao final da leitura da charge. Continuo defendendo minha leitura inicial, para que o arremate humorístico da charge tenha um ponto a partir do qual possa deslocar-se.

O texto ao rodapé da charge é atribuído (apesar de não haver "balões") ao "nós" daqueles personagens. Outro implícito ou, neste caso, pressuposto da ordem das imagens (sim, podemos tentar aplicar isso não só à linguagem verbal) seria que aqueles corruptos ainda não foram descobertos (não fazem parte dos índices), pois haver piscina é uma cena validada para "liberdade", e liberdade com dinheiro (uma versão pocket de um cenário paradisíaco).

Ainda que a frase do topo não seja uma manchete, tem uma constituição parecida com uma manchete: caráter sintético, geral, apresentativo; estar ao topo etc. Em geral, o gênero (ou sub-gênero, ou componente de gênero) "manchete de notícia de jornal" traz algo que depois será explicado, justificado. Um novo sentido (uma nova significativa para o aumento da criminalidade) é atribuído àquela manchete, e esse implícito estava "sempre lá" (daí sua reconstituibilidade) como possibilidade, para a qual não nos atentamos. Retroagimos nossa leitura, ressignificando a manhete; porém, o sentido inicial não é perdido; ainda permanece, chocando-se polifonicamente com o sentido novo (engraçado). Não houvesse esse choque, não acharíamos graça nenhuma.

Isso se torna possível pelo caráter lacunar daquela (ou do gênero) manchete; e, poderíamos dizer, da língua de uma forma geral.

Reconhecemos como uma boa leitura de charge (também de piadas) aquela que recupera um implícito engraçado imaginado pelo autor / pela fonte. Mas, em outros casos (e eventualmente em alguma charge), o interlocutor (a chegada) pode fazer graça com algo que o locutor / autor não se apercebeu ao dizer.

O implícito interessa à leitura do humor porque este muitas vezes consiste na descoberta a posteriori de um não-óbvio, em uma frase exemplarmente permissiva aos sentidos, à polifonia. O antes e o depois muitas vezes são o choque entre posições locucionais (dois sujeitos diferentes que falam, como é o caso) e enunciativas (duas posições diferentes que falam, como é o caso). Se este não-óbvio for um não-óbvio difícil a uma primeira leitura, mas facilmente reconstituível em uma segunda, tanto melhor para o humor.

O samba da mais-valia (Sérgio Silva)



Sérgio Silva. O samba da mais-valia. Gravação e vídeo feito por alunos da Unicamp.

O professor de sociologia da Unicamp, Sérgio Silva, arrisca a composição deste samba, sobre a teoria de Marx (na primeira parte) e sobre a relação desta com questões brasileiras (na segunda). É necessário um pouco do que Maingueneau chama de "conhecimento enciclopédico" para compreender a canção, por serem inúmeras as menções. Para dar um só exemplo, citemos a intertextualidade da primeira estrofe com o dito marxiano: "O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso".

É também necessário um pouco de "conhecimento genérico" para compreender que o tema é um tanto incomum para o gênero "samba". Esse deslocamento causa certa graça e nos faz perguntar: "por que não um samba sobre a mais-valia?" Este samba se inscreve no que, na academia, é chamado "trabalho de divulgação", que seria preocupar-se em tornar o conhecimento acadêmico acessível a não-especialistas (e para isso não é preciso despretigiar os estudos mais aprofundados). Embora de forma não tão erudita, é recorrente ao gênero "samba" fazer-se de peças que trazem críticas sociais (por um viés popular, o mesmo tema é de certa forma tratado em "Samba do operário", de Cartola e outros). Isso seria um discurso fundador do samba, obviamente que negado pelas apropriações de cultura de massas.

O samba do operário (Cartola et alii)

Se o operário soubesse
Reconhecer o valor que têm seu dia
Por certo que valeria
Duas vezes mais o seu salário

Mas como não quer reconhecer
É ele escravo sem ser
De qualquer usurário(2x)

Abafa-se a voz do oprimido
Com a dor e o gemido
Não se pode desabafar

Trabalho feito por minha mão
Só encontrei exploração
Em todo lugar


Este samba não é do Chico Buarque; integra a canção "Linguagem do morro", gravada pelo Chico mas também não composta por ele. Citei "O samba do operário" na postagem que falava de "O samba da mais-valia" (leia, veja e ouça).

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Charge animada: Na língua deles

Charges.com.br. "Na língua deles". 05/06/2007. http://charges.uol.com.br/2007/06/05/cotidiano-na-lingua-deles/

Clique hic et nunc para assistir a uma charge animada cuja cenografia é de uma matéria do Jornal Nacional. Uma daquelas típicas matérias de escuta (telefônica, no caso) entre interlocutores colarinhos-brancos tramando suas maracutaias. O engraçado é que o jeito de falar "é" do malandro classe-baixa, e as expressões para cifrar a conversa (algo que vemos sempre nesse tipo de gravação, algo que os interlocutores fazem para evitar ou pelo menos amenizar um possível flagrante, já antecipado por eles) são expressões em latim. O humor da charge se dá no encontro entre 1) o uso esperado: advogado e juiz falarem expressões em latim (e não falarem gírias "baixas"), e 2) a distorção desse uso: falarem expressões em latim a torto e a direito como forma de codificar o trambique, de trambicarem com "requintes de crueldade" (assim, pressupõe-se atributo de maior gravidade àquele crime, assim considerado).

As gírias (e aquelas gírias em específico), relacionadas em geral a pessoas de classe-baixa ou a pessoas de pouca escolarização, trazem um pressuposto traiçoeiro: trambicar é algo típico desse tipo de pessoa, tanto que falar gírias serve sub-repticiamente como atestado de que os advogados trambicam. Então, o título da charge não nos diz tudo: tudo bem que o latim pode ser uma "língua deles" (no sentido de "não nossa", mesmo que não se queira dizer que os advogados dominam tudo de latim), mas aquelas gírias não são da língua deles, mas sim de outros. O pressuposto é que falar gíria, e aquele tipo de gíria, é coisa de bandido, e, talvez, de bandido vulgar. E usar muitas expressões latinas pode implicitar a ilegalidade do que está sendo dito. São superiores vulgares.

E aqueles interlocutores falam muitas gírias e expressões latinas: a graça está também na hipérbole (no exagero significativo) e no contraste entre a gíria (com a prosódia tida como característica a seu favor; e esta gíria-prosódia seria esteriotipada como de pessoas de classe-baixa / pouca escolarização), e os termos latinos (que sugerem uma alta escolarização). A gíria e mesmo o uso exacerbado de expressões latinas colocam os interlocutores fora de seu dizer cotidiano, reforçando que, ao trambicarem, os doutores estão fora do lugar profissional e do ethos esperado de profissionais da área jurídica.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Mil Perdões (Chico Buarque)



Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais

Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair


Existem palavras que, ao serem ditas, fazem. Na verdade, todas as palavras têm um pouco disso, mas destaco aquelas que, ao serem ditas, necessariamente fazem o que estão dizendo que fazem (e fazem, além disso, outras coisas). Por exemplo, dizer "eu te advirto" ou "eu prometo" é fazer o que se está dizendo. Em alguns casos, para haver validade, o dizer depende de quem diz a quem, em que circunstâncias, etc: "está aberta a seção" faz algo se quem diz tem autoridade para abrir a seção, e este alguém está numa quase-seção ao dizer. Comecei falando disso porque dizer "te perdôo" é também fazer algo (mais detalhes, ver os "Atos de fala", de Austin).

A idéia é a seguinte: quando enuncio algumas daquelas expressões, e não há impedimentos circunstanciais, estou fazendo o que enuncio, independetemente de minha vontade, uma vez que o ato estaria inscrito na própria língua. Poderíamos nos perguntar se o locutor (aquele personagem imaginário que diz "te perdôo" na canção) está de fato perdoando, pois se trata de uma ficção, e a canção busca outras coisas que não o perdão ou que não o dizer que alguém perdoa outrém. Porém, para a cenografia (no sentido de Maingueneau, a cena específica que engrena o texto; ou, em termos mais simples, a "ceninha" criada pela obra) é de alguém que perdoa ao dizer "te perdôo". A partir dessa cenografia, a canção pode suscitar outras coisas.

Ainda: dizer "te perdôo" pode não fazer o perdão; se dissermos a um corinthiano: "te perdôo por você torcer pelo Corinthians", provavelmente não o estamos querendo perdoar. Mas os partidários dos atos de fala poderão dizer que, neste caso, o perdão está contido na expressão e, embora em um uso incomum, só é passível de ser entendido humoristicamente e/ou só pode ser tido como provocação se os interlocutores souberem do uso sério, primeiro, de "te perdôo".

A cenografia da canção é de um locutor dirigindo a palavra para oferecer perdão a uma interlocutor (que, provavelmente, não pediu perdão), provavelmente de sexos opostos. Mas, um homem dizendo para uma mulher, ou uma mulher dizendo para um homem? No meu entender, a canção deixa margens para ambas as possibilidades. Até, não é descabida a idéia de que a canção encena um diálogo e que cada estrofe é a fala de um locutor (e teríamos dois locutores e, talvez, dois enunciadores, como explicarei), talvez nesta ordem (por indicações de esteríótipos): mulher, homem, mulher, homem. Pode-se pensar também que não interessa para o autor quem está dizendo a quem (por isso não se refira a quem fala e não marque o gênero, como explicarei).

Procurei na internet para conhecer opiniôes e achei só uma ocorrência: o espetáculo "Palavras de mulher" (2005) incluiu "Mil perdões" entre as canções de eu-lírico feminino.

A canção não traz marcação de gênero em nenhuma palavra; no momento em que podia fazer isso, parece que Chico preferiu não fazer, a fim de manter o impasse: a palavra "exuberante" é comum de dois gêneros; se fosse, por exemplo, "magnífica" / "magnífico", saberíamos. Esse seria o argumento para defender que, para o autor, não interessa quem está perdoando a quem.

Tentemos, mesmo assim, prosseguir. Se as marcas morfológicas não dão conta de nos indicar, talvez as marcas discursivas nos ajudem. Mas, ainda assim, pode permanecer o impasse:

1) Argumentos para defender que é um locutor-homem falando para uma interlocutora-mulher: alguns esteriótipos femininos em relacionamentos afetivos são lançados, e o locutor-homem estaria pedoando-os (as mulheres vigiam, sentem ciúmes demais, são sensíveis, choram). Contra-argumentos: tudo bem que as mulheres façam perguntas demais, mas (já que estamos este ponto se funda nos esteriótipos) não perguntas relacionadas às vidas que andam juntas (1ª estrofe), ou seja, elas sabem (ou devem saber) da data do primeiro encontro, dos gostos, etc. Outro ponto é o "rodar exuberante", na 3ª estrofe, que é um ato atribuído normalmente à mulher e marcado pejorativamente quando atribuído a um homem (a menos que "rodar" não seja "girar em torno do próprio corpo" e sim "dar uma volta pela cidade"). (por favor, estou apresentando os esteriótipos, não dizendo se concordo ou não com eles)

2) Os contra-argumentos do ponto anterior podem ser argumentos para a defesa da existência de um diálogo (dois locutores), em que as estrofes ímpares seriam atribuídas a uma voz feminina e as pares, a uma masculina. Contra-argumentos: se a idéia de alternância não está expressa pela música, não deve estar latente, pois seria de uma leitura muito complicada. Os perdões devem estar sendo dados por um locutor a um interlocutor. E, se assim fosse, nesta gravação Chico e Daniela Mercury poderiam reproduzir exatamente essa alternância.

3) Os contra-argumentos de 1) e de 2) são argumentos para a defesa de que o eu-lírico é feminino. Mas, e quanto aos esteriótipos? Ora, nesse caso teríamos menos esteriótipos que em 1) e a chave seria entendermos essa mulher que fala como mais idiossincrática, sendo que, naquela relação fictícia, ao homem caberia o papel esteriotipado como "feminino" (com exceção, talvez do "bateres em mim", mas isso pode ser entendido também como uma atitude "feminina"). A voz feminina, neste caso, destoaria dos esteriótipos da submissão e do "sexo frágil".

Eu poderia dizer que defendo mais um ponto do que o outro. Mas, isso pouco importaria. Como diria Umberto Eco, pode não existir uma leitura só para um texto, mas não é qualquer leitura possível ou cabível. É preciso separar o adequado do inadequado. Talvez a 2) seja a mais inadequada. Como não quero optar, opto pela leitura 0), isto é, vou concluir à análise me preocupando com um outro ponto, chamando "locutor" aquele que "perdoa" e "interlocutor", aquele que é "perdoado". Quem quiser defender um lado, o outro, os dois, nenhum ou muito pelo contrário, pode postar em Comentário (ali abaixo) o seu voto, para assim termos um placar da disputa.

O final de "Mil perdões" (minha parte preferida) é misterioso e, dependendo da leitura, violento. A leitura mais banal de "Te perdôo por te trair" pode querer dizer que o locutor imputa ao interlocutor a "culpa" da traição. A traição pode ser a resposta daquele locutor contra tudo o que foi inventariado ("perdoado") na canção: "já que você fez tudo isso, minha forma de te perdoar ou de esquecer tudo é te traindo, e disso também peço perdão". Um perdão ao mesmo tempo condenatório, perdão-sem-perdão, estando a ironia no domínio do locutor, ou seja, no nível da cenografia, não extravasando para o autor. Os "mil perdões" (isso é mais que os "70 vezes 7" da Bíblia) seriam argumentos no sentido de justificar a traição.

Ou, poderíamos ter uma outra explicação (quantas!), mais complexa embora ainda na mesma direção do que expusemos: o locutor é de uma posição favorável a uma relação poligâmica, diferentemente do interlocutor; diria o locutor, assim: "amo / amei outras pessoas além de você; não acredito que amar outras pessoas seja uma traição, mas te perdôo por você achar que sim".

Mas, já que estamos complexificando, prefiro uma outra leitura, muito mais engraçada e menos óbvia para os leitures "ligeiros" (talvez não para o Chico), daquele trecho. Como se o locutor dissesse: "eu não te traio, mas já que você fica dizendo que eu te traio, eu te perdôo por você achar que eu te traio". Haveria duas vozes enunciativas nesse trecho: "te perdôo" seria do locutor e "te trair" seria a opinião que o interlocutor reserva (essas duas vozes também aparecem na interpretação do parágrafo anterior). O "te trair" é mantido na sua crueza - e não como a minha paráfrase -, para dar voz ao (ponto de vista do) interlocutor e para tornar mais encarniçada (mais poética, por que não?) a peleja, o choque de posições.