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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
O juiz (Fernando Bonassi)
Tenho cargo. Tenho poder. Tenho a lei. Tenho sobrenome. Tenho motorista. Tenho manobrista. Tenho hérnia. Tenho datilógrafas. Tenho descontos. Tenho clientes. Tenho salário. Tenho crédito. Tenho ajuda de custo. Tenho verba de representação. Tenho segurança. Tenho saco pra tudo, desde que cifrado nos autos. Minha toga lavo escondido dos outros, entre os meus iguais. Tenho o direito. Tenho presentes (não tenho passado). O futuro, ao Supremo pertence. Se me ofendo, meto um processo pra escapar disso tudo. Data vênia: quanto à justiça, favor reclamar com bispo comunista, ou exército golpista.
sábado, 23 de maio de 2009
Conclusão: Existem gatos que são aquáticos!
(Fundação Carlos Chagas - Concurso TRT-PR / 2004) Observe a construção de um argumento:
Premissas: Todos os cachorros têm asas.
Todos os animais de asas são aquáticos.
Existem gatos que são cachorros.
Conclusão: Existem gatos que são aquáticos.
Sobre o argumento A, as premissas P e a conclusão C, é correto dizer que
(A) A não é válido, P é falso e C é verdadeiro.
(B) A não é válido, P e C são falsos.
(C) A é válido, P e C são falsos.
(D) A é válido, P ou C são verdadeiros.
(E) A é válido se P é verdadeiro e C é falso.
Comentários:
Dizem que todo poeta (inclusive os formais) e todo linguista (exceto os formais) são inimigos da lógica. Penso, entretanto, que esses poetas e linguistas querem o rigor da lógica para lutar contra a lógica.
Ironias à parte, convém ressaltar que a linguistica tem seus méritos ao desbancar a lógica e defender que a língua tem uma lógica própria, ou uma falta própria de lógica. E a poesia também.
Conheço amigos da área de exatas que me disseram que, após estudar lógica, passaram a dominar melhor a língua. Sei lá, acho que passaram a se enganar na língua de um jeito diferente. A lógica pode ser muito útil à linguagem matemática e computacional, mas encontramos na língua um sem-número de falhas a desmentir a lógica.
Esse mesmo amigo disse que a língua portuguesa era falha, pois, quando dizemos "Eu não vi nada", uma negação anularia a outra, resultando em uma afirmação: "Eu vi algo".
Puxa, que pensamento rasteiro. A lingua é falha sim, mas não só a língua portuguesa. E, graças às falhas da língua, vemos que a lógica também é falha. Inclusive, a dupla negação também existe no francês: "Je ne .... pas...". A dupla negação talvez seja mais uma "ratificação" da negação do que uma "retificação" dela.
Interessante dizer que, mesmo a gramática gerativa - formal por natureza - não é tão formalista quanto esse meu amigo lógico, pois ela considera "Eu não vi nada" como uma frase com sentido de negativa e busca formalizar (às vezes) explicações para esse tipo de construção.
Bom, vamos à questão que abre esse post.
Um argumento pode ser válido ou inválido. Será válido se sua conclusão for resultado necessário de suas premissas.
Sobre as premissas e a conclusão, podem ser verdadeiras ou falsas.
Assim, temos na questão acima que as premissas e a conclusão são falsas e o argumento como um todo é válido(!). Isso porque a lógica diz não se preocupar com a verdade das coisas (sempre refutáveis), mas com a estrutura formal.
Entretanto, para responder à questão, é preciso saber que, no mundo, cachorros não têm asas, que nem todo animal de asa é aquático, que não existe gato que seja cachorro e que não existe gato aquático.
A validade do argumento parte do pressuposto de aceitação das premissas. Falsas ou verdadeiras, as premissas são aceitas e, se não contraditórias entre si, delas resultar uma conclusão sempre inequívoca, o argumento como um todo será válido.
Para acharmos a validade do argumento, podemos construir conjuntos (seria melhor desenhá-los):
Premissa 1 - Todo cachorro está contido no conjunto dos animais com asas; (Desenhe um círculo dos cachorros dentro do círculo dos animais com asas)
Premissa 2 - Todo animal com asa está contido no conjunto dos animais aquáticos; (Desenhe um círculo dos animais aquáticos abarcando todos os animais com asas; logo, abarcando também todos os cachorros)
Até agora, concluímos que todo cachorro é animal aquático, pois, se os cachorros estão dentro do conjunto dos animais com asas, e os animais com asa estão dentro do conjunto dos animais aquáticos, todo cachorro pertence ao conjunto dos animais aquáticos.
Premissa 3 - Sabendo que existem alguns gatos que são cachorros, e sabendo que todo cachorro é aquático,
Conclusão - Concluímos que alguns gatos (pelo menos aqueles que são cachorros) são aquáticos.
A conclusão é decorrência necessária das premissas, pois não é possível que algum gato não seja cachorro. Assim, o argumento como um todo é válido, apesar de as premissas e a conclusão serem falsas.
Gabarito C.
E se a conclusão fosse: "Existem gatos que não aquáticos"?
Essa conclusão não seria necessariamente verdadeira; o que se sabe é que há gatos aquáticos, mas a questão não disse se, além desses, existem outros gatos. Estaríamos diante, portanto, de um sofisma, isto é, uma cadeia argumentativa cuja conclusão não é resultado necessário das premissas.
O mesmo ocorreria com "Não existem gatos aquáticos".
quinta-feira, 21 de maio de 2009
American (a)way of life
O texto abaixo (sem o título deste post no original) é um trecho do livro de Ralph Linton.
O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.Fonte: LINTON, Ralph. O homem: Uma introdução à antropologia. 3ed., São Paulo, Livraria Martins Editora, 1959.
Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.
De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.
Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano.
sábado, 16 de junho de 2007
Para riso travado, recomendo a Veja
Esse texto é do Dom Quixote De La Prensa, um dos autores do site Brasil Wiki! O "apelido" retoma não só o nome de Dom Quixote De La Mancha, mas também sua insatisfação e seu reconhecimento da grandiosidade do combate (que outros tenham por imaginário); no caso do De La Prensa, combate não com moinhos, mas com a grande ímprensa. Reproduzo o texto (engraçado e interessante) abaixo, na íntegra. Ao final, uma apresentação do autor, de responsabilidade do mesmo.
Para riso travado, recomendo a Veja (05/06/2007)
Está muito engraçada a Veja desta semana. Acho que vou começar a recomendar a revista para quem está com o riso travado. Como eu parei com as drogas, só fiquei sabendo do assunto porque um amigo recebe a revista de graça e me contou. Uma das reportagens internas tem o seguinte título: Viva o movimento estudantil. Mas a linha fina explica: da Venezuela.
Quer dizer, o movimento estudantil que protesta contra o José Serra não merece uma reportagem digna, explicativa, com a opinião de todos os lados, para que o leitor faça o melhor julgamento. Mas o que protesta contra o Chávez merece todo destaque. Não vou nem me alongar no comentário, está tudo muito claro. Sou contra a proibição das drogas, o leitor é que deve escolher.
Aliás, o Estragão desta terça-feira tem outro factóide do presidente eleito José Serra, (como diz o Paulo Henrique Amorim). Nenhum repórter sequer foi acossá-lo para que explique a crise da autonomia universitária. Mas mandaram cobrir o lançamento de um programa para acabar com as queimadas nos canaviais paulistas, programa que já existe há algum tempo.
Dom Quixote de la Prensa
Um jornalista que vive há mais de 17 anos dentro da fábrica de produtos de lavagem cerebral, nesse jornalismo que sonega informações e manipula a opinião do leitor. Sou um jornalista que acredita na informação como um direito do cidadão, não como mercadoria ou instrumento de deformação do pensamento. Enfim, um Dom Quixote, romântico, idealista, louco, ridículo e incurável. Que teme se identificar e perder o emprego por ter cometido o que em ditaduras se chama de crime de opinião.
Para riso travado, recomendo a Veja (05/06/2007)
Está muito engraçada a Veja desta semana. Acho que vou começar a recomendar a revista para quem está com o riso travado. Como eu parei com as drogas, só fiquei sabendo do assunto porque um amigo recebe a revista de graça e me contou. Uma das reportagens internas tem o seguinte título: Viva o movimento estudantil. Mas a linha fina explica: da Venezuela.
Quer dizer, o movimento estudantil que protesta contra o José Serra não merece uma reportagem digna, explicativa, com a opinião de todos os lados, para que o leitor faça o melhor julgamento. Mas o que protesta contra o Chávez merece todo destaque. Não vou nem me alongar no comentário, está tudo muito claro. Sou contra a proibição das drogas, o leitor é que deve escolher.
Aliás, o Estragão desta terça-feira tem outro factóide do presidente eleito José Serra, (como diz o Paulo Henrique Amorim). Nenhum repórter sequer foi acossá-lo para que explique a crise da autonomia universitária. Mas mandaram cobrir o lançamento de um programa para acabar com as queimadas nos canaviais paulistas, programa que já existe há algum tempo.
Dom Quixote de la Prensa
Um jornalista que vive há mais de 17 anos dentro da fábrica de produtos de lavagem cerebral, nesse jornalismo que sonega informações e manipula a opinião do leitor. Sou um jornalista que acredita na informação como um direito do cidadão, não como mercadoria ou instrumento de deformação do pensamento. Enfim, um Dom Quixote, romântico, idealista, louco, ridículo e incurável. Que teme se identificar e perder o emprego por ter cometido o que em ditaduras se chama de crime de opinião.
terça-feira, 22 de maio de 2007
O estudo de latim nos cursos de letras
Este texto foi escrito para o Boletim da Faculdade Comunitária de Indaiatuba (FAC / Anhanguera). Embora não tenha nada a ver com humor, espinha dorsal deste blog, reproduzo o texto aqui.
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O latim foi praticamente abolido do quadro de disciplinas do ensino básico no Brasil. Permanece como matéria obrigatória nas faculdades de letras. Mas, que língua é essa? Por volta do ano 500 d.C. já não se falava mais o latim, pelo menos não o mesmo latim. A queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) é usada como marco desse término, uma vez que a dispersão dos territórios com a vitória dos povos bárbaros traz também uma dispersão lingüística: o latim acelera seu processo de transformação, resultando (em torno do século VI) nos proto-romances, que por sua vez dariam origem às chamadas línguas neolatinas (por volta do ano mil).
Entre as neolatinas, as mais conhecidas para nós são as que se converteram em línguas nacionais, como os atuais italiano, francês, espanhol e português; em virtude dessa origem comum, aquelas três primeiras línguas são as mais fáceis de serem apreendidas por nós, falantes de português. As quatro línguas citadas pertencem ao oeste europeu, região que Roma não só dominou econômica e militarmente (como no resto do mundo conhecido, desde o século II a.C. até a queda), mas também influenciou culturalmente, através da língua, da cultura greco-romana e, depois do século IV, através da difusão do catolicismo.
Mas, mesmo no auge do Império, o latim não era um só. Afirma-se que existiam um latim clássico (inspirado em grandes escritores como Cícero, César, Salústio etc., latim escrito e próximo do que era falado pelas elites romanas) e um latim vulgar (latim falado pelas camadas populares; vulgar não em sentido pejorativo; vulgo quer dizer povo). Foram os soldados, os administradores e os trabalhadores romanos em geral que expandiram o Império. Eles levavam a língua que conheciam (o latim vulgar) e se assentavam muitas vezes definitivamente na nova região. Foi da modalidade vulgar do latim que surgiram as línguas neolatinas. Por exemplo, a palavra orelha vem da forma vulgar oricla, rechaçada pelo latim clássico, que mantinha auricula. Entender uma língua como histórica, como resultado de um processo lento de mudanças e relacionada a aspectos ideológicos e políticos parece ser uma das contribuições do latim para a formação dos professores de língua(s).
O preconceito lingüístico atual contra o modo de falar das camadas populares poderia ser questionado se todos (e os gramáticos da TV) soubéssemos que a nossa língua “correta” é resultado de uma sucessão de “erros” do latim. E que não há um jeito único de falar a língua portuguesa (como não havia para o latim), se ela se apresenta de modos diferentes: oral e escrito; formal e coloquial; variando de região para região; variando em razão da camada ou do grupo social. Outra coisa: podemos traçar um paralelo entre o poderio do Império Romano e a hegemonia de um outro império nestes tempos capitalistas: o Império Norte-Americano. O filme “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960), baseado no livro homônimo de Howard Fast (1952), retrata a revolta de gladiadores e de outros escravos contra a dominação romana e é uma crítica indireta ao Império Norte-Americano, que censurava duramente na década de 1950 e 1960 (e hoje?) pessoas e movimentos anti-capitalistas, nos EUA e no mundo.
O critério muitas vezes usado para caracterizar o latim como uma língua morta tem sido o fato de nenhuma pessoa viva o ter como língua materna. Porém, muito depois do ano 500 d.C. (depois de “morto”), o latim clássico continuou sendo a principal língua de cultura do Ocidente. Os trabalhos universitários, os tratados de medicina, matemática, direito e filosofia eram escritos ou reeditados em latim clássico; isso com freqüência até por volta dos séculos XVII e XVIII (depois, as línguas neolatinas passaram a gozar de maior dignidade), e em algumas universidades européias ainda é facultado redigir trabalhos em latim. O Império, que antes perseguia os cristãos, primeiro permite o cristianismo e depois o adota (por Constantino, 314 d.C.) como credo oficial, na esperança de ganhar as massas e camuflar sua decadência; com isso, a Igreja Católica (Apostólica Romana, diga-se) se consolida e toma o latim como sua língua oficial, o que permanece até os nossos dias. Além do mais, o latim está de certa forma vivo nas línguas neolatinas e em outras línguas. Estima-se que o inglês, que não é uma língua neolatina e sim da família anglo-saxã, tenha cerca de 70% de seu léxico (vocabulário) derivado do latim, resultado da época do domínio francês em parte da Bretanha. Essa origem comum faz com que muitas palavras do inglês nos sejam cognatas (identificáveis).
O estudo da etimologia (origem das palavras) é outro aspecto interessante para a formação do professor de português. Um dos dilemas dos estudantes é a ortografia: por que se escreve discípulo, máximo, cidade, sempre e libertação usando letras diferentes para um mesmo fonema /s/? A resposta é que a ortografia, no Brasil padronizada a partir do século XIX e principalmente durante o século XX, muitas vezes buscou recuperar a origem latina das palavras. Em latim tínhamos discipulus, maximus, ciuitas, semper e liberatio, sendo que as letras grifadas representavam sons diferentes, que começaram a coincidir na passagem do latim vulgar para o galego-português. As mudanças do latim vulgar para cada uma das línguas neolatinas não ocorreram de qualquer jeito, mas seguindo certas regularidades. Por exemplo, no português tivemos quase sempre a queda do -l- e do -n- intervocálico, isto é, entre vogais (manus>mão; color>coor>cor), fenômeno que não ocorreu no espanhol (manus>mano; color>color). Em português, o pl- em início de palavra vira ch- (pluvia>chuva; planus>chão), enquanto que no espanhol vira ll- (lluvia; llano). Não vamos nos estender nos exemplos, que são matéria de lingüística histórica, também estudável nas aulas de latim. Interessa para o professor de língua(s) saber dessas regularidades, inclusive porque é mais fácil estudar as línguas neolatinas e até mesmo o inglês quando se conhece um pouco da origem das palavras.
Falei sobre palavras e não vou me ater ao estudo da sintaxe (frase). Vale mencionar somente que as análises sintáticas feitas a partir do latim são de certa forma relacionáveis ao português. Podemos refletir sobre semelhanças e diferenças entre latim e português no que diz respeito às classes de palavras (substantivo, adjetivo, verbo...), aos diferentes papéis sintáticos dos elementos da oração (sujeito, objeto direto e indireto, complemento, adjunto; ordem das palavras), aos tempos e modos verbais, às marcações de caso, enfim... Por isso e pelo que disse no decorrer do texto, acredito que a disciplina de latim, quando no início do curso, pode servir como uma boa introdução aos estudos da linguagem.
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O latim foi praticamente abolido do quadro de disciplinas do ensino básico no Brasil. Permanece como matéria obrigatória nas faculdades de letras. Mas, que língua é essa? Por volta do ano 500 d.C. já não se falava mais o latim, pelo menos não o mesmo latim. A queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) é usada como marco desse término, uma vez que a dispersão dos territórios com a vitória dos povos bárbaros traz também uma dispersão lingüística: o latim acelera seu processo de transformação, resultando (em torno do século VI) nos proto-romances, que por sua vez dariam origem às chamadas línguas neolatinas (por volta do ano mil).
Entre as neolatinas, as mais conhecidas para nós são as que se converteram em línguas nacionais, como os atuais italiano, francês, espanhol e português; em virtude dessa origem comum, aquelas três primeiras línguas são as mais fáceis de serem apreendidas por nós, falantes de português. As quatro línguas citadas pertencem ao oeste europeu, região que Roma não só dominou econômica e militarmente (como no resto do mundo conhecido, desde o século II a.C. até a queda), mas também influenciou culturalmente, através da língua, da cultura greco-romana e, depois do século IV, através da difusão do catolicismo.
Mas, mesmo no auge do Império, o latim não era um só. Afirma-se que existiam um latim clássico (inspirado em grandes escritores como Cícero, César, Salústio etc., latim escrito e próximo do que era falado pelas elites romanas) e um latim vulgar (latim falado pelas camadas populares; vulgar não em sentido pejorativo; vulgo quer dizer povo). Foram os soldados, os administradores e os trabalhadores romanos em geral que expandiram o Império. Eles levavam a língua que conheciam (o latim vulgar) e se assentavam muitas vezes definitivamente na nova região. Foi da modalidade vulgar do latim que surgiram as línguas neolatinas. Por exemplo, a palavra orelha vem da forma vulgar oricla, rechaçada pelo latim clássico, que mantinha auricula. Entender uma língua como histórica, como resultado de um processo lento de mudanças e relacionada a aspectos ideológicos e políticos parece ser uma das contribuições do latim para a formação dos professores de língua(s).
O preconceito lingüístico atual contra o modo de falar das camadas populares poderia ser questionado se todos (e os gramáticos da TV) soubéssemos que a nossa língua “correta” é resultado de uma sucessão de “erros” do latim. E que não há um jeito único de falar a língua portuguesa (como não havia para o latim), se ela se apresenta de modos diferentes: oral e escrito; formal e coloquial; variando de região para região; variando em razão da camada ou do grupo social. Outra coisa: podemos traçar um paralelo entre o poderio do Império Romano e a hegemonia de um outro império nestes tempos capitalistas: o Império Norte-Americano. O filme “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960), baseado no livro homônimo de Howard Fast (1952), retrata a revolta de gladiadores e de outros escravos contra a dominação romana e é uma crítica indireta ao Império Norte-Americano, que censurava duramente na década de 1950 e 1960 (e hoje?) pessoas e movimentos anti-capitalistas, nos EUA e no mundo.
O critério muitas vezes usado para caracterizar o latim como uma língua morta tem sido o fato de nenhuma pessoa viva o ter como língua materna. Porém, muito depois do ano 500 d.C. (depois de “morto”), o latim clássico continuou sendo a principal língua de cultura do Ocidente. Os trabalhos universitários, os tratados de medicina, matemática, direito e filosofia eram escritos ou reeditados em latim clássico; isso com freqüência até por volta dos séculos XVII e XVIII (depois, as línguas neolatinas passaram a gozar de maior dignidade), e em algumas universidades européias ainda é facultado redigir trabalhos em latim. O Império, que antes perseguia os cristãos, primeiro permite o cristianismo e depois o adota (por Constantino, 314 d.C.) como credo oficial, na esperança de ganhar as massas e camuflar sua decadência; com isso, a Igreja Católica (Apostólica Romana, diga-se) se consolida e toma o latim como sua língua oficial, o que permanece até os nossos dias. Além do mais, o latim está de certa forma vivo nas línguas neolatinas e em outras línguas. Estima-se que o inglês, que não é uma língua neolatina e sim da família anglo-saxã, tenha cerca de 70% de seu léxico (vocabulário) derivado do latim, resultado da época do domínio francês em parte da Bretanha. Essa origem comum faz com que muitas palavras do inglês nos sejam cognatas (identificáveis).
O estudo da etimologia (origem das palavras) é outro aspecto interessante para a formação do professor de português. Um dos dilemas dos estudantes é a ortografia: por que se escreve discípulo, máximo, cidade, sempre e libertação usando letras diferentes para um mesmo fonema /s/? A resposta é que a ortografia, no Brasil padronizada a partir do século XIX e principalmente durante o século XX, muitas vezes buscou recuperar a origem latina das palavras. Em latim tínhamos discipulus, maximus, ciuitas, semper e liberatio, sendo que as letras grifadas representavam sons diferentes, que começaram a coincidir na passagem do latim vulgar para o galego-português. As mudanças do latim vulgar para cada uma das línguas neolatinas não ocorreram de qualquer jeito, mas seguindo certas regularidades. Por exemplo, no português tivemos quase sempre a queda do -l- e do -n- intervocálico, isto é, entre vogais (manus>mão; color>coor>cor), fenômeno que não ocorreu no espanhol (manus>mano; color>color). Em português, o pl- em início de palavra vira ch- (pluvia>chuva; planus>chão), enquanto que no espanhol vira ll- (lluvia; llano). Não vamos nos estender nos exemplos, que são matéria de lingüística histórica, também estudável nas aulas de latim. Interessa para o professor de língua(s) saber dessas regularidades, inclusive porque é mais fácil estudar as línguas neolatinas e até mesmo o inglês quando se conhece um pouco da origem das palavras.
Falei sobre palavras e não vou me ater ao estudo da sintaxe (frase). Vale mencionar somente que as análises sintáticas feitas a partir do latim são de certa forma relacionáveis ao português. Podemos refletir sobre semelhanças e diferenças entre latim e português no que diz respeito às classes de palavras (substantivo, adjetivo, verbo...), aos diferentes papéis sintáticos dos elementos da oração (sujeito, objeto direto e indireto, complemento, adjunto; ordem das palavras), aos tempos e modos verbais, às marcações de caso, enfim... Por isso e pelo que disse no decorrer do texto, acredito que a disciplina de latim, quando no início do curso, pode servir como uma boa introdução aos estudos da linguagem.
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