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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Trabalho com charges

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O gênero em destaque é "charge", mais especificamente "charge

política". O prof. pode trabalhar com o aluno o reconhecimento de

características de conteúdo e de forma (frases curtas, possibilidade

de haver fala dos personagens, o "destronamento" - no sentido que

Bahktin aponta em seus estudos sobre o humor na revolução francesa -

de personalidades políticas, a referência a fatos recentes, o lado

meio "datado" das charges, o seu caráter sintético, a exigência de

conhecimento prévio sobre os personagens e seus papeis sociais, os

traços caricaturais dos desenhos etc.



É possível o prof. buscar a intertextualidade entre a charge e textos

(principalmente de outros gêneros jornalísticos, como notíciais,

editoriais, colunas, artigos etc.) recentes, que possam ser

ferramentas para o aluno entender melhor a charge e perceber, em

funcionamento, o que é intertextualidade. È também importante discutir

se a charge é ou não um texto (defenderíamos que sim, com base na

definição de "texto" de Ingedore Koch).



Na verdade, o professor trabalharia muito mais com perguntas do que

com afirmações. Ao final, sim, poderia tentar uma síntese teórica e

interpretativa. As perguntas mais importantes para trabalhar a charge

são, ao meu ver: Em que lugar vocês acham que esta charge foi

veiculada / publicada? O travessão representa o quê? (R: a fala do

personagem). Os textos que lemos de outros gêneros jornalísticos nos

ajudam a entender melhor a charge? O desenho da charge é fidedigno?

Quem são esses personagens? Que função ocupam? Haverá punição dos

"retratados" contra quem desenhou? (pode-se discutir aqui o

cerceamento de ideias e o destronamento no sentido bahktiniano) O que

significa a palavras "cinzas"? A data da publicação da charge tem a

ver com isso? (provavelmente a charge foi próxima à quarta-feira de

cinzas) O gesto dos personagens representam o quê? (estão cabisbaixos,

pensativos) Há humor? Como funciona o humor? (a surpresa, o

destronamento, a caricatura, o deslocamento de sentido das palavras

"cinzas") As vestimentas dos personagens também se referem a algo?

(provavelmente fantasiados para o carnaval) Isso é um texto, é um

gênero? Vocês já viram esse tipo de texto em outros lugares? O que há

em comum entre esta charge e outras que vocês conhecem? (o prof. pode

trazer outras charges; a ideia com esta pergunta é trabalhar o fato de

os gêneros serem tipos cristalizados / repetitivos de texto, que têm

uma finalidade sociail, uma estrutura e um conteúdo próprios). Há

hipérbole? (exagero, outra característica da charge: hipérbole nos

traços, nas ideias etc.) O que há de real e o que há de ficção na

charge? É um gênero que pende mais para o ficcional ou para o real?

Todo texto de jornal é imparcial e retrata um fato da realidade? (a

charge é gênero jornalístico e não "reflete" a realidade; o prof.

pode, num segundo momento, questionar exatamente se algum texto pode

realmente ser imparcial, pois todos os sujeitos estão imersos no

discurso).



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A frase "eles só pensam naquilo" foi tirada do contexto sexual

(lembrado pela figura da "mulata" sambando) e traziada para o contexto

político (da disputa pela faixa presidencial). O personagem é

Garotinho, político carioca. Provavelmente, a charge fora publicada em

um período próximo ao carnaval, pois é comum às charges fazer

referência a fatos e datas específicas. Isto porque a charge é

sintética, ela não pode discorrer muito, contextualizar. Então, ela

pega fatos já contextualizados para fazer humor com eles. Isso exige

um conhecimento prévio do leitor, e também que este leitor estabeleça

relações intertextuais (entre a charge e outros gêneros, especialmente

jornalísticos) e interdiscursivas (entre o discurso destronado e o

discurso oficial realmente dito ou atribuível aos personagens

"reais").



A charge trabalha o implícito, o não-dito expressamente, mas que pode

ser reconstituído, a partir do conhecimento do leitor e do suporte

intertextual que ele tenha. A charge traz explicitamente o que existe

em outros textos, embora nem sempre de forma tão visível: a

necessidade de o leitor completar os sentidos do texto, isto é, o

leitor não é um ser passivo. Por haver tantos implícitos, o leitor é

sempre convocado a compreendê-los e desvendá-los, sob pena de o humor

não funcionar.



O prof. pode trabalhar com os deslocamentos de sentido das palavras

como ferramenta para produzir o humor, pode trabalhar com a junção

palavra-imagem no gênero charge, com provérbios populares (propor aos

alunos atividades em que os provérbios sejam tirados de seu contexto,

com o objetivo de gerar humor), trabalhar com outros gêneros de humor

(especialmente outros que também sejam sintéticos e contenham muitos

implícitos, como é o caso da piada ou dos "adivinhas").

quarta-feira, 20 de junho de 2007

As agudezas do humor

Kibeloco. Junho/2007.

Não vou falar das agulhadas do humor, o que também é uma agudeza e, em geral, forjada ao pé da agudeza que vou tratar neste texto (esta charge contém também esta agudeza).

Baltazar Gracián, teórico contemporâneo do Barroco, chamou de "agudeza" a astúcia retórica e artística de dar um salto além em um texto ou uma obra que já tenha ido bastante longe. Assim, um soneto barroco poderia sempre em seu desfecho buscar uma idéia inesperada, uma combinação inusitada, que apresentasse uma inflexão do sentido que vinha sendo construído. Bons retóricos e bons artistas eram os "agudos". Não é a mesma coisa que a idéia romântica de "talento". Em geral, o bom artista para o Barroco seria aquele que traduzisse, para o mundo extenso, por isso indireta e mediadamente, através do engenho artístico, uma parcela do desvendável da Criação divina. Essa seria a verdade possível; e a metáfora seria a melhor das armas.

Pois, essa charge nos traz um pouco das agudezas do humor. Muitas vezes, o humor usa de uma inflexão ou de um aprofundamento para se fazer mais humor. Detalhes dentro de piadas, partes non-senses dentro do "bom" senso.

Nesta charge (uma foto-montagem, pois vê-se Maradona muito "alterado": veja nariz e olhos), o humor básico seria aquele que joga com o Maradona viciado em cocaína. Agora, jogar com isso e ao mesmo tempo, combinando, debochar do outro personagem (debochar de suas "caspas") é a agudeza do humor aqui. Não devem ser caspas de fato; ou é uma característica da própria blusa daquele coadjuvante (desconhecido para nós, desimportante; imaginamos que seja alguém da TV argentina), ou é também um efeito acrescido na montagem da foto.

A blusa preta permite não só inclui-las, mas ter a idéia de fazer humor com a inclusão daquelas caspas. Um sobre-humor, na verdade. Um humor agudo, mas sem o qual não acharíamos graça do intuito do personagem Maradona. Não se tratam de duas piadas; trata-se de uma só, elaborada, pela agudeza do chargista, a partir da combinação de dois elementos: a obsessão de Maradona e as caspas sobre a blusa preta. Ou melhor, a obsessão sóbria ou alterada de Maradona o faz ver cocaína onde só haveriam caspas, e muitas caspas. A agudeza é que, tão "estranha" quanto a obsessão de Maradona é alguém ter aquela quantidade de caspas sobre a blusa.

Lembro-me de uma cena de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni: duas pessoas estão jogando uma partida imaginária de tênis até que a bola, imaginária, cai para fora da quadra; um homem, que observava com reservas aquela cena, então, aceita o pedido dos desconhecidos jogadores e "pega" a bolinha, devolvendo-lhes: se o mundo está louco, participemos dele. No caso de nossa charge, se o homem tem tudo aquilo de caspas e acha normal tê-las assim, a hipótese de Maradona não é tão mais louca (embora seja mais imoral).

Talvez a idéia do chargista na peça aqui tratada tenha se dado a partir de uma foto vista por ele casualmente em um site ou jornal; ou talvez sequer o encontro Maradona-coadjuvante tenha existido e o chargista, pensando na aparência entre cocaína e caspas, tenha imaginado (e executado) a partir daí toda a cena, de Maradona encontrando-se com um personagem de terno preto. A segunda hipótese parece improvável, ou seja, que o encontro em si seja uma foto-montagem. O título no topo da charge parece apontar para algo bastante específico e desnecessário - pressupomos - (a saber, "TV argentina") para não ter de fato ocorrido. A menos que o mundo esteja louco mesmo...

domingo, 17 de junho de 2007

Aborto clandestino, com a benção do papa













Angeli. FSP, s/d



Esta charge foi descoberta pelo blog ForSign, do meu amigo Denis. Achei-a interessante e vou postá-la aqui. Não quero fazer um comentário exaustivo (na verdade, nunca consigo).

O título, "Aborto clandestino", é a chave de entrada para compreendermos a cena: com essa informação, excluímos se tratar, por exemplo, de uma cirurgia de apêndice num hospital legalizado. Aliás, "clandestino" é algo que, por alguma razão, não pode se dar a conhecer; partimos do pressuposto que algo assim é "ilegal". A cena mostra sujeira e desorganização; as manchas de sangue na roupa do "médico" aproxima-o de um "açogueiro" (inclusive, costuma-se usar desta palavra para se referir a maus profissionais da área da saúde). Imaginamos que é este quem fala (também pelo aspecto gráfico: ele está de frente), e não a "enfermeira", por supormos que aquela fala deva ser ou de um proprietário (é mais comum que as clínicas sejam de médicos do que de enfermeiras) ou de quem está um nível acima na hierarquia (e teria mais direito de dizê-la).

Se há o imperativo "relaxe" (imperativo mesmo, e talvez por isso sem efeito), pressupõe-se que a paciente (agora sabemos ser uma paciente) não esteja, nem poderia estar, relaxada. "Relaxe" e "super equipada e esterlizada" são ironias; não talvez do personagem (que pode estar acreditando nisso), mas uma marca do autor: o autor nos dá a cena para que a fala do "médico" seja lida ao contrário ("fique tensa", clínica mal-equipada e imunda). O último período traz justificações a favor do enunciado anterior, "Você está em boas mãos". É claro que essa explicação deve ser engraçada; a charge pede um arremate assim.

A graça é permitida pela dupla interpretação de "benção", que entram em combate na charge: 1) no sentido religioso, de interceder pela graça de alguma divinidade ou coisa do tipo; 2) no sentido mais laico, de "aval" (é claro que o sentido laico ainda carrega a memória do sentido religioso). A charge se relaciona com a visita do papa Bento 16 (ou, papa Ratzinger) ao Brasil, em 2007. A charge argumenta na direção de outros textos que definem Ratzinger como um papa reacionário; daí, um papa contra o aborto. Mas, como poderia então o tal papa abençoar a clínica clanestina de aborto? Nós, leitores daquela charge, saímos desesperadamente em busca de outros sentidos, pois sabemos que não se poderia esperar uma heresia de um papa (ainda mais deste papa). A graça da charge está na solução deste (depois aparente) paradoxo.

É tarefa do papa abençoar, no sentido 1. Ao se pronunciar contra o aborto, em visita ao Brasil (coisa que os jornais noticiaram, e a charge em geral gosta deste tipo de intertexto, a saber, intertexto com outras notícias; o "recentemente" tem a ver com isso, é um indicativo para buscarmos a intertextualidade), o papa deu sua benção (no sentido 2; deu seu aval) para que as clínicas clandestinas continuem "operando". E, ainda, numa leitura complementar, o papa dá o aval não só para as clínicas clandestinas de aborto como também para que o próprio aborto continue clandestino, como se a charge nos dissesse: "o papa não pode impedir o aborto, que é algo corriqueiro embora clandestino, ilegal juridicamente e mal-visto pela Igreja". Essa posição, nesta leitura mais sutil (e, poderão dizer, até forçada), opõe-se à Igreja (e até ao Estado) ao relativizar seu poder.

A conclusão da charge é um implícito (eu diria que o autor concorda com essa conclusão, neste caso; mas determinar isso é algo complicado e fica para uma outra hora): aborto ruim é o aborto clandestino; aborto arriscado é o aborto clandestino; e, seja mais ou menos arriscado, seja mais ou menos clandestino, os abortos vão continuar existindo por aí, queira ou não o papa. A linha argumentativa da charge indica uma posição da charge (e talvez do autor) favorável à legalização do aborto.

Não vou aprofundar o debate sobre o aborto. Os meus leitores mais igrejeiros podem estar arrepiados, pensando que essa charge nem deve estar aqui. E é verdade também que algumas pessoas de dentro da Igreja e das igrejas não amaldiçoam o aborto, e alguns sejam até militantes da descriminalização; ou até já o praticaram. Agora, não há problema de se colocar o debate e fazê-lo (como esta charge o faz) em termos mais laicos, mais seculares.

A charge não nos indica; mas aquela clínica retratada poderia corresponder a uma clínica para pobres. Assim, "aborto clandestino" pode estar significando também "aborto perigoso": a prática do aborto seria clandestina para todas as clínicas; mas, dentre as clandestinas, existiriam aquelas duplamente clandestinas, porque não respeitariam procedimentos médicos gerais, como o da esterilização. Porque, embora também clandestinas, existem clínicas caras, que realizam aborto com higiene e baixo risco à paciente. E, dependendo do nível de pobreza da paciente, sequer há a opção de uma clínica precária (usa-se de pontapés no útero, auto-perfuração, super-ingestão de álcool, etc.).

Existem setores da esquerda brasileira favoráveis à legalização do aborto que usam isso como argumento (cito, por exemplo, o PSOL, que em seu recente 1º Congresso - junho/2007 - deliberou favoravelmente à legalização); seria preciso legalizar o aborto para que o Estado (investindo nisso) reduza as mortes, principalmente as mortes entre as mulheres trabalhadoras pobres. Os defensores desta posição poderão usar esta charge em seus materiais, em suas reuniões etc. E poderão, eventualmente, interpretar que a clínica retratada pela charge é não só clandestina (como todas no Brasil, pelo menos em tese) mas também uma clínica clandestina -clandestina, uma clínica clandestina para mulheres pobres.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Agora, finge de morto!


















Obra dos meus colegas da Camará Comunicação. Maio / 2007.


Charge não é só ilustração, desenho. Já falei antes que uma foto-montagem pode soar como charge, se buscar coisas como humor, relações de implicitação, tratar de um tema político-social, enfim, se cumprir alguns requisitos identificados como identificadores do gênero "charge". Esta imagem nasceu como cartaz; mas aqui tomo-a no que tem de charge (considero apenas imagem e "Agora, finge de morto!" e até mesmo "Decretos de Serra"; desconsidero a propagando pequena no rodapé). Até porque uma charge pode ser publicável em cartaz, isto é, não só integrar um cartaz, como ser ela mesma afixada, fazendo-se cartaz.

Não achei nenhuma charge do governador José Serra segurando a arma. A Folha de São Paulo não trouxe nenhuma charge sobre isso (vou dar uma olhada melhor); no período, tratou (como costuma tratar) mais da política nacional e por vezes internacional (mas eu diria que esse silêncio é significativo). Também, a própria foto já é caricatural; o governador deu sua caricatura já pronta (estou forçando a barra). A foto, na origem, não o é, mas nessa (e noutras) foto-montagem ela é relacionada com os decretos relativos ao ensino superior e ao movimento das universidade públicas paulistas.

Nesta, em específico, é um pressuposto que apontar uma arma é violência. Aliás, poderíamos pensar isso em termos de um silogismo:

Premissa menor: Quem aponta arma é violento
Premissa maior: José Serra aponta a arma
Conclusão: Logo, José Serra é violento

Neste caso, a premissa menor seria um pressuposto, a maior seria um posto e a conclusão, um implícito. O sentido físico de violência armada deriva-se metonimicamente para o sentido de "violência política" atribuído a Serra. Este sentido é relacionado à posição de que a política de Serra é um abuso: "finge de morto" é ordem cabível a cães, ou a torturadores (o "cap" ao fundo pode suscitar uma memória da tortura militar durante a ditadura no Brasil). "Finge de morto" pode ter um sentido implícito de natureza irônica (aos autores da charge) e interdiscursiva: "finja que nada está acontecendo; não reaja!". Os autores deixam o "outro" (Serra) falar algo que esse "outro" na verdade não falou, mas que poderia ter sido dito, ou melhor, poderia ser produzido pelo lugar enunciativo de Serra (governador, considerado "de direita"), pelo menos no nível do que Maingueneau chama de simulacro (na polêmica, o outro fala em nós, mas destacamos e reelaboramos, expressivamente, pontos que nos interessam no embate, silenciando outros).

O "agora" dá idéia ou de urgência ou de que algo já foi exigido antes ("agora, quero outra coisa"); sugere que as ações de Serra são sistemáticas, fazem parte de uma política. O sorrisinho irônico de Serra ajuda esse sentido e faz dele um caricaturável, a um passo da caricatura. Prato cheio para os adversários, como trataremos ao final do texto.

Relaciono esta imagem com aquele clássico cartaz do Tio Sam: "I want you". O Tio foi mais esperto e sua violência foi mais sutil: "só" apontou um dedo. O Tio chama ("I want you"); o Serra também deve ter querido chamar (querendo-se um não-ranzinza ao eleitorado), mas muitos dos usos feitos dessa imagem (por exemplo, a nossa charge) acaba fazendo-o repelir. Este uso (do Serra repelindo) é quase um dado, mas não é um dado; precisa de quem o elabore, de quem ressignifique algo em outra coisa. A "gafe" é uma reconstituição (é um ver com outros olhos, a partir de um outro "eu", um ver da alteridade, da polifonia) até quando o autor dessa gafe se aperceba imediatamente que a "cometeu".

Há um interdiscurso aqui, entre o que se imagina tenha sido a "intenção" do Serra e o que os autores da montagem quiseram dizer. Esse interdiscurso revela um outro: "ironizo Serra porque ele é meu adversário", poderiam dizer os autores da charge. Isso nos sugere que a interdiscursividade não acaba neste ponto, mas pode ser expandida, por contigüidade: proponho a idéia de um "contágio interdiscursivo" (quem sabe um dia isso vire conceito?).

E há ainda uma outra interdiscursividade, que forjei. Em certo sentido sempre forjamos interdiscursividades, pois os discursos e suas reentrâncias não são fatos empiricamente atestáveis e estanques, mas aqui forcei demais a barra, talvez, uma interdiscursividade em mim; eu poderia também dizer intertextualidade, ou interfiguracionalidade. Estou falando, obviamente, da foto do Serra posta em relação à figura do Tio Sam.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O implícito no estudo das charges















Angeli. FSP, 21/05/2007.

Depois de um tempo, esse negócio de analisar parece um pouco repetitivo. Analisar esta charge seria falar de novo várias coisas que eu já disse na análise de charges anteriores. Leitor, leia-as, e nos poupe!

Vou começar, então, por um viés novo. Ducrot, em "Princípios de Semântica Geral - Dizer e não dizer", faz um estudo sobre o implícito. Implícito seria aquilo que pode ser deduzido ou do enunciado (do dito) ou da enunciação (do dito nas condições em que é dito). Esta charge faz parte de uma série de charges de Angeli que possuem a mesma estrutura superficial: uma frase no topo, que nos sugere ser uma manchete de notícia, e um desenho (às vezes desenho + fala) ressignificando aquela frase. Essa ressignificação deve ser algo de certa forma inesperado pelo leitor, o que ajuda o humor. A conclusão deve nos aparecer como um "sempre lá" do anterior, no caso, da frase inicial: o sentido inesperado poderia ser implicitado daquela frase.

Pois bem, o implícito seria então o que de não-explícito podemos ou reconstituir ou recriar de um enunciado / de uma enunciação. O sentido implícito não pode ser entendido nem como uma corrupção da boa comunicação lingüística (sic), nem como algo dado empiricamente em todo e qualquer enunciado (se nem o explícito o pode). A depender do caso, a origem do implícito pode ser buscada no locutor, no interlocutor, em ambos, no lapso, na situação, nas condições históricas de produção, na memória, no interdiscurso, no intertexto etc. Para usar de um exemplo do próprio Ducrot, podemos elogiar Paulo não para enaltecer Paulo, mas para dar um modelo a Pedro (não sei se é esta ordem que Ducrot usa, mas ela me agrada).

Nesta charge, a "manchete" deve ser lida em um sentido sério (esperado de manchetes de textos sérios). "Ações contra corrupção aumentam índices de violência" pode querer significar, neste uso sério, que uma corrupção desvendada representam um incremento nos dados estatísticos sobre criminalidade (embora possa-se dizer que "criminalidade" não esteja contido em "violência"). Se recusarem minha leitura, podemos dizer que nenhum sentido muito preciso é dado na "manchete", e, com isso, ela não traria um sentido explícito inicial; só é possível lê-la ao final da leitura da charge. Continuo defendendo minha leitura inicial, para que o arremate humorístico da charge tenha um ponto a partir do qual possa deslocar-se.

O texto ao rodapé da charge é atribuído (apesar de não haver "balões") ao "nós" daqueles personagens. Outro implícito ou, neste caso, pressuposto da ordem das imagens (sim, podemos tentar aplicar isso não só à linguagem verbal) seria que aqueles corruptos ainda não foram descobertos (não fazem parte dos índices), pois haver piscina é uma cena validada para "liberdade", e liberdade com dinheiro (uma versão pocket de um cenário paradisíaco).

Ainda que a frase do topo não seja uma manchete, tem uma constituição parecida com uma manchete: caráter sintético, geral, apresentativo; estar ao topo etc. Em geral, o gênero (ou sub-gênero, ou componente de gênero) "manchete de notícia de jornal" traz algo que depois será explicado, justificado. Um novo sentido (uma nova significativa para o aumento da criminalidade) é atribuído àquela manchete, e esse implícito estava "sempre lá" (daí sua reconstituibilidade) como possibilidade, para a qual não nos atentamos. Retroagimos nossa leitura, ressignificando a manhete; porém, o sentido inicial não é perdido; ainda permanece, chocando-se polifonicamente com o sentido novo (engraçado). Não houvesse esse choque, não acharíamos graça nenhuma.

Isso se torna possível pelo caráter lacunar daquela (ou do gênero) manchete; e, poderíamos dizer, da língua de uma forma geral.

Reconhecemos como uma boa leitura de charge (também de piadas) aquela que recupera um implícito engraçado imaginado pelo autor / pela fonte. Mas, em outros casos (e eventualmente em alguma charge), o interlocutor (a chegada) pode fazer graça com algo que o locutor / autor não se apercebeu ao dizer.

O implícito interessa à leitura do humor porque este muitas vezes consiste na descoberta a posteriori de um não-óbvio, em uma frase exemplarmente permissiva aos sentidos, à polifonia. O antes e o depois muitas vezes são o choque entre posições locucionais (dois sujeitos diferentes que falam, como é o caso) e enunciativas (duas posições diferentes que falam, como é o caso). Se este não-óbvio for um não-óbvio difícil a uma primeira leitura, mas facilmente reconstituível em uma segunda, tanto melhor para o humor.

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Charge animada: Na língua deles

Charges.com.br. "Na língua deles". 05/06/2007. http://charges.uol.com.br/2007/06/05/cotidiano-na-lingua-deles/

Clique hic et nunc para assistir a uma charge animada cuja cenografia é de uma matéria do Jornal Nacional. Uma daquelas típicas matérias de escuta (telefônica, no caso) entre interlocutores colarinhos-brancos tramando suas maracutaias. O engraçado é que o jeito de falar "é" do malandro classe-baixa, e as expressões para cifrar a conversa (algo que vemos sempre nesse tipo de gravação, algo que os interlocutores fazem para evitar ou pelo menos amenizar um possível flagrante, já antecipado por eles) são expressões em latim. O humor da charge se dá no encontro entre 1) o uso esperado: advogado e juiz falarem expressões em latim (e não falarem gírias "baixas"), e 2) a distorção desse uso: falarem expressões em latim a torto e a direito como forma de codificar o trambique, de trambicarem com "requintes de crueldade" (assim, pressupõe-se atributo de maior gravidade àquele crime, assim considerado).

As gírias (e aquelas gírias em específico), relacionadas em geral a pessoas de classe-baixa ou a pessoas de pouca escolarização, trazem um pressuposto traiçoeiro: trambicar é algo típico desse tipo de pessoa, tanto que falar gírias serve sub-repticiamente como atestado de que os advogados trambicam. Então, o título da charge não nos diz tudo: tudo bem que o latim pode ser uma "língua deles" (no sentido de "não nossa", mesmo que não se queira dizer que os advogados dominam tudo de latim), mas aquelas gírias não são da língua deles, mas sim de outros. O pressuposto é que falar gíria, e aquele tipo de gíria, é coisa de bandido, e, talvez, de bandido vulgar. E usar muitas expressões latinas pode implicitar a ilegalidade do que está sendo dito. São superiores vulgares.

E aqueles interlocutores falam muitas gírias e expressões latinas: a graça está também na hipérbole (no exagero significativo) e no contraste entre a gíria (com a prosódia tida como característica a seu favor; e esta gíria-prosódia seria esteriotipada como de pessoas de classe-baixa / pouca escolarização), e os termos latinos (que sugerem uma alta escolarização). A gíria e mesmo o uso exacerbado de expressões latinas colocam os interlocutores fora de seu dizer cotidiano, reforçando que, ao trambicarem, os doutores estão fora do lugar profissional e do ethos esperado de profissionais da área jurídica.

sexta-feira, 9 de março de 2007

Hipérbole sobre a redução, da maioridade penal












Glauco. FSP, 13/02/2007.




De início, vejamos certas condições de produção desta charge. Um dos principais temas em evidência no período próximo à data de publicação da charge é o da redução da maioridade penal. Esse tema volta e meia se instala em nossas vidas, em geral vindo à tona logo após um "crime grave" "tomar" a grande mídia. E, nesta, o tema fica por várias semanas, principalmente em veículos e programas mais sensacionalistas. É claro que o tema não aparece de forma neutra; em geral, a grande mídia toma o partido da redução, não só por sua ojeriza, ainda que inconsciente, contra a classe e as camadas subalternas, como também por seu "amor" à audiência desses segmentos, cujo senso comum se mostra favorável à redução. Aproveitando o ensejo midiático e popularesco, medidas legislativas são tomadas pelos parlamentares considerados oportunistas e de direita, com a promessa de que certo projeto de redução será votado logo. Um discurso de viés socialista diria que a grande mídia, ao pautar a redução da maioridade penal como "panacéia dos males da criminalidade", exerce um papel ideológico de silenciar as mudanças estruturais possíveis de serem pensadas com a finalidade de diminuir de fato os chamados índices de violência. Outros posicionamentos, de caráter religioso e por vezes até humanístico-liberal, também são silenciados; muito embora estes se inscrevam nos limites da ordem, têm nuanças (e disso podem pautar reformas necessárias, não revoluções) que os diferenciam do senso comum e da grande mídia no que respeita o tema, relacionadas a noções como as de "amar o próximo", "vide a mim as criancinhas", "bom selvagem" rousseano e "igualdade de oportunidades".

Na charge em questão, diz um dos policiais: "Somando a gang toda passa dos 18 anos!". Se podemos contar quatro cabecinhas, chegamos à uma idade média de 4 anos e meio. Sabemos que são policiais por conta do traje e por estarem fazendo uso de força repressiva. Mas como sabermos para onde os policiais estão levando os garotos? Nosso conhecimento enciclopédico poderia dizer que crianças também podem ser capturadas por policiais, e depois serem encaminhadas a "instituições reeducativas", como a Febem. Essa é uma interpretação possível, mas não é a mais "engraçada" (ainda que o humor seja "negro"), e, por ser a charge engraçada, essa interpretação possível se faz desaconselhável. Tão desaconselhável que nosso conhecimento enciclopédico até falha, isto é, não nos diz da possibilidade de esses garotos estarem sendo encaminhados às "instituições reeducativas". "Esquecemos" aquele conhecimento enciclopédico exatamente por não considerarmos que esses "18 anos" sejam uma informação arbitrária. É por não isolarmos os "18 anos" dos discursos em jogo quanto a esse tema, em dadas condições de produção, ou seja, é por uma noção ainda que vaga desse embate discursivo, que esse número não nos é entendido como arbitrário.

Sendo a hipérbole uma característica do humor em geral e da charge em específico, uma redução ainda mais drástica da maioridade penal é fantasiada. Lemos a expressão "18 anos" como a fronteira entre dois discursos: um que quer que a idade penal mínima permaneça nesse valor, e outro que a quer abaixo. O que antes era a idade mínima para se prender uma pessoa, tornar-se-ia a a idade mínima para prender quatro, ou até mais. É como se, no fundo, fosse a mesma coisa, ou seja, como se um dos discursos em jogo dissesse: "vocês [os adversários] querem que a idade mínima fique acima dos 18 anos... pois bem!". Algumas nuanças de leitura estão dentro deste quadro: podemos entender que os policiais reinterpretam a lei, já que ela é dura de ser mudada, para realizarem seus desmandos (eu relacionaria materialmente essa noção com outros textos que denunciam o abuso da força policial), ou poderíamos entender que quem reinterpreta a lei dessa forma são a posição e os segmentos ou agentes pró-redução, considerados autoritários e personificados naqueles policiais.

Talvez seria possível pressupor um posicionamento do autor: defender a manutenção da idade penal. Estou prometendo há algum tempo falar sobre o "ethos chargista", algo talvez parecido com o "ethos poético": ao poeta é em geral (alguns poetas podem escapar disso) atribuída, aind que tacitamente, a missão de tocar as "grandes questões do espécie humana", com sensibilidade e altruísmo. Ao chargista também há um imperativo parecido, de, ao mesmo tempo, não perder a piada e não perder o amigo. É claro que isso pode ser uma tolice; apenas uma possibilidade, ou preponderância, não uma generalização. Muitas vezes não é o ethos o que pesa, mas a posição discursiva do autor, possível de ser identificada numa série mais ou menos extensa de charges.

Outro índice para dizermos que há um posicionamento do autor é a forma como os policiais são retratados: gigantes, fortes (ou até obesos), bem armados. Os olhos fechados e o rosto ao mesmo tempo idiota e de certa forma feliz sugerem estarmos diante de verdadeiros brucutus. O vigor físico dos policiais contrasta com a fragilidade dos garotos (chargista e nós torcemos para o mais fraco) e nos sugere que não é para uma "instuição reeducativa" que estes estão sendo levados: estão sendo tratados "como gente grande". Arrisco atribuir um comentário latente da charge em relação ao que está expresso (essa possível posição é expressa como um método do interpretar, que aqui emprego): "defendem a posição que defendem porque não vêem e não pensam, são apenas braços armados que realizam os ditames da ordem e do senso comum". Os policiais dizem, não é somente um, apesar da indicação do balãozinho.

Diríamos que o mesmo enunciado expresso pelos policiais poderia transmitir um ethos piedoso, mas para isso seria preciso uma outra configuração física dos personagens, e talvez substituir a palavra "gang", que estigmatiza. Mesmo assim, a posição do autor poderia continuar sendo a de contrariedade à redução da maioridade penal, embora o comentário latente proposto tivesse que ser alterado para algo do tipo: "é porque são sensíveis e espertos que percebem a arbitrariedade de prenderem esses jovens, e por isso realizam a tarefa a contragosto". O fato de a mesma posição poder ser defendida por dois comentários latentes e por duas cenas diferentes que desconfiamos não estar somente na charge (mas também no ethos chargista e no discurso de certo chargista) a ancoragem para supormos o posição da charge e o posicionamento do autor.

Normalmente, a redução da maioridade penal proposta é para 16 anos. Sendo a hipérbole uma característica do humor em geral e da charge em específico, uma redução ainda mais drástica é fantasiada. Essa hipérbole chacoalha o senso comum e talvez assuste em nós certa moção civilizatória de linxar nos outros (se preciso, os outros) os impulsos nefastos similares dos quais já fomos capazes e que foram recalcados em nós. Se essa charge for lida pela chave do discurso socialista (diríamos que há também um discurso na recepção) ela pode sugerir que reduções sucessivas da maioridade penal podem ser "necessárias", porque o problema estrutural não foi atacado. Em um ponto de contato (interdiscursivo) entre o discurso socialista, o religioso e o humanista-liberal, poderíamos ler na charge um posicionamento contra o caráter sanguinário, autoritário e linxatório do senso comum.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Inclusão, do portão pra fora












Angeli. FSP, 16/02/2007.




A posição presente na charge é que a inclusão desejada ou permitida pelos ricos é hipócrita, limitada (do portão pra fora). A boa intenção da madame (ou das madames) cessa com a primeira linha da legenda. A última frase reforça o distanciamento social entre "ricos" e "pobres". O termo "só" inagura a condição para o que foi dito anteriormente: desde que aguardem do lado de fora do portão. "Só" é aqui um marcador reformulativo, que isola dois discursos: o da hospitalidade caridosa (antes; politicamente correta) e o do distanciamento caridoso (depois).

Forçando um pouco a leitura, poderíamos dizer que as duas formas de caridade, no fundo, são vistas pelo "eu-lírico" chargista como farsantes e não "includentes" de fato, pois mantém a mesma divisão social; o lado "de cá" da divisão é o dentro do portão, cuja metáfora é o dentro do "café" chique em que as madames estão. Ainda que elas deixassem o pobre entrar, o cenário e o figurino marcam o lugar de onde aquelas interlocutoras enunciam. "Interlocutoras" no plural, pois temos sugerido que, embora seja só uma que tome a palavra, é algo que parece ser compartilhado pela outra em silêncio. A em silêncio fala também pela locutora, e a que fala talvez só fale para aquela, no jogo de imagens da enunciação.

Lembro-me que tive na mão certa vez um livro chamado "Manifesto comunista em quadrinhos". O que interessa aqui era a forma como os capitalistas figuravam no começo do livro: gordos, soberbos, opulentos. Assim também Eisenstein retratou os adversários dos trabalhadores e dos bolcheviques em "O Encouraçado Potemkin" e em "Outubro". Quero dizer que os adversários são sempre retratados com opulência, praticando, em geral, de um a todos dos sete "pecados capitais". Creio ter nessa convenção um índice para supor o lugar do autor na charge em questão (além do ethos chargista, que pretendo desenvolver em um outro texto). Embora as mulheres não sejam gordas (podem ter feito lipoaspiração), são opulentas, e o cenário é luxurioso e colabora para que usurpemos mais credibilidade da "boa intenção" enunciada.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Lula e os doadores de campanha














Glauco. FSP, 01/12/2006.


Maria Rita Kehl afirma que a "queixa estéril" é uma das formas do ressentimento, usada pela massa atônita que não vislumbra uma forma de ruptura (leia). A charge política é um lugar por excelência da queixa: por uma lado, destrona o mesmo; por outro, essa "chiadeira" é pura amargura, puro ressentimento, não revolta. É bom lembrar que, embora seja um gênero de maior "liberdade", ainda está em geral inscrito em grandes veículos de comunicação a serviço da ordem. Por essas e outras muitos se perguntariam se a charge pode ou deve ser mais que ressentimento, sublimado em formas e cores.

Esta charge de Glauco parece aprofundar a crítica. A classe política contitui o quadro preferido de personae dramatis das charges. A charge em questão, ao invés de repetir a tópica das charges em geral ("político é corrupto" e afins), acaba aprofundando o problema: político é corrupto nesse modelo de sociedade (capitalismo), em que o político "aceita" "doações" dos detentores do capital, e com isso fica com o "rabo preso", ou melhor, tem que "carregar nas costas" esses doadores. Nessa minha leitura, a charge pressuporia, intertextualmente, o dito marxiano e marxista: o estado na sociedade capitalista é um instrumento de opressão a serviço da classe dominante contra a classe trabalhadora. O "depois passa" sugere a conformação dos políticos, mesmo daqueles cuja origem não é a da classe capitalista; a expressão é enunciada pelo representante maior do estado: o presidente (Lula).

A relação de intertextualidade das charges se dá não só com outros textos do jornal ou do meio jornalístico, mas também em relação a datas memoráveis (por exemplo, no dia do natal) ou a provérbios e expressões populares. No nosso caso, a expressão é "carregar nas costas", que perde o tom mais abstrato que tem na linguagem comum e ganha aqui concretude. Essa concretude se dá porque a charge precisa "encenar", teatralizar. Daí, o gênero chárgico recorrer sempre a este recurso: materializar um sentido concreto em cena (causando surpresa), que guarde alguma ambigüidade com o sentido abstrato recorrente (já sabido).

O interlocutor de "Lula" é um anônimo (o importante aqui é o presidente), tanto que sua face nem figura; pelas vestes, podemos classificá-lo como um político, ou um acessor, que é novato no meio ou que não está acostumado com as retribuições aos aduladores. A cenografia é a de um "conselho", que reitera o discurso do "se todos tiram proveito...". A proporção (agigantada) e a posição (acima) dos doadores nos sugerem quem de fato teria o poder do estado na mão, e quem é o mero executor (executivo) desse poder (quem o "carrega"), retomando o dito marxista de que o estado capitalista tende a se pôr majoritariamente a serviço da classe burguesa, ainda quando não são sujeitos de origem burguesa que o controlam.

Poderíamos também analisar esta charge sob o ponto de vista do momento político em questão: pós-eleitoral, de transição do primeiro para o segundo governo de Lula (fim de 2006). Acreditamos que a análise da charge pode comportar um recorte mais conjuntural ou mais estrutural; nesta análise, preferimos secundarizar o primeiro em favor do segundo.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Lula: "se beber não dirija"










Kibeloko.blogspot.com, 16/02/2007

Bahktin não tratou de charges, mas seu conceito de destronamento é muito usado nas interpretações deste gênero. Destronar é carnavalizar, é um ato popular que ultraja temporariamente quem os domina econômica e / ou politicamente; e o dominante aceita trocar de lugar, para apaziguar a ferocidade coletiva. E aqui, justo no período de Carnaval de 2007, Lula "deixa-se" destronar de seu posto oficioso. Também podemos dizer que o ethos formal (Lula presidente, logo cansado; tem motorista particular) foi surpreendido pelo ethos fanfarrão (Lula bebum, logo não dirige). É preciso acionar o conhecimento prévio sobre essas facetas de Lula. A legenda: a marca oficial (montagem) do governo faz confrontar o público (Lula fez-se aparecer, para uma campanha educativa no Carnaval) com o privado (o óbvio, por estar Lula escondido no carro). A mensagem "educativa" reforça o sarcasmo, pelo contraste educação no trânsito versus presidente bêbado, e por colocar como um dado o fato de Lula estar bêbado (não põe isso em questão). A fotografia capta um momento, mas não é o real, por ser hiperbólica (exagerada) ou expressiva. Talvez presencialmente ou com uma seqüência de imagens (vídeo) pudéssemos ter mais informações se Lula estava (e em qual grau) bêbado. Charge não é só desenho; as fotomontagens cada vez mais ganham terreno.