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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Contra o Jung, tem aquela do Lennon

"Foi preciso imitar muito o Elvis Presley pra me tornar Jonh Lennon"

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Uma citação do Jung

Todos nós nascemos originais e morremos cópia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sousândrade - O Guesa (canto décimo)

A Bíblia da família à noite é lida;
Aos sons do piano os hinos entoados,
E a paz e o chefe da nação querida
São na prosperidade abençoados.
-- Mas no outro dia cedo a praça, o stock,
Sempre acesas crateras do negócio.
O assassínio, o audaz roubo, o divórcio,
Ao smart Yankee astuto, abre New York.

sábado, 30 de maio de 2009

As cidades, os sonhos

As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas sejam enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa.
Italo Calvino

terça-feira, 26 de maio de 2009

Quarteirização, uma ótima opção?

Para quem achava ruim a onda das terceirizações, que desmonta o serviço público e coloca patrões para serem empregados de outros patrões, precarizando sobremaneira os trabalhadores, pode até começar a achar a ideia razoável ao ouvir falar em "quarteirização".

É mole?

E sempre o mesmo argumento: o que não for atividade-fim (atividade típica), que seja terceirizada. Leia-se: os trabalhadores que não realizam as tais atividades típicas que sejam sub(em todos os sentidos de "sub")contratados por empresas terceirizadas, quarteirizadas, quinterizadas...

Trago abaixo um excerto da dissertação de mestrado (ah, bom, era da Universidade Anhembi-Morumbi) em que o autor Carlos Roberto Bernardo defende a quarteirização.

Para as organizações que são abertas à realidade e às mudanças, que há muito vêm delegando para terceiros aquelas atividades intermediárias de sua empresa, quarteirização é uma ótima opção. O termo define um método de resolução de problemas que a modernidade trouxe e muitas empresas ainda não se deram conta. Para competir no meio do atual ambiente dinâmico, uma organização não pode dispensar energia com administração de problemas que fogem do seu objetivo e quarteirizam para serem excelentes nas suas atividades essenciais.

A genericamente intitulada quarterização é a terceirização elevada ao expoente da vanguarda, com a contratação de uma empresa especializada para gerenciar as empresas terceirizadas É uma técnica de administração e avaliação contínua da qualidade dos serviços prestados. A empresa de quarterização deve servir de elo entre a tomadora de serviços e as prestadoras, fazendo com que a tomadora só tenha um interlocutor.

Carlos Roberto Bernardo, "Terceirização: vantagens e desvantagens do contrato de gestão da administração. Estudo de caso do Novotel - São Paulo Center Norte", São Paulo: Mimeo, 2007, p.34.

A sociedade e o social

O exame da linguagem corrente hoje no Brasil constata uma curiosa oposição entre os termos "sociedade" e "social". Isso ocorre, em particular, no seu uso por parte de empresários, políticos e jornalistas – para começarmos por uma caracterização profissional.

Mas também sucede, para passarmos a uma determinação política, que, porém, se sobrepõe à primeira, por parte dos setores mais à direita. Estes últimos anos, no discurso dos governantes ou no dos economistas, “a sociedade” veio a designar o conjunto dos que detêm o poder econômico, ao passo que “social” remete, na fala dos mesmos governantes ou dos publicistas, a uma política que procura minorar a miséria.
(Renato Janine, em: http://www.renatojanine.pro.br/Livros/asociedade.html)

sábado, 23 de maio de 2009

Conclusão: Existem gatos que são aquáticos!

(Fundação Carlos Chagas - Concurso TRT-PR / 2004) Observe a construção de um argumento:
Premissas: Todos os cachorros têm asas.
Todos os animais de asas são aquáticos.
Existem gatos que são cachorros.
Conclusão: Existem gatos que são aquáticos.
Sobre o argumento A, as premissas P e a conclusão C, é correto dizer que
(A) A não é válido, P é falso e C é verdadeiro.
(B) A não é válido, P e C são falsos.
(C) A é válido, P e C são falsos.
(D) A é válido, P ou C são verdadeiros.
(E) A é válido se P é verdadeiro e C é falso.


Comentários:

Dizem que todo poeta (inclusive os formais) e todo linguista (exceto os formais) são inimigos da lógica. Penso, entretanto, que esses poetas e linguistas querem o rigor da lógica para lutar contra a lógica.

Ironias à parte, convém ressaltar que a linguistica tem seus méritos ao desbancar a lógica e defender que a língua tem uma lógica própria, ou uma falta própria de lógica. E a poesia também.

Conheço amigos da área de exatas que me disseram que, após estudar lógica, passaram a dominar melhor a língua. Sei lá, acho que passaram a se enganar na língua de um jeito diferente. A lógica pode ser muito útil à linguagem matemática e computacional, mas encontramos na língua um sem-número de falhas a desmentir a lógica.

Esse mesmo amigo disse que a língua portuguesa era falha, pois, quando dizemos "Eu não vi nada", uma negação anularia a outra, resultando em uma afirmação: "Eu vi algo".

Puxa, que pensamento rasteiro. A lingua é falha sim, mas não só a língua portuguesa. E, graças às falhas da língua, vemos que a lógica também é falha. Inclusive, a dupla negação também existe no francês: "Je ne .... pas...". A dupla negação talvez seja mais uma "ratificação" da negação do que uma "retificação" dela.

Interessante dizer que, mesmo a gramática gerativa - formal por natureza - não é tão formalista quanto esse meu amigo lógico, pois ela considera "Eu não vi nada" como uma frase com sentido de negativa e busca formalizar (às vezes) explicações para esse tipo de construção.

Bom, vamos à questão que abre esse post.

Um argumento pode ser válido ou inválido. Será válido se sua conclusão for resultado necessário de suas premissas.

Sobre as premissas e a conclusão, podem ser verdadeiras ou falsas.

Assim, temos na questão acima que as premissas e a conclusão são falsas e o argumento como um todo é válido(!). Isso porque a lógica diz não se preocupar com a verdade das coisas (sempre refutáveis), mas com a estrutura formal.

Entretanto, para responder à questão, é preciso saber que, no mundo, cachorros não têm asas, que nem todo animal de asa é aquático, que não existe gato que seja cachorro e que não existe gato aquático.

A validade do argumento parte do pressuposto de aceitação das premissas. Falsas ou verdadeiras, as premissas são aceitas e, se não contraditórias entre si, delas resultar uma conclusão sempre inequívoca, o argumento como um todo será válido.

Para acharmos a validade do argumento, podemos construir conjuntos (seria melhor desenhá-los):

Premissa 1 - Todo cachorro está contido no conjunto dos animais com asas; (Desenhe um círculo dos cachorros dentro do círculo dos animais com asas)

Premissa 2 - Todo animal com asa está contido no conjunto dos animais aquáticos; (Desenhe um círculo dos animais aquáticos abarcando todos os animais com asas; logo, abarcando também todos os cachorros)

Até agora, concluímos que todo cachorro é animal aquático, pois, se os cachorros estão dentro do conjunto dos animais com asas, e os animais com asa estão dentro do conjunto dos animais aquáticos, todo cachorro pertence ao conjunto dos animais aquáticos.

Premissa 3 - Sabendo que existem alguns gatos que são cachorros, e sabendo que todo cachorro é aquático,

Conclusão - Concluímos que alguns gatos (pelo menos aqueles que são cachorros) são aquáticos.

A conclusão é decorrência necessária das premissas, pois não é possível que algum gato não seja cachorro. Assim, o argumento como um todo é válido, apesar de as premissas e a conclusão serem falsas.

Gabarito C.

E se a conclusão fosse: "Existem gatos que não aquáticos"?

Essa conclusão não seria necessariamente verdadeira; o que se sabe é que há gatos aquáticos, mas a questão não disse se, além desses, existem outros gatos. Estaríamos diante, portanto, de um sofisma, isto é, uma cadeia argumentativa cuja conclusão não é resultado necessário das premissas.

O mesmo ocorreria com "Não existem gatos aquáticos".

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Petrobrás dá ao setor ambiental a mesma importância que dá ao seu setor produtivo

Interessante notarmos que, por ser, supostamente, uma equivalência ("a mesma importância"), a frase acima poderia ser invertida, pelo menos do ponto de vista da Lógica:

(2) "A Petrobrás dá ao setor produtivo a mesma importância que dá ao seu setor ambiental".

Porém, sabemos que a frase (2) não é sinônima da frase título; mais um desses casos em que o sentido não se rende à pura Lógica; ou melhor, mais um desses casos em que o sentido mostra sua lógica "pura"...

Talvez porque a frase título seja uma hipérbole, algo como: "a Petrobrás tem dado muita, mas muita mesmo, importância ao setor ambiental".

Mas, como podemos pensar que a frase título é uma hipérbole? Aí entra o discurso. Discursivamente, sabemos que, na sociedade capitalista, a produtividade é o que importa; mas, cada vez mais, por marketing ou por razões quase sinceras (mas nunca ao ponto de fazer com que as preocupações ambientais se igualem às produtivas), tem-se falado muito em "desenvolvimento sustentável".

Outra coisa é a própria estrutura desse tipo de construção (o que também se explica pelo discurso), em que a novidade (o termo realçado, hiperbolizado, movimentado) aparece no início da construção, e o termo óbvio, ao final.

(3) O PIB da China já é do mesmo volume que o PIB da Alemanha.

Na frase (3), supõe-se que a igualdade tenha operado mais por causa do aumento do PIB da China do que pela queda do PIB alemão.

Talvez por causa desse tipo de construção, e pela memória discursiva do discurso ambientalista (apresentada mais acima), que a frase (2) nos parece tão descabida.

E, quanto mais a frase (2) nos parece descabida, mais a frase título se nos apresenta menos como uma igualdade de (2) e mais como uma hipérbole.

American (a)way of life

O texto abaixo (sem o título deste post no original) é um trecho do livro de Ralph Linton.

O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.

Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.

De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.

Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano.
Fonte: LINTON, Ralph. O homem: Uma introdução à antropologia. 3ed., São Paulo, Livraria Martins Editora, 1959.

sábado, 21 de julho de 2007

Corre, pedala... e nada

Depois do fiasco brasileiro na estréia da Copa América de 2007 (0x3 México), José Simão lançou uma piada em sua coluna, mais ou menos nesses termos: "O Robinho será convocado para a Seleção Brasileira de Triatlo: ele corre, pedala... e nada". Tudo bem que Robinho se recuperou na partida seguinte, fazendo os três gols (pelo menos dois golaços) na vitória contra o Chile. A piada, então, pode estar desatualizada, mas não o interesse lingüístico que se pode ter por ela.

Esse caso parece ser bom para ilustrar a discussão sobre os limites entre sintaxe e semântica. "Corre" e "pedala", tomando como ponto de partida o triatlo, têm uma significação "literal", que é contrastada com uma significação relacionada ao futebol. No primeiro caso, "corre" tem um sentido de finalidade, de especificidade do tal esporte; enquanto que, no segundo, tem um sentido de meio (correr é um meio para se jogar bem futebol). Mas, ainda assim, há muita semelhança entre os dois sentidos do verbo "correr".

Em "pedala", parece que temos dois verbos diferentes, apesar do sentido futebolístico ter uma relação secundária de metônimia em relação ao sentido mais literal, aplicável ao triatlo. Poder-se-ia dizer que, por isso, são um verbo só, e que o sentido futebolístico é um sentido conotativo em relação ao sentido literal de "pedalar". Mas, isso não é um argumento definitivo, porque as histórias das línguas estão cheias de exemplos de verbos que se formaram por deslocamento e se literalizaram depois. Por exemplo, "chegar" origina do verbo latino "plicare", que significava "dobrar". Um argumento para dizer que se trata do mesmo verbo é que o sentido futebolístico não se perdeu totalmente o sentido original. O que não dá para defender é que, por haver a mesma expressão gráfica e acústica (mesmo significante), trata-se necessariamente de um mesmo verbo; as línguas são repletas de homonímias (dois significados para um mesmo significante).

Interesante pensar que o verbo "pedalar" pode ser tanto transitivo direto quanto intransitivo (pode ou não pedir um complemento, ou, nos termos da sintaxe gerativa, pode ter um ou dois argumentos). No sentido do triatlo, mesmo aí podendo haver intransitividade sintática ("eu pedalei por duas horas"), parece estar subentendido um complemento ("eu pedalei [uma bicicleta] por duas horas"); enquanto que no sentido futebolístico, "pedalar" parece ter um caráter somente intransitivo (ninguém pensaria em "eu pedalei a bola" ou "eu pedalei o adversário"). Essa diferença, para alguns teóricos da teoria sintática (não estou falando de Pasquales), seria suficente para atestar que se tratam de dois verbos com a distinção originada desde o léxico ("momento" anterior à DS, deep structure ou estrutura profunda).

Bom, então, temos "corre" como um verbo muito similar nos dois sentidos. Temos "pedala" como um ainda verbo (ou dois verbos), mas que marca uma distância muito maior a depender de qual dos "frames" de significação (o do triatlo e o futebolístico) estamos tratando. Por fim, temos a palavra "nada", que, no frame do triatlo vem do verbo "nadar". Requer-se certo conhecimento enciclopédico do leitor para saber que o triatlo é composto das três modalidades sugeridas. E é por haver essa (ficcional) correspondência (pelo menos no nível do significante) entre as partes da modalidade e o que Robinho faz (ou vinha fazendo) que este seria convocado para a seleção de triatlo (também um "seleção", o que dá a entender que ele faz muito bem as três coisas: mais um exemplo da ironia aplicada ao sarcasmo). O pleno ajuste é um sinal de agudeza do humor nesta peça (poderíamos pensar em termos de coerência, mas isso fica para outro dia).

No frame futebolístico, não há brecha para o sentido anterior de "nada". Temos, então, que invocar nossa memória e pensarmos que expressões do tipo "fez alguma coisa... e nada", ditas com certa entonação, significam que não houve um certo resultado esperável; ou seja, como se o que viesse antes da expressão "e nada" incluísse um pressuposto de um resultado esperado, que não se confirmou: "correr" e "pedalar" são argumentos favoráveis a uma conclusão diferente de "nada". A interrupção tem um caráter adversativo, de mudança da direção argumentativa: "Robinho é esforçado, MAS não está jogando nada". "Ser esforçado" muitas vezes pressupõe uma traço pejorativo: alguém não tem ou não está mostrando talento (muita transpiração e pouca inspiração). Ora, aqui temos "nada" não mais funcionando como um verbo, mas como um advérbio.

Como podemos, a partir da expressão sintática que dá título a esta postagem, saber se "nada" é verbo ou advérbio? É possível somente supor (se os dois primeiros são verbos, o terceiro deve ser) ou ter uma certeza, que pode ser contestada (é o que a piada faz). E o humor joga exatamente com isso, ao mostrar que um outro sentido, uma outra leitura semântica, seria possível de co-habitar a mesma expressão sintática. As reticências promovem a quebra do fluxo; mais que isso, dá à frase uma dicção, próxima ao uso consolidado que mostramos no parágrafo anterior; e, também, promovem um suspense narrativo, que enfatiza a expressão por vir e serve muito bem ao humor.

A convivência entre esses dois domínios de sentido é condição necessária para a estruturação do humor; ao final da piada, retroativamente, ressignificamos tudo o que foi dito, não apagando o sentido inicial (do triatlo), mas fazendo as expressões serem co-habitadas pelos dois sentidos (triatlo e futebol). O que pode ser um indício de que há uma "consciência" e controle do autor, pelo menos no nível de controle (represamento) no desenvolvimento de seu artefato.

Do ponto de vista da semântica, a leitura do título de nossa postagem mostraria que uma interpretação sintática (saber se "nada" é verbo ou advérbio) muitas vezes só é possível de acontecer (ainda no domínio sintático) com a ajuda da semântica. Do ponto de vista da sintaxe, poder-se-ia pensar que os dois sentidos já estavam lá (na mesma frase, ou haveria duas frases?), autorizados pela sintaxe e aguardando um evento do mundo para semânticamente se definir.

domingo, 15 de julho de 2007

As gafes da TV portuguesa



Quem nos pergunta "você sabe que horas são?" não espera que respondamos simplesmente "sim", mas que lhe informemos essa hora que sabemos (ou que buscamos saber para responder). A pragmática buscaria dar conta de entender como os sentidos são completados pela situação imediata em que os interlocutores estão inseridos.

Costuma-se dizer que "português é burro". E já ouvi colegas meus que viajaram a Portugal dizerem que as tolices portuguesas das piadas de fato acontecem, que os portugueses são burros mesmos. Parece que lá em Portugal também fazem piadas sobre as burrices daqui. A questão parece ser, então, de uma interincompreensão, cujas raízes podem ser historicamente buscadas (condições de produção); é claro que não deve ser algo que prejudique irremediavelmente os sentidos, pois uma interincompreensão pode ser superada pelos interlocutores (reformulando suas falas, por exemplo).

Alguns lingüistas já disseram que as piadas de português (e as piadas de brasileiro, lá em Portugal) se sustentam basicamente sobre uma idéia de "burrice", que na verdade não é "burrice" mas saberes pragmáticos diferentes. Afirma-se que os portugueses têm uma tendência a ficarem mais no enunciado explícito e a buscar menos implicitações na situação ou na enunciação.

O vídeo aqui anexado foi editado no Brasil. Em suas escolhas, retrata certa representação que, fanfarrona ou seriamente, boa parte dos brasileiros faz dos portugueses. Vejamos dois trechos desse vídeo:

[Repórter pergunta e senhora responde:]
- O que que a traz cá?
- Uma camionete.

[Repórter pergunta e garotinho responde:]
- Falas com os cavalos?
- Falo.
- E eles respondem?
- Sim.
- O que é que dizem?
- Dizem assim: hiiiiiiiiiiii!

Muitos leitores podem ter a correta idéia: "esses trechos bem que poderiam ser piadas"; ou tirar dessa idéia uma conclusão valorativa mais geral: "nossa, então as piadas de português não são ficções, acontecem, os portugueses são mesmo burros". Será que a senhora e o garotinho foram "burros" por não entenderem a pergunta, ou simplesmente responderam mais "ao pé da letra" o que o enunciado pedia? Se formos pela primeira opção, rimos dos entrevistados (e português seria mesmo burro); se formos pela segunda, rimos do entrevistador (e português seria astuto ao ler o enunciado "ao pé da letra", "juridicamente" poderíamos dizer).

Parece-nos que tanto a senhora quanto o garotinho não estão troçando, zombando dos repórteres: entendem suas respostas como as únicas possíveis, ou as melhores possíveis. Mas, provavelmente, não eram aqueles os sentidos que os repórteres esperavam; isso provaria que não há uma postura pragmática única em Portugal, que talvez lá os dois usos co-ocorram em proporções parecidas, enquanto que no Brasil um dos usos seria muito hegemônico.

Se aquilo que dissemos dos portugueses (uma variação pragmática) for generalizado, as piadas pragmáticas dos portugueses contra os brasileiros seriam menos comuns, ou restritas a alguns usos em que nós não sejamos pragmáticos e eles o sejam. Mas, ainda que a explicação sirva para os dois excertos do vídeo, não deve se aplicar a todos os usos. Pois, pode haver muitos casos em que os portugueses interpretariam mais pragmaticamente um enunciado e que os brasileiros interpretariam mais "ao pé da letra" (ao pé do lingüisticamente explícito no enunciado). E, no sentido das representações de que os países são diferentes (ou que foram diferenciados por políticas no discurso), as piadas se constituíram como apropriações destes casos pragmáticos para se forjar enquanto um dos mais importantes campos da "batalha".

A forma como o jogador de futebol fala à reportagem, neste vídeo, parece ter outra explicação. O ethos, as idéias, as expressões não são esperados a um jogador de futebol; seria mais adequado a um filósofo. Então, a piada poderia ser que a burrice do português não é só pragmática, mas discursiva: há embutida uma noção nos sujeitos falantes, ainda que justificada em um esteriótipo, de que cada domínio social constitui consigo um jeito mais adequado de falar.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Dois risos interdiscursivos

Às vezes, incluo nesse blog textos que não diretamente falam de humor, ou porque, à minha leitura, trazem um humor muito sutil, ou porque trazem algum procedimento que guarda semelhanças com a produção e a leitura do humor. Isso me faz pensar que seja possível rir de qualquer coisa; ou seja, acho que há risibilidade em todo o dizer. Não vou defender o subjetivismo, para quem bastaria dizer que toda pessoa pode rir de qualquer coisa, por razões da ordem da individualidade. Não vou me eximir de apontar uma explicação que seja.

Podemos pensar isso pela via discursiva. O riso pode ser um indício da presença do outro no dizer, no ler, no rir. Isso pode ser pensado em termos de interdiscurso, de heterogeneidade discursiva, de polifonia, de polissemia; mas aqui não vou me deter nesses conceitos. Todo dizer é rísivel, então, porque todo dizer nos traz um outro.

Vou me deter em um tipo de riso: é muito comum rirmos de algo que alguém disse com seriedade, disse sem a menor intenção de provocar um riso (ou aquele riso específico que lhe devotamos).

Isso ocorre quando esse alguém é, em algum sentido, reconhecido como nosso adversário. Tão tolo quanto achar que "quem cala, consente" é pensar que "quem ri, consente". Toda proposição seria passível de humor, aos olhos do sujeito-interlocutor, porque toda proposição é passível de ser questionada, é passível de ser vista de um "outro" lugar. Um hipotético ateu, por exemplo, pode achar graça de alto tão sagrado como isso que aparece na sinopse de um DVD bíblico:

"Nossos interiores estão destruídos e precisamos de transformações. Somente o Senhor Jesus Cristo que ressuscitou pode transformar medo em confiança, transformar insegurança em segurança, dor em alívio. A Bíblia diz que o mesmo poder que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos é o poder que opera em nós."

Esse mesmo ateu pode também dar risada de um discurso inverso, sobre o mesmo tema, como o deste trechinho de "O Evangelho Segundo Jesus", de José Saramago:

"Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores."

Ora, me parece que, sendo um mesmo sujeito, não é um mesmo riso, dado o contraste discursivo e este contraste comportar um aspecto constitutivo de sujeitos (crer ou não, crer ou não nesta divindade).

No caso do DVD bíblico, nosso ateu hipotético estaria rindo da ingenuidade da afirmação. Poderíamos dar a este riso o nome de riso irônico, porque, assim como a ironia, o riso estaria funcionando como um "sim" invertido ("não tenho motivos para me alegrar com isso; estou me alegrando para manifestar o contrário: minha indignação"). É como se o riso marcasse um "não" do sujeito que lê antes de todo aquele dizer.

No caso do texto de Saramago, nosso mesmo ateu estaria rindo junto com Saramago (mesmo que Saramago não esteja buscando a graça, ou melhor, o humor) e contra aqueles que divinizam Cristo etc. A este riso, poderíamos dar o nome de riso aclamativo, no sentido que funcionaria como palmas favoráveis ao dizer que confronta uma outra posição, pressuposta ou subentendida (a posição dos cristãos). O riso é, então, favorável a uma posição discursiva exatamente na medida em que reconhece uma posição discursiva contrária, uma "outra" posição.

Por diferentes que sejam, os dois risos são interdiscursivos, isto é, são indícios da reentrância de posições discursivas. É claro que um ateu (diferente do nosso ateu hipotético) pode não achar graça em nenhum dos dois trechos, pois outros fatores estão em jogo. O interdiscurso dá condições para que um dizer sério seja lido com humor; não o obriga ser lido assim.

domingo, 17 de junho de 2007

Vencedor do Grande Desafio, domingo, dá nome a asteróide

O título desta postagem é uma manchete do portal da Unicamp, de 15/06/2007.

A chamada na página inicial nos esclarece um pouco aquela estranha manchete:

"Estudantes do ensino fundamental e médio mostram neste domingo, das 9 às 17h30, no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, os trabalhos que produziram para o Grande Desafio. O vencedor do evento organizado pelo Museu Exploratório de Ciências dá nome a um asteróide."

Para ler a matéria inteira, clique aqui, ou melhor, aqui.

Muito engraçada a manchete e a chamada. Um asteróide foi descoberto, e o garoto ou a garota que vencer o tal Grande Desafio na Unicamp tem o direito de dar um nome a essa coisa celeste. Uma "brincadeirinha", uma "gincaninha" (desculpem-me, é um Grande Desafio) vai servir para nomear um asteróide. Mas, quantos e quantos asteróides não foram nomeados "do nada" por vários cientistas? Pode-se dizer que eles tenham mais autoridade; mas o ato de nomeação feito por eles é tão casual quanto o desta gincana. O fato é que atribuímos às palavras uma relação necessária (no sentido filosófico) com as coisas. "É óbvio que mesa é mesa". Como se, inclusive, o nome fosse sempiterno; lembremos que "mesa" vem do latim "mensa" (mas isso já é uma outra história).

O exemplo daquela nomeação de asteróide parece servir para questionar a ilusão da relação de necessariedade nome-coisa.

Lembrei-me do livro de Foucault, "As palavras e as coisas". Ou mesmo do velho Saussure no "Curso de Lingüística Geral". De fato, parece-me haver total arbitrariedade entre significante e significado; isto é, a junção entre significante e significado (ou, em termos mais chulos, som e sentido) seria casual. Do que decorre que um nome seria arbitrariamente atribuído a alguma coisa.

Se eu ganhasse esse Grande Desafio, poderia dar ao asteróide o nome de Mazzaroppi ou de Mesa, ou de KLB. Não sei se aceitariam, pois poderiam tentar restringir minha arbitrariedade: "por que não o nome de um ciclope da mitologia grega?", diriam-me. Mas, os nomes desses ciclopes, ao serem dados pelos gregos de então, também seriam arbitrários, ou se relacionavam a outra coisa naquela Grécia (da mesma forma, arbitrariamente). Ora, ainda assim há arbitrariedade, porque, mesmo minha escolha sendo motivada pela mitologia, poderia sempre ser uma outra.

A famosa passagem de Mallarmé parece-nos calhar: "Un coup de dés jamais n'abolira le hasard" (Um lance de dados jamais abolirá o acaso).

Pressupomos que haja uma convenção internacional que valide a escolha do nome daquele asteróide. E pressupomos que os organizadores do Grande Desafio (do "Museu Exploratório") descobriram ou têm relação com quem descobriu o tal bicho, para que tenham o direito de deixar alguém nomeá-lo. Podemos até entender, pela manchete e pela chamada, que o nome do(a) vencedor(a) será o próprio nome (próprio) do asteróide (o que ainda seria algo arbitrário): "A vencedora é a Marília; então, o asteróide passa a se chamar Marília" (ou "passa a ser chamado de Marília"). Não há nada na manchete e na chamada que desautorize essa leitura; somos nós leitores que implicitamos não deva ser assim. Seguindo em frente: pensamos que, por estar no portal da Unicamp, isso não seja um trote (ops). Uma vez nomeado, todos os astrônomos e todos os que venham a falar desse asteróide terão que chamá-lo de X. Mesmo assim, mesmo nesse caso em que há uma institucionalização do nome (um batismo), pode ser que ele demore a pegar. O nome é algo que demora; demora a pegar e pode demorar a largar.

E. Guimarães, do ponto de vista de sua semântica enunciativa, dirá, a respeito dessas nomeações, que elas possuem um passado, um presente e um futuro. Exemplo: os pais resolvem batizar o filho de "José"; há um passado bíblico-católico (mesmo se os pais forem protestantes, diga-se), uma memória que pode estar dando um sentido a essa nomeação; há um presente, por exemplo quando o pai diz ao escrivão o nome do filho; e há um futuro, pois toda vez que alguém se referir àquele ser, o chamará de "José" (e posteriormente poderão lhe dar um apelido). Esse exemplo da nomeação (nomes próprios) pode de certa forma ser extendido a qualquer nomeação ou até mesmo às referenciações. Podemos ressignificar algo usando seu velho e bom nome, mas podemos fazer isso com um nome novo ou diferente; o velho exemplo de chamar "ocupação" o que outros chamam de "invasão", ou vice-versa. Ou seja, uma mesma coisa pode ter dois ou mais nomes. E, também, um mesmo nome pode ser atribuído a coisas diferentes.

O foco, desta posição e da posição discursiva, é, então, outro: tudo bem que o signo e a nomeação sejam arbitrários, mas o que é relevante em termos lingüísticos é procurar sua justificativa na materialidade histórica, na memória discursiva, nas condições de produção daquela nomeação; não se trata de uma relação mecânica, é claro, mas como possibilidade (no exemplo, a possibilidade daquele menino, nascido daquela família, ser chamado "José" está, por razões discursivas, mais dada do que a de ele ser chamado Mohammed). Interessante pensarmos que dizer "Eu me chamo X" pode ser parte do que a Análise do Discurso chama de ilusão do sujeito; esconde que "Eu fui chamado X", "Eu sou chamado X".

Benveniste (Problemas de lingüística geral), tomando outro foco, vai dizer que significante + significado, uma vez constituídos em signo, formam um todo não-arbitrário, podendo ser arbitrária a relação desse todo com um referente (algo do mundo). Ou seja, o signo não é arbitrário; a relação ente signo e referente pode sê-lo. Assim, o significante "rosa" tem como significado invariavelmente e necessariamente aquele tipo de flor (esse semi-referente embutido no significado é necessário, obrigatório); e, num segundo momento, esse signo "rosa" (significante + significado) pode designar outra coisa ("qualquer ser que tenha por atributo a beleza", por exemplo, como na frase "Maria é uma rosa"), pode se referir a algo diferente no mundo, em um uso idiossincrático, metafórico, que é posto sempre em relação ao significado literal.

Posição mais complicada parece ser a de Jakobson. A relação entre significado e significante não seria totalmente arbitrária; poder-se-ia encontrar na imagem fônica da palavra (significante) algo que tem a ver com o que a palavra denota (seu significado). Poderiam ser exemplos em português: "pico" tem uma sonoridade breve e ríspida (porque designa algo no mundo que é íngreme), ao passo que "montanha" é uma palavra maior e não tão ríspida (porque designa algo no mundo que é mais extenso e menos íngreme que "pico"). Poderíamos, então, comparar palavras aos pares e ver que elas estão nas coisas, ou as coisas nelas. Penso que isso pode até servir à composição poética; mas, não serve para explicar a língua. Poderíamos citar uma série de palavras em que a não-arbitrariedade de Jakobson não é encontrada (a palavra "montanha" poderia ser considerada uma palavra plana); ou poderíamos forçar a barra para a encontrarmos sempre (o "t" dá idéia de relevo e "mon" e "anha" dão idéia de acúmulo). Mesmo as onomatopéias não são dados empíricos; um russo talvez não ouça um bem-te-vi dizer "bem-te-vi". E não há nada no canto desse bicho que nos obrigue a chamá-lo assim; não chamamos um pato de "quá-quá", se é que pato diz (ou melhor, faz) "quá-quá".

No dia 16 vacine seu filho. É de graça e não dói nada.

O título desta postagem foi uma chamada da Campanha de Vacinação contra a Pólio, de 16/06/2007. A chamada era rápida e integrava o rápido comercial do Governo Federal veiculado na TV, naquela mesma data do evento divulgado.

Se a chamada diz "vacine seu filho", seleciona como interlocutor ideal os pais; sabemos, pais que têm filhos dentro da faixa etária que deve tomar a tal vacina. Curiosa é a continuidade da chamada, que podemos desmembrar em dois enunciados. O "e" não só está ligando dois elementos desconexos, mas está funcionando como um marcador argumentativo: "temos dois bons motivos para que os senhores pais atendam o nosso pedido anterior: isso E MAIS isso".

"É de graça" é direcionado aos pais; não é preciso dizer que questões como o desemprego e a péssima distribuição de renda marginalizam uma significativa parcela da classe trabalhadora, mais especificamente do lúmpen. O "vacine seu filho" é para todos. O "é de graça" colocaria como interlocutor ideal os pais pobres; ou até os organizadores da Campanha quiseram dirigir-se aos pais que considerava "irresponsáveis" ou "mal-informados" (o que provavelmente não estaria, na imagem feita pela Campanha, fora do conjunto dos "pobres"), para quem a primeira chamada não bastaria. Seriam necessários argumentos; aqui, ligados pelo "e". Inclusive, pela brevidade da chamada, e pelo discurso da brevidade e da eficácia da propaganda em geral, imagina-se que os argumentos tenham que ser bons.

Poucos lugares substancializam seus interlocutores como a "boa" propaganda; embora muitas vezes o faça de forma preconceituosa ou acrítica (não estou dizendo que é o caso da peça publicitária aqui analisada), até por isso mesmo, é inegável que costuma funcionar. Tudo bem que algumas generalizações são inevitáveis, e na peça que aqui analisamos a causa é até nobre; queremos dizer que a propaganda, quase em geral, evidencia-nos que em toda interlocução há um jogo complexo de imagens. Ao dizer, o locutor faz uma imagem do seu interlocutor, e faz também uma imagem da imagem que o interlocutor faz do locutor. E vice-versa; poderíamos tomar a palavra "interlocutores" no sentido geral, para indeterminar quem fala e quem escuta, até porque são lugares que se alternam, e para reforçar que um fala no outro. Mas isso iria , para os limites desta postagem, trazer confusão, maior do que aquela do locutor-interlocutor. É claro que não estamos convocando todo esse jogo de imagens para esta nossa análise, mas apenas parte dele. E, também, queremos mais é pensar quais são os interlocutores evocados pela chamada que dá título a esta postagem.

O recado então vai restringindo os seus interlocutores e nos dando sinais da imagem que faz destes interlocutores: os pais em geral ("vacine seu filho"); os pais pobres, irresponsáveis ou mal-informados ("é de graça"). Com "não dói nada", entra algo novo; a restrição dita anteriormente talvez até continue, mas parece que um interlocutor novo é evocado. Os interlocutores talvez não sejam mais os pais (adultos), mas sim as crianças (estas, mais do que os pais, é que deveriam estão preocupadas se a vacina dói ou não). Mas, a chamada não expressou a mudança de interlocutor (por favor, não me digam que isso é problema de coerência textual; a coisa é mais complexa). "Não dói nada" é argumento a favor da vacinação, direcionado às crianças, e, ao mesmo tempo (por que não?), aos pais. Talvez agora a imagem dos pais seja a daqueles que não têm controle sobre seus filhos. Sendo ou não isso, "não dói nada" é, em última instância direcionado às crianças, do interesse das crianças; o que não impede que os pais (os interlocutores evocados no começo da chamada, e que continuam enquanto tal) façam a mediação entre a propaganda e os filhos.

Mantendo os pais como interlocutores, a propaganda não só diz algo, mas implicita um procedimento que os pais devem adotar com os filhos (imaginando que isso fará com que mais crianças sejam vacinadas), como se lhes dissesse: "´não dói nada´ é um argumento que os senhores pais devem usar junto aos seus filhos". Se "não dói nada", pressupomos que a vacina deva ser de gotinhas; e pressupomos isso a partir do ponto de vista da criança (outro sinal de que esta é a "destinatária" final), para quem uma agulhadinha doeria mais que para os adultos. O "nada" duplica a negação (e a negação da negação nem sempre é afirmação, como pretendem os lógicos), dando-lhe ênfase; e também faz com a frase se aproxime do jeito como os adultos falam com as crianças. O "não dói nada" é uma expressão já quase na boca dos pais, é um argumento da chamada destinado a ser um argumento aos pais. Podemos imaginar um pai dizendo aquilo, ou uma paráfrase daquilo com seus pressupostos: "vamos, não vai doer nada, é de gotinha".

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Pentágono pensou em utilizar a 'bomba gay' contra os soldados inimigos

O título da postagem é uma manchete do "UOL Ciência e Saúde" de 15/06/2007. Assim diz o primeiro parágrafo:

"Uma 'bomba gay', que transforma os soldados inimigos em homossexuais que preferem fazer amor a fazer a guerra, foi uma idéia destrambelhada proposta nos anos 90 ao Pentágono para resolver seus conflitos bélicos."

Muito bom o uso de "preferem fazer amor a fazer a guerra", neste primeiro parágrafo, que está em relação intertextual com o slogan dos levantes (principalmente os estudantis, principalmente no oeste-europeu e nos EUA): "Façamos amor, não façamos a guerra". A palavra "destrambelhada" dá idéia de que o projeto não deu, nem poderia dar (ao ver do autor), certo. Mostra que o jornalista (ou o redator, ou o portal de notícias, ou o locutor, ou o enunciador, ou a posição discursiva; discuti um pouco dessas coisas em outros textos, neste blog) não é invisível; revela-se aqui em sua espessura. Interessante que o especificador (artigo) "a" na manchete pode indicar que a bomba exista ou tenha existido (alguns diriam que há uma incoerência textual, entre a manchete e o corpo da matéria).

Ao ler a matéria, vemos que não há nada no projeto da bomba que queira estimular a homossexualidade. Esse possível sentido é permitido (ou, até, dado) pela manchete e estaria em relação com a posição que reduz a homossexualidade a algo biológico: quem assim ler, poderia pensar que a bomba pretendia estimular os aspectos biológicos da homossexualidade. Mas, o projeto pretendia aumentar a libido dos soldados inimigos; e como pressupomos / sabemos que entre os soldados só havia (há) homens...

Existe um outro pressuposto (mais um daqueles perigosos) que quer passar que homossexual é menos combativo, pois guerrear seria "coisa de macho". O velho discurso homofóbico, e até machista. Poderíamos dizer que a matéria só ganhou o destaque que ganhou (capa do site UOL naquele dia) porque os editores (ou quem quer que mande lá) sabem que é uma matéria "curiosa", que deve chamar a atenção; isso porque sabem que o discurso homofóbico, inclusive feito de piadas homofóbicas (se neste blog falamos de humor), é muito presente. A própria matéria diz: "Esta história de 'bomba gay' virou prato cheio para piadas e comentários jocosos dos blogueiros".

Algumas piadas vão na direção oposta à pejoração, como a matéria também nos mostra: "'Se tínhamos uma bomba gay, por que não as usamos nas montanhas do Afeganistão?', questiona o republicoft.com, que se identifica como um negro e homossexual que vive em Washington". por não termos o contexto, não sabemos se isso foi colocado em termos de piada (imagino que sim); mesmo se foi, não é por ser piada que vai perder a força ou a validade da crítica (às vezes, a piada dá mais força a uma crítica, sabemos). Esta piada é complexa e vai no sentido que apontamos no começo (a bomba estimulando a homossexualidade e não a libido em geral), pois pode querer: 1) defender o direito de ser homossexual; 2) sugerir que a homossexualidade é algo culturalmente reprimido e que a bomba poderia ajudar a romper as barreiras; 3) criticar o governo Bush ou os governos imperialistas por muitas mortes no Afeganistão; 4) pressupor (evocando uma memória discursiva) que no meio militar (talvez sobretudo o estadunidense) tudo o que de pior que se diz que não existe, existe.

A reportagem em questão tem o mérito de trazer várias posições.

sábado, 9 de junho de 2007

Isso de querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além

Vou analisar o curioso poema "Incenso fosse música", de Paulo Leminski:

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

É um poema, mas está na seção "Frases curiosas" porque não tenho outra. E também porque é um micro-poema, quase do porte de uma assertiva, de uma sentença. Há linearidade, apesar das quebras de versos (não ou nunca casuais): as quebras neste caso têm valor gráfico-métrico (fazer com que os versos fiquem mais ou menos do mesmo cumprimento), mas essa duração não precisa ser exata e sim estar combinada com blocos (mais ou menos) de sentido.

O humor é algo presente nas poesias de Leminski, como também o caráter aforístico de muitas de suas poesias. Buscam ser "boas sacadas", quebrando a gravidade de certa tradição poética (romântica). Questiona os limites do gênero: o que pode e o que não pode ser poema? Lembro-me de uma frase do Umberto Eco, mais ou menos assim: "poema é tudo aquilo que muda de linha antes da página terminar". Nesse sentido, poema não é o que contém poesia (algo mais geral, que podemos chamar de "metáfora"), mas qualquer coisa que seja dito que é poesia (há poeticidade em tudo, assim); e que também cumpra aquele critério de estruturação.

Mas, não vou me deter tanto a uma análise literária e estilística de Leminski. Pus o que acho essencial para colaborar com a compreensão deste poema, ou deste aforismo. Também não vou me deter no título do poema; muitos títulos servem para dispersar nossa atenção, embora aqui o título se referia também a "X ser Y" (e que "incenso" e "música" são alcançados pela percepção).

Interessa-me discutir brevemente como a forma do que está escrito é motivada pelo significado, a saber, o tema do texto. O texto fala da transformação inesperada de algo que está (ou estava) - sem pretensões - sendo o que deveria ser. A expressão "a gente" é subentendida uma vez e expressa logo depois:

isso de (a gente) querer ser
exatamente aquilo
que a gente é

Em seguida, aparece "nos".

ainda vai
nos levar além

Os gramáticos tradicionais ferrenhos ou os que pensam que entendem de coesão e coerência dirão que Leminski falha ao mudar o personagem: "a gente" seria um coletivo singular (3a pessoa), enquanto que "nos" seria um pronome plural (1a pessoa), sendo ruim (ou errado) que as duas ocorrências estivessem se referindo a um mesmo ser.

Entretanto, as duas expressões podem ter um mesmo referente, e é o caso aqui. Não se trata de uma falha, e sim de uma transformação (aquele "além") do "a gente" em "nós", e é exatamente de uma transformação inesperada que o texto está falando. "A gente" vai sendo (por duas vezes), despretensiosamente, até ser levada além, em "nós", na forma átona "nos", por causa do contexto em que aparece e também para reforçar que está sendo levado, que é o "objeto" (direto) dessa mudança inadvertida. Despretensiosa e inesperada, a mudança engana até o leitor. Aliás, outra coisa que o texto pode estar querendo refletir é: qual é o ponto de mutação, qual o marco a partir do qual dizemos que uma coisa é outra coisa?, se uma coisa converteu-se expressamente em outra e o leitor não percebeu?

Outro aspecto é que "a gente" pode soar como algo um pouco mais abstrato (pode se referir a "nós" ou "a gente" em geral, isto é, "as pessoas"), e se transforma, concretizando-se, em algo que diz respeito a este "nós", ou seja, diz respeito ao autor (ou ao eu-lírico) e a outro(s) englobado(s), podendo, no caso, ser o(s) leitor(es). Isto é, inesperadamente algo que se diz não se sabe se de outrém ou se de nós pode se tornar próximo, transformar-se, despretensiosamente, em algo que se diz sobre nós (aquele que diz mais outro ou outros).

Até pelo fato de não haver sujeito expresso para "querer ser", há até a possibilidade deste lugar estar ocupado (diferentemente do que dissemos antes, numa leitura menos óbvia) não por "a gente" o sujeito, mas por um outro sujeito arbitrário:

isso de (um outro) querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

É claro que, assim, o sentido ficaria um pouco alterado, em relação à análise que eu (eu mesmo) vinha construindo, e por isso nem vou aprofundar (deixo para o leitor fazê-lo). Mas, no fundo, é um pouco do que o texto está dizendo (e poema e aforismo são gêneros que tendem a forçar lacunas de sentido que favoreçam a polissemia): a conversibilidade inesperada não só de um "eu" ("nós") em "outro" ("outros"), como recíproca, também de um "outro" ("outros") em "eu" ("nós").

Relacionada ao plano do conteúdo, o texto traz um ardil no plano da forma. Neste caso, o conteúdo significa mais com a forma trabalhando a seu favor, e a forma tem razão de ser quando relacionada ao conteúdo do dito.

Guaraná: A Flôr de Zíaco do Amazonas












Esta imagem é uma foto de uma placa genial à porta de um estabelecimento comercial. Leia o texto de Sírio Possenti discutindo esta inculta e bela "flôr".

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Chávez: reagi a ato 'grosseiro' do Congresso Brasileiro

O título da postagem deveria ser "Aspas das aspas", mas, como aqui sempre parto de uma frase para analisar, coloquei a frase-objeto deste texto. Essa frase é exatamente uma manchete do Yahoo!Notícias em 03/06/2007. As aspas podem servir para várias coisas: somente destacar uma expressão, indicar que ela é de origem estrangeira... Mas, vou me deter a um tipo específico de sublinhamento: as aspas que marcam que a expressão destacada é de outra origem, a saber, marcam a expressão como sendo a) ou de outro autor / outra obra, b) ou de um outro lugar discursivo que o autor reconhece ou intui e do qual pretende se distanciar. Não vou aqui destacar (o que seria importante) as condições de produção deste dizer (indico a leitura daquela matéria e de outras circunvizinhas); no nível basicamente lingüístico, conseguimos supor que Chávez estaria retomando (verbo no pretérito perfeito) algo que disse e/ou fez em relação a um dito e/ou feito inicial do Congresso Brasileiro. Estou aqui interessado no aspeamento da palavra "grosseiro".

Ora, na manchete, o nome "Chávez" e os dois pontos já indiciam quem falará, ou pelo menos abre a possibilidade de indicar, confirmada na sequência: "reagi" inclui um "eu", que deve ser atribuído a "Chávez", porque Chávez é aquele que estaria dizendo, uma vez que nenhum outro possível "eu" é indicado. Então, o enunciado depois dos dois pontos seria inteiro atribuído a Chávez, e não somente "grosseiro". Isso quer dizer que seria esperado que: 1) ou toda a fala fosse aspeada, 2) ou não se aspeasse nada. Por que só "grosseiro" estaria entre aspas? Como assim, aspas das aspas? Como assim, se toda a fala é do Chávez e não só "grosseiro", se as aspas neste caso não parecem cumprir a função de indicar origem estrangeira, se não parece corriqueiro os veículos de imprensa escrita relevarem à toa uma palavra, em especial em uma manchete, por convenção inclusive gráfica?

Na verdade, há um outro locutor aqui além do Chávez, como se fosse o jornalista-autor (que não assina), o editor ou o "próprio" portal de notícias personificado. E este outro locutor traz para a cena um outro enunciador: aquele que considera que a palavra "grosseiro" está fora de lugar. Estes "outros" estão sempre presentes, interferindo no autor, mas naquela manchete deixam-se ver, denunciam-se, tornam-se espessos, e talvez esse seja um ótimo material para que desenrolemos, de maneira explícita e não banal, considerações acerca do caráter ideológico, e não puramente informativo, da imprensa, e, por que não dizer?, de outros domínios.

De certa forma, as aspas tentam caracterizar o desequilíbrio de Chávez, sendo possível disso derivarmos que Chávez é sempre desequilibrado, e isso pode ser ao mesmo tempo a origem e a chegada (intertextualmente, no interior de uma mesma formação discursiva) de outras críticas mais ideológicas, como, por exemplo, as que associem a (falta de) política de Chávez a uma seqüência de atos insanos. Aqui, a análise das condições de produção se faz imprescindível, mas, por economia de espaço, deixo para o leitor, aberta, esta lacuna.

Há, então, naquela manchete, uma interferência de um outro locutor (alguém do site de notícias ou o "próprio" site) e de um outro enunciador (o discurso politicamente correto, e, aprofundando, até o de uma formação discursiva, heterogênea, que engloba anti-reformismo, anti-socialismo, republicanismo, liberalismo etc., cuja síntese seria o anti-chavismo) na fala do Chávez, aqui não tão pura, embora a ele atribuída como pura. Pois, se Chávez de fato disse (ou mesmo escreveu) aquela frase, não deve ter colocado aspas em "grosseiro".

Sabemos que as entrevistas e os excertos de fala nem sempre são a transcrição fiel da fala-fonte. Há recortes, paráfrases e, algumas vezes, paródias. Interessante percebermos que duvidamos de todas as palavras da manchete, menos de "grosseiro"; ou seja, mesmo que Chávez não tenha dito aquelas exatas palavras (em espanhol, é claro), naquela exata ordem, pressupomos que ele tenha dito algo e algo que segue a idéia geral da fala, e que dentro do que ele disse havia a palavra "grosseiro" (o corpo da matéria diz que Chávez teria dito "comunicado grosseiro", e não "ato grosseiro" como traz, talvez por questão de economia gráfica, a manchete). Isso talvez porque seja uma palavra demasiado marcada, incomum ao meio jornalístico e ao meio político; se uma palavra assim aparece, não deve ser fortuita.

sábado, 26 de maio de 2007

O homem é um animal que ri. E rindo ele mostra o animal que é.

O título é citação de Millôr Fernandes. O primeiro período traz uma fórmula batida: o homem é um (ou o único) animal que alguma coisa. Que pensa, que fala, que trabalha, que sabe que vai morrer, etc. A relação interfrástica com o que se segue (E rindo ele mostra o animal que é) vem de certa forma desmentir a primeira parte, como se o texto nos dissesse, metalingüisticamente, nas entrelinhas: "espere, não leve muito a sério a primeira parte". Será?

Tudo bem, há esse aspecto de quebrar a seriedade do enunciado, fazendo aproximar 1) o ethos do autor, 2) o sentido do texto e 3) o seu tema, sendo o denominador comum desses três aspectos o humor. A leitura que fazemos a seguir entende que a primeira parte não estabelece com a primeira uma relação paradoxal, e sim de complexificação, e nessa complexificação é possível achar graça. Só acharemos graça se entendermos a expressão, ou seja, se a levarmos a sério.

A primeira parte da expressão já foi enunciada por outros filósofos, ou podemos imaginá-la sendo: o enunciador genérico é um ser filósofo ou a própria voz da filosofia. Ao engendrar isso, o autor estabelece essa cena filosófica, complexificada na sengunda parte da expressão, que de certa forma desbanca a primeira. A segunda parte também pode ser atribuída ao pensamento filosófico, embora sua afirmação contraditória à primeira nos quebre o óbvio e nos conduza ao humor e embora não reconheçamos sua estruturação como um óbvio da filosofia, como a primeira (O homem é...). Na primeira parte, "homem" é diferente dos outros animais, sendo o elemento diferenciador o ato de rir; e, por pressuposto, embutimos o ato de pensar, sendo o ato de rir mais complexo que aquele que lhe serve de base (o pensar). Como se o texto dissesse: "tudo bem que outros animais também pensem, mas só o homem, depois de pensar, ri". Na segunda parte, "ele" retoma "homem" e agora aproxima-o a "animal irracional".

Em "Elogio da Loucura", Erasmo de Roterdã aproxima loucura e riso: o homem não como o de Descartes, mas a porção animal do homem expressa na loucura de uma forma geral e nos seus modos, como a vaidade, o prazer carnal e, também, o riso. O teatro de Anchieta é uma tentativa de catequisar índios pela via sensória do teatro, da dança e da festa (e também da graça humana, não só a de Deus), se pela razão e só pela palavra seria demais para "selvagens". Também a expressão latina "Ridenti castigat mores" (Rindo se corrige a moral) dá idéia de que o humor encena e exige do receptor uma reflexão. Assim também a teoria da metáfora e muito da retórica vai buscar mostrar que uma imagem vale mais que mil palavras, e muitas vezes vai-se defender que o humor é uma imagem exacerbada. Estabelecemos dois macro-discursos filosóficos, que, logicamente, se interagem, interdiscursivamente: um da primazia da razão e outro da primazia dos sentidos.

O parágrafo anterior aponta caminhos, porque aprofundar muito e lapidar a redação não é objetivo neste blog. Creio que as bases de minha chave de leitura para a expressão de Millôr está dada, por isso posso concluir. A primeira parte da expressão aponta uma diferença do homem para com outros animais; uma diferenciação importante, embora sempre possamos dizer que outros animais também riem (ou que também pensam, ou que também falam, etc.), porque é constitutivo deste tipo de expressão generalizante que o leitor tente contestá-la. A segunda parte diz que, por rir, o homem ameniza o seu lado racional, ou melhor, lança mão dele para algo mais prazeroso (daí imaginarmos um pressuposto: o homem é um animal que pensa), e exacerba seu lado sensório, aproximando-se por isso dos outros animais, que, diferente do homem (e daí o nó circular da expressão), não riem. Ao rir, o homem se difere e se aproxima dos outros animais.

A boa sinteticidade da expressão traz margem para outras leituras, embora eu não as prefira. A primeira leitura é pela via da redundância: O homem é um animal que e, por rir, mostra que é um animal diferente dos outros. Essa leitura se alinha com um discurso muito tradicional.

É possível ainda uma leitura de forma a apartar totalmente pensamento e riso. Aí, "riso" teria o sentido de "escárnio". Por exemplo, por não pensar, o homem ri, debocha do seu semelhante, animaliza-se. "Riso" poderia ter um sentido mais amplo e se aproximar do prazer decorrente de atos então considerados "irracionais", como a tortura, o genocídio, coisas que só o homem (animalizado, ou, o pior dos animais) pode fazer.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Perfugae patriam non amant

Quero desenvolver aqui um ponto que era periférico na postagem "Apanhando do sujeito". Me refiro a um exercício do livro "Gramática Latina", de Napoleão Mendes de Almeida (29ª ed. SP: Editora Saraiva, 2000). O livro pedia para traduzir para o latim a frase "Os desertores não amam a pátria" (o título deste artigo é a tradução esperada pelo livro). Quero dizer que, assim como no quadro de Magritte, "Ceci n'est pas une pipe" (ver nota 1, ao final), ou, isso não é só um exercício de latim.

Nenhum exemplar a que tive acesso, nem site de internet, precisou a data da primeira edição, mas suponho que seja meados da década de 1950. Sendo esta data, quero considerar aqui suas reedições, principalmente as da década de 1960 e 1970 (o livro é reeditado até hoje, considerado ainda o mais completo manual de latim escrito em língua portuguesa - e em latim). Lembrando que para a Análise do Discurso e para semânticas como a do Acontecimento, devemos falar em um passado, um presente e, até, um futuro de um dizer. Ou seja, um dizer é resultado de uma atualização de um passado (ainda que deslocada ou deslocando-se) em seu presente, que não se cessa no seu presente mas instaura um futuro. Estou secundarizando neste texto a ênfase na intencionalidade (ainda que possa haver uma) totalmente consciente do autor, e também não quero e não tenho condições de aprofundar isso.

Neste percurso histórico de um dizer, ele se relaciona com a história externa, ainda que entendamos "externa" somente como "outros enunciados aproximáveis". O exercício de latim em questão ganha um outro caráter após o golpe (para outros, revolução) de 1964. Coloquemos em intertextualidade esse enunciado com outro: "Brasil, ame-o ou deixe-o" era o slogan (grafado ao lado de uma bandeira do Brasil) da máquina militar de propaganda. Este dito tinha por objetivo classificar os revoltosos (em especial os de linhas socialistas, comunistas e anarquistas) como anti-patrióticos. E, de fato, os revoltosos o eram (ou, talvez, a-patriotas), mas as suas razões, obviamente, eram silenciadas pela máquina de propaganda. Podemos marcar algumas dessas razões: o sentido internacionalista dos movimentos comunistas e anarquistas, as ditas atrocidades militares que para os revoltosos eram encobertas pela bandeira nacional.

O discurso da ditadura queria significar os desertores como inimigos da pátria e, por metonímia, inimigos do povo desta pátria, e até mesmo do "Deus" desta (ou daquela, ou da dos militares) pátria. Proponho que este discurso se inscreve em um mesmo campo discursivo do sentido "por trás" (mas não tão por trás assim) daquela frase do manual de latim. Até termos idênticos ou similares se repetem no exercício e no slogan militar: amar, amar; pátria, Brasil; porque não caberia ao exercício do livro falar em Brasil se a língua estudada é anterior ao Brasil inventado a partir de 1500. Se não estamos falando em intenção plenamente consciente de qualquer sujeito, ou de falante, ou de autor, ou do Napoleão Mendes de Almeida, faz muito menos sentido dizerem que estamos acusando o autor por uma previsão de um fato futuro. Estou falando de discurso, de ideologia. Outra coisa: não consegui a primeira nem todas as edições da "Gramática Latina" para saber se o exercício em pauta estava sempre lá ou foi incorporado tardiamente; na 19ª (1983) e na 29ª edição (2000) o exercício estava lá. Isso é algo importante, mas, seja como for, parece adequado dizermos que aquele exercício de latim não fazia parte dos enunciados censuráveis pela ditadura, e talvez por isso mesmo não foi aquele exercício (ou mesmo todo o livro) interditado.

É interessante lembrar o bordão (também interdiscursivo, porque há interdiscursividade na contestação) dos insatisfeitos em resposta ao slogan patriótico dos militares: "O último que sair apague a luz", bordão que queria fazer acreditar que eram muitos os descontentes e / ou que não se fazia questão de estar em uma pátria qualquer, ou, mais especificamente, em uma pátria cujos chefes são os militares pró-capitalismo estadunidense (aqui há a posição de que não eram apenas militares, ou apenas militares patrióticos). Falta só dizer que muitos desses "desertores" não deixaram a pátria por não a amarem, mas porque foram obrigados (direta ou indiretamente) a se exilar, ou a deixar a pátria dos vivos para uma pátria perdida, de um Céu, de um Inferno, de um Hades ou de um nada.

É verdade que a os livros didáticos escolares estão cada vez mais abordando estudos de texto e menos de frases soltas. Diz-se até que é uma tendência: estaríamos nos libertando cada vez mais das tais frases soltas. Mas, é bom lembrar, para alguns propósitos as frases soltas podem ser interessantes, principalmente em discussões decorrentes de ramos da lingüística como os da sintaxe e da semântica, a unidade principal de análise é a frase (Guimarães & Zoppi-Fontana, orgs. "A palavra e a frase"). Devemos nos perguntar sobre a natureza dessas frases. O que fizemos neste artigo pode ser aplicado a livros didáticos em geral, inclusive os de ensino fundamental. Se um exercício pede para encontrar sujeito, predicado, substantivo e adjetivo usando uma frase do tipo "O bom aluno obedece a professora", há um discurso da ordem que engendra uma lição de moral; ísso não é só um exercício de gramática.

Nota (1): "Isto não é um cachimbo", René Magritte.