Loading...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Diário de meus delírios (Poema: Getúlio Cardoso; Música: André Melo; Voz e violão: Paulo Vieira)

Criei coragem para postar esta música, que está entre minhas preferidas. O poema é do poeta e advogado Getúlio Cardozo, de Mococa (SP). Embora não queira representar a realidade, este poema reflete um pouco do dia a dia do Getúlio, que, entre um caso jurídico e outro, cai na literatura. Ou, como diz o poema, por sobre o "mar de Ulisses", ou por sobre o covil de seus poemas, jazem seus processos e sua vida pública.

A canção foi feita por André Melo, um cantor e compositor da cidade de Assis (SP). O André musicou alguns poemas do Getúlio e do Ricardo Flaitt, outro poeta mocoquense. Quando ouvi a canção do André, fiquei impressionado com a beleza da música e do violão, que se encaixaram muito bem na letra-poema do Getúlio.

Tentei, então, reproduzir um pouco do violão e gravar com minha própria voz. Infelizmente, não sei onde fui colocar a gravação (informal, num barzinho) que o André tinha feito. Enquanto isso, vai um trecho com minha voz desafinada (essa gravação tem mais de 3 anos; hoje em dia minha voz é pior).



DIÁRIO DE MEUS DELÍRIOS
Getúlio Cardozo e André Melo

São meus os cirros deste céu
São meus os cirros deste céu
Um pintor de paredes em meus ombros
pintou esses cirros em meu vergel

Minha também a glória desta pedra
e da eternidade, dela faço o que quero:
jardins decaídos ou primaveras

Tenho sobre o mar de Ulisses
ordenações, alvarás e veto
e o poema é meu covil secreto

Tenho na gaveta de minha escrivaninha
um édito lavrado a duras penas
com proibições sobre nardos e gardênias

Apodreceram em codicilos de velhas
(rotas de orvalho, murchas)
orquídeas, rosas, bromélias

Money for nothing - Dire Straits




MONEY FOR NOTHING (Mark Knopfler)

Now look at them yo-yo's that's the way you do it
You play the guitar on the MTV
That ain't workin' that's the way you do it
Money for nothin' and chicks for free
Now that ain't workin' that's the way you do it
Lemme tell ya them guys ain't dumb
Maybe get a blister on your little finger
Maybe get a blister on your thumb

We gotta install microwave ovens
Custom kitchen deliveries
We gotta move these refrigerators
We gotta move these colour TV's

See the little faggot with the earring and the makeup
Yeah buddy that's his own hair
That little faggot got his own jet airplane
That little faggot he's a millionaire

We gotta install microwave ovens
Custom kitchen deliveries
We gotta move these refrigerators
We gotta move these colour TV's

I shoulda learned to play the guitar
I shoulda learned to play them drums
Look at that mama, she got it stickin' in the camera
Man we could have some fun
And he's up there, what's that? Hawaiian noises?
Bangin' on the bongoes like a chimpanzee
That ain't workin' that's the way you do it
Get your money for nothin' get your chicks for free

We gotta install microwave ovens
Custom kitchen deliveries
We gotta move these refrigerators
We gotta move these colour TV's, Lord
Esse cara tem Money for Nothing e as garotas à vontade!!

Now that ain't workin' that's the way you do it
You play the guitar on the MTV
That ain't workin' that's the way you do it
Money for nothin' and your chicks for free
Money for nothin' and chicks for free

Três ressalvas, antes de começar meu (espero, breve) comentário sobre a canção:

1) A gravação não é do Dire Straits. Seu krunner até está no palco (o grande Mark Knopfler), junto com Eric Clapton, Sting e Phill Collins.

2) O melhor vídeo-clip não é o acima apresentado, mas o que vai ao final deste post. Escolhi o primeiro clip por causa que está legendado.

3) Está legendado, mas a tradução é fraca. No título, preferiria traduzir por "Dinheiro fácil", que seria uma tradução mais "direta ao ponto".

Vamos ao comentário, que se bastará a um (complexo) ponto. No clipe original (abaixo), vemos com mais clareza a figura dos "carregadores de móveis e eletrodomésticos", que aqui bem que poderiam ser "carregadores de piano". O ponto de vista da canção é o ponto de vista desses carregadores. Mas, por quê? Já que comecei o post levantando três ressalvas, vou manter o número cabalístico e elencar três motivos para a escolha desses "narradores", buscando demonstrar como ela ajuda na construção de sentidos da canção.

1) Por serem os carregadores que "falam", os músicos do Dire Straits não passam por pedantes.

2) Se os carregadores de móveis e eletrodomésticos chegaram à conclusão de que os boyzinhos da MTV não entendem de música, qualquer outra pessoa poderia chegar à mesma conclusão.

3) Por fim, os carregadores de móveis são uma metáfora dos Dire Straits e outros "músicos sérios", que "se esforçam" para criar letras e músicas de qualidade.

Não desenvolvi os três pontos acima, mas acho que consegui mostrar uma chave de leitura para essa canção, que considera que gosto se discute sim!

Aliás, quando se diz que quatro coisas não devem ser discutidas, é exatamente porque se sabe que são as quatro coisas mais polêmicas, ou seja, as únicas coisas que de fato merecem uma boa discussão: gosto, política, religião e sexo!

Aqui vai a melhor versão para a canção:

http://www.youtube.com/watch?v=VOD805iAqjY

Achei esse comentário na hilária Deciclopédia sobre como a canção teria sido composta (não o leve a sério).

Composta pelo Mark Knopfler, Money for Nothing tem uma história um tanto anormal. Mark e John estavam no apartamento coçando o saco e cansados de não fazerem nada o dia todo, decidiram sair para caçar algumas guitarras.

Passaram pelo Shopping, entraram nas Casas Bahia e foram à parte de instrumentos. Ouviram ali perto um cara reclamar da vida, do trabalho, da mãe, do chefe e do mundo. Reclamava que era um burro de carga e que deveria ter aprendido a tocar instrumentos musicais.

Com isso, Mark sentou num sofá e começou a escrever a saiu essa música.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Sousândrade - O Guesa (canto décimo)

A Bíblia da família à noite é lida;
Aos sons do piano os hinos entoados,
E a paz e o chefe da nação querida
São na prosperidade abençoados.
-- Mas no outro dia cedo a praça, o stock,
Sempre acesas crateras do negócio.
O assassínio, o audaz roubo, o divórcio,
Ao smart Yankee astuto, abre New York.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sarau e lançamento do livro de poemas

domingo, 28 de junho de 2009

Trecho de entrevista de Saramago à Folha

domingo, 31 de maio de 2009

Quem é cover de quem? (Itamar Assumpção)




Nessa canção, o saudoso Itamar Assumpção relata seu drama pessoal (rs) de ser confundido com Luiz Melodia.

Nasceste no Rio, Estácio
eu em São Paulo, Tietê
Os nossos passos com passos
afirmam ter tudo a ver

Não só na tonalidade
e também no jeitão de ser
Circula pela cidade
que sou cover de você

Tu és o Pérola Negra
já desde setenta e dois
Eu inventei Beleleú
só oito anos depois

Além desta pela preta
coisa comum em nós dois
Idéias músicas letras
não são só feijão com arroz

Dizem formarmos de fato
um belo par de malditos
Te chamam de Negro Gato
me tratam de Nego Dito

E já que talento é inato
isso tudo estava escrito
Num mundo cheio de chatos
até que somos São Beneditos

No mais sambamos de tudo
Funk soul blues jazz rock and roll
Trocamos tudo em miúdos
gravamos num disc show

Paixão amor sobretudo
aquele que começou
Mais grave ou mais agudo
slow speed or speed slow

Só falta agora contar
o que que houve outro dia
Assim que entrei num bar
desses da periferia

Alguém começou gritar
jurou que me conhecia
Mas no lugar de Itamar
disparou "Luiz Melodia"!

E é por essas e outras
que vamos contemporâneos
Compositor tão ilustre
Que bom ser teu conterrâneo

Tu abres eu fecho a boca
já tem mais de vinte anos
Então baby não se assuste
Pérola Negra, eu te amo

(Itamar Assumpção, "Bicho de Sete Cabeças, Vol. 1", 1993)

sábado, 30 de maio de 2009

As cidades, os sonhos

As cidades, como os sonhos, são construídas por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, as suas perspectivas sejam enganosas, e que todas as coisas escondam uma outra coisa.
Italo Calvino

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Vídeo sobre a greve dos servidores públicos municipais de Campinas



terça-feira, 26 de maio de 2009

Quarteirização, uma ótima opção?

Para quem achava ruim a onda das terceirizações, que desmonta o serviço público e coloca patrões para serem empregados de outros patrões, precarizando sobremaneira os trabalhadores, pode até começar a achar a ideia razoável ao ouvir falar em "quarteirização".

É mole?

E sempre o mesmo argumento: o que não for atividade-fim (atividade típica), que seja terceirizada. Leia-se: os trabalhadores que não realizam as tais atividades típicas que sejam sub(em todos os sentidos de "sub")contratados por empresas terceirizadas, quarteirizadas, quinterizadas...

Trago abaixo um excerto da dissertação de mestrado (ah, bom, era da Universidade Anhembi-Morumbi) em que o autor Carlos Roberto Bernardo defende a quarteirização.

Para as organizações que são abertas à realidade e às mudanças, que há muito vêm delegando para terceiros aquelas atividades intermediárias de sua empresa, quarteirização é uma ótima opção. O termo define um método de resolução de problemas que a modernidade trouxe e muitas empresas ainda não se deram conta. Para competir no meio do atual ambiente dinâmico, uma organização não pode dispensar energia com administração de problemas que fogem do seu objetivo e quarteirizam para serem excelentes nas suas atividades essenciais.

A genericamente intitulada quarterização é a terceirização elevada ao expoente da vanguarda, com a contratação de uma empresa especializada para gerenciar as empresas terceirizadas É uma técnica de administração e avaliação contínua da qualidade dos serviços prestados. A empresa de quarterização deve servir de elo entre a tomadora de serviços e as prestadoras, fazendo com que a tomadora só tenha um interlocutor.

Carlos Roberto Bernardo, "Terceirização: vantagens e desvantagens do contrato de gestão da administração. Estudo de caso do Novotel - São Paulo Center Norte", São Paulo: Mimeo, 2007, p.34.

A sociedade e o social

O exame da linguagem corrente hoje no Brasil constata uma curiosa oposição entre os termos "sociedade" e "social". Isso ocorre, em particular, no seu uso por parte de empresários, políticos e jornalistas – para começarmos por uma caracterização profissional.

Mas também sucede, para passarmos a uma determinação política, que, porém, se sobrepõe à primeira, por parte dos setores mais à direita. Estes últimos anos, no discurso dos governantes ou no dos economistas, “a sociedade” veio a designar o conjunto dos que detêm o poder econômico, ao passo que “social” remete, na fala dos mesmos governantes ou dos publicistas, a uma política que procura minorar a miséria.
(Renato Janine, em: http://www.renatojanine.pro.br/Livros/asociedade.html)

Lei Rouanet... no Ensino Superior?

Cito trecho do texto de Jorge Antunes (prof. titular da UnB), no Correio Braziliense.
Recentemente, a imprensa divulgou uma proposta de financiar as universidades por meio da Lei de Incentivos Fiscais. Seriam permitidas deduções do Imposto de Renda de entidades que investirem em bolsas de estudo, reformas, pesquisas e outras ações. A proposta seguiria o mesmo princípio da Lei Rouanet, que já garante isenção de tributos para empresários que destinam seus impostos a atividades culturais e esportivas.

Fica difícil decifrar o que está por trás desse projeto. Aos desavisados, a proposta soará como ideia brilhante que salvaria a pesquisa e o ensino superior do Brasil. Aos conhecedores das motivações escusas da política cultural vigente, fica a dúvida: a trama pode estar envolta em ingenuidade e boa-fé, mas pode também ser fruto de estratégias voltadas à privatização total e definitiva do ensino superior, cada vez mais tratado como mercadoria.

(Jorge Antunes, “O financiamento das universidades e a tramóia dos privatistas”. Correio Braziliense, 16/3/2009, p. 13)

Barreiras de concreto 'fecham pobres em guetos' no Rio, diz 'Times'




Texto extraído do site da BBC.

Muros aumentam divisão social na cidade, segundo o jornal

Os muros em construção pelo governo ao redor das favelas nos morros do Rio de Janeiro estão dividindo ainda mais uma cidade já separada entre ricos e pobres, afirma reportagem publicada nesta terça-feira pelo diário britânico The Times.

O jornal observa que os críticos do projeto dizem que as barreiras de concreto, de até três metros de altura, transformarão as favelas em guetos, segregando os seus habitantes ao separá-los das áreas mais ricas.

A reportagem comenta que o governador do Rio, Sérgio Cabral, argumenta que seu projeto de cercar 13 favelas tem como objetivo evitar que sua expansão destrua a vegetação dos morros.

Mas o jornal diz que "em uma cidade rachada pela violência, pela desconfiança e pela desigualdade social, poucos acreditam nele".

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Manifestações contra Gilmar Mendes



Vídeo em que o Ministro Joaquim Barbosa (foto) fala o que muita gente queria dizer ao Ministro Gilmar Mendes (Abril/2009).

Para contextualizar, segue texto recente do site midiaindependente.org.

Saia, Gilmar!
07/05/2009 às 15:54

Nesta quarta-feira cinco mil velas foram acesas em frente ao Supremo Tribunal Federal, em Brasília, numa manifestação para que Gilmar Mendes, presidente da instituição, deixe seu cargo. Protestos simultâneos ocorreram em São Paulo e em Belo Horizonte.

Depois de provar sua corruptibilidade e parcialidade no caso do banqueiro Daniel Dantas, e por criminalizar e destratar movimentos sociais e populares, Gilmar Mendes atestou sua incapacidade de representar o poder judiciário brasileiro. E por isso, está demitido!

Uma profunda indignação e repulsa culminou na organização de diversas movimentações civis, entre elas a campanha 'Saia às Ruas', que conclama para que retomemos os espaços de deliberação política: "O povo já tirou o Collor e tirará Gilmar Mendes!". Mais manifestações ocorrerão nas próximas semanas. Participe em sua cidade!

sábado, 23 de maio de 2009

Conclusão: Existem gatos que são aquáticos!

(Fundação Carlos Chagas - Concurso TRT-PR / 2004) Observe a construção de um argumento:
Premissas: Todos os cachorros têm asas.
Todos os animais de asas são aquáticos.
Existem gatos que são cachorros.
Conclusão: Existem gatos que são aquáticos.
Sobre o argumento A, as premissas P e a conclusão C, é correto dizer que
(A) A não é válido, P é falso e C é verdadeiro.
(B) A não é válido, P e C são falsos.
(C) A é válido, P e C são falsos.
(D) A é válido, P ou C são verdadeiros.
(E) A é válido se P é verdadeiro e C é falso.


Comentários:

Dizem que todo poeta (inclusive os formais) e todo linguista (exceto os formais) são inimigos da lógica. Penso, entretanto, que esses poetas e linguistas querem o rigor da lógica para lutar contra a lógica.

Ironias à parte, convém ressaltar que a linguistica tem seus méritos ao desbancar a lógica e defender que a língua tem uma lógica própria, ou uma falta própria de lógica. E a poesia também.

Conheço amigos da área de exatas que me disseram que, após estudar lógica, passaram a dominar melhor a língua. Sei lá, acho que passaram a se enganar na língua de um jeito diferente. A lógica pode ser muito útil à linguagem matemática e computacional, mas encontramos na língua um sem-número de falhas a desmentir a lógica.

Esse mesmo amigo disse que a língua portuguesa era falha, pois, quando dizemos "Eu não vi nada", uma negação anularia a outra, resultando em uma afirmação: "Eu vi algo".

Puxa, que pensamento rasteiro. A lingua é falha sim, mas não só a língua portuguesa. E, graças às falhas da língua, vemos que a lógica também é falha. Inclusive, a dupla negação também existe no francês: "Je ne .... pas...". A dupla negação talvez seja mais uma "ratificação" da negação do que uma "retificação" dela.

Interessante dizer que, mesmo a gramática gerativa - formal por natureza - não é tão formalista quanto esse meu amigo lógico, pois ela considera "Eu não vi nada" como uma frase com sentido de negativa e busca formalizar (às vezes) explicações para esse tipo de construção.

Bom, vamos à questão que abre esse post.

Um argumento pode ser válido ou inválido. Será válido se sua conclusão for resultado necessário de suas premissas.

Sobre as premissas e a conclusão, podem ser verdadeiras ou falsas.

Assim, temos na questão acima que as premissas e a conclusão são falsas e o argumento como um todo é válido(!). Isso porque a lógica diz não se preocupar com a verdade das coisas (sempre refutáveis), mas com a estrutura formal.

Entretanto, para responder à questão, é preciso saber que, no mundo, cachorros não têm asas, que nem todo animal de asa é aquático, que não existe gato que seja cachorro e que não existe gato aquático.

A validade do argumento parte do pressuposto de aceitação das premissas. Falsas ou verdadeiras, as premissas são aceitas e, se não contraditórias entre si, delas resultar uma conclusão sempre inequívoca, o argumento como um todo será válido.

Para acharmos a validade do argumento, podemos construir conjuntos (seria melhor desenhá-los):

Premissa 1 - Todo cachorro está contido no conjunto dos animais com asas; (Desenhe um círculo dos cachorros dentro do círculo dos animais com asas)

Premissa 2 - Todo animal com asa está contido no conjunto dos animais aquáticos; (Desenhe um círculo dos animais aquáticos abarcando todos os animais com asas; logo, abarcando também todos os cachorros)

Até agora, concluímos que todo cachorro é animal aquático, pois, se os cachorros estão dentro do conjunto dos animais com asas, e os animais com asa estão dentro do conjunto dos animais aquáticos, todo cachorro pertence ao conjunto dos animais aquáticos.

Premissa 3 - Sabendo que existem alguns gatos que são cachorros, e sabendo que todo cachorro é aquático,

Conclusão - Concluímos que alguns gatos (pelo menos aqueles que são cachorros) são aquáticos.

A conclusão é decorrência necessária das premissas, pois não é possível que algum gato não seja cachorro. Assim, o argumento como um todo é válido, apesar de as premissas e a conclusão serem falsas.

Gabarito C.

E se a conclusão fosse: "Existem gatos que não aquáticos"?

Essa conclusão não seria necessariamente verdadeira; o que se sabe é que há gatos aquáticos, mas a questão não disse se, além desses, existem outros gatos. Estaríamos diante, portanto, de um sofisma, isto é, uma cadeia argumentativa cuja conclusão não é resultado necessário das premissas.

O mesmo ocorreria com "Não existem gatos aquáticos".

quinta-feira, 21 de maio de 2009

A Petrobrás dá ao setor ambiental a mesma importância que dá ao seu setor produtivo

Interessante notarmos que, por ser, supostamente, uma equivalência ("a mesma importância"), a frase acima poderia ser invertida, pelo menos do ponto de vista da Lógica:

(2) "A Petrobrás dá ao setor produtivo a mesma importância que dá ao seu setor ambiental".

Porém, sabemos que a frase (2) não é sinônima da frase título; mais um desses casos em que o sentido não se rende à pura Lógica; ou melhor, mais um desses casos em que o sentido mostra sua lógica "pura"...

Talvez porque a frase título seja uma hipérbole, algo como: "a Petrobrás tem dado muita, mas muita mesmo, importância ao setor ambiental".

Mas, como podemos pensar que a frase título é uma hipérbole? Aí entra o discurso. Discursivamente, sabemos que, na sociedade capitalista, a produtividade é o que importa; mas, cada vez mais, por marketing ou por razões quase sinceras (mas nunca ao ponto de fazer com que as preocupações ambientais se igualem às produtivas), tem-se falado muito em "desenvolvimento sustentável".

Outra coisa é a própria estrutura desse tipo de construção (o que também se explica pelo discurso), em que a novidade (o termo realçado, hiperbolizado, movimentado) aparece no início da construção, e o termo óbvio, ao final.

(3) O PIB da China já é do mesmo volume que o PIB da Alemanha.

Na frase (3), supõe-se que a igualdade tenha operado mais por causa do aumento do PIB da China do que pela queda do PIB alemão.

Talvez por causa desse tipo de construção, e pela memória discursiva do discurso ambientalista (apresentada mais acima), que a frase (2) nos parece tão descabida.

E, quanto mais a frase (2) nos parece descabida, mais a frase título se nos apresenta menos como uma igualdade de (2) e mais como uma hipérbole.

American (a)way of life

O texto abaixo (sem o título deste post no original) é um trecho do livro de Ralph Linton.

O cidadão norte-americano desperta num leito construído segundo padrão originário do Oriente Próximo, mas modificado na Europa Setentrional, antes de ser transmitido à América. Sai debaixo de cobertas feitas de algodão, cuja planta se tornou doméstica na Índia; ou de linho ou de lã de carneiro, um e outro domesticados no Oriente Próximo; ou de seda, cujo emprego foi descoberto na China. Todos esses materiais foram fiados e tecidos por processos inventados no Oriente Próximo. Ao levantar da cama faz uso dos “mocassins” que foram inventados pelos índios das florestas do Leste dos Estados Unidos e entra no quarto de banho cujos aparelhos são uma mistura de invenções européias e norte-americanas, umas e outras recentes. Tira o pijama, que é vestiário inventado na Índia e lava-se com sabão que foi inventado pelos antigos gauleses, faz a barba que é um rito masoquístico que parece provir dos sumerianos ou do antigo Egito.

Voltando ao quarto, o cidadão toma as roupas que estão sobre uma cadeira do tipo europeu meridional e veste-se. As peças de seu vestuário tem a forma das vestes de pele originais dos nômades das estepes asiáticas; seus sapatos são feitos de peles curtidas por um processo inventado no antigo Egito e cortadas segundo um padrão proveniente das civilizações clássicas do Mediterrâneo; a tira de pano de cores vivas que amarra ao pescoço é sobrevivência dos xales usados aos ombros pelos croatas do séc. XVII. Antes de ir tomar o seu breakfast, ele olha ele olha a rua através da vidraça feita de vidro inventado no Egito; e, se estiver chovendo, calça galochas de borracha descoberta pelos índios da América Central e toma um guarda-chuva inventado no sudoeste da Ásia. Seu chapéu é feito de feltro, material inventado nas estepes asiáticas.

De caminho para o breakfast, pára para comprar um jornal, pagando-o com moedas, invenção da Líbia antiga. No restaurante, toda uma série de elementos tomados de empréstimo o espera. O prato é feito de uma espécie de cerâmica inventada na China. A faca é de aço, liga feita pela primeira vez na Índia do Sul; o garfo é inventado na Itália medieval; a colher vem de um original romano. Começa o seu breakfast, com uma laranja vinda do Mediterrâneo Oriental, melão da Pérsia, ou talvez uma fatia de melancia africana. Toma café, planta abssínia, com nata e açúcar. A domesticação do gado bovino e a idéia de aproveitar o seu leite são originárias do Oriente Próximo, ao passo que o açúcar foi feito pela primeira vez na Índia. Depois das frutas e do café vêm waffles, os quais são bolinhos fabricados segundo uma técnica escandinava, empregando como matéria prima o trigo, que se tornou planta doméstica na Ásia Menor. Rega-se com xarope de maple inventado pelos índios das florestas do leste dos Estados Unidos. Como prato adicional talvez coma o ovo de alguma espécie de ave domesticada na Indochina ou delgadas fatias de carne de um animal domesticado na Ásia Oriental, salgada e defumada por um processo desenvolvido no norte da Europa.

Acabando de comer, nosso amigo se recosta para fumar, hábito implantado pelos índios americanos e que consome uma planta originária do Brasil; fuma cachimbo, que procede dos índios da Virgínia, ou cigarro, proveniente do México. Se for fumante valente, pode ser que fume mesmo um charuto, transmitido à América do Norte pelas Antilhas, por intermédio da Espanha. Enquanto fuma, lê notícias do dia, impressas em caracteres inventados pelos antigos semitas, em material inventado na China e por um processo inventado na Alemanha. Ao inteirar-se das narrativas dos problemas estrangeiros, se for bom cidadão conservador, agradecerá a uma divindade hebraica, numa língua indo-européia, o fato de ser cem por cento americano.
Fonte: LINTON, Ralph. O homem: Uma introdução à antropologia. 3ed., São Paulo, Livraria Martins Editora, 1959.

domingo, 17 de maio de 2009

Dois trailers: "Ônibus 174" (2002) e "Última parada: 174" (2008)

1. "Ônibus 174" (Documentário, Brasil, 2002; Direção: José Padilha).

2. "Última parada: 174" (Ficção, Brasil, 2008; Direção: Bruno Barreto)


Ainda não assisti ao segundo filme. Ao primeiro, assisti, e recomendo-o. Muito bem construído, vai num "crescendo" e prende a atenção. Uma das passageiras é muitíssimo inteligente e seus comentários funcionam como "a voz do filme".

Só para não esquecermos da violência policial e urbana, do desrespeito aos direitos humanos e dos obstaculos colocados à juventude.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Contraste: Paraisópolis e Morumbi



Foto de Tuca Vieira.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

No dia em que eu vim-me embora (Caetano Veloso)



No dia em que eu vim-me embora
minha mãe chorava em ai
Minha irmã chorava em ui
e eu nem olhava pra trás

No dia que eu vim-me embora
não teve nada de mais

Mala de couro forrada
com pano forte brim cáqui
Minha vó já quase morta,
minha mãe até a porta

Minha irmã até a rua
e até o porto meu pai

O qual não disse palavra
durante todo o caminho

E quando eu me vi sozinho,
vi que não entendia nada
Nem de pro que eu ia indo
nem dos sonhos que eu sonhava

Senti apenas que a mala
de couro que eu carregava
Embora estando forrada
fedia, cheirava mal

Afora isto ia indo,
atravessando, seguindo
Nem chorando nem sorrindo
sozinho pra Capital

Nem chorando nem sorrindo
sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital
Sozinho pra Capital...

Algumas questões escolares sobre a canção:

1. A ida do eu-lírico sugere uma viagem temporária ou permanente? Retire um trecho da canção que sustente a sua resposta.

2. De onde você acha que o eu-lírico está saindo e para onde ele vai? Fale um pouco sobre onde você acha que ficam esses lugares, o que existe nesses lugares.

3. Você acha que o eu-lírico faz essa viagem por livre e espontânea vontade? Que motivos você acha que fazem com que ele viaje? Comente.

4. O dia dessa partida marcou a vida do eu-lírico, ou foi um dia como outro qualquer? Retire um trecho da canção que sustente a sua resposta.

5. Que idade você daria, aproximadamente, para o eu-lírico? Justifique sua resposta.

6. O terceiro verso da terceira estrofe traz a afirmação "Minha vó já quase morta", mas não diz por que motivo a avó estaria "quase morta". Levante duas possíveis causas para a avó estar nessa condição.

7. A expressão "o qual", no início da 5° estrofe, se refere a quem?

8. Você acha que a falta de diálogo e de palavras entre os personagens se deve a quê?

9. Qual é a reação do eu-lírico antes e durante a viagem? Comente.

10. No 7° parágrafo, o eu-lírico dá uma atenção especial ao cheiro forte de sua mala. O que essa atitude nos diz sobre o eu-lírico e a situação por que está passando?

11. A avó, a mãe, a irmã e o pai acompanham o eu-lírico até diferentes lugares. Que lugares são esses e como isso reflete a forma de encarar a viagem daquele parente?

12. Observe o trecho:

Minha vó já quase morta,
minha mãe até a porta

Minha irmã até a rua
e até o porto meu pai

O qual não disse palavra
durante todo o caminho

Em todos as orações apresentadas no trecho, temos o sujeito no início da oração. Isso não acontece somente uma vez. Encontre o trecho em que há a inversão e explique qual mudança de sentido ocorreria se não ocorresse tal inversão.

13. O ritmo, os instrumentos e a interpretação do cantor guardam alguma relação com o conteúdo da canção? Explique.

Comentários:

Na questão 1, os elementos para resposta são muito mais discursivos (a reação e a importância que damos a uma mudança permanente) que lingüístico (pois "ir-me embora" é expressão usada tanto para viagens passageiras quanto para mudanças permanentes).

Na questão 2, espera-se que o aluno lance hipóteses sobre os lugares de origem (cidade pequena, meio rural, Norte, Nordeste, interior) e de destino (cidade grande). Convém chamar a atenção que, para a poesia, "capital" não quer dizer necessariamente "capital federal" ou "capital do estado", mas, por metonímia, uma cidade grande.

Na questão 3, podemos supor que o eu-lírico não sabe direito o que o espera, mas sabe, mais ou menos, por que está se mudando: para buscar trabalho e melhores condições de vida, e, com isso, tentar de certa amenizar a condição sofrida sua e/ou de sua família. Talvez a indiferença desse jovem se dê por desconfiar (ou ter elementos formados para isso) de que as condições de vida de um jovem trabalhador, em especial nas suas condições, serão também desfavoráveis na grande cidade.

Observe que todos esses fatos não significam necessariamente que o dia da partida tenha sido insignificante (questão 4). O aluno pode levantar essas hipóteses, a partir de fragmentos isolados da canção ("No dia que eu vim-me embora / não teve nada de mais"). Mas, no conjunto, o dia marcou muito o eu-lírico, tanto é que se dispõs a nos contá-lo; além disso, lembrou-se de detalhes corporais (o fedor da mala, o lugar em que estavam os parentes, a cor das coisas) muito precisos.

O personagem que migra o faz de forma um tanto quanto maquinal: sem saber direito por que o faz. O dia não é encantado, mas pesa na memória.

Convém debater também hipóteses (isso não está explícito e não tem uma resposta única) sobre se a família, ou parte dela, influenciara ou obrigara a mudança do jovem.

Na questão 5, temos a suposição de que o eu-lírico seja um jovem (15, 20, 25 anos). São indícios fortes para isso o fato de ter avó, pai, mãe (e irmã morando em casa). Além disso, sugere-se que esteja em início da idade laboral. Convém chamar a atenção para o fato de que existe trabalho infantil e que, principalmente nas regiões mais precárias, o trabalho começa muito cedo (e isso era ainda mais grave na época da confecção dessa canção).

Questão 6: a reação feminina (irmã e mãe) é bem diferente da reação masculina (pai; mais frio). Isso está marcado inclusive na bela gradação que a música contrói: a avó (morta sabe-se lá se de tristeza ou de doença), a mãe até a porta, a irmã até a rua e o pai, mais forte, até o porto.

A fraqueza da avó, portanto, pode ser por doença (o que reforça o cenário de precariedade que impulsiona a mudança do jovem) ou por tristeza demasiada (uma vez que as mais tristes e temerosas são elencadas primeiro, até chegar ao pai indiferente: avó, mãe, irmã, pai).

A questão 7 é mais de coesão e coerência textual. A expressão "o qual" é uma anáfora (substitui um termo antes dito) que se refere ao "pai". Para perceber isso, o aluno deveria perceber que o pai foi o último elemento citado na estrofe anterior.

A questão 8 ficou propositalmente aberta demais, para dar chance de os alunos
pensarem. Se for o caso, podem ser lançadas algumas pistas:
a) como o momento era de forte emoção, faltaram palavras aos personagens;
b) a vida do lugar onde eles vivem acaba marcando o jeito de ser dos personagens;
c) como o personagem está sendo arrastado pelo "destino", sem saber direito o que espera por ele, a situação provoca uma reação ao mesmo tempo de susto e de indiferença.

A questão 9 se relaciona com a questão 10. A 10 tenta chamar a atenção para o fato de que os aspectos corporais falam muito mais alto que o aspecto meramente espiritual. Como não há alegria, nem tristeza, só silêncio e espanto, o que o eu-lírico "sentia" (7a. estrofe) era o fedor da mala.

Questão 11: Ao silêncio do pai e dos personagens, os aspectos físicos (a mala que cheira mal) vão ganhando destaque; é também um lado simbólico, são símbolos de que aquela migração era pura necessidade, são símbolos de tempos duros, sobretudo no sertão.

A questão 12 envolve gramática e sentido. O verso "e até o porto meu pai" é o único em que o sujeito aparece depois do predicado. Trata-se de oração porque o verbo está oculto ("e até o porto [foi] meu pai").

A inversão se dá porque, na seqüência, a letra continua falando do pai ("o qual não disse palavra"). Caso "pai" viesse antes de "porto" (sujeito no início da oração), "o qual" (pronome masculino singular) não se remeteria mais a "pai" e sim a "porto", que seria o último substantivo masculino no singular.

Além dessa explicação, existem outras: a) questões estilísticas, b) quebrar a monotonia do texto, c) recurso usado no gênero "poema" para dar mais força à expressão...

Questão 13: uma resposta possível é a que aponte para a lentidão do ritmo no início da canção, além de o instrumental (um teclado em string ou estilo "órgão", os acordes secos da guitarra...) e de a impostação de voz do cantor sugerirem um tom de "lamento", coerente com o conteúdo da canção. Momento para se discutir algo próprio do gênero "canção popular": a junção letra-música.

Mas, cuidado... São possibilidades de interpretação. Não quer dizer que as escolhas foram "conscientes", o que não desmente o fato de que elas tenham sido "bem feitas". Em última instância, letra e música guardam certa independência, têm suas lógicas próprias: evitemos, portanto, interpretações forçadas demais.

sábado, 9 de maio de 2009

Iracema Voou (Chico Buarque)



Iracema voou
Para a América
Leva roupa e lã
E anda lépida

Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Lava chão numa casa de chá

Tem saído ao luar
Com um mímico
Ambiciona estudar
Canto lírico

Não dá mole pra polícia
Se puder, vai ficando por lá
Tem saudade do Ceará
Mas não muita

Uns dias, afoita
Me liga a cobrar:
- É Iracema da América!

(Chico Buarque. Álbum "As cidades", BMG 1998)


O nome "Iracema" foi um nome inventado por José de Alencar para nomear a personagem índia do romance homônimo (não é um nome autóctone indígena). Para o movimento indigenista, não poderia haver um nome mais representativo dessa terra: "Iracema", além de guardar a dicção do tupi, é "América" ao contrário.

Essa América tupiniquim, na canção de Chico, "invade" a América desenvolvida. A canção trata do tema da migração em busca de trabalho. É um mote para trabalhos escolares envolvendo fluxos migratórios, suas razões e suas expressões nesse tempo de globalização... "Não dá mole pra polícia" e "anda lépida" (sempre em fuga) são trechos que refletem as restrições à entrada de migrantes nos EUA e a condição ilegal de Iracema. Seria a globalização de fato democrática, potencializadora?

Mas convém que também nos atentemos para a canção em si, para a letra, o enredo, sua composição. "Lava chão numa casa de chá": destaca-se a sonoridade "chão" e "chá".

"Lava chão" é um hipônimo para "é faxineira". O narrador guarda empatia para com a personagem, o que nos leva a dizer que "lava chão" não a ofende, mas sim mostra que o narrador é afim à personagem, tão "direto" quanto ela.

Apesar do pragmatismo exploratório de "lavar chão", e apesar de estar desambientada com o clima ("leva roupa e lã"), Iracema parece estar gostando do lugar e tem também pretensões simbólicas no terreno estrangeiro: "ambiciona estudar canto lírico".

A palavra "lépida", proparoxítona, é uma "palavra em fuga", palavra veloz, condizente com a situação clandestina de Iracema. Na poesia, mais do que em qualquer outro lugar, a forma e o ritmo também significam.

É coerente à composição textual que Iracema namore um mímico: ela não domina o idioma inglês e teria encontrado alguém que com ela interaja bem.

O discurso saudosista é questionado; sobre ele há certo deboche: "Tem saudade do Ceará / mas não muita". Nossa terra tem palmeiras onde canta o sabiá, mas pra Iracema é melhor estar nos States. O "chão" lavado lá é, na verdade, o mesmo "chão" lavado aqui, mas lá se remunera melhor, em termos absolutos.

Aliás, perceba-se a gradação ao final da canção: sai de um dizer aparentemente saudosista ("Tem saudades do Ceará") para relativizá-lo ("mas não muita") e, por fim, desmenti-lo, no orgulho que Iracema tem necessidade de transmitir a alguém, e o faz por telefone ("É Iracema da América!").

Algumas perguntas escolares:

1. De que lugar Iracema se origina?

R: O aluno pode deixar-se levar pelo último verso: "Iracema da América". Nesse caso, a preposição+artigo "da" não se refere à "origem de nascimento" e sim a uma "origem de onde se fala" (local de onde fala). Para responder à questão, o aluno deveria supor que, se Iracema tem "saudade do Ceará", é porque deve ter vindo de lá.

2. De acordo com a canção, a que se refere o termo "América"?

Na resposta 1, seria incorreto pensar que, se Iracema veio do Ceará, ela se origina da América, pois o Ceará integra a América. Na canção, "América" é uma metonímia para "Estados Unidos da América", o que, inclusive, pode até ser associado a uma tão falada prepotência imperialista estadunidense.

Ótima oportunidade para pensarmos que os sentidos não são estáticos. Podem ser refeitos pelo texto. Em outro contexto, "América" pode significar "continente americano", mas esse não foi o uso na canção.

3. A que lugar faz referência o termo "lá" (4a estrofe)?

R.: América.

4. Qual o trabalho exercido por Iracema? Como você identifica esse tipo de trabalho e o processo de migração de pessoas?

R: Trabalho de "Lavar chão"; faxineira. É visto como um trabalho não qualificado. Em geral, os migrantes de países periféricos exercem esse tipo de trabalho nos países centrais.

5. Com qual pessoa Iracema mantém maior relação afetiva? Relacione o ofício dessa pessoa com uma informação que é dada na segunda estrofe.

R: Com um mímico. Na segunda estrofe, é dito que ela "Não domina o idioma inglês". A mímica é um tipo de linguagem que facilitaria a interação de Iracema com essa outra pessoa; talvez disso decorra a empatia de Iracema para com o rapaz.

6. Como o termo "lépida" se relaciona com o verso "Não dá mole pra polícia"? Explique também o sentido deste verso.

R: "Lépida" quer dizer "ligeira". Ver, mais abaixo, nosso comentário sobre a sonoridade também escorregadia dessa proparoxítona. A situação de Iracema é, provavelmente, de trabalhadora clandestina (o professor deve comentar a migração à procura de trabalho e como razões econômicas justificam o comportamento xenófobo).

7. Observe o trecho do poema "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias (1847):

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


A penútima estrofe da canção guarda forte relação de intertextualidade com o trecho do poema acima. Diga se a posição de Iracema questiona ou reafirma a posição do eu-lírico do poema de Gonçalves Dias. Comente.

R: Os dois textos se contrapõem. O nacionalismo do poema se contrapõe com certo pragmatismo de Iracema. No fundo, há também as visões dos dois poetas: a visão nacionalista de Gonçalves Dias e a visão "modernista" e crítica de Chico Buarque, mais preocupado em trazer questões relacionadas ao mundo do trabalho. Para importante camada da intelectualidade brasileira contemporânea, uma visão nacionalista seria ingênua depois da experiência nacionalista da ditadura e depois das críticas sociológicas de que, na verdade, temos muitos "brasis".

8. Sem recorrer ao dicionário, que sentido você daria, pelo contexto, à palavra "afoita"?

R.: Iracema tem urgência em falar, e com orgulhosa, que está nos EUA. Há, subentendido, o discurso de que tudo o que é dos EUA é importante; discurso ao qual Iracema se filia. Ótima oportunidade para separarmos personagem e autor: provavelmente não é essa a posição de Chico Buarque, que está muito mais preocupado em relatar uma situação e um comportamento que julgá-lo. Buarque "deixa" Iracema falar.

9. De quem é a voz que nos fala no último verso do poema? É a mesma voz que fala nos outros versos? Explique.

R: É Iracema quem fala. O "narrador" nos anuncia que Iracema faz uma ligação. "É alguém de algum lugar" ("É Iracema da América") é um tipo de construção cristalizada, que nos traz a memória de uma conversa telefônica.

Além disso, há os marcadores ":" e "-", que indicam a transição para o discurso direto.

10. Onde Iracema está ao fazer a ligação e onde está o destinatário do seu telefonema?

R.: Iracema está na América (EUA). Chamar atenção para o "da" (origem) em "É Iracema da América". A preposição "de" é, nesse caso, uma palavra de conteúdo (isto é, uma palavra com sentido, pois dá idéia de lugar) e não uma mera palavra de função (como ocorre em outras ocorrências de "de").

11. Há quanto tempo você acha que Iracema está no lugar de onde ela faz a ligação telefônica? Transcreva um ou mais versos da canção que fundamentem sua resposta.

R.: Provavelmente há pouco tempo. "Não domina o idioma inglês".

12. O fato de Iracema ligar a cobrar nos diz o que sobre ela?

R.: Discutir a condição econômica de Iracema e dos migrantes em geral.

13. Diga uma figura de linguagem presente no verso "Lava chão numa casa de chá". Indique um outro verso em que o mesmo fenômeno ocorra.

R.: Aliteração (chão, chá), isto é, sons parecido dentro de uma mesma frase. Outros casos: o domina o idioma inglês (aliteração de ã, n, m, d).

14. Quanto tempo você acha que Iracema pretende ficar no lugar em que está? Transcreva um verso ou um trecho que justifique sua resposta.

R.: Para sempre, ou pelo menos um tempo grande (relatar o fato de que muitos migrantes vão para países centrais para poupar e depois regressar ao país de origem). "Se puder, vai ficando por lá / Tem saudade do Ceará / Mas não muita". Pode-se relatar, também, sua ambição em estudar canto lírico e seu orgulho de estar onde está ("me liga afoita").

15. O texto deixa implícito que um fator pode impedir que Iracema fique muito tempo no lugar em que ela está no momento da canção. Que fator é esse?

R.: Iracema pode ser deportada, por sua situação de estrangeira clandestina. Essa ameaça é representada, na canção, pela polícia.

16. O nome de Iracema forma um anagrama com outra palavra da canção. Que palavra é essa?

R.: IRACEMA - AMÉRICA. Anagrama é uma permutação (troca envolvendo todos os elementos) de letras.

17. Associe cada preposição das frases abaixo com um sentido:
1. Voou para a América.
2. Roupa de lã.
3. Com um mímico.
4. Iracema da América.

( ) local de onde se fala
( ) companhia
( ) movimento
( ) material de que é feito

R.: 4, 3, 1, 2.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

“Cadernos Judiados”, novo livro de poemas de Getulio Cardozo

Quem lê os “Cadernos Judiados” de Getulio Cardozo (lançados em abril de 2009 em Mococa) se depara com algumas imagens fixas, presentes em vários poemas: a mãe, o pai, os postes, os cachorros, as ruas, as pedras, os muros. Deus e o Diabo também estão presentes, mas sem a carga religiosa que normalmente se lhes atribui. Aliás, os poemas do livro trazem sempre uma visão deslocada, surpreendente, da parte de um eu-lírico que parece perpassar a maior parte dos poemas. “Porei na rua o meu hospício”, anuncia-nos o eu-lírico; mas esse “hospício”, essa “loucura” tem suas regras e sua ordem interna, representada na coerência dos temas, do ritmo e do tom.

A voz desse eu-lírico parece fugir da fácil caracterização, do esteriótipo. Parece vir de lugar-nenhum, um lugar próprio entre o rural e o urbano (como a goma de mascar que é “ruminada” em “Goma de mascar”), o natural e o artifício (“mão como a haste de uma flor / e o que exalou de rosa e frasco”), a resignação e a revolta, a dúvida e a certeza. Pode ser apenas delírio, ou pode ser que o poema consiga atingir o global: “Medi com um aparelho de precisão / e por isso ouso afirmar / que estamos algumas semanas / do Sistema Financeiro Mundial”.

Algum poder sísmico deve ter essa palavra, algum incômodo ainda que singelo deve representar essa voz que se contrapõe ao senso comum, ao discurso dominante; essa postura de recusa está figurada como um “olhar azedo”, olhar que representa uma fotografia do interior e, ao mesmo tempo, uma ofensa ao estado atual das coisas: “Por que / não sei, mas está escrito / em letreiros, nos mistérios / da nossa fé, nos panfletos / no meu olhar azedo”. A dificuldade de racionalizar a perceptível crueza do presente se amolda a uma característica da poesia, que é a de dizer por metáforas, a de dizer aos poucos; ao mesmo tempo, pesa ao poeta a obrigação de dizer o mundo (ou mais que dizer o mundo: dizer para superá-lo), como se lê nos versos “O que diremos aos que chegam / na porta de nossa casa? / Aos mortos acompanhados dos lobos?”. Na dificuldade de dizer, o simples ato de ser e de colocar seu corpo no caminho já é significativo, como se lê no poema “O protesto somos nós”.

O eu-lírico, principalmente na primeira parte do livro, não entende direito a complexidade da opressão do mundo novo, mas suspeita de que algo não vai bem: “Na lua refletida do poço a placa / indica onde fica o mundo / e o que caminha em volta / não é o tigre, nem areia / que se move”.. Seus poemas são suspeitas, são hematomas em princípio de revolta, que talvez possam começar a ganhar forma quando escritos: “Que [o Pavão] estenda seu reino até as fezes dos comandantes, / que acorde o ar estragado da cidade”. O poema não é o resultado de idéias prontas, mas de idéias em processo. Lê-se esse primórdio de revolta no belo “Salmo”: “Alimento esse tigre a toda hora / com a pólvora dos dias, / com a lã de minhas noites, / com os galos nos dedos da aurora”.

A vida passada vai se esmaecendo pela ação do tempo. O poema é luta sem alarde contra o “fim da história”. É luta contra o fim do passado, por trazer lances desorganizados de memória (“O furgão levou muita gente com terra. / Levou metade da montanha / que meu pai mediu com a mão”). Se o tempo come a “fruta” (a memória), o ruído dessa ação evita exatamente que a fruta seja esquecida e deve ser denunciado: “Queda de uma pedra, / o tempo comendo a fruta. / É o ruído que passa por mim, / alimentando mais uma idéia”.

O passado não é buscado pelo saudosismo; o passado é objeto interditado pelo tempo e pelo presente torpe. Ao tentar o passado, o eu-lírico afirma sua identidade e recusa a homogeneização do presente, o que se lê nos versos: “Crescemos e amaldiçoamos o mundo. / As ruas talvez sejam procura da infância”. No poema “Nem me lembro quantos são”, o aparente saudosismo da lembrança de nomes de pessoas é rompido pelo sutil humor dos últimos versos: “Tive uma cachorra / que nem consta lá”. A tentativa do passado é, assim, luta contra o fim da vida presente, vida esmagada, de acordo com o livro, pelo capitalismo, em especial o capitalismo financeiro. O resmungo silencioso do poeta é a resposta “à altura” à opressão também dissimulada desses nossos dias “democráticos” e “pacíficos”, que, exatamente por sua dissimulação, mostram-se-nos muito mais cruéis.

Na parte final do livro, algumas pequenas certezas parece se colocarem ao eu-lírico (já seria um outro eu-lírico?), que passa a adotar um diálogo mais cosmopolita, ao afirmar a necessidade de transformações e revoluções sociais, recusando o fim das ideologias, recusando o fim do futuro. Se não há saudosismo, não há também esperança ingênua no futuro (“Amanhã? Uso máscara protetora / ao me aproximar dessa palavra”) e sim o reconhecimento da árdua tarefa de superar o cenário atual: “Nada é benigno, tudo é pedra / e não adianta falar com sua porta,/ convencer seu cachorro”.

A memória falha provoca uma fragmentação textual e de imagens, que, bem tratada pelo autor, fortalece a poesia, esse gênero entrecortado. Muitas vezes a fragmentação é usada para quebrar a grandeza do poema, ou melhor, para dizer que o poema, para ser grande, deve recusar a eloquência (por isso o livro é lição a muitos aprendizes). No poema “Venda em curva de estrada”, o ápice do poema é quebrado pelo berro de um jogador de truco: “Apenas o silêncio numa noite pura, / o clarão do fósforo mostrando / a dor mais embaixo // - Nove! Gritou o negro / ao sinal do diabo”. O grito do presente acorda o poema, que ao ver do eu-lírico não pode ser um refúgio seguro, um jardim suspenso sobre o presente. Outra forma de quebra é levada a cabo no poema “Dizeres na parede da Caverna”; qualquer pretensão de “profundo ensinamento” dos dois primeiros versos é desbancada pela elevação do figurante (menino) ao primeiro plano do poema: “Os rabiscos esquecidos que o olhar / deixa nas paredes da caverna.// O menino empurrando a carroça / nunca mencionado na fábula”. No trecho antes mencionado, vê-se a empatia do eu-lírico (e a visão aguda do poeta) em relação à margem, ao marginalizado.

Judiados (uso esse termo com o perdão dos etimologistas, para quem o sentido está no DNA da palavra) os poemas devem ser: escritos e reescritos, até fugirem do monótono discurso dominante; temos o produto dessa labuta nessa obra de maturidade de Getulio Cardozo. Mas judiada não pode ser a vida: e por isso ler esses “Cadernos” é uma fuga necessária para se identificar e transfigurar pequenos lances do massacre nosso de cada dia.

por Paulo J. Vieira, texto publicado no Jornal "A Mococa", 16/05/2009.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

A Bíblia como um (mero) texto

“A Bíblia foi interpretada para justificar práticas más tais como a escravidão, a carnificina de prisioneiros de guerra, os sádicos assassinos de mulheres acusadas de serem bruxas, punição capital por centenas de ofensas, poligamia e crueldade com animais. Foi usada para encorajar a crença na mais grosseira superstição e para desencorajar o livre ensino de verdades científicas. Nós não devemos nunca esquecer que, bem e mal, fluem da bíblia. Ela, portanto, não está acima da crítica.”
Steve Allen

“Lida propriamente, a Bíblia é a força mais potente para o ateísmo jamais concebida.”
Isaac Asimov

“A inspiração da Bíblia depende da ignorância da pessoa que a lê.”
Robert G. Ingersoll, político e professor norte-americano

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Recursos Concurso FGV 2008 - Prefeitura de Campinas

As primeiras 15 questões (Conhecimentos Gerais) são comuns a todas as provas da tarde. Desculpem-me pela linguagem formal demais; é que esses recursos foram de fato enviados para a banca organizadora.


Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Língua Portuguesa. Questão: 10 – Anulação da questão.

10. Assinale a alternativa em que tenha havido uma troca da palavra correta por outra provocando inadequação de sentido na frase.
(A) Como queria que ninguém me visse, fiz de tudo para passar desapercebido pela multidão.
(B) Tomei aquela atitude por descargo de consciência.
(C) Tive de reabastecer minha despensa.
(D) Amanhã haverá mais uma sessão de imprensa para avaliar o filme a ser lançado brevemente.
(E) Receberemos uma quantia vultosa por aquele simples serviço.

Gabarito inicial e final: A. A banca não acatou os recursos.


O gabarito inicial aponta que a palavra “desapercebido” em “Como queria que ninguém me visse, fiz tudo para passar desapercebido pela multidão”. A sugestão da banca era que o termo em tela deveria ser substituído por “despercebido”.

Observando o conceituado “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa” (www.houaiss.uol.com.br), temos as seguintes acepções da palavra “desapercebido”:

“desapercebido
Datação
sXV cf. IVPM
Acepções:
■ adjetivo
1 que não está preparado; sem munições, provisões; desaparelhado, desmunido
Ex.: exército d.
2 (sXVIII)
que está fora de sua guarda; desacautelado, descuidado, desprevenido
Ex.: viu-a d. e roubou-lhe a bolsa
3 não percebido, de que não se tem conhecimento, não observado; despercebido
Ex.: evolução d. aos cientistas
4 que não se sentiu; despercebido
Ex.: picada d.” (grifo meu)

Esta douta banca provavelmente tenha considerado apenas a acepção 1 acima, por sinal, a mais usual. Porém, conforme a acepção 3, o período apresentado pela alternativa A está perfeitamente correto.

Como não há “alternativa em que tenha havido uma troca de palavra correta por outra provocando inadequação de sentido na frase” (assim pedia o enunciado da questão), proponho que esta douta banca proceda à anulação da questão.


Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Conhecimentos Gerais. Questão: 14 – Anulação da questão.

14. O movimento da década de 30, no Brasil, implementado por educadores como Anísio Teixeira e Lourenço Filho, de extrema importância para a formação do pensamento pedagógico no Brasil, ficou conhecido como:

(A) Educação para Todos.
(B) Movimento Pioneiro Escolanovista.
(C) Campanha Nacional para uma Educação de Qualidade.
(D) Movimento por uma Educação Popular.
(E) Otimismo Pedagógico.

Gabarito inicial: E. Gabarito final: B. A banca acatou os recursos.


A nosso ver, a questão cometeu um equívoco, que em muito prejudicou os candidatos que possuem uma visão geral sobre a história da educação no Brasil. Por considerarmos que tal questão (de tipo objetiva) apresenta duas alternativas igualmente válidas, solicitamos que esta douta banca avalie, em favor do máximo interesse público, a anulação da questão.

Anísio Teixeira e Lourenço Filho encabeçaram um movimento por mudanças do paradigma educacional, movimento que ficou marcado pelo Manifesto da Escola Nova (em 1932). Assim, a alternativa B está correta, porque era de fato um “Movimento”, e seus protagonistas eram denominados de “pioneiros da Escola Nova”. Esse movimento se agrupou em torno do “Manifesto Pioneiro da Escola Nova”, sendo, por isso, muits vezes chamado de Movimento Pioneiro da Escola Nova.

A banca deve ter pretendido identificar o nome exato do Movimento. Apesar de não concordarmos com esse tipo de preocupação (muito pontual e que prejudica os candidatos com uma visão mais sistemática), este recurso não pretende perquirir esse mérito, mas sim conservar-se no exame da incorreção do gabarito inicial.

Ora, se de fato a banca considerava que tal movimento não se chamava “Movimento Pioneiro Escolanovista”, a banca deve supor que haja um nome inequívoco para esse Movimento, pois somente por esse raciocínio poderíamos dizer que a alternativa B é incorreta.

Porém, a questão da nomenclatura de movimentos é, tradicionalmente, um tanto quanto fluida. E assim se dá também quanto ao movimento em análise.

Uma pesquisa no Google pela expressão “Movimento Otimismo Pedagógico” somente retornou duas ocorrências, o que indica a imprecisão, também, desta expressão. De modo que a precisão que a banca julgou haver para descaracterizar a alternativa B não parece existir em relação ao referido Movimento, que é nomeado por formas várias em trabalhos acadêmicos.

Sabemos que, por uma relação metonímica, muitos movimentos acabam absorvendo o nome de seus manifestos. Assim ocorreu com os movimentos vanguardistas de arte e política no início do século, conhecidos por seus respectivos manifestos (nesse sentido, ver TELES, Gilberto Mendonça. Vanguarda européia e modernismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1990, Introdução).

Exatamente pelo fato de o Manifesto ter se chamado “Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova” (1932; ver, por exemplo: http://pt.shvoong.com/social-sciences/education/1709158-manifesto-dos-pioneiros-da-escola/), é possível dizer, se abrirmos mão de um preciosismo que parece não ser pertinente ao caso (que se refere a um Movimento de nomeação vária), que o manifesto sintetiza um Movimento dos Pioneiros da Escola Nova (como afirma a alternativa B).

Considerando, assim, que a denominação “Otimismo Pedagógico” ou “Pioneiros da Escola Nova” são igualmente aplicáveis e buscam caracterizar as mesmas bandeiras, de um mesmo conjunto de intelectuais, em um mesmo período histórico, requeremos a esta douta banca que analise a justeza da anulação da questão, uma vez que duas das cinco alternativas são igualmente válidas para se denominar o Movimento encabeçado por Anísio Teixeira e Lourenço Filho.

Ainda que a nomenclatura do Movimento possa não estar apresentado da maneira mais precisa (e buscamos apontar que tal precisão é injustificável para o caso), a alternativa B também atender, vis a vis, o enunciado da questão.

Apresento abaixo o texto da entrada “Escola Nova” na Wikipedia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Escola_Nova), que destaca a participação dos dois referidos protagonistas no movimento em favor da Escola Nova durante a década de 30. Era exatamente o que solicitava o enunciado da questão.

O movimento chamado Escola nova esboçou-se, na década de 1920, no Brasil.

O mundo vivia, à época, um momento de crescimento industrial e de expansão urbana e, nesse contexto, um grupo de intelectuais brasileiros sentiu necessidade de preparar o país para acompanhar esse desenvolvimento. A educação era por eles percebida como o elemento-chave para promover a remodelação requerida.

Inspirados nas idéias político-filosóficas de igualdade entre os homens e do direito de todos à educação, esses intelectuais viam num sistema estatal de ensino público, livre e aberto, o único meio efetivo de combate às desigualdades sociais da nação.

Denominado de Escola Nova, o movimento ganhou impulso na década de 1930, após a divulgação do Manifesto da Escola Nova (1932). Nesse documento, defendia-se a universalização da escola pública, laica e gratuita. Entre os seus signatários, destacavam-se os nomes de:

* Anisio Teixeira - futuro mentor de duas universidades no país - a Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, desmembrada pelo Estado Novo de Getúlio Vargas - e a Universidade de Brasília, da qual era reitor, quando do Golpe Militar de 1964. Além dessas realizações, Anísio foi o fundador da Escola Parque, em Salvador (1950), instituição que posteriormente inspiraria o modelo dos Centros Integrados de Educação Pública - CIEPs, no Rio de Janeiro, na década de 1980.
* Fernando de Azevedo (1894-1974) - que aplicou a Sociologia da Educação e reformou o ensino em São Paulo na década de 1930
* Lourenço Filho (1897-1970) - professor
* Cecília Meireles (1901-1964) - professora e escritora

A atuação destes pioneiros se estendeu pelas décadas seguintes sob fortes críticas dos defensores do ensino privado e religioso. As suas idéias e práticas influenciaram uma nova geração de educadores como:

* Darcy Ribeiro (1922-1997); e
* Florestan Fernandes (1920-1995).

Por considerarmos que tal questão (de tipo objetiva) apresenta duas alternativas igualmente aceitáveis, solicitamos que esta douta banca avalie, em favor do máximo interesse público, a anulação da questão.


Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Conhecimentos Específicos. Questão: 16 – Mudança de gabarito.


16.
“Em nenhum lugar se formula explicitamente uma tese sobre as línguas, alguma hipótese sobre o que teria sido uma língua sem essas características, ou o que é mesmo – se é que seria possível – uma língua expurgada de palavras ou expressões preconceituosas. Às vezes, parece que do movimento deveria emergir uma vaga língua ‘originária’ (que a etimologia recuperaria), ou uma língua em que palavras são substituídas por descrições. Mas nada é claro, nenhuma tese é
explicitada.” (L.15-23)

A respeito do trecho acima, analise as afirmativas a seguir:

I. O vocábulo “originária” apresenta a mesma base de sentido que “oriental”.
II. A informação entre parênteses se refere ao sentido de “originária” como “aquilo que se levanta”, reforçando o sentido de “emergir”.
III. A informação entre travessões e a entre parênteses apresentam o mesmo plano de produção de sentidos: o nível metalingüístico.

Assinale:
(A) se apenas as afirmativas I e II estiverem corretas.
(B) se apenas as afirmativas I e III estiverem corretas.
(C) se apenas as afirmativas II e III estiverem corretas.
(D) se nenhuma afirmativa estiver correta.
(E) se todas as afirmativas estiverem corretas.

Gabarito inicial e final: C. A banca não acatou os recursos.

Parece-me que esta douta banca equivocou-se na escolha do gabarito desta questão.

A banca considera que os itens II e III estão corretos, quando, na verdade, estão flagrantemente equivocados.

A melhor resposta para a questão é a alternativa D, que considera que nenhuma afirmativa está correta. Vejamos.

Na II, a questão diz: “a informação entre parênteses se refere ao sentido de ‘originária’ como ‘aquilo que se levanta’, reforçando o sentido de emergir”.

Na verdade, o texto diz que, supostamente, “do movimento deveria emergir uma língua ‘originária’ (que a etimologia recuperaria)”. A informação entre parênteses claramente refere-se a “originária”, não a “emergir”. “Emergir” sim pode ser entendido como “aquilo que se levanta”, mas não “originária” (que é a língua “que a etimologia recuperaria”).

Ademais, pelo sentido do texto, a língua originária não é “aquilo que se levanta”, como diz o item II, porque isso reforça uma idéia de “atividade” (ação) que o autor não quis imprimir em seu texto. Na verdade, o que o autor diz é que um pressuposto do politicamente correto é que, se retirarmos as expressões ‘preconceituosas’, restará uma língua originária, que seria pura e neutra. Essa é a tese central do trecho, e do texto também.

Portanto, a língua originária emerge não porque “se levanta” (como diz a questão), mas porque as expressões ‘excedentes’ são excluídas. Para usar de uma metáfora, a língua originária não emerge porque se movimenta do fundo para a superfície de um rio, mas porque o rio foi se enxugando.

Como o item III está flagrantemente incorreto, a explicação acima (perfeitamente aceitável e adequada) era a única possível de se identificar para que se pudesse obter um gabarito possível, pois, estando a I e a III evidentemente equivocadas, todas deveriam estar, pois não havia alternativa que contemplasse apenas o item II como correto. Além disso, cremos ter apresentado justificativas por demais suficientes para que o item II seja considerado equivocado.

Vejamos, pois, o item III.

Esse item afirma que “as informações entre travessões e a entre parêntese apresentam o mesmo plano de produção de sentidos: o metalingüístico”.

Ora, metalinguagem é, em suma, usar a linguagem para explicar a própria linguagem. O exemplo mais repetido é o do dicionário: uma palavra explica a outra.

Roman Jakobson, em clássico texto que configura as funções da linguagem e que é fonte para o reconhecimento da metalinguagem, afirma que o foco em um dos elementos de uma comunicação realçaria uma das funções da linguagem. Assim, caso o foco da comunicação estivesse emissor, a função seria emotiva; no receptor, conativa ou apelativa; no referente, a função seria referencial; na mensagem, a função seria poética; no canal, a função seria fática; no código, a função seria metalingüística.

Ora, a banca desconsiderou a abordagem clássica e, até hoje, mais utilizada na identificação da função metalingüística, que nada mais é que usar o código (a língua portuguesa, no caso) para explicar o próprio código.

Vejamos, pois, tal definição, nas palavras do próprio autor:

A função metalingüística

Uma distinção foi feita, na Lógica moderna, entre dois níveis de linguagem, a "linguagem-objeto", que fala de objetos, e a "metalinguagem", que fala da linguagem. Mas a metalinguagem não é apenas um instrumento científico necessário, utilizado pelos lógicos e pelos lingüistas; desempenha também papel importante em nossa linguagem cotidiana. Como o Jourdain de Molière, que usava a prosa sem o saber, praticamos a metalinguagem sem nos dar conta do caráter metalingüístico de nossas operações. Sempre que o remetente e/ou o destinatário têm necessidade de verificar se estão usando o mesmo código, o discurso focaliza o CÓDIGO; desempenha uma função METALINGÜíSTICA (isto é, de glosa). (Roman Jakobson. Lingüística e Comunicação. São Paulo, Cultrix, 2005, p. 127).

Vejamos, agora, o texto analisado pela questão da prova objetiva:

“Em nenhum lugar se formula explicitamente uma tese sobre as línguas, alguma hipótese sobre o que teria sido uma língua sem essas características, ou o que é mesmo – se é que seria possível – uma língua expurgada de palavras ou expressões
preconceituosas. Às vezes, parece que do movimento deveria emergir uma vaga língua ‘originária’ (que a etimologia recuperaria), ou uma língua em que palavras são substituídas por descrições. Mas nada é claro, nenhuma tese é explicitada.” (grifos nossos)

A função metalingüística ocorre, no texto em análise, na informação entre parênteses (explica “originária”; ou seja, o código se volta ao próprio código), mas não ocorre no trecho entre travessões, subsequente a “mesmo” (que traz um dado novo).

O trecho entre travessões é, na verdade, um comentário do autor a respeito da frase, a saber, uma apreciação do autor; nas palavras de Jakobson, neste caso estamos diante de uma “linguagem-objeto”. É, portanto, um dado novo (nas palavras de Koch, goza de informatividade, ou seja, de novidade), não uma volta metalingüística em relação a uma informação já dita.

Estando, assim, não apenas o item I equivocado, como também o II e o III, pedimos vênia a estão renomada banca para discordarmos do gabarito inicial e propormos, em nome do maior interesse público, a alteração de gabarito da letra C para a D.


Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Conhecimentos Específicos. Questão: 29 – Mudança de gabarito.

29. Na pergunta da Fernanda [o texto não foi citado neste "blog" porque não era relevante para responder a questão], construções como “pra mim seguir em frente” e “namoraria comigo” devem ser trabalhadas pelo professor de Língua Portuguesa como:
(A) erros imperdoáveis.
(B) traços típicos da oralidade, aceitos num universo coloquial frouxo.
(C) formas que acabam sendo vistas com discriminação pela sociedade por não se adequarem à língua culta.
(D) formas aceitáveis, uma vez que a escola deve promover a libertação das amarras gramaticais.
(E) formas naturais entre jovens que deixam de aparecer na vida adulta, pois são facilmente corrigidas pela escola.

Gabarito inicial e final: C. A banca não acatou os recursos.

A banca considerou correta a afirmação de que as expressões “namoraria comigo” e “pra mim seguir em frente” são “formas que acabam sendo vistas com discriminação pela sociedade por não se adequarem à língua culta” (grifo nosso).

Há um evidente equívoco nesta afirmação. Vamos separá-la em duas partes:
1) são formas que não se adequam à língua culta
2) são formas que acabam sendo vistas com discriminação pela sociedade.

Quanto à primeira, podemos, a priori, aceitá-la, se entendermos que a banca adotou a perspectiva da gramática prescritiva mais conservadora, para quem a regência de “namorar” é “namorar alguém” e para quem é inadequado o uso do pronome oblíquo na função de sujeito.

O problema maior reside na segunda afirmativa (a que, no desmembramento que propusemos, chamamos de “2”) trazida pela alternativa C. Definitivamente, as duas formas não são vistas com discriminação pela sociedade, mas sim pelos gramáticos mais tradicionais. Tanto é que a grande maioria das pessoas aceita a regência “namorar com”; tanto aceitam que praticamente desconhecem a regência “namorar alguém”, no sentido de “manter uma relação amorosa”. O mesmo em relação à expressão “pra mim seguir em frente”.

Muitos gramáticos e lingüístas (mesmo os que dizem que a construção é equivocada) reconhecem que o uso de “namorar com” é muito difundido na oralidade e aceito pela maioria da sociedade. Ora, se o uso é amplo na sociedade, como dizer que esta sociedade discrimina esse uso? E, pior, como dizer que discrimina esse uso em qual seja o contexto, como pressupõe a alternativa dada inicialmente como certa pela banca?

Vejamos, por exemplo, o que diz o lingüista Sírio Possenti (http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI1768373-EI8425,00-Outra+nota+sobre+a+regencia+de+namorar.html):

“Se a escola não trabalhasse pela manutenção de estruturas mais conservadoras, "namorar", no sentido de 'ter uma relação amorosa', tenderia a ser (preferencialmente) "namorar com". E, no sentido de 'estar interessado', seria sempre, invariavelmente, como já é, namorar o/a. Não é o que as gramáticas dizem que ocorre (ou deveria ocorrer) com visar e assistir, por exemplo?”

Além do mais, ainda que entendamos “sociedade” como “sociedade letrada”, ou como “alta sociedade”, ou como “gramáticos” ou “lingüístas”, veríamos que há vários exemplos, além do supra-citado de Sírio Possenti, de estudiosos que reconhecem não só o uso reiterado como também a validade e correção do uso de “namorar com”.

Vide, por exemplo, o que diz a acepção 2 da entrada “namorar” do reputado Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (www.houaiss.uol.com.br):

“namorar
Acepções
■ verbo
(...)
2 flertar, namoriscar
Ex.: a estrela cinematográfica namorou (com) o playboy só para efeito de publicidade (...)” (grifo nosso).


Portanto, a alternativa C está em evidente descompasso não só em relação às teorias lingüísticas mais razoáveis, como também em relação a uma evidência empírica inegável: a de que os falantes de português do Brasil (em suma, a sociedade) não associam uma valoração negativa a construções como “namorar com” (se a questão dissesse que os gramáticos mais conservadores o fazem, a afirmativa seria aceitável).

A resposta correta da questão é a alternativa B.

Se entendermos a palvra "frouxo" no sentido de "não rígido" (sem valor pejorativo, portanto), é plenamente correto dizer que os textos de internet trazidos pela questão devem ser destacados, pelo professor, como detentor de “traços típicos da oralidade, aceitos num universo coloquial frouxo” (isto é, em um universo coloquial com grau mínimo de formalidade).

Marcos Bagno defende essa idéia (Preconceito lingüístico - o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999), ao afirmar que dadas situações mais ou menos formais regulam o registro lingüístico adequado. E que, dentro do registro coloquial, há gradações (ou seja, há uma coloquialidade menos “frouxa” e uma coloquialidade mais “frouxa”).

Uma coloquialidade mais rígida ocorre, por exemplo, em uma conversa informal entre amigos acadêmicos em um ambiente universitário. Uma coloquialidade menos rígida (mais “frouxa”, despido este termo de um sentido pejorativo) seria, por exemplo, na conversa doméstica entre dois irmãos. Tal coloquialidade pode ocorrer não só em relação à oralidade, como também em relação à escrita (por exemplo, em um bilhete doméstico de um irmão a outro).

Não há como negar que houve uma coloquialidade despreocupada (sem sentido pejorativo) na troca de mensagens apresentada pela questão, e que o internetês representa uma vertente coloquial da linguagem escrita. O fato de está coloquialidade ser mais ou menos “frouxa” não prejudica o entendimento da questão, a menos que entendamos que “frouxa” tenha exclusivamente uma conotação negativa, o que está longe de ser verdade:

“frouxo
Datação
sXV cf. FichIVPM

Acepções
■ adjetivo
1 que não está retesado
Ex.: um nó f.
2 que não é apertado; lasso, folgado, solto
Ex.: sapato f.” (Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa)


Portanto, penso serem nítidas a correção da alternativa B e a incorreção da alternativa C, razão pela qual compareço humildemente a esta douta banca para solicitar a alteração de gabarito.


Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Conhecimentos Específicos. Questão: 32 – Mudança de gabarito.

32. A respeito da forma naum na pergunta da Fernanda, é correto afirmar que:
(A) constitui uma grafia mais adequada à pronúncia no português brasileiro.
(B) constitui exemplo de internetês e pode ter sua origem explicada pela ausência do til nos primeiros ambientes da informática.
(C) é forma recente nos meios de bate-papo, surgida no contexto do que socioleto chamado miguxês.
(D) embora aparentemente incorreto, encontra validade no português arcaico, donde advém seu uso largo.
(E) é forma comum na Galícia e de lá se alastrou pelo uso amplo na Internet.

Gabarito inicial e final: B. A banca não acatou os recursos.


Afirmar que a ausência de til em NAUM “constitui exemplo de internetês e pode ter sua origem explicada pela ausência do til nos primeiros ambientes da informática” é de um senso comum invulgar, algo inusual para banca de tão alto calibre.

A banca considerou que a ocorrência de NAUM:

“B) constitui exemplo de internetês e pode ter sua origem explicada pela ausência do til nos primeiros ambientes da informática.”

Dizer que é exemplo do internetês, tudo bem. O problema é a continuidade da resposta.

O trecho final da alternativa B apresenta três sortes de erro:

1) Erro lingüístico:

É senso comum, fora do meio lingüístico, apresentar tal justificativa (a de que NAUM pode reportar-se à ausência de til nos primórdios da informática). Porém, estudos consistentes em “internetês” recusam abertamente tal hipótese, que busca explicar a ausência da acentuação por influência do inglês e da ausência de til nos primórdios da informática.

O fato é que os usuários, principalmente se considerarmos a nova geração deles, desconhecem essa memória, não sendo isso o que determine a ausência do til, e sim questões de praticidade e de marca de pertencimento a um grupo social (se o usuário escreve “NÃO” em uma sala de bate-papo de internet, pode ser indiretamente recriminado).

Pelo viés da gramática gerativa (Chomsky), é incorreto dizer que o português de hoje é o mesmo do de ontem; antes de tal afirmativa, é preciso ver se a estrutura é uma mesma ou se são duas. Pois, na superfície, a língua pode parecer uma só, enquanto que as justificativas geradoras (gerativas) para as frases são distintas.

A contrário senso, percebemos o equívoco de muitos gramáticos ao afirmarem que a ausência do til é um retorno ao português arcaico. Vide texto do gramático Sérgio Nogueira (http://colunas.g1.com.br/portugues/2006/11/01/ola-tudo-bem-9/):
O uso da letra “m” para substituir o til (naum = não) é um retorno às nossas raízes. Para quem não sabe, a origem do til é a letra “n”. Observe duas curiosidades: 1ª) em espanhol, o nosso VERÃO é “verano” e a forma verbal PÕE (do verbo PÔR) é “pone” (do verbo “PONER“); 2ª) o ditongo nasal decrescente /ão/ pode ser grafado “ão” (estão, cantarão) ou “am” (falam, cantaram), conforme a tonicidade.

Ora, parece-nos que, tão equivocado quanto dizer que NAUM tem seu fundamento de validade (“validade”, aqui, em sentido filosófico e não moral) no português arcaico (e a própria questão desprezou essa assertiva, contida no item D) é dizer que a ausência do til tem seu fundamento de validade na ausência desse diacrítico nos primórdios da informática; em ambos os casos, isso nos leva a supor que haveria uma memória ancestral (onde?) mal justificada cientificamente que nos leva às origens, mesmo em casos como o trazido pela questão. Há marcas comportamentais suficientes para supor que os interlocutores do diálogo sejam todos, ou quase todos, adolescentes; se isso é verdade, não seriam esses usuários contemporâneos a um ambiente em que a informática excluísse o til. Essa era a realidade de aplicativos em ambiente MS-DOS, superados desde 1995, com a entrada no mercado do Windows 95; portanto, antes da difusão da Internet e antes, provavelmente, de tais interlocutores terem sido alfabetizados e/ou terem sido adquirido um letramento digital.

2) Erro lógico:

Se é verdade que a ausência do til nos primórdios da informática é algo que pode (que é capaz de) explicar a grafia NAUM, seria também correto dizer que a grafia “encontra validade no português arcaico, donde advém uso largo” (letra D). Há, sim, ocorrência de NAUM no latim vulgar, embora seja difícil precisar se o seu uso era mais ou menos “largo”.

Como para cada questão somente pode haver uma alternativa que atende ao comando daquela, é forçoso reconhecer que a letra B e a letra E ou estão ambas corretas (o que não é possível), ou ambas equivocadas. Como não é possível que ambas estejam corretas, resta ao candidato, tão-somente, descartá-las.

3) Erro histórico:

Em relação à história da informática, quando a internet começou a se difundir no mercado brasileiro (final dos anos 90) o problema do til (apresentado pela alternativa dada inicialmente como gabarito) já não existia mais. Havia sido resolvido pelo Windows 95, inclusive para o seu sistema de arquivos (o sistema Virtual FAT, introduzido pelo Windows 95, passou a permitir a acentuação inclusive para os nomes de arquivos).

Os teclados padrão ABNT (e, depois, ABNT2) datam dessa época: são os dois modelos de teclado usados no Brasil que seguem o padrão QWERTY e apresentam a tecla “ç” e possuem outros diacríticos, como é o til.

* * *

A alternativa A diz que NAUM “constitui uma grafia mais adequada à pronúncia no português brasileiro”. Embora a grafia NAUM não reproduza fidedignamente a transcrição fonética desse vocábulo (e a alternativa não pede essa exatidão), é plenamente aceitável reconhecer que NAUM é mais proximo da pronúncia de /nãun/ que a grafia NÃO.

A alternativa, portanto, que melhor contempla o enunciado da questão é a letra A.


Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Conhecimentos Específicos. Questão: 25 – Anulação da questão.

25. “Curiosamente, é um pouco como reclamar de racismo ou de machismo, na medida em que não há instituições machistas ou racistas que se assumam como tais.” (L.34-36)
A respeito do período acima, analise as afirmativas a seguir:

I. A forma na medida em que é considerada galicismo pelos puristas.
II. Seria mais apropriado semanticamente no texto empregar a expressão à medida que, ao invés de na medida em que.
III. A melhor opção de tempo verbal a ser empregado com o verbo assumir é o presente do indicativo.
Assinale:
(A) se apenas as afirmativas I e II estiverem corretas.
(B) se apenas as afirmativas I e III estiverem corretas.
(C) se apenas as afirmativas II e III estiverem corretas.
(D) se nenhuma afirmativa estiver correta.
(E) se todas as afirmativas estiverem corretas.

Gabarito inicial e final: D. A banca não acatou os recursos.

O gabarito inicial é a letra D, que afirma que nenhum dos três itens apresentados pela questão está correto.

Entendemos que o item III esteja adequado, ao afirmar: “A melhor opção de tempo verbal a ser empregado com o verbo assumir é o presente do indicativo”.

A frase em análise é: “... não há instituições machistas ou racistas que se assumam como tais”.

Ora, o item não diz que a frase original está incorreta; apenas diz que seria “melhor” substituir “assumam” por “assumem”.

A frase do autor é taxativa, não transmitindo idéia de incerteza ou possibilidade para que se justifique o verbo no subjuntivo. O autor é incisivo ao dizer que “não há instituição que se assumem como tais”, o que reforça a idéia de que, ainda que o verbo esteja no subjuntivo, a frase como um todo transmite a idéia de certeza. Ora, se isso é verdade, tão ou mais adequado estaria o emprego do verbo no próprio modo indicativo, que, de acordo com a Gramática Tradicional, é o modo mais condizente com a expressão da certeza.

É correto dizer que em orações subordinadas adverbiais iniciadas em “que” devem ter verbos no subjuntivo. Mas, essa exigência não se opera para a oração subordinada adjetiva restritiva, a qual, como seu próprio nome o diz, qualifica uma expressão da oração principal.

Tanto é que entendemos como perfeitamente aceitável uma frase como: “o livro que acabo de ler é excelente” (os dois verbos no indicativo, inclusive o verbo da oração subordinada).

E, como o autor é taxativo ao afirmar que “não há”, de acordo com os estudos de correlação verbal seria mais adequado utilizar uma forma indicativa para o verbo “assumir”. Essa construção seria uma “melhor opção” em termos de coerência, ainda que a opção original seja igualmente válida.

Atentemo-nos para uma diferenciação trazida pela autora Cláudia Koslowski, em seu “Curso de Português para Concursos”. Observemos as frases propostas pela autora, que, por apresentar uma estrutura similar à da frase proposta pela questão em epígrafe, em muito nos auxilia na compreensão desse fenômeno:

1) Quero um remédio que acaba com minha dor de cabeça.
2) Quero um remédio que acabe com minha dor de cabeça.

Diz a autora que, em 1, o verbo da oração subordinada quer transmitir uma idéia de certeza (indicativo), como se a pessoa quisesse reforçar a urgência do remédio. Em 2, o mesmo verbo quer transmitir a idéia de possibilidade (subjuntivo).

Ora, é exatamente o fenômeno da frase 1 que ocorre no item III apresentado pela questão. Como o autor quer reforçar a idéia de certeza, idéia esta muito coerente não só com o período mas também com todo o texto, parece-nos extremamente correto dizer que a proposta trazida pelo item melhor reflete uma correlação verbal (“há” – “assumem”) e melhor reflete a idéia de certeza que o autor quer passar (lembrando que o item não propõe que a forma original esteja incorreta). É ainda mais forte a idéia de certeza se nos atentarmos para o fato de que o sentido de “não há instituições machistas” transmite uma posição de certeza por parte do autor, que melhor se coadunaria com um verbo correlacionado também no modo indicativo.

“A melhor opção de tempo verbal a ser empregado com o verbo assumir é o presente do indicativo”, afirmativa perfeitamente coerente.

O gabarito inicial prejudica os candidatos que foram competentes para estabelecer tal correlação e que foram competentes para contextualizar gramática e texto, algo muito exigido pelos novos currículos acadêmicos, pelos PCNs e, por isso, algo muito desejável de se identificar em um aspirante a professor. A contrário senso, o gabarito inicial privilegia uma visão descontextualizada de gramática e premia os candidatos mais conservadores ou limitados que tomaram o texto e o autor como “autoridades”, sem se atentarem para uma rede mais complexa entre período, texto e sentido.

Desta forma, propomos a esta douta banca que avalie seu parecer sobre o item III, item que, estando correto, prejudicaria o gabarito e tornaria a questão sem resposta, o que resultaria na anulação da referida questão.

Cargo: Professor Adjunto II (Português – Anos Finais)
Disciplina: Conhecimentos Específicos. Questão: 50 – Mudança de gabarito.

Texto VI: Beatriz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz

Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ah, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz

Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
(Chico Buarque e Edu Lobo)

50. A respeito do texto VI, analise as afirmativas a seguir:

I. Todas as ocorrências da palavra se no texto se classificam
como conjunção subordinativa condicional.
II. O texto é rico para trabalhar com os alunos as regras de
acentuação das oxítonas e dos monossílabos tônicos,
assim como as regras especiais.
III. O professor deve ter cuidado ao trabalhar o texto e alertar
para a inadequação de se utilizar, no contexto, o pronome
oblíquo átono iniciando oração.

Assinale:
(A) se apenas as afirmativas I e II estiverem corretas.
(B) se apenas as afirmativas I e III estiverem corretas.
(C) se apenas as afirmativas II e III estiverem corretas.
(D) se nenhuma afirmativa estiver correta.
(E) se todas as afirmativas estiverem corretas.

Gabarito inicial: B. Gabarito final: ANULADA. A banca acatou os recursos, mas deveria ter modificado o gabarito e não anulado a questão.

O gabarito inicial informa que os itens I e III estão corretos (letra B). Porém, a nosso ver, todos os itens (I, II e III) estão incorretos, de modo que o gabarito definitivo deveria ser a alternativa D.

Na I, é dito que “todas as ocorrências da palavra ‘se’ no texto se classificam como conjunção subordinativa condicional”. (grifo nosso)

Na verdade, há uma ocorrência de “se” como conjunção integrante:

“Diz se é perigoso a gente ser feliz”.

Temos um período composto por duas orações: Diz | se é perigoso a gente ser feliz.
Assim, a oração subordinada é substantiva objetiva direta (Diz ISSO). Ora, o “se” ou o “que” em início de oração subordinada substantiva é sempre conjunção integrante.

O “se” enquanto conjunção subordinativa condicional compõe as orações adverbiais condicionais, não as orações subordinadas substantivas.

Nesse sentido, ver FARACO & MOURA (“Gramática”. Editora Ática: SP, 2007):

“Conjunções subordinativas condicionais: Iniciam uma oração que indica condição ou hipótese para que o fato principal se realize ou não.
Conjunções: se, caso, etc.
Ex.: Se você nunca sentiu a sensação de acelerar com o vento batendo em seu rosto, compre correndo. (Quatro rodas)” (grifo nosso). (p.375).

Por sua vez,

“Conjunções integrantes: Iniciam uma oração que exerce função de sujeito, objeto direto, objeto indireto, predicativo, complemento nominal ou aposto de outra oração.
Diferentemente das demais conjunções, as conjunções integrantes não introduzem orações que indicam circunstância.

Conjunções: que, se.

Ex.:
É mito afirmar que não existem personagens complexos em novelas de televisão.
Gostaria de saber se você poderá ir à festa”. (grifo nosso) (idem, ibidem).


Assim sendo, propomos à douta banca que considere como equivocada a afirmação exposta no item I.

Na II, é dito que “o texto é rico para trabalhar com os alunos as regras de acentuação das oxítonas e dos monossílabos tônicos, assim como as regras especiais”.

Como o item I está incorreto (como apresentamos), restou ao candidato avaliar se a II e a III estavam ambas corretas, ou se estavam ambas incorretas, porque não havia alternativa em que constasse apenas um dos dois itens como certos.

O item II está incorreto, conforme afirmou a própria banca, através do gabarito inicial, motivo pelo qual não me deterei em discuti-lo.

O III, por sua vez, está flagramente incorreto (apesar de o gabarito oficial dá-lo como certo), porque usou de um preconceito lingüístico decorrente da gramática normativa e descontextualizada. Lembramos que, no edital, figurava o tema “preconceito lingüístico”, além de outros temas que sugeriam uma gramática mais contextualizada ao uso real e que soubesse diferenciar padrões escritos de orais, o que indicava que o perfil de candidato era aquele que, além de saber gramática, soubesse também criticá-la, a partir dos avanços das ciências lingüísticas (sociolingüística, pragmática, lingüística textual, estudo de gêneros etc.).

Devemos nos atentar para o fato de que o próprio enunciado do item III pede para que o candidato avalie a adequação gramatical no contexto: “O professor deve ter cuidado ao trabalhar o texto [“Beatriz”, de Chico Buarque] e alertar para a inadequação de se utilizar, no contexto, o pronome oblíquo átono iniciando oração”, diz o item III.

O item faz referência a construções sintáticas da canção como “Me ensina ensina a andar com os pés no chão”. Sabemos que a gramática tradicional recrimina o uso de pronome átono em início de oração. Porém, pelo contexto (isto é, da adequação lingüística ao contexto: à situação de produção, ao gênero etc.), o item não está, de forma alguma, errado, por dois motivos:

1) trata-se de uma canção, gênero textual e musical que tem um forte apelo oral;
2) o eu-lírico se dirige a Beatriz; sugere oralidade, apelo emotivo; ou seja, o autor pode estar querendo reproduzir uma construção sintática presente na oralidade e, sobretudo, na oralidade emotiva.
3) No contexto musical, haveria uma quebra melódica em várias ocorrências, se substituíssemos a próclise pela ênclise.

Nesse contexto, seria forçado o uso de ênclise, como pede a gramática tradicional. Assim já nos ensinava Oswald de Andrade no poema “Pronominais”, de uso tão reiterado no meio lingüístico sempre que se queira chamar a atenção de que há variações lingüísticas, de que há registros que são mais adequados que outros; em suma, de que não existe um jeito correto único.

Pronominais (Oswald de Andrade)

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

Ora, a percepção de Oswald de Andrade é hoje ponto pacífico no meio lingüístico, e já vem sendo, gradativamente, adotado, inclusive, pelos gramáticos mais tradicionais. Esse debate, por ser tão atual nos meios acadêmico e educacional, é, por óbvio, do conhecimento desta tão douta banca, mas ainda assim convém que continuemos desenvolvendo nossa argumentação, em favor de uma maior clareza do que vínhamos expondo.

A respeito do tema, vejamos o que nos diz Marcos Bagno, em obra que é, indiscutivelmente, a de referência sobre o tema “Preconceito Lingüístico”, tema este que, inclusive, figurava no edital do concurso (Preconceito lingüístico - o que é, como se faz. São Paulo: Edições Loyola, 1999):


Dentro desse conceito de “norma culta”, a proibição de começar um período com pronome oblíquo (Me empreste seu livro) é justificada com a afirmação de que em Portugal (!) ninguém fala assim. De igual modo, a recusa dos gramáticos conservadores em aceitar que em frases como Vende-se casas o pronome se desempenha uma função semelhante à de sujeito se baseia no fato de que, em latim (!!), o pronome se nunca exercia essa função. Dizer ou escrever eu prefiro mais X do que Y é um “pecado”, na opinião deles, porque o prefixo prae- em latim (!!!) funcionava para formar superlativos analíticos, contendo em si mesmo a idéia de “muito” ou “mais do que”... Além disso, é “errado” dizer outra alternativa porque alter em latim (!!!!) já significava “outro”. Mas desde quando nós falamos latim no Brasil? (p.107)


No mesmo texto, Bagno apresenta uma crítica a um gramático que procedeu tal como sugeria o item III da questão, a saber, emitir juízos descontextualizados acerca de (in)correções gramaticais em uma canção popular de Chico Buarque:

Essa mesma idealização da norma culta como um padrão lingüístico 100% “puro” — como uma pedra preciosa sem nenhuma jaça, como uma pepita de ouro livre de toda ganga — se verifica, por exemplo, num texto publicado por Pasquale Cipro Neto em sua página na revista Cult (n° 11, junho de 1998, p. 44). Para ele, os usos não-normativos de onde constituem uma “praga”. E o uso feito por Chico Buarque, numa canção, de onde no lugar de quando indica que o poeta-compositor “caiu na esparrela”.
Lemos no texto de Cipro que “a diferença entre onde e aonde também deixa muita gente de cabelo em pé”. [pg. 110] Depois de explicar o uso “correto” de cada uma das duas formas, ele diz que “mesmo em escritores renomados se
vê o emprego de onde e aonde sem critério”, e cita o exemplo do poema “A onda” de Manuel Bandeira, que escreveu: “Aonde anda a onda”. E chama a atenção para o fato de que “em termos de língua culta, para cada 99 ocorrências corretas de onde, há uma de aonde”. Diante dessa estatística (que ele cita sem indicar a fonte de seus dados nem a metodologia empregada para coletá-los), a lógica nos leva a concluir que o problema então não está na falta de “critério” dos falantes da norma culta, mas sim na concepção que o autor do texto tem de “língua culta”. Afinal, se Chico Buarque, Manuel Bandeira e Machado de Assis (que no poema “Niâni”, parte III, estrofe 2, escreveu:”Mas aonde te vais agora, / Onde vais, esposo meu?”) não servem como exemplos de usuários da “língua culta”, quem servirá?


No volume I da série “Gramática do Português Falado” (Gramática do português falado. Volume I: A ordem. Organização: Ataliba Teixeira de Castilho), temos vários exemplos de como pronomes oblíquos em início de frase são mais usados na oralidade culta (ou seja, por pessoas letradas, que conhecem gramática e que, na escrita, usariam a ênclise nesse caso) que a ênclise pregada pela gramática para a escrita.

Se o item III dissesse que “há incorreção gramatical”, tudo bem. Mas, o item III chama a atenção para o contexto de produção, razão pela qual nos parece incabível que tão douta banca continue a considerar o item como correto (vejamos, mais uma vez, o que dizia o item: “O professor deve ter cuidado ao trabalhar o texto e alertar para a inadequação de se utilizar, no contexto, o pronome oblíquo átono iniciando oração”; grifo nosso).

Além do mais, pelo viés da teoria da literatura a atitude proposta pelo item III também é condenável, porque implicaria destruir a obra, prejudicar seu ritmo, sua melodia, sua coloquialidade etc. Em suma, implica “matar” a obra.

É claro que o professor deve problematizar a questão: apresentar a visão da gramática tradicional, criticá-la, apresentar contextos e gêneros diversos em que a frase tal construção poderia ocorrer (se num requerimento formal, se numa canção, se num diálogo informal etc.). Agora, dizer que “O professor deve ter cuidado ao trabalhar o texto e alertar para a inadequação de se utilizar, no contexto, o pronome átono iniciando oração”, parece-nos ser uma afirmação totalmente incoerente com as novas abordagens metodológicas decorrentes dos principais referenciais teóricos da lingüística contemporânea.

Assim sendo, restando, além do item II, também os itens I e III equivocados, requeiro que esta tão qualificada banca altere o gabarito da letra B para a letra D.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Favela (Padeirinho & Pessanha)

Ouvir

Gravação: Nara Leão

Numa vasta extensão
Onde não há plantação
Nem ninguém morando lá
Cada um pobre que passa por ali
Só pensa em construir seu lar

E quando o primeiro começa
Os outros depressa procuram marcar
Seu pedacinho de terra pra morar

E assim a região
sofre modificação
Fica sendo chamada de a nova aquarela

E é aí que o lugar
Então passa a se chamar favela

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Espectador dá trote em pastor macumbeiro, e vice-versa (Fala que eu te escuto)



Passar a camisa preta no corpo, dar um nó e levar à Catedral (que fica na "encruzilhada" da Av. João Jorge com Rua Sales de Oliveira) para que o pastor nervosinho resolva o seu problema... Que despacho, ein?

"Não ria não, que o negócio é sério!"

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Cinema Mudo (Paralamas do Sucesso)

Só pela bateria do João Barone...

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Felicidade (Luis Tatit)


Discover Luiz Tatit!


Não sei porque eu tô tão feliz
Não há motivo algum pra ter tanta felicidade
Não sei o que que foi que eu fiz
Se eu fui perdendo o senso de realidade
Um sentimento indefinido
Foi me tomando ao cair da tarde
Infelizmente era felicidade
Claro que é muito gostoso
Claro que eu não acredito
Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito

Não sei porque eu tô tão feliz
Preciso refletir um pouco e sair do barato
Não posso continuar assim feliz
Como se fosse um sentimento inato
Sem ter o menor motivo
Sem uma razão de fato
Ser feliz assim é meio chato
E as coisas nem vão muito bem
Perdi o dinheiro que eu tinha guardado
E pra completar depois disso
Eu fui despedido e estou desempregado
Amor que sempre foi meu forte
Não tenho tido muita sorte
Estou sozinho, sem saída, sem dinheiro e sem comida
E feliz da vida!!!

Não sei porque eu tô tão feliz
Vai ver que é pra esconder no fundo uma infelicidade
Pensei que fosse por aí, fiz todas terapias que tem na cidade
A conclusão veio depressa e sem nenhuma novidade
O meu problema era felicidade
Não fiquei desesperado, não, fui até bem razoável
Felicidade quando é no começo ainda é controlável

Não sei o que foi que eu fiz
Pra merecer estar radiante de felicidade
Mais fácil ver o que não fiz
Fiz muito pouca aqui pra minha idade
Não me dediquei a nada
Tudo eu fiz pela metade, porque então tanta felicidade
E dizem que eu só penso em mim, que sou muito centrado
Que eu sou egoísta
Tem gente que põe meus defeitos em ordem alfabética
E faz uma lista
Por isso não se justifica tanto privilégio de felicidade
Independente dos deslizes dentre todos os felizes
Sou o mais feliz

Não sei porque eu tô tão feliz
E já nem sei se é necessário ter um bom motivo
A busca de uma razão me deu dor de cabeça, acabou comigo
Enfim, eu já tentei de tudo, enfim eu quis ser conseqüente
Mas desisti, vou ser feliz pra sempre
Peço a todos com licença, vamos liberar o pedaço
Felicidade assim desse tamanho
Só com muito espaço!

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Little Johnny, o Pedrinho deles...

WHAT DOES YOUR DADDY DO?

It was the first day of school and the teacher thought she’d get to know the kids by asking them their names and what their fathers did for a living.
The first little girl said, “My name is Mary and my daddy is a postman.”
The next little boy said, “I’m Andy and my Dad is a mechanic.”
It was then little Johnny’s turn and he said “My name is Johnny and my father is a striptease dancer in a cabaret for gay men.”
The teacher gasped and quickly moved on, but later, in the school yard, the teacher approaches Johnny privately and asks if it was really true that his Dad dances nude in a gay bar.
Little Johnny blushed and said, “Nah, he’s actually an auditor for Arthur Andersen but I was just too embarrassed to say.”

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Business Advice

An American businessman was at the pier of a small coastal Mexican village when a small boat with just one fisherman docked. Inside the small boat were several large yellowfin tuna. The American complimented the Mexican on the quality of his fish and asked how long it took to catch them.
The Mexican replied “Only a little while”. The American then asked why didn't he stay out longer and catch more fish??? The Mexican said he had enough to support his family's immediate needs. The American then asked but what do you do with the rest of your time???
The Mexican fisherman said, “I sleep late, fish a little, play with my children, make siesta with my wife Maria, stroll into the village each evening where I sip wine and play guitar with my amigos. I have a full and busy life, señor".
The American scoffed, “1 am a Harvard MBA and could help you. You should spend more time fishing and with the proceeds buy a bigger boat with the proceeds from the bigger boat you could buy several boats, eventually you would have a fleet of fishing boats. Instead of selling your catch to a middleman you would sell directly to the processor, eventually opening your own cannery.
You would control the product, processing and distribution. You would need to leave this small coastal fishing village and move to Mexico City, then LA and eventually NYC where you will run your expanding enterprise”.
The Mexican fisherman asked, “But señor, how long will this all take???"
To which the American replied, “15 to 20 years”.
“But what then, señor ???”
The American laughed and said that’s the best part, “When the time is right you would announce an IPO and sell your company stock to the public and become very rich, you would make millions”.
“Millions, señor ??? Then what???”
The American said, “Then you would retire. Move to a small coastal fishing village where you would sleep late, fish a little, play with your kids, take siesta with your wife, stroll to the village in the evenings where you could sip wine and play your guitar with your amigos”

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Igreja Ateísta do Domingo de Manhã

sábado, 21 de julho de 2007

Corre, pedala... e nada

Depois do fiasco brasileiro na estréia da Copa América de 2007 (0x3 México), José Simão lançou uma piada em sua coluna, mais ou menos nesses termos: "O Robinho será convocado para a Seleção Brasileira de Triatlo: ele corre, pedala... e nada". Tudo bem que Robinho se recuperou na partida seguinte, fazendo os três gols (pelo menos dois golaços) na vitória contra o Chile. A piada, então, pode estar desatualizada, mas não o interesse lingüístico que se pode ter por ela.

Esse caso parece ser bom para ilustrar a discussão sobre os limites entre sintaxe e semântica. "Corre" e "pedala", tomando como ponto de partida o triatlo, têm uma significação "literal", que é contrastada com uma significação relacionada ao futebol. No primeiro caso, "corre" tem um sentido de finalidade, de especificidade do tal esporte; enquanto que, no segundo, tem um sentido de meio (correr é um meio para se jogar bem futebol). Mas, ainda assim, há muita semelhança entre os dois sentidos do verbo "correr".

Em "pedala", parece que temos dois verbos diferentes, apesar do sentido futebolístico ter uma relação secundária de metônimia em relação ao sentido mais literal, aplicável ao triatlo. Poder-se-ia dizer que, por isso, são um verbo só, e que o sentido futebolístico é um sentido conotativo em relação ao sentido literal de "pedalar". Mas, isso não é um argumento definitivo, porque as histórias das línguas estão cheias de exemplos de verbos que se formaram por deslocamento e se literalizaram depois. Por exemplo, "chegar" origina do verbo latino "plicare", que significava "dobrar". Um argumento para dizer que se trata do mesmo verbo é que o sentido futebolístico não se perdeu totalmente o sentido original. O que não dá para defender é que, por haver a mesma expressão gráfica e acústica (mesmo significante), trata-se necessariamente de um mesmo verbo; as línguas são repletas de homonímias (dois significados para um mesmo significante).

Interesante pensar que o verbo "pedalar" pode ser tanto transitivo direto quanto intransitivo (pode ou não pedir um complemento, ou, nos termos da sintaxe gerativa, pode ter um ou dois argumentos). No sentido do triatlo, mesmo aí podendo haver intransitividade sintática ("eu pedalei por duas horas"), parece estar subentendido um complemento ("eu pedalei [uma bicicleta] por duas horas"); enquanto que no sentido futebolístico, "pedalar" parece ter um caráter somente intransitivo (ninguém pensaria em "eu pedalei a bola" ou "eu pedalei o adversário"). Essa diferença, para alguns teóricos da teoria sintática (não estou falando de Pasquales), seria suficente para atestar que se tratam de dois verbos com a distinção originada desde o léxico ("momento" anterior à DS, deep structure ou estrutura profunda).

Bom, então, temos "corre" como um verbo muito similar nos dois sentidos. Temos "pedala" como um ainda verbo (ou dois verbos), mas que marca uma distância muito maior a depender de qual dos "frames" de significação (o do triatlo e o futebolístico) estamos tratando. Por fim, temos a palavra "nada", que, no frame do triatlo vem do verbo "nadar". Requer-se certo conhecimento enciclopédico do leitor para saber que o triatlo é composto das três modalidades sugeridas. E é por haver essa (ficcional) correspondência (pelo menos no nível do significante) entre as partes da modalidade e o que Robinho faz (ou vinha fazendo) que este seria convocado para a seleção de triatlo (também um "seleção", o que dá a entender que ele faz muito bem as três coisas: mais um exemplo da ironia aplicada ao sarcasmo). O pleno ajuste é um sinal de agudeza do humor nesta peça (poderíamos pensar em termos de coerência, mas isso fica para outro dia).

No frame futebolístico, não há brecha para o sentido anterior de "nada". Temos, então, que invocar nossa memória e pensarmos que expressões do tipo "fez alguma coisa... e nada", ditas com certa entonação, significam que não houve um certo resultado esperável; ou seja, como se o que viesse antes da expressão "e nada" incluísse um pressuposto de um resultado esperado, que não se confirmou: "correr" e "pedalar" são argumentos favoráveis a uma conclusão diferente de "nada". A interrupção tem um caráter adversativo, de mudança da direção argumentativa: "Robinho é esforçado, MAS não está jogando nada". "Ser esforçado" muitas vezes pressupõe uma traço pejorativo: alguém não tem ou não está mostrando talento (muita transpiração e pouca inspiração). Ora, aqui temos "nada" não mais funcionando como um verbo, mas como um advérbio.

Como podemos, a partir da expressão sintática que dá título a esta postagem, saber se "nada" é verbo ou advérbio? É possível somente supor (se os dois primeiros são verbos, o terceiro deve ser) ou ter uma certeza, que pode ser contestada (é o que a piada faz). E o humor joga exatamente com isso, ao mostrar que um outro sentido, uma outra leitura semântica, seria possível de co-habitar a mesma expressão sintática. As reticências promovem a quebra do fluxo; mais que isso, dá à frase uma dicção, próxima ao uso consolidado que mostramos no parágrafo anterior; e, também, promovem um suspense narrativo, que enfatiza a expressão por vir e serve muito bem ao humor.

A convivência entre esses dois domínios de sentido é condição necessária para a estruturação do humor; ao final da piada, retroativamente, ressignificamos tudo o que foi dito, não apagando o sentido inicial (do triatlo), mas fazendo as expressões serem co-habitadas pelos dois sentidos (triatlo e futebol). O que pode ser um indício de que há uma "consciência" e controle do autor, pelo menos no nível de controle (represamento) no desenvolvimento de seu artefato.

Do ponto de vista da semântica, a leitura do título de nossa postagem mostraria que uma interpretação sintática (saber se "nada" é verbo ou advérbio) muitas vezes só é possível de acontecer (ainda no domínio sintático) com a ajuda da semântica. Do ponto de vista da sintaxe, poder-se-ia pensar que os dois sentidos já estavam lá (na mesma frase, ou haveria duas frases?), autorizados pela sintaxe e aguardando um evento do mundo para semânticamente se definir.

domingo, 15 de julho de 2007

As gafes da TV portuguesa



Quem nos pergunta "você sabe que horas são?" não espera que respondamos simplesmente "sim", mas que lhe informemos essa hora que sabemos (ou que buscamos saber para responder). A pragmática buscaria dar conta de entender como os sentidos são completados pela situação imediata em que os interlocutores estão inseridos.

Costuma-se dizer que "português é burro". E já ouvi colegas meus que viajaram a Portugal dizerem que as tolices portuguesas das piadas de fato acontecem, que os portugueses são burros mesmos. Parece que lá em Portugal também fazem piadas sobre as burrices daqui. A questão parece ser, então, de uma interincompreensão, cujas raízes podem ser historicamente buscadas (condições de produção); é claro que não deve ser algo que prejudique irremediavelmente os sentidos, pois uma interincompreensão pode ser superada pelos interlocutores (reformulando suas falas, por exemplo).

Alguns lingüistas já disseram que as piadas de português (e as piadas de brasileiro, lá em Portugal) se sustentam basicamente sobre uma idéia de "burrice", que na verdade não é "burrice" mas saberes pragmáticos diferentes. Afirma-se que os portugueses têm uma tendência a ficarem mais no enunciado explícito e a buscar menos implicitações na situação ou na enunciação.

O vídeo aqui anexado foi editado no Brasil. Em suas escolhas, retrata certa representação que, fanfarrona ou seriamente, boa parte dos brasileiros faz dos portugueses. Vejamos dois trechos desse vídeo:

[Repórter pergunta e senhora responde:]
- O que que a traz cá?
- Uma camionete.

[Repórter pergunta e garotinho responde:]
- Falas com os cavalos?
- Falo.
- E eles respondem?
- Sim.
- O que é que dizem?
- Dizem assim: hiiiiiiiiiiii!

Muitos leitores podem ter a correta idéia: "esses trechos bem que poderiam ser piadas"; ou tirar dessa idéia uma conclusão valorativa mais geral: "nossa, então as piadas de português não são ficções, acontecem, os portugueses são mesmo burros". Será que a senhora e o garotinho foram "burros" por não entenderem a pergunta, ou simplesmente responderam mais "ao pé da letra" o que o enunciado pedia? Se formos pela primeira opção, rimos dos entrevistados (e português seria mesmo burro); se formos pela segunda, rimos do entrevistador (e português seria astuto ao ler o enunciado "ao pé da letra", "juridicamente" poderíamos dizer).

Parece-nos que tanto a senhora quanto o garotinho não estão troçando, zombando dos repórteres: entendem suas respostas como as únicas possíveis, ou as melhores possíveis. Mas, provavelmente, não eram aqueles os sentidos que os repórteres esperavam; isso provaria que não há uma postura pragmática única em Portugal, que talvez lá os dois usos co-ocorram em proporções parecidas, enquanto que no Brasil um dos usos seria muito hegemônico.

Se aquilo que dissemos dos portugueses (uma variação pragmática) for generalizado, as piadas pragmáticas dos portugueses contra os brasileiros seriam menos comuns, ou restritas a alguns usos em que nós não sejamos pragmáticos e eles o sejam. Mas, ainda que a explicação sirva para os dois excertos do vídeo, não deve se aplicar a todos os usos. Pois, pode haver muitos casos em que os portugueses interpretariam mais pragmaticamente um enunciado e que os brasileiros interpretariam mais "ao pé da letra" (ao pé do lingüisticamente explícito no enunciado). E, no sentido das representações de que os países são diferentes (ou que foram diferenciados por políticas no discurso), as piadas se constituíram como apropriações destes casos pragmáticos para se forjar enquanto um dos mais importantes campos da "batalha".

A forma como o jogador de futebol fala à reportagem, neste vídeo, parece ter outra explicação. O ethos, as idéias, as expressões não são esperados a um jogador de futebol; seria mais adequado a um filósofo. Então, a piada poderia ser que a burrice do português não é só pragmática, mas discursiva: há embutida uma noção nos sujeitos falantes, ainda que justificada em um esteriótipo, de que cada domínio social constitui consigo um jeito mais adequado de falar.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Trem do Pantanal (Almir Sater)



Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
As estrelas do Cruzeiro
Fazem um sinal

De que esse é o melhor caminho
Pra quem é como eu
Mais um fugitivo da guerra

Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
O povo lá em casa espera
Que eu mande um postal

Dizendo que eu estou muito bem
E vivo
Rumo a Santa Cruz de la Sierra

Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
Só meu coração está
Batendo desigual

Ele agora sabe que o medo
Viaja também
Sobre todos os trilhos da Terra
Rumo a Santa Cruz de la Sierra
Sobre todos os trilhos da Terra

Na postagem sobre a canção "Odeio rodeio", tentei mostrar como o Chico César brinca com o esteriótipo do "sertanojo", esse gênero musical do "sertão" em tempos de cultura de massas. Naquela canção, Chico César não só retoma e desloca idéias do "sertanojo", marcando uma posição contra elas, como também "incorpora" (ou, finge incorporar) um jeito emocionado de ser do enunciador "sertanojo".

Sei que pejorar não é algo muito bom em ciência, mas, quem disse que esse blog quer fazer ciência? Talvez queira, mas não se obriga a amarrar nada. São idéias soltas que podem ganhar substância em outro lugar, em um artigo, meu ou de outrem. Mas, usei "sertanojo" porque eu falava de certa forma junto com uma posição para quem Zezé di Camargo e afins devem ser excluídos do conjunto dos sertanejos. Ou seja, pode existir música sertaneja boa.

Esta do Almir Sater está na categoria sertanejo mesmo. Não que não haja pontos em comum entre o sertanejo e o sertanojo (posso tirar as aspas já, agora que estamos mais íntimos); há uma zona interdiscursiva entre os dois. E não é corriqueiro que os dois se choquem frontalmente. A migração discursiva do segundo não é opositiva mas apropriativa do primeiro; e o primeiro muitas vezes "deixa pra lá" o segundo, ou se enfraqueceu de tal modo, dadas as condições históricas, que já não pode mais falar direito. O leitor pode tentar comparar por si mesmo esses discursos, a partir desta minha rápida análise.

De acordo com Maingueneau (Análise de textos de comunicação), um discurso não é feito só de idéias. Com isso, Maingueneau abre espaço para pensarmos também o discurso para além do texto. Ou, pelo menos, para pensar como idéias textuais (verbais) se associam a outros elementos na constituição de uma semântica global do discurso. Uma semântica global seria regida por princípios simples e pouco numerosos, que, por sua vez, permitiriam a infinidade dos textos possíveis e de outros elementos anexos (e talvez não menos relevantes que aqueles). E um desses "outros elementos" discursivos para além do texto seria o ethos.

Para ficar mais claro, vamos aplicar isso a uma análise desta canção.

As idéias (textualmente expressas) remetem a um discurso (como todo discurso, subjacente) sertanejo: pacificidade, harmonia com os outros, com a família e com a natureza, tranqüilidade rural ("locus amoenus" caipira), sem estresse ou desarranjos psicológicos, sem esperar da vida grandes projetos e sobressaltos, integração com o Cosmos (este Cosmos pode ser a idéia de Deus: religiosidade sertaneja). Se o coração saltita e se o eu-lírico foge, é para buscar uma harmonia ainda mais profunda. Poder-se-ia dizer que, apesar de bonito, este é um discurso um tanto conformista, uma fuga da política, fuga ainda que inconsciente.

Pois bem. Muitas análises de discursos parariam por aí: relacionar idéias textuais a uma coerência discursa, a qual constituiria uma formação. A noção de "ethos" nos leva além.

A noção de "ethos" busca dar conta de entender o caráter e a corporalidade que um texto atribui ao seu enunciador. Se o texto atribui, ou, como veremos, uma semântica global atribui, o enunciador não ajusta seu corpo e seu tom mais eficiente aos seus propósitos, com a consciência que a tradição retórica supunha. O caso desta canção é interessante porque a correlação a um ethos implica muito mais o locutor (Sater) do que os seus autores; várias razões podem ser buscadas para isso, desde o fato de esses autores serem desconhecidos, até o caráter irremediavelmente presencial de todo ethos.

As posições discursivas (idéias) que dissemos anteriormente constituem uma figura de homem tranqüilo, de respiração compassada (a desritimia do coração é uma desritmia "boa"), de jeito despojado, de prazeres simples etc. O tom de voz é também uma manifestação corporal que configura o ethos: aqui, um tom de voz que, apesar da diferenciação da altura melódica (entre médios e agudos), permanece praticamente com o mesmo volume (sem gritos, sem muitos decibéis). O instrumental também reforça essa entonação.

Seria interessante um estudo que investigasse o ethos por trás dos gêneros e dos recursos musicais (veja uma postagem minha sobre uma canção de Raul Seixas e o ethos roqueiro-inconformado). Em grande medida, falar de um estilo de um cantor é identificar-lhe um ethos.

A caracterização física de Almir Sater neste video é coerente com tal ethos sertanejo: o chapéu, a movimentação corporal medida, o sorriso singelo e feliz. Talvez, não seja só uma conseqüência do ethos mas uma parte igualmente constitutiva deste. Mas, mesmo se só ouvíssemos a canção, poderíamos constiuir essa "figura" do enunciador que canta, darmos este caráter a ele, imaginarmos sua postura corporal.

A hipótese é que haveria uma semântica global que "englobaria" tanto as idéias quanto os "outros elementos", no caso, deste discurso sertanejo. Nesta canção, o traço semântico principal é o da "integração". A partir deste traço semântico básico, podemos derivar outras poucas noções intermediárias (prudência, tranqüilidade, pacificidade etc.), que determinariam tanto o que vai ser dito como a globalidade entre o dito e o agido (ethos).

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ouro de tolo (Raul Seixas)



Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros por mês

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar um Corcel 73

Eu devia estar alegre e satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa

Eu devia estar contente
Por ter conseguido tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Pra ir com a família ao Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos

Ah! Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro, jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco

É você olhar no espelho
Se sentir um grandessíssimo idiota
Saber que é humano, ridículo, limitado
Que só usa dez por cento de sua cabeça animal

E você ainda acredita que é um doutor, padre ou policial
Que está contribuindo com sua parte
Para o nosso belo quadro social

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada cheia de dentes
Esperando a morte chegar

Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais
No cume calmo do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora de um disco voador

Vou separar esta canção em dois enfoques do eu-lírico, que não coincidem com as duas partes em que a canção é musicalmente dividida. Não vou considerar esses dois enfoques como estanques; uma mesma estrofe pode conter ambos. São do que chamo "primeiro enfoque" os versos em que o eu-lírico demonstra sua insatisfação com um padrão de vida que, implicitamos, seja pretendido pela maioria das pessoas: por isso, o eu-lírico "deveria estar contente", junto com os outros (ou, os sonhos dos outros), mas não está. O segundo enfoque é trazido pelos versos (principalmente ao final de cada parte musical) que apresentam de forma mais elabora as razões de o eu-lírico não estar contente. O que o autorizaria a dizer é o fato de ter experimentado aqueles ideais de vida e não tê-los aprovado; a canção pode, assim, estar marcando a passagem do eu-lírico de um estado a outro.

A posição majoritária trazida pela canção convoca, em um domínio discursivo, vários discursos e instituições interligados, cujo denominador comum é defender uma vida regrada e planejada: do mercado de trabalho (ter um bom e estável emprego é algo valorizado no mundo competitivo), da religião (a prosperidade é alcançada com o apoio de Deus, o descanso do trabalho é sagrado e deve ser aproveitado sem excessos), da família (é bom ter uma família estável e poder dedicar-se a ela, é bom ter uma prole, ter herdeiros), da propriedade (ter um carro, ter uma casa) etc. Em suma, tudo isso pode ser identificado como ideais de classe média; uma vida mediana é o que estaria reservado a uma classe mediana.

É contra esses ideais e, poderíamos dizer também, contra as instituições que os veiculam que o eu-lírico se contrapõe. Para isso, o eu-lírico não só arregimenta a seu favor a memória discursiva do hedonismo (que trataremos a seguir), como pode se associar (na efemeridade de um interdiscurso) ao discurso socialista ou anarquista que se contrapõe àquelas instituições e àquelas ideologias.

Poderíamos encontrar naquela posição majoritária uma memória discursiva presente há muito pela via da tradição estóica, considerada seja na sua versão filosófica seja na vulgarizada. A figura chave para o estoicismo é a "Roda da Fortuna": o sujeito racional e regrado está mais ao centro da Roda e livre dos altos e baixos que o Destino (Fortuna) impõe à borda. O oposto do estoicismo seria o hedonismo, que pregaria a primazia dos prazeres e dos sentidos; é com esta posição que o eu-lírico fecha. A patrística buscou associar a tradição judaico-cristã à tradição filosófica, sobretudo estóica; daí, na canção, o discurso religioso vir a somar-se ao domínio ou à formação discursiva favorável pró-vida regrada pequeno-burguesa (sem "pecados" e com poupança). Por isso, é importante falarmos de memória discursiva, não com anseios empíricos e exaustivos, mas para indicar que os discursos possuem um passado e se organizam e se desorganizam em posições ou em formações discursivas, nunca completamente acabadas.

Observe estes versos:

Eu tenho uma porção de coisas grandes
Pra conquistar, e eu não posso ficar aí parado

Engraçado que a canção diz "aí parado" e não o mais corriqueiro "aqui parado". E isso não é um problema de incoerência, muito pelo contrário; a canção está falando de um eu-lírico que não "pára quieto", que toma por princípio nunca estar em um "aqui" mas sempre se deslocando de um "aí" a outro. Podem ser, então, inúmeros "aís", mas pode ser um só (esta parece ser a melhor leitura): o "aí" marca uma diferenciação entre as duas posições discursivas trabalhadas pela canção; o "aí" é o lugar, agora distante, que o eu-lírico atribui aos acomodados, lugar em que ele não só deseja não mais estar, como já não está mais nele.

Estamos nos domínios de um gênero musical que crivou um dos mais repetidos lemas pró-hedonistas e anti-estoicistas: "sexo, drogas e rock'n'roll". E o eu-lírico (e mesmo, neste caso, o autor da canção) nos reporta este "ethos" de rebeldia, se não através de guitarras barulhentas, através de um outro recurso: falo do recurso ritmico das frases atravessadas, que parecem grandes demais para caberem na frase musical. Isso é condizente com o conteúdo da canção, que fala de alguém que não se adapta a uma vida "quadrada"; alguém que, para atestar que quer se colocar fora dos limites das "cercas e bandeiradas que separam quintais", precisa cantar apressadamente e extrapolando as cercas e bandeiradas que demarcam as frases musicais.

Já que estamos falando da última estrofe, o que dizermos dos dois últimos versos desta? Enigmáticos? Sim, e a linguagem cifrada também pode ser um atestado da não-adaptação do eu-lírico. A canção lança mão de uma metáfora, de grande poder imagético, como síntese definidora daquele eu-lírico. "Sonhar" muitas vezes é tido como "visualizar algo". Pois bem, o que o eu-lírico visualiza não são coisas comportadas, como o faz a maioria das pessoas; o que se "assenta" sobre o seu olhar é algo da ordem do impossível: um disco voador (repete, em certa medida, a caracterização do artista ou do poeta como um visionário ou como um portador de um olhar incomum). Ou melhor, algo ainda mais impossível que o impossível: "a sombra sonora de um disco voador". Essa imagem sinestésica e um tanto quanto inexplicável ganha força exatamente por ser sinestésica e inexplicável: a canção traz uma hipérbole para atestar o quanto o eu-lírico não compartilha os mesmos sentidos das pessoas comuns.

"A sombra sonora de um disco voador" indica a idiossincrasia, a grandeza e a loucura dos projetos do eu-lírico. "A sombra sonora de um disco voador" é principalmente a representação do "incômodo", que o eu-lírico reconhece como destoante do comportamento comum (considera-se um "sujeito chato") e que não pode ser explicado; neste sentido, sua posição hedonista pode não ser tão "feliz" assim.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

Dois risos interdiscursivos

Às vezes, incluo nesse blog textos que não diretamente falam de humor, ou porque, à minha leitura, trazem um humor muito sutil, ou porque trazem algum procedimento que guarda semelhanças com a produção e a leitura do humor. Isso me faz pensar que seja possível rir de qualquer coisa; ou seja, acho que há risibilidade em todo o dizer. Não vou defender o subjetivismo, para quem bastaria dizer que toda pessoa pode rir de qualquer coisa, por razões da ordem da individualidade. Não vou me eximir de apontar uma explicação que seja.

Podemos pensar isso pela via discursiva. O riso pode ser um indício da presença do outro no dizer, no ler, no rir. Isso pode ser pensado em termos de interdiscurso, de heterogeneidade discursiva, de polifonia, de polissemia; mas aqui não vou me deter nesses conceitos. Todo dizer é rísivel, então, porque todo dizer nos traz um outro.

Vou me deter em um tipo de riso: é muito comum rirmos de algo que alguém disse com seriedade, disse sem a menor intenção de provocar um riso (ou aquele riso específico que lhe devotamos).

Isso ocorre quando esse alguém é, em algum sentido, reconhecido como nosso adversário. Tão tolo quanto achar que "quem cala, consente" é pensar que "quem ri, consente". Toda proposição seria passível de humor, aos olhos do sujeito-interlocutor, porque toda proposição é passível de ser questionada, é passível de ser vista de um "outro" lugar. Um hipotético ateu, por exemplo, pode achar graça de alto tão sagrado como isso que aparece na sinopse de um DVD bíblico:

"Nossos interiores estão destruídos e precisamos de transformações. Somente o Senhor Jesus Cristo que ressuscitou pode transformar medo em confiança, transformar insegurança em segurança, dor em alívio. A Bíblia diz que o mesmo poder que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos é o poder que opera em nós."

Esse mesmo ateu pode também dar risada de um discurso inverso, sobre o mesmo tema, como o deste trechinho de "O Evangelho Segundo Jesus", de José Saramago:

"Neste lugar, a que chamam Gólgota, muitos são os que tiveram o mesmo destino fatal e outros muitos o virão a ter, mas este homem, nu, cravado de pés e mãos numa cruz, filho de José e de Maria, Jesus de seu nome, é o único a quem o futuro concederá a honra da maiúscula inicial, os mais nunca passarão de crucificados menores."

Ora, me parece que, sendo um mesmo sujeito, não é um mesmo riso, dado o contraste discursivo e este contraste comportar um aspecto constitutivo de sujeitos (crer ou não, crer ou não nesta divindade).

No caso do DVD bíblico, nosso ateu hipotético estaria rindo da ingenuidade da afirmação. Poderíamos dar a este riso o nome de riso irônico, porque, assim como a ironia, o riso estaria funcionando como um "sim" invertido ("não tenho motivos para me alegrar com isso; estou me alegrando para manifestar o contrário: minha indignação"). É como se o riso marcasse um "não" do sujeito que lê antes de todo aquele dizer.

No caso do texto de Saramago, nosso mesmo ateu estaria rindo junto com Saramago (mesmo que Saramago não esteja buscando a graça, ou melhor, o humor) e contra aqueles que divinizam Cristo etc. A este riso, poderíamos dar o nome de riso aclamativo, no sentido que funcionaria como palmas favoráveis ao dizer que confronta uma outra posição, pressuposta ou subentendida (a posição dos cristãos). O riso é, então, favorável a uma posição discursiva exatamente na medida em que reconhece uma posição discursiva contrária, uma "outra" posição.

Por diferentes que sejam, os dois risos são interdiscursivos, isto é, são indícios da reentrância de posições discursivas. É claro que um ateu (diferente do nosso ateu hipotético) pode não achar graça em nenhum dos dois trechos, pois outros fatores estão em jogo. O interdiscurso dá condições para que um dizer sério seja lido com humor; não o obriga ser lido assim.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

As agudezas do humor

Kibeloco. Junho/2007.

Não vou falar das agulhadas do humor, o que também é uma agudeza e, em geral, forjada ao pé da agudeza que vou tratar neste texto (esta charge contém também esta agudeza).

Baltazar Gracián, teórico contemporâneo do Barroco, chamou de "agudeza" a astúcia retórica e artística de dar um salto além em um texto ou uma obra que já tenha ido bastante longe. Assim, um soneto barroco poderia sempre em seu desfecho buscar uma idéia inesperada, uma combinação inusitada, que apresentasse uma inflexão do sentido que vinha sendo construído. Bons retóricos e bons artistas eram os "agudos". Não é a mesma coisa que a idéia romântica de "talento". Em geral, o bom artista para o Barroco seria aquele que traduzisse, para o mundo extenso, por isso indireta e mediadamente, através do engenho artístico, uma parcela do desvendável da Criação divina. Essa seria a verdade possível; e a metáfora seria a melhor das armas.

Pois, essa charge nos traz um pouco das agudezas do humor. Muitas vezes, o humor usa de uma inflexão ou de um aprofundamento para se fazer mais humor. Detalhes dentro de piadas, partes non-senses dentro do "bom" senso.

Nesta charge (uma foto-montagem, pois vê-se Maradona muito "alterado": veja nariz e olhos), o humor básico seria aquele que joga com o Maradona viciado em cocaína. Agora, jogar com isso e ao mesmo tempo, combinando, debochar do outro personagem (debochar de suas "caspas") é a agudeza do humor aqui. Não devem ser caspas de fato; ou é uma característica da própria blusa daquele coadjuvante (desconhecido para nós, desimportante; imaginamos que seja alguém da TV argentina), ou é também um efeito acrescido na montagem da foto.

A blusa preta permite não só inclui-las, mas ter a idéia de fazer humor com a inclusão daquelas caspas. Um sobre-humor, na verdade. Um humor agudo, mas sem o qual não acharíamos graça do intuito do personagem Maradona. Não se tratam de duas piadas; trata-se de uma só, elaborada, pela agudeza do chargista, a partir da combinação de dois elementos: a obsessão de Maradona e as caspas sobre a blusa preta. Ou melhor, a obsessão sóbria ou alterada de Maradona o faz ver cocaína onde só haveriam caspas, e muitas caspas. A agudeza é que, tão "estranha" quanto a obsessão de Maradona é alguém ter aquela quantidade de caspas sobre a blusa.

Lembro-me de uma cena de "Blow Up", de Michelangelo Antonioni: duas pessoas estão jogando uma partida imaginária de tênis até que a bola, imaginária, cai para fora da quadra; um homem, que observava com reservas aquela cena, então, aceita o pedido dos desconhecidos jogadores e "pega" a bolinha, devolvendo-lhes: se o mundo está louco, participemos dele. No caso de nossa charge, se o homem tem tudo aquilo de caspas e acha normal tê-las assim, a hipótese de Maradona não é tão mais louca (embora seja mais imoral).

Talvez a idéia do chargista na peça aqui tratada tenha se dado a partir de uma foto vista por ele casualmente em um site ou jornal; ou talvez sequer o encontro Maradona-coadjuvante tenha existido e o chargista, pensando na aparência entre cocaína e caspas, tenha imaginado (e executado) a partir daí toda a cena, de Maradona encontrando-se com um personagem de terno preto. A segunda hipótese parece improvável, ou seja, que o encontro em si seja uma foto-montagem. O título no topo da charge parece apontar para algo bastante específico e desnecessário - pressupomos - (a saber, "TV argentina") para não ter de fato ocorrido. A menos que o mundo esteja louco mesmo...

domingo, 17 de junho de 2007

Vencedor do Grande Desafio, domingo, dá nome a asteróide

O título desta postagem é uma manchete do portal da Unicamp, de 15/06/2007.

A chamada na página inicial nos esclarece um pouco aquela estranha manchete:

"Estudantes do ensino fundamental e médio mostram neste domingo, das 9 às 17h30, no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp, os trabalhos que produziram para o Grande Desafio. O vencedor do evento organizado pelo Museu Exploratório de Ciências dá nome a um asteróide."

Para ler a matéria inteira, clique aqui, ou melhor, aqui.

Muito engraçada a manchete e a chamada. Um asteróide foi descoberto, e o garoto ou a garota que vencer o tal Grande Desafio na Unicamp tem o direito de dar um nome a essa coisa celeste. Uma "brincadeirinha", uma "gincaninha" (desculpem-me, é um Grande Desafio) vai servir para nomear um asteróide. Mas, quantos e quantos asteróides não foram nomeados "do nada" por vários cientistas? Pode-se dizer que eles tenham mais autoridade; mas o ato de nomeação feito por eles é tão casual quanto o desta gincana. O fato é que atribuímos às palavras uma relação necessária (no sentido filosófico) com as coisas. "É óbvio que mesa é mesa". Como se, inclusive, o nome fosse sempiterno; lembremos que "mesa" vem do latim "mensa" (mas isso já é uma outra história).

O exemplo daquela nomeação de asteróide parece servir para questionar a ilusão da relação de necessariedade nome-coisa.

Lembrei-me do livro de Foucault, "As palavras e as coisas". Ou mesmo do velho Saussure no "Curso de Lingüística Geral". De fato, parece-me haver total arbitrariedade entre significante e significado; isto é, a junção entre significante e significado (ou, em termos mais chulos, som e sentido) seria casual. Do que decorre que um nome seria arbitrariamente atribuído a alguma coisa.

Se eu ganhasse esse Grande Desafio, poderia dar ao asteróide o nome de Mazzaroppi ou de Mesa, ou de KLB. Não sei se aceitariam, pois poderiam tentar restringir minha arbitrariedade: "por que não o nome de um ciclope da mitologia grega?", diriam-me. Mas, os nomes desses ciclopes, ao serem dados pelos gregos de então, também seriam arbitrários, ou se relacionavam a outra coisa naquela Grécia (da mesma forma, arbitrariamente). Ora, ainda assim há arbitrariedade, porque, mesmo minha escolha sendo motivada pela mitologia, poderia sempre ser uma outra.

A famosa passagem de Mallarmé parece-nos calhar: "Un coup de dés jamais n'abolira le hasard" (Um lance de dados jamais abolirá o acaso).

Pressupomos que haja uma convenção internacional que valide a escolha do nome daquele asteróide. E pressupomos que os organizadores do Grande Desafio (do "Museu Exploratório") descobriram ou têm relação com quem descobriu o tal bicho, para que tenham o direito de deixar alguém nomeá-lo. Podemos até entender, pela manchete e pela chamada, que o nome do(a) vencedor(a) será o próprio nome (próprio) do asteróide (o que ainda seria algo arbitrário): "A vencedora é a Marília; então, o asteróide passa a se chamar Marília" (ou "passa a ser chamado de Marília"). Não há nada na manchete e na chamada que desautorize essa leitura; somos nós leitores que implicitamos não deva ser assim. Seguindo em frente: pensamos que, por estar no portal da Unicamp, isso não seja um trote (ops). Uma vez nomeado, todos os astrônomos e todos os que venham a falar desse asteróide terão que chamá-lo de X. Mesmo assim, mesmo nesse caso em que há uma institucionalização do nome (um batismo), pode ser que ele demore a pegar. O nome é algo que demora; demora a pegar e pode demorar a largar.

E. Guimarães, do ponto de vista de sua semântica enunciativa, dirá, a respeito dessas nomeações, que elas possuem um passado, um presente e um futuro. Exemplo: os pais resolvem batizar o filho de "José"; há um passado bíblico-católico (mesmo se os pais forem protestantes, diga-se), uma memória que pode estar dando um sentido a essa nomeação; há um presente, por exemplo quando o pai diz ao escrivão o nome do filho; e há um futuro, pois toda vez que alguém se referir àquele ser, o chamará de "José" (e posteriormente poderão lhe dar um apelido). Esse exemplo da nomeação (nomes próprios) pode de certa forma ser extendido a qualquer nomeação ou até mesmo às referenciações. Podemos ressignificar algo usando seu velho e bom nome, mas podemos fazer isso com um nome novo ou diferente; o velho exemplo de chamar "ocupação" o que outros chamam de "invasão", ou vice-versa. Ou seja, uma mesma coisa pode ter dois ou mais nomes. E, também, um mesmo nome pode ser atribuído a coisas diferentes.

O foco, desta posição e da posição discursiva, é, então, outro: tudo bem que o signo e a nomeação sejam arbitrários, mas o que é relevante em termos lingüísticos é procurar sua justificativa na materialidade histórica, na memória discursiva, nas condições de produção daquela nomeação; não se trata de uma relação mecânica, é claro, mas como possibilidade (no exemplo, a possibilidade daquele menino, nascido daquela família, ser chamado "José" está, por razões discursivas, mais dada do que a de ele ser chamado Mohammed). Interessante pensarmos que dizer "Eu me chamo X" pode ser parte do que a Análise do Discurso chama de ilusão do sujeito; esconde que "Eu fui chamado X", "Eu sou chamado X".

Benveniste (Problemas de lingüística geral), tomando outro foco, vai dizer que significante + significado, uma vez constituídos em signo, formam um todo não-arbitrário, podendo ser arbitrária a relação desse todo com um referente (algo do mundo). Ou seja, o signo não é arbitrário; a relação ente signo e referente pode sê-lo. Assim, o significante "rosa" tem como significado invariavelmente e necessariamente aquele tipo de flor (esse semi-referente embutido no significado é necessário, obrigatório); e, num segundo momento, esse signo "rosa" (significante + significado) pode designar outra coisa ("qualquer ser que tenha por atributo a beleza", por exemplo, como na frase "Maria é uma rosa"), pode se referir a algo diferente no mundo, em um uso idiossincrático, metafórico, que é posto sempre em relação ao significado literal.

Posição mais complicada parece ser a de Jakobson. A relação entre significado e significante não seria totalmente arbitrária; poder-se-ia encontrar na imagem fônica da palavra (significante) algo que tem a ver com o que a palavra denota (seu significado). Poderiam ser exemplos em português: "pico" tem uma sonoridade breve e ríspida (porque designa algo no mundo que é íngreme), ao passo que "montanha" é uma palavra maior e não tão ríspida (porque designa algo no mundo que é mais extenso e menos íngreme que "pico"). Poderíamos, então, comparar palavras aos pares e ver que elas estão nas coisas, ou as coisas nelas. Penso que isso pode até servir à composição poética; mas, não serve para explicar a língua. Poderíamos citar uma série de palavras em que a não-arbitrariedade de Jakobson não é encontrada (a palavra "montanha" poderia ser considerada uma palavra plana); ou poderíamos forçar a barra para a encontrarmos sempre (o "t" dá idéia de relevo e "mon" e "anha" dão idéia de acúmulo). Mesmo as onomatopéias não são dados empíricos; um russo talvez não ouça um bem-te-vi dizer "bem-te-vi". E não há nada no canto desse bicho que nos obrigue a chamá-lo assim; não chamamos um pato de "quá-quá", se é que pato diz (ou melhor, faz) "quá-quá".

Aborto clandestino, com a benção do papa













Angeli. FSP, s/d



Esta charge foi descoberta pelo blog ForSign, do meu amigo Denis. Achei-a interessante e vou postá-la aqui. Não quero fazer um comentário exaustivo (na verdade, nunca consigo).

O título, "Aborto clandestino", é a chave de entrada para compreendermos a cena: com essa informação, excluímos se tratar, por exemplo, de uma cirurgia de apêndice num hospital legalizado. Aliás, "clandestino" é algo que, por alguma razão, não pode se dar a conhecer; partimos do pressuposto que algo assim é "ilegal". A cena mostra sujeira e desorganização; as manchas de sangue na roupa do "médico" aproxima-o de um "açogueiro" (inclusive, costuma-se usar desta palavra para se referir a maus profissionais da área da saúde). Imaginamos que é este quem fala (também pelo aspecto gráfico: ele está de frente), e não a "enfermeira", por supormos que aquela fala deva ser ou de um proprietário (é mais comum que as clínicas sejam de médicos do que de enfermeiras) ou de quem está um nível acima na hierarquia (e teria mais direito de dizê-la).

Se há o imperativo "relaxe" (imperativo mesmo, e talvez por isso sem efeito), pressupõe-se que a paciente (agora sabemos ser uma paciente) não esteja, nem poderia estar, relaxada. "Relaxe" e "super equipada e esterlizada" são ironias; não talvez do personagem (que pode estar acreditando nisso), mas uma marca do autor: o autor nos dá a cena para que a fala do "médico" seja lida ao contrário ("fique tensa", clínica mal-equipada e imunda). O último período traz justificações a favor do enunciado anterior, "Você está em boas mãos". É claro que essa explicação deve ser engraçada; a charge pede um arremate assim.

A graça é permitida pela dupla interpretação de "benção", que entram em combate na charge: 1) no sentido religioso, de interceder pela graça de alguma divinidade ou coisa do tipo; 2) no sentido mais laico, de "aval" (é claro que o sentido laico ainda carrega a memória do sentido religioso). A charge se relaciona com a visita do papa Bento 16 (ou, papa Ratzinger) ao Brasil, em 2007. A charge argumenta na direção de outros textos que definem Ratzinger como um papa reacionário; daí, um papa contra o aborto. Mas, como poderia então o tal papa abençoar a clínica clanestina de aborto? Nós, leitores daquela charge, saímos desesperadamente em busca de outros sentidos, pois sabemos que não se poderia esperar uma heresia de um papa (ainda mais deste papa). A graça da charge está na solução deste (depois aparente) paradoxo.

É tarefa do papa abençoar, no sentido 1. Ao se pronunciar contra o aborto, em visita ao Brasil (coisa que os jornais noticiaram, e a charge em geral gosta deste tipo de intertexto, a saber, intertexto com outras notícias; o "recentemente" tem a ver com isso, é um indicativo para buscarmos a intertextualidade), o papa deu sua benção (no sentido 2; deu seu aval) para que as clínicas clandestinas continuem "operando". E, ainda, numa leitura complementar, o papa dá o aval não só para as clínicas clandestinas de aborto como também para que o próprio aborto continue clandestino, como se a charge nos dissesse: "o papa não pode impedir o aborto, que é algo corriqueiro embora clandestino, ilegal juridicamente e mal-visto pela Igreja". Essa posição, nesta leitura mais sutil (e, poderão dizer, até forçada), opõe-se à Igreja (e até ao Estado) ao relativizar seu poder.

A conclusão da charge é um implícito (eu diria que o autor concorda com essa conclusão, neste caso; mas determinar isso é algo complicado e fica para uma outra hora): aborto ruim é o aborto clandestino; aborto arriscado é o aborto clandestino; e, seja mais ou menos arriscado, seja mais ou menos clandestino, os abortos vão continuar existindo por aí, queira ou não o papa. A linha argumentativa da charge indica uma posição da charge (e talvez do autor) favorável à legalização do aborto.

Não vou aprofundar o debate sobre o aborto. Os meus leitores mais igrejeiros podem estar arrepiados, pensando que essa charge nem deve estar aqui. E é verdade também que algumas pessoas de dentro da Igreja e das igrejas não amaldiçoam o aborto, e alguns sejam até militantes da descriminalização; ou até já o praticaram. Agora, não há problema de se colocar o debate e fazê-lo (como esta charge o faz) em termos mais laicos, mais seculares.

A charge não nos indica; mas aquela clínica retratada poderia corresponder a uma clínica para pobres. Assim, "aborto clandestino" pode estar significando também "aborto perigoso": a prática do aborto seria clandestina para todas as clínicas; mas, dentre as clandestinas, existiriam aquelas duplamente clandestinas, porque não respeitariam procedimentos médicos gerais, como o da esterilização. Porque, embora também clandestinas, existem clínicas caras, que realizam aborto com higiene e baixo risco à paciente. E, dependendo do nível de pobreza da paciente, sequer há a opção de uma clínica precária (usa-se de pontapés no útero, auto-perfuração, super-ingestão de álcool, etc.).

Existem setores da esquerda brasileira favoráveis à legalização do aborto que usam isso como argumento (cito, por exemplo, o PSOL, que em seu recente 1º Congresso - junho/2007 - deliberou favoravelmente à legalização); seria preciso legalizar o aborto para que o Estado (investindo nisso) reduza as mortes, principalmente as mortes entre as mulheres trabalhadoras pobres. Os defensores desta posição poderão usar esta charge em seus materiais, em suas reuniões etc. E poderão, eventualmente, interpretar que a clínica retratada pela charge é não só clandestina (como todas no Brasil, pelo menos em tese) mas também uma clínica clandestina -clandestina, uma clínica clandestina para mulheres pobres.

No dia 16 vacine seu filho. É de graça e não dói nada.

O título desta postagem foi uma chamada da Campanha de Vacinação contra a Pólio, de 16/06/2007. A chamada era rápida e integrava o rápido comercial do Governo Federal veiculado na TV, naquela mesma data do evento divulgado.

Se a chamada diz "vacine seu filho", seleciona como interlocutor ideal os pais; sabemos, pais que têm filhos dentro da faixa etária que deve tomar a tal vacina. Curiosa é a continuidade da chamada, que podemos desmembrar em dois enunciados. O "e" não só está ligando dois elementos desconexos, mas está funcionando como um marcador argumentativo: "temos dois bons motivos para que os senhores pais atendam o nosso pedido anterior: isso E MAIS isso".

"É de graça" é direcionado aos pais; não é preciso dizer que questões como o desemprego e a péssima distribuição de renda marginalizam uma significativa parcela da classe trabalhadora, mais especificamente do lúmpen. O "vacine seu filho" é para todos. O "é de graça" colocaria como interlocutor ideal os pais pobres; ou até os organizadores da Campanha quiseram dirigir-se aos pais que considerava "irresponsáveis" ou "mal-informados" (o que provavelmente não estaria, na imagem feita pela Campanha, fora do conjunto dos "pobres"), para quem a primeira chamada não bastaria. Seriam necessários argumentos; aqui, ligados pelo "e". Inclusive, pela brevidade da chamada, e pelo discurso da brevidade e da eficácia da propaganda em geral, imagina-se que os argumentos tenham que ser bons.

Poucos lugares substancializam seus interlocutores como a "boa" propaganda; embora muitas vezes o faça de forma preconceituosa ou acrítica (não estou dizendo que é o caso da peça publicitária aqui analisada), até por isso mesmo, é inegável que costuma funcionar. Tudo bem que algumas generalizações são inevitáveis, e na peça que aqui analisamos a causa é até nobre; queremos dizer que a propaganda, quase em geral, evidencia-nos que em toda interlocução há um jogo complexo de imagens. Ao dizer, o locutor faz uma imagem do seu interlocutor, e faz também uma imagem da imagem que o interlocutor faz do locutor. E vice-versa; poderíamos tomar a palavra "interlocutores" no sentido geral, para indeterminar quem fala e quem escuta, até porque são lugares que se alternam, e para reforçar que um fala no outro. Mas isso iria , para os limites desta postagem, trazer confusão, maior do que aquela do locutor-interlocutor. É claro que não estamos convocando todo esse jogo de imagens para esta nossa análise, mas apenas parte dele. E, também, queremos mais é pensar quais são os interlocutores evocados pela chamada que dá título a esta postagem.

O recado então vai restringindo os seus interlocutores e nos dando sinais da imagem que faz destes interlocutores: os pais em geral ("vacine seu filho"); os pais pobres, irresponsáveis ou mal-informados ("é de graça"). Com "não dói nada", entra algo novo; a restrição dita anteriormente talvez até continue, mas parece que um interlocutor novo é evocado. Os interlocutores talvez não sejam mais os pais (adultos), mas sim as crianças (estas, mais do que os pais, é que deveriam estão preocupadas se a vacina dói ou não). Mas, a chamada não expressou a mudança de interlocutor (por favor, não me digam que isso é problema de coerência textual; a coisa é mais complexa). "Não dói nada" é argumento a favor da vacinação, direcionado às crianças, e, ao mesmo tempo (por que não?), aos pais. Talvez agora a imagem dos pais seja a daqueles que não têm controle sobre seus filhos. Sendo ou não isso, "não dói nada" é, em última instância direcionado às crianças, do interesse das crianças; o que não impede que os pais (os interlocutores evocados no começo da chamada, e que continuam enquanto tal) façam a mediação entre a propaganda e os filhos.

Mantendo os pais como interlocutores, a propaganda não só diz algo, mas implicita um procedimento que os pais devem adotar com os filhos (imaginando que isso fará com que mais crianças sejam vacinadas), como se lhes dissesse: "´não dói nada´ é um argumento que os senhores pais devem usar junto aos seus filhos". Se "não dói nada", pressupomos que a vacina deva ser de gotinhas; e pressupomos isso a partir do ponto de vista da criança (outro sinal de que esta é a "destinatária" final), para quem uma agulhadinha doeria mais que para os adultos. O "nada" duplica a negação (e a negação da negação nem sempre é afirmação, como pretendem os lógicos), dando-lhe ênfase; e também faz com a frase se aproxime do jeito como os adultos falam com as crianças. O "não dói nada" é uma expressão já quase na boca dos pais, é um argumento da chamada destinado a ser um argumento aos pais. Podemos imaginar um pai dizendo aquilo, ou uma paráfrase daquilo com seus pressupostos: "vamos, não vai doer nada, é de gotinha".

sábado, 16 de junho de 2007

Para riso travado, recomendo a Veja

Esse texto é do Dom Quixote De La Prensa, um dos autores do site Brasil Wiki! O "apelido" retoma não só o nome de Dom Quixote De La Mancha, mas também sua insatisfação e seu reconhecimento da grandiosidade do combate (que outros tenham por imaginário); no caso do De La Prensa, combate não com moinhos, mas com a grande ímprensa. Reproduzo o texto (engraçado e interessante) abaixo, na íntegra. Ao final, uma apresentação do autor, de responsabilidade do mesmo.

Para riso travado, recomendo a Veja (05/06/2007)

Está muito engraçada a Veja desta semana. Acho que vou começar a recomendar a revista para quem está com o riso travado. Como eu parei com as drogas, só fiquei sabendo do assunto porque um amigo recebe a revista de graça e me contou. Uma das reportagens internas tem o seguinte título: Viva o movimento estudantil. Mas a linha fina explica: da Venezuela.

Quer dizer, o movimento estudantil que protesta contra o José Serra não merece uma reportagem digna, explicativa, com a opinião de todos os lados, para que o leitor faça o melhor julgamento. Mas o que protesta contra o Chávez merece todo destaque. Não vou nem me alongar no comentário, está tudo muito claro. Sou contra a proibição das drogas, o leitor é que deve escolher.

Aliás, o Estragão desta terça-feira tem outro factóide do presidente eleito José Serra, (como diz o Paulo Henrique Amorim). Nenhum repórter sequer foi acossá-lo para que explique a crise da autonomia universitária. Mas mandaram cobrir o lançamento de um programa para acabar com as queimadas nos canaviais paulistas, programa que já existe há algum tempo.

Dom Quixote de la Prensa

Um jornalista que vive há mais de 17 anos dentro da fábrica de produtos de lavagem cerebral, nesse jornalismo que sonega informações e manipula a opinião do leitor. Sou um jornalista que acredita na informação como um direito do cidadão, não como mercadoria ou instrumento de deformação do pensamento. Enfim, um Dom Quixote, romântico, idealista, louco, ridículo e incurável. Que teme se identificar e perder o emprego por ter cometido o que em ditaduras se chama de crime de opinião.

Condenado à morte organiza concurso para escolher sua última piada

Yahoo!Notícias. 16/06/2007.

(Esta notícia vai na íntegra; nem vou comentar. A própria notícia é uma piada, de humor negro.)

WASHINGTON (AFP) - Um homem condenado à morte no Texas por duplo homicídio organizou um concurso de piadas na Internet para escolher suas últimas palavras, antes de receber a injeção letal, no dia 26 de junho.

"Aproveitarei meus últimos dias na Terra (...) Peço que divulguem o concurso que estou organizando. Quero que as pessoas me enviem suas melhores piadas para que possamos escolher a melhor, que vou contar antes da execução", disse Patrick Knight, de 39 anos, à rede de televisão CNN nesta sexta-feira.

Knight prometeu que lerá a piada quando lhe perguntarem quais são suas últimas palavras.

Condenado pelo assassinato de dois vizinhos, em 1991, Knight passou os últimos 16 anos no chamado "corredor da morte" em uma prisão do Texas, estado responsável por um terço das execuções nos Estados Unidos.

Knight disse à CNN que o "corredor da morte" precisa de uma "injeção" de humor: "temos uma situação onde há pessoas inocentes, o que não é o meu caso, que precisam das piadas para aliviar a tensão".

O condenado destacou que, já que vai morrer mesmo, é melhor que isso aconteça com uma risada.

Knight chamou sua página na Web de "Dead Man Laughing" (Homem Morto Rindo), uma piada com "Dead Man Walking" (Homem Morto Caminhando), o livro sobre a pena de morte de Helen Prejean, a freira católica defensora do fim das execuções.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Agora, finge de morto!


















Obra dos meus colegas da Camará Comunicação. Maio / 2007.


Charge não é só ilustração, desenho. Já falei antes que uma foto-montagem pode soar como charge, se buscar coisas como humor, relações de implicitação, tratar de um tema político-social, enfim, se cumprir alguns requisitos identificados como identificadores do gênero "charge". Esta imagem nasceu como cartaz; mas aqui tomo-a no que tem de charge (considero apenas imagem e "Agora, finge de morto!" e até mesmo "Decretos de Serra"; desconsidero a propagando pequena no rodapé). Até porque uma charge pode ser publicável em cartaz, isto é, não só integrar um cartaz, como ser ela mesma afixada, fazendo-se cartaz.

Não achei nenhuma charge do governador José Serra segurando a arma. A Folha de São Paulo não trouxe nenhuma charge sobre isso (vou dar uma olhada melhor); no período, tratou (como costuma tratar) mais da política nacional e por vezes internacional (mas eu diria que esse silêncio é significativo). Também, a própria foto já é caricatural; o governador deu sua caricatura já pronta (estou forçando a barra). A foto, na origem, não o é, mas nessa (e noutras) foto-montagem ela é relacionada com os decretos relativos ao ensino superior e ao movimento das universidade públicas paulistas.

Nesta, em específico, é um pressuposto que apontar uma arma é violência. Aliás, poderíamos pensar isso em termos de um silogismo:

Premissa menor: Quem aponta arma é violento
Premissa maior: José Serra aponta a arma
Conclusão: Logo, José Serra é violento

Neste caso, a premissa menor seria um pressuposto, a maior seria um posto e a conclusão, um implícito. O sentido físico de violência armada deriva-se metonimicamente para o sentido de "violência política" atribuído a Serra. Este sentido é relacionado à posição de que a política de Serra é um abuso: "finge de morto" é ordem cabível a cães, ou a torturadores (o "cap" ao fundo pode suscitar uma memória da tortura militar durante a ditadura no Brasil). "Finge de morto" pode ter um sentido implícito de natureza irônica (aos autores da charge) e interdiscursiva: "finja que nada está acontecendo; não reaja!". Os autores deixam o "outro" (Serra) falar algo que esse "outro" na verdade não falou, mas que poderia ter sido dito, ou melhor, poderia ser produzido pelo lugar enunciativo de Serra (governador, considerado "de direita"), pelo menos no nível do que Maingueneau chama de simulacro (na polêmica, o outro fala em nós, mas destacamos e reelaboramos, expressivamente, pontos que nos interessam no embate, silenciando outros).

O "agora" dá idéia ou de urgência ou de que algo já foi exigido antes ("agora, quero outra coisa"); sugere que as ações de Serra são sistemáticas, fazem parte de uma política. O sorrisinho irônico de Serra ajuda esse sentido e faz dele um caricaturável, a um passo da caricatura. Prato cheio para os adversários, como trataremos ao final do texto.

Relaciono esta imagem com aquele clássico cartaz do Tio Sam: "I want you". O Tio foi mais esperto e sua violência foi mais sutil: "só" apontou um dedo. O Tio chama ("I want you"); o Serra também deve ter querido chamar (querendo-se um não-ranzinza ao eleitorado), mas muitos dos usos feitos dessa imagem (por exemplo, a nossa charge) acaba fazendo-o repelir. Este uso (do Serra repelindo) é quase um dado, mas não é um dado; precisa de quem o elabore, de quem ressignifique algo em outra coisa. A "gafe" é uma reconstituição (é um ver com outros olhos, a partir de um outro "eu", um ver da alteridade, da polifonia) até quando o autor dessa gafe se aperceba imediatamente que a "cometeu".

Há um interdiscurso aqui, entre o que se imagina tenha sido a "intenção" do Serra e o que os autores da montagem quiseram dizer. Esse interdiscurso revela um outro: "ironizo Serra porque ele é meu adversário", poderiam dizer os autores da charge. Isso nos sugere que a interdiscursividade não acaba neste ponto, mas pode ser expandida, por contigüidade: proponho a idéia de um "contágio interdiscursivo" (quem sabe um dia isso vire conceito?).

E há ainda uma outra interdiscursividade, que forjei. Em certo sentido sempre forjamos interdiscursividades, pois os discursos e suas reentrâncias não são fatos empiricamente atestáveis e estanques, mas aqui forcei demais a barra, talvez, uma interdiscursividade em mim; eu poderia também dizer intertextualidade, ou interfiguracionalidade. Estou falando, obviamente, da foto do Serra posta em relação à figura do Tio Sam.

Tio Sam: "I want you"










Autoria desconhecida. Cartaz do Tio Sam. "Eu preciso de você".


Não quero discorrer aqui sobre essa imagem. Coloquei-a em relação a uma charge que tomava José Serra como personagem. Veja esta charge e o meu comentário.

Pentágono pensou em utilizar a 'bomba gay' contra os soldados inimigos

O título da postagem é uma manchete do "UOL Ciência e Saúde" de 15/06/2007. Assim diz o primeiro parágrafo:

"Uma 'bomba gay', que transforma os soldados inimigos em homossexuais que preferem fazer amor a fazer a guerra, foi uma idéia destrambelhada proposta nos anos 90 ao Pentágono para resolver seus conflitos bélicos."

Muito bom o uso de "preferem fazer amor a fazer a guerra", neste primeiro parágrafo, que está em relação intertextual com o slogan dos levantes (principalmente os estudantis, principalmente no oeste-europeu e nos EUA): "Façamos amor, não façamos a guerra". A palavra "destrambelhada" dá idéia de que o projeto não deu, nem poderia dar (ao ver do autor), certo. Mostra que o jornalista (ou o redator, ou o portal de notícias, ou o locutor, ou o enunciador, ou a posição discursiva; discuti um pouco dessas coisas em outros textos, neste blog) não é invisível; revela-se aqui em sua espessura. Interessante que o especificador (artigo) "a" na manchete pode indicar que a bomba exista ou tenha existido (alguns diriam que há uma incoerência textual, entre a manchete e o corpo da matéria).

Ao ler a matéria, vemos que não há nada no projeto da bomba que queira estimular a homossexualidade. Esse possível sentido é permitido (ou, até, dado) pela manchete e estaria em relação com a posição que reduz a homossexualidade a algo biológico: quem assim ler, poderia pensar que a bomba pretendia estimular os aspectos biológicos da homossexualidade. Mas, o projeto pretendia aumentar a libido dos soldados inimigos; e como pressupomos / sabemos que entre os soldados só havia (há) homens...

Existe um outro pressuposto (mais um daqueles perigosos) que quer passar que homossexual é menos combativo, pois guerrear seria "coisa de macho". O velho discurso homofóbico, e até machista. Poderíamos dizer que a matéria só ganhou o destaque que ganhou (capa do site UOL naquele dia) porque os editores (ou quem quer que mande lá) sabem que é uma matéria "curiosa", que deve chamar a atenção; isso porque sabem que o discurso homofóbico, inclusive feito de piadas homofóbicas (se neste blog falamos de humor), é muito presente. A própria matéria diz: "Esta história de 'bomba gay' virou prato cheio para piadas e comentários jocosos dos blogueiros".

Algumas piadas vão na direção oposta à pejoração, como a matéria também nos mostra: "'Se tínhamos uma bomba gay, por que não as usamos nas montanhas do Afeganistão?', questiona o republicoft.com, que se identifica como um negro e homossexual que vive em Washington". por não termos o contexto, não sabemos se isso foi colocado em termos de piada (imagino que sim); mesmo se foi, não é por ser piada que vai perder a força ou a validade da crítica (às vezes, a piada dá mais força a uma crítica, sabemos). Esta piada é complexa e vai no sentido que apontamos no começo (a bomba estimulando a homossexualidade e não a libido em geral), pois pode querer: 1) defender o direito de ser homossexual; 2) sugerir que a homossexualidade é algo culturalmente reprimido e que a bomba poderia ajudar a romper as barreiras; 3) criticar o governo Bush ou os governos imperialistas por muitas mortes no Afeganistão; 4) pressupor (evocando uma memória discursiva) que no meio militar (talvez sobretudo o estadunidense) tudo o que de pior que se diz que não existe, existe.

A reportagem em questão tem o mérito de trazer várias posições.

Odeio rodeio (Chico César)



Chico César em Presidente Prudente. 20/05/2007

Odeio rodeio
E sinto um certo nojo
Quando um sertanejo
Começa a tocar
Eu sei que é preconceito
Mas ninguém é perfeito
Me deixem desabafar

A calça apertada
A loura suada
Aquele poeirão
A dupla cantando
E um louco gritando
“Segura peão”

Me tira a calma
Me fere a alma
Me corta o coração
Se é luxo ou é lixo
Quem sabe é bicho
Que sofre o esporão

É bom pro mercado
De disco e de gato
Laranja e trator
Mas quem corta a cana
Não pega na grana
Não vê nem a cor

Respeito Barretos
Franca, Rio Preto
E todo o interior
Mas não sou texano
A ninguém engano
Não me engane, amor

(Chico César, CD Compacto e Simples, 2005)

A música é interessante, a crítica é mordaz. Ótima também para aulas de português, geografia, história, sociologia etc. Quero mais destacar os três primeiros versos da terceira estrofe, e deixar o resto por conta do leitor. Não sei exatamente qual, mas uma canção sertaneja já disse isso antes (se alguém souber, me informe). Mas, saber qual não é o mais importante. Há uma relação de intertextualidade, seja o texto "original" localizável ou sejam os textos dispersos. Eu imagino um sertanejo, com seu "ethos" melodramático, enunciando aquelas frases; é verossímil porque está dentro da tópica (dos temas recorrentes), das frases possíveis e dos jeitos possíveis do discurso néo-sertanejo.

A questão é que, além de intertextualidade (retomar um outro texto), há também interdiscursividade (retomar para se opor). Segundo FIORIN (apud POSSENTI, "Observações sobre interdiscurso", mimeo), toda interdiscursividade é intertextual, mas nem toda intertextualidade é interdiscursiva. Ou seja: intertextualidade é quando um texto retoma um outro texto ou uma dispersão de textos, não importa como; interdiscursividade é retomar o dito, intertextualmente, para deslocá-lo de sua posição, provocando um diálogo entre discursos diferentes (alguns chamam isso de paródia, enquanto que a paráfrase estaria no mesmo espectro discursivo).

Nesta canção, o discurso amoroso do "sertanejo" é deslocado para o discurso politizado de Chico César: é o rodeio, e não a paixão não correspondida, o que tira a calma, fere a alma, corta o coração. Uma sátira parece ser amplificada quando se desloca o sentido do texto do satirizado para devolver o sentido modificado contra ele, o que resulta em um esgarçamento discursivo. Perceba que a letra oficial traz "a dupla cantando", enquanto que Chico César, nesta apresentação "ao vivo", diz "a Sandy cantando"; parece óbvio que "dupla" (sertaneja, claro), na gravação oficial, tem também a finalidade de evitar processos judiciais contra Chico César (o autor é o que responde pela obra, inclusive judicialmente); no show, vai "Sandy" mesmo, para que a crítica ganhe com a especificidade de atacar um "grande" sertanejo, sem perder o caráter geral (exatamente por ser "grande", "Sandy" significa, metonimicamente, o conjunto dos sertanejos que cantam e lucram com os rodeios).

Argumentos de duas formações discursivas não-contíguas (em outras ocasiões podendo ser antagônicas) são os principais, aqui convocados para o eu-lírico justificar sua contrariedade aos rodeios: o discurso anti-capitalista (4ª estrofe) e o discurso preservacionista/ ambientalista (3ª estrofe).

Para terminar, interessante perceber neste clipe a capacidade de "performance" desta canção. Uma canção simples, do tipo "cantar para fora". Os acordes (não-dissonantes), a batida do violão e a "pobreza" do arranjo representam certo despojamento da canção e aproximam esta do gênero musical "sertaneja" (também chamado por alguns de "sertanojo"; e dentre esses alguns, há alguns que o fazem para diferenciar o "sertanojo" do "sertanejo raiz" ou da "nova música de viola"). Talvez o eu-lírico (e ainda mais o autor, podemos dizer) esteja implicitando que não é o gênero musical o objeto do ódio, mas a posição majoritária dos que se vinculam a este gênero.

quinta-feira, 14 de junho de 2007

O implícito no estudo das charges















Angeli. FSP, 21/05/2007.

Depois de um tempo, esse negócio de analisar parece um pouco repetitivo. Analisar esta charge seria falar de novo várias coisas que eu já disse na análise de charges anteriores. Leitor, leia-as, e nos poupe!

Vou começar, então, por um viés novo. Ducrot, em "Princípios de Semântica Geral - Dizer e não dizer", faz um estudo sobre o implícito. Implícito seria aquilo que pode ser deduzido ou do enunciado (do dito) ou da enunciação (do dito nas condições em que é dito). Esta charge faz parte de uma série de charges de Angeli que possuem a mesma estrutura superficial: uma frase no topo, que nos sugere ser uma manchete de notícia, e um desenho (às vezes desenho + fala) ressignificando aquela frase. Essa ressignificação deve ser algo de certa forma inesperado pelo leitor, o que ajuda o humor. A conclusão deve nos aparecer como um "sempre lá" do anterior, no caso, da frase inicial: o sentido inesperado poderia ser implicitado daquela frase.

Pois bem, o implícito seria então o que de não-explícito podemos ou reconstituir ou recriar de um enunciado / de uma enunciação. O sentido implícito não pode ser entendido nem como uma corrupção da boa comunicação lingüística (sic), nem como algo dado empiricamente em todo e qualquer enunciado (se nem o explícito o pode). A depender do caso, a origem do implícito pode ser buscada no locutor, no interlocutor, em ambos, no lapso, na situação, nas condições históricas de produção, na memória, no interdiscurso, no intertexto etc. Para usar de um exemplo do próprio Ducrot, podemos elogiar Paulo não para enaltecer Paulo, mas para dar um modelo a Pedro (não sei se é esta ordem que Ducrot usa, mas ela me agrada).

Nesta charge, a "manchete" deve ser lida em um sentido sério (esperado de manchetes de textos sérios). "Ações contra corrupção aumentam índices de violência" pode querer significar, neste uso sério, que uma corrupção desvendada representam um incremento nos dados estatísticos sobre criminalidade (embora possa-se dizer que "criminalidade" não esteja contido em "violência"). Se recusarem minha leitura, podemos dizer que nenhum sentido muito preciso é dado na "manchete", e, com isso, ela não traria um sentido explícito inicial; só é possível lê-la ao final da leitura da charge. Continuo defendendo minha leitura inicial, para que o arremate humorístico da charge tenha um ponto a partir do qual possa deslocar-se.

O texto ao rodapé da charge é atribuído (apesar de não haver "balões") ao "nós" daqueles personagens. Outro implícito ou, neste caso, pressuposto da ordem das imagens (sim, podemos tentar aplicar isso não só à linguagem verbal) seria que aqueles corruptos ainda não foram descobertos (não fazem parte dos índices), pois haver piscina é uma cena validada para "liberdade", e liberdade com dinheiro (uma versão pocket de um cenário paradisíaco).

Ainda que a frase do topo não seja uma manchete, tem uma constituição parecida com uma manchete: caráter sintético, geral, apresentativo; estar ao topo etc. Em geral, o gênero (ou sub-gênero, ou componente de gênero) "manchete de notícia de jornal" traz algo que depois será explicado, justificado. Um novo sentido (uma nova significativa para o aumento da criminalidade) é atribuído àquela manchete, e esse implícito estava "sempre lá" (daí sua reconstituibilidade) como possibilidade, para a qual não nos atentamos. Retroagimos nossa leitura, ressignificando a manhete; porém, o sentido inicial não é perdido; ainda permanece, chocando-se polifonicamente com o sentido novo (engraçado). Não houvesse esse choque, não acharíamos graça nenhuma.

Isso se torna possível pelo caráter lacunar daquela (ou do gênero) manchete; e, poderíamos dizer, da língua de uma forma geral.

Reconhecemos como uma boa leitura de charge (também de piadas) aquela que recupera um implícito engraçado imaginado pelo autor / pela fonte. Mas, em outros casos (e eventualmente em alguma charge), o interlocutor (a chegada) pode fazer graça com algo que o locutor / autor não se apercebeu ao dizer.

O implícito interessa à leitura do humor porque este muitas vezes consiste na descoberta a posteriori de um não-óbvio, em uma frase exemplarmente permissiva aos sentidos, à polifonia. O antes e o depois muitas vezes são o choque entre posições locucionais (dois sujeitos diferentes que falam, como é o caso) e enunciativas (duas posições diferentes que falam, como é o caso). Se este não-óbvio for um não-óbvio difícil a uma primeira leitura, mas facilmente reconstituível em uma segunda, tanto melhor para o humor.

O samba da mais-valia (Sérgio Silva)



Sérgio Silva. O samba da mais-valia. Gravação e vídeo feito por alunos da Unicamp.

O professor de sociologia da Unicamp, Sérgio Silva, arrisca a composição deste samba, sobre a teoria de Marx (na primeira parte) e sobre a relação desta com questões brasileiras (na segunda). É necessário um pouco do que Maingueneau chama de "conhecimento enciclopédico" para compreender a canção, por serem inúmeras as menções. Para dar um só exemplo, citemos a intertextualidade da primeira estrofe com o dito marxiano: "O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações, isto é, unidade do diverso".

É também necessário um pouco de "conhecimento genérico" para compreender que o tema é um tanto incomum para o gênero "samba". Esse deslocamento causa certa graça e nos faz perguntar: "por que não um samba sobre a mais-valia?" Este samba se inscreve no que, na academia, é chamado "trabalho de divulgação", que seria preocupar-se em tornar o conhecimento acadêmico acessível a não-especialistas (e para isso não é preciso despretigiar os estudos mais aprofundados). Embora de forma não tão erudita, é recorrente ao gênero "samba" fazer-se de peças que trazem críticas sociais (por um viés popular, o mesmo tema é de certa forma tratado em "Samba do operário", de Cartola e outros). Isso seria um discurso fundador do samba, obviamente que negado pelas apropriações de cultura de massas.

O samba do operário (Cartola et alii)

Se o operário soubesse
Reconhecer o valor que têm seu dia
Por certo que valeria
Duas vezes mais o seu salário

Mas como não quer reconhecer
É ele escravo sem ser
De qualquer usurário(2x)

Abafa-se a voz do oprimido
Com a dor e o gemido
Não se pode desabafar

Trabalho feito por minha mão
Só encontrei exploração
Em todo lugar


Este samba não é do Chico Buarque; integra a canção "Linguagem do morro", gravada pelo Chico mas também não composta por ele. Citei "O samba do operário" na postagem que falava de "O samba da mais-valia" (leia, veja e ouça).

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Charge animada: Na língua deles

Charges.com.br. "Na língua deles". 05/06/2007. http://charges.uol.com.br/2007/06/05/cotidiano-na-lingua-deles/

Clique hic et nunc para assistir a uma charge animada cuja cenografia é de uma matéria do Jornal Nacional. Uma daquelas típicas matérias de escuta (telefônica, no caso) entre interlocutores colarinhos-brancos tramando suas maracutaias. O engraçado é que o jeito de falar "é" do malandro classe-baixa, e as expressões para cifrar a conversa (algo que vemos sempre nesse tipo de gravação, algo que os interlocutores fazem para evitar ou pelo menos amenizar um possível flagrante, já antecipado por eles) são expressões em latim. O humor da charge se dá no encontro entre 1) o uso esperado: advogado e juiz falarem expressões em latim (e não falarem gírias "baixas"), e 2) a distorção desse uso: falarem expressões em latim a torto e a direito como forma de codificar o trambique, de trambicarem com "requintes de crueldade" (assim, pressupõe-se atributo de maior gravidade àquele crime, assim considerado).

As gírias (e aquelas gírias em específico), relacionadas em geral a pessoas de classe-baixa ou a pessoas de pouca escolarização, trazem um pressuposto traiçoeiro: trambicar é algo típico desse tipo de pessoa, tanto que falar gírias serve sub-repticiamente como atestado de que os advogados trambicam. Então, o título da charge não nos diz tudo: tudo bem que o latim pode ser uma "língua deles" (no sentido de "não nossa", mesmo que não se queira dizer que os advogados dominam tudo de latim), mas aquelas gírias não são da língua deles, mas sim de outros. O pressuposto é que falar gíria, e aquele tipo de gíria, é coisa de bandido, e, talvez, de bandido vulgar. E usar muitas expressões latinas pode implicitar a ilegalidade do que está sendo dito. São superiores vulgares.

E aqueles interlocutores falam muitas gírias e expressões latinas: a graça está também na hipérbole (no exagero significativo) e no contraste entre a gíria (com a prosódia tida como característica a seu favor; e esta gíria-prosódia seria esteriotipada como de pessoas de classe-baixa / pouca escolarização), e os termos latinos (que sugerem uma alta escolarização). A gíria e mesmo o uso exacerbado de expressões latinas colocam os interlocutores fora de seu dizer cotidiano, reforçando que, ao trambicarem, os doutores estão fora do lugar profissional e do ethos esperado de profissionais da área jurídica.

terça-feira, 12 de junho de 2007

Mil Perdões (Chico Buarque)



Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais

Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair


Existem palavras que, ao serem ditas, fazem. Na verdade, todas as palavras têm um pouco disso, mas destaco aquelas que, ao serem ditas, necessariamente fazem o que estão dizendo que fazem (e fazem, além disso, outras coisas). Por exemplo, dizer "eu te advirto" ou "eu prometo" é fazer o que se está dizendo. Em alguns casos, para haver validade, o dizer depende de quem diz a quem, em que circunstâncias, etc: "está aberta a seção" faz algo se quem diz tem autoridade para abrir a seção, e este alguém está numa quase-seção ao dizer. Comecei falando disso porque dizer "te perdôo" é também fazer algo (mais detalhes, ver os "Atos de fala", de Austin).

A idéia é a seguinte: quando enuncio algumas daquelas expressões, e não há impedimentos circunstanciais, estou fazendo o que enuncio, independetemente de minha vontade, uma vez que o ato estaria inscrito na própria língua. Poderíamos nos perguntar se o locutor (aquele personagem imaginário que diz "te perdôo" na canção) está de fato perdoando, pois se trata de uma ficção, e a canção busca outras coisas que não o perdão ou que não o dizer que alguém perdoa outrém. Porém, para a cenografia (no sentido de Maingueneau, a cena específica que engrena o texto; ou, em termos mais simples, a "ceninha" criada pela obra) é de alguém que perdoa ao dizer "te perdôo". A partir dessa cenografia, a canção pode suscitar outras coisas.

Ainda: dizer "te perdôo" pode não fazer o perdão; se dissermos a um corinthiano: "te perdôo por você torcer pelo Corinthians", provavelmente não o estamos querendo perdoar. Mas os partidários dos atos de fala poderão dizer que, neste caso, o perdão está contido na expressão e, embora em um uso incomum, só é passível de ser entendido humoristicamente e/ou só pode ser tido como provocação se os interlocutores souberem do uso sério, primeiro, de "te perdôo".

A cenografia da canção é de um locutor dirigindo a palavra para oferecer perdão a uma interlocutor (que, provavelmente, não pediu perdão), provavelmente de sexos opostos. Mas, um homem dizendo para uma mulher, ou uma mulher dizendo para um homem? No meu entender, a canção deixa margens para ambas as possibilidades. Até, não é descabida a idéia de que a canção encena um diálogo e que cada estrofe é a fala de um locutor (e teríamos dois locutores e, talvez, dois enunciadores, como explicarei), talvez nesta ordem (por indicações de esteríótipos): mulher, homem, mulher, homem. Pode-se pensar também que não interessa para o autor quem está dizendo a quem (por isso não se refira a quem fala e não marque o gênero, como explicarei).

Procurei na internet para conhecer opiniôes e achei só uma ocorrência: o espetáculo "Palavras de mulher" (2005) incluiu "Mil perdões" entre as canções de eu-lírico feminino.

A canção não traz marcação de gênero em nenhuma palavra; no momento em que podia fazer isso, parece que Chico preferiu não fazer, a fim de manter o impasse: a palavra "exuberante" é comum de dois gêneros; se fosse, por exemplo, "magnífica" / "magnífico", saberíamos. Esse seria o argumento para defender que, para o autor, não interessa quem está perdoando a quem.

Tentemos, mesmo assim, prosseguir. Se as marcas morfológicas não dão conta de nos indicar, talvez as marcas discursivas nos ajudem. Mas, ainda assim, pode permanecer o impasse:

1) Argumentos para defender que é um locutor-homem falando para uma interlocutora-mulher: alguns esteriótipos femininos em relacionamentos afetivos são lançados, e o locutor-homem estaria pedoando-os (as mulheres vigiam, sentem ciúmes demais, são sensíveis, choram). Contra-argumentos: tudo bem que as mulheres façam perguntas demais, mas (já que estamos este ponto se funda nos esteriótipos) não perguntas relacionadas às vidas que andam juntas (1ª estrofe), ou seja, elas sabem (ou devem saber) da data do primeiro encontro, dos gostos, etc. Outro ponto é o "rodar exuberante", na 3ª estrofe, que é um ato atribuído normalmente à mulher e marcado pejorativamente quando atribuído a um homem (a menos que "rodar" não seja "girar em torno do próprio corpo" e sim "dar uma volta pela cidade"). (por favor, estou apresentando os esteriótipos, não dizendo se concordo ou não com eles)

2) Os contra-argumentos do ponto anterior podem ser argumentos para a defesa da existência de um diálogo (dois locutores), em que as estrofes ímpares seriam atribuídas a uma voz feminina e as pares, a uma masculina. Contra-argumentos: se a idéia de alternância não está expressa pela música, não deve estar latente, pois seria de uma leitura muito complicada. Os perdões devem estar sendo dados por um locutor a um interlocutor. E, se assim fosse, nesta gravação Chico e Daniela Mercury poderiam reproduzir exatamente essa alternância.

3) Os contra-argumentos de 1) e de 2) são argumentos para a defesa de que o eu-lírico é feminino. Mas, e quanto aos esteriótipos? Ora, nesse caso teríamos menos esteriótipos que em 1) e a chave seria entendermos essa mulher que fala como mais idiossincrática, sendo que, naquela relação fictícia, ao homem caberia o papel esteriotipado como "feminino" (com exceção, talvez do "bateres em mim", mas isso pode ser entendido também como uma atitude "feminina"). A voz feminina, neste caso, destoaria dos esteriótipos da submissão e do "sexo frágil".

Eu poderia dizer que defendo mais um ponto do que o outro. Mas, isso pouco importaria. Como diria Umberto Eco, pode não existir uma leitura só para um texto, mas não é qualquer leitura possível ou cabível. É preciso separar o adequado do inadequado. Talvez a 2) seja a mais inadequada. Como não quero optar, opto pela leitura 0), isto é, vou concluir à análise me preocupando com um outro ponto, chamando "locutor" aquele que "perdoa" e "interlocutor", aquele que é "perdoado". Quem quiser defender um lado, o outro, os dois, nenhum ou muito pelo contrário, pode postar em Comentário (ali abaixo) o seu voto, para assim termos um placar da disputa.

O final de "Mil perdões" (minha parte preferida) é misterioso e, dependendo da leitura, violento. A leitura mais banal de "Te perdôo por te trair" pode querer dizer que o locutor imputa ao interlocutor a "culpa" da traição. A traição pode ser a resposta daquele locutor contra tudo o que foi inventariado ("perdoado") na canção: "já que você fez tudo isso, minha forma de te perdoar ou de esquecer tudo é te traindo, e disso também peço perdão". Um perdão ao mesmo tempo condenatório, perdão-sem-perdão, estando a ironia no domínio do locutor, ou seja, no nível da cenografia, não extravasando para o autor. Os "mil perdões" (isso é mais que os "70 vezes 7" da Bíblia) seriam argumentos no sentido de justificar a traição.

Ou, poderíamos ter uma outra explicação (quantas!), mais complexa embora ainda na mesma direção do que expusemos: o locutor é de uma posição favorável a uma relação poligâmica, diferentemente do interlocutor; diria o locutor, assim: "amo / amei outras pessoas além de você; não acredito que amar outras pessoas seja uma traição, mas te perdôo por você achar que sim".

Mas, já que estamos complexificando, prefiro uma outra leitura, muito mais engraçada e menos óbvia para os leitures "ligeiros" (talvez não para o Chico), daquele trecho. Como se o locutor dissesse: "eu não te traio, mas já que você fica dizendo que eu te traio, eu te perdôo por você achar que eu te traio". Haveria duas vozes enunciativas nesse trecho: "te perdôo" seria do locutor e "te trair" seria a opinião que o interlocutor reserva (essas duas vozes também aparecem na interpretação do parágrafo anterior). O "te trair" é mantido na sua crueza - e não como a minha paráfrase -, para dar voz ao (ponto de vista do) interlocutor e para tornar mais encarniçada (mais poética, por que não?) a peleja, o choque de posições.

domingo, 10 de junho de 2007

Hilária entrevista de emprego



Monty Python. Sketch do episódio 5: "Man's Crisis Of Identity In The Latter Half Of The Twentieth Century". Flying Circus. Legendado.

Bom vídeo para pensarmos a não-paridade (igualdade) entre as partes envolvidas nas relações de produção. As partes: os detentores dos meios de produção (ou, o gerente incumbido de seu papel) e aqueles que só possuem a força de trabalho. Isso apesar da ilusão de igualdade que o contrato de trabalho quer encerrar (neste vídeo, sequer haverá um). Além do mais, aqueles dois lugares estão marcados socialmente, no quadro de uma entrevista. As falas e as posturas destoam do que se imaginaria para a cena, mas não podem destoar muito, sob pena de não entendermos a cena. Temos a "cena validada" de uma entrevista graças a coisas como a mesa grande do "chefe" e a cadeirinha do entrevistado, o tom inquisidor do primeiro, a apresentação inicial do "chefe", etc. Uma das imagens para entendermos o humor seria pensá-lo como um feto que esperneia contra a placenta de uma cena validada.

sábado, 9 de junho de 2007

Isso de querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além

Vou analisar o curioso poema "Incenso fosse música", de Paulo Leminski:

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

É um poema, mas está na seção "Frases curiosas" porque não tenho outra. E também porque é um micro-poema, quase do porte de uma assertiva, de uma sentença. Há linearidade, apesar das quebras de versos (não ou nunca casuais): as quebras neste caso têm valor gráfico-métrico (fazer com que os versos fiquem mais ou menos do mesmo cumprimento), mas essa duração não precisa ser exata e sim estar combinada com blocos (mais ou menos) de sentido.

O humor é algo presente nas poesias de Leminski, como também o caráter aforístico de muitas de suas poesias. Buscam ser "boas sacadas", quebrando a gravidade de certa tradição poética (romântica). Questiona os limites do gênero: o que pode e o que não pode ser poema? Lembro-me de uma frase do Umberto Eco, mais ou menos assim: "poema é tudo aquilo que muda de linha antes da página terminar". Nesse sentido, poema não é o que contém poesia (algo mais geral, que podemos chamar de "metáfora"), mas qualquer coisa que seja dito que é poesia (há poeticidade em tudo, assim); e que também cumpra aquele critério de estruturação.

Mas, não vou me deter tanto a uma análise literária e estilística de Leminski. Pus o que acho essencial para colaborar com a compreensão deste poema, ou deste aforismo. Também não vou me deter no título do poema; muitos títulos servem para dispersar nossa atenção, embora aqui o título se referia também a "X ser Y" (e que "incenso" e "música" são alcançados pela percepção).

Interessa-me discutir brevemente como a forma do que está escrito é motivada pelo significado, a saber, o tema do texto. O texto fala da transformação inesperada de algo que está (ou estava) - sem pretensões - sendo o que deveria ser. A expressão "a gente" é subentendida uma vez e expressa logo depois:

isso de (a gente) querer ser
exatamente aquilo
que a gente é

Em seguida, aparece "nos".

ainda vai
nos levar além

Os gramáticos tradicionais ferrenhos ou os que pensam que entendem de coesão e coerência dirão que Leminski falha ao mudar o personagem: "a gente" seria um coletivo singular (3a pessoa), enquanto que "nos" seria um pronome plural (1a pessoa), sendo ruim (ou errado) que as duas ocorrências estivessem se referindo a um mesmo ser.

Entretanto, as duas expressões podem ter um mesmo referente, e é o caso aqui. Não se trata de uma falha, e sim de uma transformação (aquele "além") do "a gente" em "nós", e é exatamente de uma transformação inesperada que o texto está falando. "A gente" vai sendo (por duas vezes), despretensiosamente, até ser levada além, em "nós", na forma átona "nos", por causa do contexto em que aparece e também para reforçar que está sendo levado, que é o "objeto" (direto) dessa mudança inadvertida. Despretensiosa e inesperada, a mudança engana até o leitor. Aliás, outra coisa que o texto pode estar querendo refletir é: qual é o ponto de mutação, qual o marco a partir do qual dizemos que uma coisa é outra coisa?, se uma coisa converteu-se expressamente em outra e o leitor não percebeu?

Outro aspecto é que "a gente" pode soar como algo um pouco mais abstrato (pode se referir a "nós" ou "a gente" em geral, isto é, "as pessoas"), e se transforma, concretizando-se, em algo que diz respeito a este "nós", ou seja, diz respeito ao autor (ou ao eu-lírico) e a outro(s) englobado(s), podendo, no caso, ser o(s) leitor(es). Isto é, inesperadamente algo que se diz não se sabe se de outrém ou se de nós pode se tornar próximo, transformar-se, despretensiosamente, em algo que se diz sobre nós (aquele que diz mais outro ou outros).

Até pelo fato de não haver sujeito expresso para "querer ser", há até a possibilidade deste lugar estar ocupado (diferentemente do que dissemos antes, numa leitura menos óbvia) não por "a gente" o sujeito, mas por um outro sujeito arbitrário:

isso de (um outro) querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

É claro que, assim, o sentido ficaria um pouco alterado, em relação à análise que eu (eu mesmo) vinha construindo, e por isso nem vou aprofundar (deixo para o leitor fazê-lo). Mas, no fundo, é um pouco do que o texto está dizendo (e poema e aforismo são gêneros que tendem a forçar lacunas de sentido que favoreçam a polissemia): a conversibilidade inesperada não só de um "eu" ("nós") em "outro" ("outros"), como recíproca, também de um "outro" ("outros") em "eu" ("nós").

Relacionada ao plano do conteúdo, o texto traz um ardil no plano da forma. Neste caso, o conteúdo significa mais com a forma trabalhando a seu favor, e a forma tem razão de ser quando relacionada ao conteúdo do dito.

Guaraná: A Flôr de Zíaco do Amazonas












Esta imagem é uma foto de uma placa genial à porta de um estabelecimento comercial. Leia o texto de Sírio Possenti discutindo esta inculta e bela "flôr".

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Chávez: reagi a ato 'grosseiro' do Congresso Brasileiro

O título da postagem deveria ser "Aspas das aspas", mas, como aqui sempre parto de uma frase para analisar, coloquei a frase-objeto deste texto. Essa frase é exatamente uma manchete do Yahoo!Notícias em 03/06/2007. As aspas podem servir para várias coisas: somente destacar uma expressão, indicar que ela é de origem estrangeira... Mas, vou me deter a um tipo específico de sublinhamento: as aspas que marcam que a expressão destacada é de outra origem, a saber, marcam a expressão como sendo a) ou de outro autor / outra obra, b) ou de um outro lugar discursivo que o autor reconhece ou intui e do qual pretende se distanciar. Não vou aqui destacar (o que seria importante) as condições de produção deste dizer (indico a leitura daquela matéria e de outras circunvizinhas); no nível basicamente lingüístico, conseguimos supor que Chávez estaria retomando (verbo no pretérito perfeito) algo que disse e/ou fez em relação a um dito e/ou feito inicial do Congresso Brasileiro. Estou aqui interessado no aspeamento da palavra "grosseiro".

Ora, na manchete, o nome "Chávez" e os dois pontos já indiciam quem falará, ou pelo menos abre a possibilidade de indicar, confirmada na sequência: "reagi" inclui um "eu", que deve ser atribuído a "Chávez", porque Chávez é aquele que estaria dizendo, uma vez que nenhum outro possível "eu" é indicado. Então, o enunciado depois dos dois pontos seria inteiro atribuído a Chávez, e não somente "grosseiro". Isso quer dizer que seria esperado que: 1) ou toda a fala fosse aspeada, 2) ou não se aspeasse nada. Por que só "grosseiro" estaria entre aspas? Como assim, aspas das aspas? Como assim, se toda a fala é do Chávez e não só "grosseiro", se as aspas neste caso não parecem cumprir a função de indicar origem estrangeira, se não parece corriqueiro os veículos de imprensa escrita relevarem à toa uma palavra, em especial em uma manchete, por convenção inclusive gráfica?

Na verdade, há um outro locutor aqui além do Chávez, como se fosse o jornalista-autor (que não assina), o editor ou o "próprio" portal de notícias personificado. E este outro locutor traz para a cena um outro enunciador: aquele que considera que a palavra "grosseiro" está fora de lugar. Estes "outros" estão sempre presentes, interferindo no autor, mas naquela manchete deixam-se ver, denunciam-se, tornam-se espessos, e talvez esse seja um ótimo material para que desenrolemos, de maneira explícita e não banal, considerações acerca do caráter ideológico, e não puramente informativo, da imprensa, e, por que não dizer?, de outros domínios.

De certa forma, as aspas tentam caracterizar o desequilíbrio de Chávez, sendo possível disso derivarmos que Chávez é sempre desequilibrado, e isso pode ser ao mesmo tempo a origem e a chegada (intertextualmente, no interior de uma mesma formação discursiva) de outras críticas mais ideológicas, como, por exemplo, as que associem a (falta de) política de Chávez a uma seqüência de atos insanos. Aqui, a análise das condições de produção se faz imprescindível, mas, por economia de espaço, deixo para o leitor, aberta, esta lacuna.

Há, então, naquela manchete, uma interferência de um outro locutor (alguém do site de notícias ou o "próprio" site) e de um outro enunciador (o discurso politicamente correto, e, aprofundando, até o de uma formação discursiva, heterogênea, que engloba anti-reformismo, anti-socialismo, republicanismo, liberalismo etc., cuja síntese seria o anti-chavismo) na fala do Chávez, aqui não tão pura, embora a ele atribuída como pura. Pois, se Chávez de fato disse (ou mesmo escreveu) aquela frase, não deve ter colocado aspas em "grosseiro".

Sabemos que as entrevistas e os excertos de fala nem sempre são a transcrição fiel da fala-fonte. Há recortes, paráfrases e, algumas vezes, paródias. Interessante percebermos que duvidamos de todas as palavras da manchete, menos de "grosseiro"; ou seja, mesmo que Chávez não tenha dito aquelas exatas palavras (em espanhol, é claro), naquela exata ordem, pressupomos que ele tenha dito algo e algo que segue a idéia geral da fala, e que dentro do que ele disse havia a palavra "grosseiro" (o corpo da matéria diz que Chávez teria dito "comunicado grosseiro", e não "ato grosseiro" como traz, talvez por questão de economia gráfica, a manchete). Isso talvez porque seja uma palavra demasiado marcada, incomum ao meio jornalístico e ao meio político; se uma palavra assim aparece, não deve ser fortuita.

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Veja bem (Jorge Furtado)



Jorge Furtado. Veja bem. Curta-metragem (06:16).

Este vídeo, do mesmo autor do bom "Ilha das flores" e do quase-fútil "Meu tio matou um cara", é dividido em "Lado de dentro" e "Lado de fora".

A narração da primeira parte é do poema "Jornal de Serviço", de Carlos Drummond de Andrade. É uma justaposição de elementos nominais. Poderão dizer que é uma mera listagem, mas é um texto: a justaposição é uma tônica coesiva, e neste vídeo ganha laços com as imagens; e, ao só enumerar, chama o expectador a completar os sentidos. Podemos entender esta parte como uma crítica materialista à sociedade da mercadoria (Marx, O Capital), ou pelo viés funcionalista (Durkheim, Divisão social do trabalho), que fundamenta que a divisão social do trabalho torna a sociedade mais complexa. O "Lado de fora" pode significar o lado das aparências, das louvações ao capitalistmo.

A segunda parte é um texto em prosa poética de João Cabral de Melo Neto (por sinal, o primeiro livro publicado de João Cabral), "Os três mal-amados". É o texto de um dos mal-amados, Joaquim. Neste vídeo, o "amor" que rói tudo ganha um outro sentido: é o trabalho estranhado que gera as "maravilhas" da primeira parte. O "Lado de dentro" é pernicioso e subterrâneo; é de imagens carregadas, monótonas e mais lentas; a narração é mais cabisbaixa; a "trilha sonora" é grave (um violoncelo), de uma só nota. São as tripas. O lado de dentro só pode ser de dentro na relação com o de fora; um lado e outro se implicam nesta sociedade (pode ser para isso que o título nos quer chamar a atenção).

Por isso que dizem que autoria não é inventar nada do zero; e sim ressignificar outros dizeres. Aqui, esses dizeres são repetidos, e apesar disso ganham novo sentido.

Abaixo, os dois textos:

Jornal de Serviço
(Carlos Drummond de Andrade)

I
Máquinas de lavar
Máquinas de lixar
Máquinas de furar
Máquinas de curvar
Máquinas de dobrar
Máquinas de engarrafar
Máquinas de empacotar
Máquinas de ensacar
Máquinas de assar
Máquinas de faturamento

II
Champanha por atacado
Artigos orientais
Institutos de beleza
Metais preciosos
Peleterias
Salões para banquetes e festas
Sondimentos e molhos
Botões a varejo
Roupas de aluguel
Tântalo

III
Panelas de pressão
Rolos compressores
Sistemas de segurança
Vigilância noturna
Vigilância industrial
Interruptores de circuito
Iscas
Encanadores
Alambrados
Supressão de ruídos

IV
Doenças da pele
Doenças do sangue
Doenças do sexo
Doenças vasculares
Doenças das senhoras
Doenças tropicais
Câncer
Doenças da velhice
Empresas funerárias
Coletores de resíduos

V
Papéis transparentes
Vidro fosco
Gelatina copiativa
Cursinhos
Amortecedores
Resfriamento de ar
Retificadores elétricos
Tesouras mecânicas
Ar comprimido
Cupim

VI
Mourões para cerca
Mudança de pianos
Relógios de igreja
Borboletas de passagem
Cata-ventos
Cintas abdominais
Produtos de porco
Peles cruas
Peixes ornamentais
Decalcomania

VII
Peritos em exame de documentos
Peritos em imposto de renda
Preparação de papéis de casamento
Representantes de papel e papelão
Detetives particulares
Tira-manchas
Limpa-fossas
Fogos de artifício
Sucos especiais
Ioga

VIII
Anéis de carvão
Anéis de formatura
Purpurina
Cogumelos
Extinção de pêlos
Presentes por atacado
Lantejoulas
Sereias
Souvenirs
Soda cáustica

IX
Retificação de eixos
Varreduras mecânicas
Expurgo de ambientes
Revólver para pintura
Pintores a pistola
Cimento armado
Guinchos
Intérpretes
Refugos
Sebo


Os Três Mal-Amados
(João Cabral de Melo Neto)

Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

sábado, 26 de maio de 2007

O homem é um animal que ri. E rindo ele mostra o animal que é.

O título é citação de Millôr Fernandes. O primeiro período traz uma fórmula batida: o homem é um (ou o único) animal que alguma coisa. Que pensa, que fala, que trabalha, que sabe que vai morrer, etc. A relação interfrástica com o que se segue (E rindo ele mostra o animal que é) vem de certa forma desmentir a primeira parte, como se o texto nos dissesse, metalingüisticamente, nas entrelinhas: "espere, não leve muito a sério a primeira parte". Será?

Tudo bem, há esse aspecto de quebrar a seriedade do enunciado, fazendo aproximar 1) o ethos do autor, 2) o sentido do texto e 3) o seu tema, sendo o denominador comum desses três aspectos o humor. A leitura que fazemos a seguir entende que a primeira parte não estabelece com a primeira uma relação paradoxal, e sim de complexificação, e nessa complexificação é possível achar graça. Só acharemos graça se entendermos a expressão, ou seja, se a levarmos a sério.

A primeira parte da expressão já foi enunciada por outros filósofos, ou podemos imaginá-la sendo: o enunciador genérico é um ser filósofo ou a própria voz da filosofia. Ao engendrar isso, o autor estabelece essa cena filosófica, complexificada na sengunda parte da expressão, que de certa forma desbanca a primeira. A segunda parte também pode ser atribuída ao pensamento filosófico, embora sua afirmação contraditória à primeira nos quebre o óbvio e nos conduza ao humor e embora não reconheçamos sua estruturação como um óbvio da filosofia, como a primeira (O homem é...). Na primeira parte, "homem" é diferente dos outros animais, sendo o elemento diferenciador o ato de rir; e, por pressuposto, embutimos o ato de pensar, sendo o ato de rir mais complexo que aquele que lhe serve de base (o pensar). Como se o texto dissesse: "tudo bem que outros animais também pensem, mas só o homem, depois de pensar, ri". Na segunda parte, "ele" retoma "homem" e agora aproxima-o a "animal irracional".

Em "Elogio da Loucura", Erasmo de Roterdã aproxima loucura e riso: o homem não como o de Descartes, mas a porção animal do homem expressa na loucura de uma forma geral e nos seus modos, como a vaidade, o prazer carnal e, também, o riso. O teatro de Anchieta é uma tentativa de catequisar índios pela via sensória do teatro, da dança e da festa (e também da graça humana, não só a de Deus), se pela razão e só pela palavra seria demais para "selvagens". Também a expressão latina "Ridenti castigat mores" (Rindo se corrige a moral) dá idéia de que o humor encena e exige do receptor uma reflexão. Assim também a teoria da metáfora e muito da retórica vai buscar mostrar que uma imagem vale mais que mil palavras, e muitas vezes vai-se defender que o humor é uma imagem exacerbada. Estabelecemos dois macro-discursos filosóficos, que, logicamente, se interagem, interdiscursivamente: um da primazia da razão e outro da primazia dos sentidos.

O parágrafo anterior aponta caminhos, porque aprofundar muito e lapidar a redação não é objetivo neste blog. Creio que as bases de minha chave de leitura para a expressão de Millôr está dada, por isso posso concluir. A primeira parte da expressão aponta uma diferença do homem para com outros animais; uma diferenciação importante, embora sempre possamos dizer que outros animais também riem (ou que também pensam, ou que também falam, etc.), porque é constitutivo deste tipo de expressão generalizante que o leitor tente contestá-la. A segunda parte diz que, por rir, o homem ameniza o seu lado racional, ou melhor, lança mão dele para algo mais prazeroso (daí imaginarmos um pressuposto: o homem é um animal que pensa), e exacerba seu lado sensório, aproximando-se por isso dos outros animais, que, diferente do homem (e daí o nó circular da expressão), não riem. Ao rir, o homem se difere e se aproxima dos outros animais.

A boa sinteticidade da expressão traz margem para outras leituras, embora eu não as prefira. A primeira leitura é pela via da redundância: O homem é um animal que e, por rir, mostra que é um animal diferente dos outros. Essa leitura se alinha com um discurso muito tradicional.

É possível ainda uma leitura de forma a apartar totalmente pensamento e riso. Aí, "riso" teria o sentido de "escárnio". Por exemplo, por não pensar, o homem ri, debocha do seu semelhante, animaliza-se. "Riso" poderia ter um sentido mais amplo e se aproximar do prazer decorrente de atos então considerados "irracionais", como a tortura, o genocídio, coisas que só o homem (animalizado, ou, o pior dos animais) pode fazer.

terça-feira, 22 de maio de 2007

O estudo de latim nos cursos de letras

Este texto foi escrito para o Boletim da Faculdade Comunitária de Indaiatuba (FAC / Anhanguera). Embora não tenha nada a ver com humor, espinha dorsal deste blog, reproduzo o texto aqui.
------------------------------------

O latim foi praticamente abolido do quadro de disciplinas do ensino básico no Brasil. Permanece como matéria obrigatória nas faculdades de letras. Mas, que língua é essa? Por volta do ano 500 d.C. já não se falava mais o latim, pelo menos não o mesmo latim. A queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) é usada como marco desse término, uma vez que a dispersão dos territórios com a vitória dos povos bárbaros traz também uma dispersão lingüística: o latim acelera seu processo de transformação, resultando (em torno do século VI) nos proto-romances, que por sua vez dariam origem às chamadas línguas neolatinas (por volta do ano mil).

Entre as neolatinas, as mais conhecidas para nós são as que se converteram em línguas nacionais, como os atuais italiano, francês, espanhol e português; em virtude dessa origem comum, aquelas três primeiras línguas são as mais fáceis de serem apreendidas por nós, falantes de português. As quatro línguas citadas pertencem ao oeste europeu, região que Roma não só dominou econômica e militarmente (como no resto do mundo conhecido, desde o século II a.C. até a queda), mas também influenciou culturalmente, através da língua, da cultura greco-romana e, depois do século IV, através da difusão do catolicismo.

Mas, mesmo no auge do Império, o latim não era um só. Afirma-se que existiam um latim clássico (inspirado em grandes escritores como Cícero, César, Salústio etc., latim escrito e próximo do que era falado pelas elites romanas) e um latim vulgar (latim falado pelas camadas populares; vulgar não em sentido pejorativo; vulgo quer dizer povo). Foram os soldados, os administradores e os trabalhadores romanos em geral que expandiram o Império. Eles levavam a língua que conheciam (o latim vulgar) e se assentavam muitas vezes definitivamente na nova região. Foi da modalidade vulgar do latim que surgiram as línguas neolatinas. Por exemplo, a palavra orelha vem da forma vulgar oricla, rechaçada pelo latim clássico, que mantinha auricula. Entender uma língua como histórica, como resultado de um processo lento de mudanças e relacionada a aspectos ideológicos e políticos parece ser uma das contribuições do latim para a formação dos professores de língua(s).

O preconceito lingüístico atual contra o modo de falar das camadas populares poderia ser questionado se todos (e os gramáticos da TV) soubéssemos que a nossa língua “correta” é resultado de uma sucessão de “erros” do latim. E que não há um jeito único de falar a língua portuguesa (como não havia para o latim), se ela se apresenta de modos diferentes: oral e escrito; formal e coloquial; variando de região para região; variando em razão da camada ou do grupo social. Outra coisa: podemos traçar um paralelo entre o poderio do Império Romano e a hegemonia de um outro império nestes tempos capitalistas: o Império Norte-Americano. O filme “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960), baseado no livro homônimo de Howard Fast (1952), retrata a revolta de gladiadores e de outros escravos contra a dominação romana e é uma crítica indireta ao Império Norte-Americano, que censurava duramente na década de 1950 e 1960 (e hoje?) pessoas e movimentos anti-capitalistas, nos EUA e no mundo.

O critério muitas vezes usado para caracterizar o latim como uma língua morta tem sido o fato de nenhuma pessoa viva o ter como língua materna. Porém, muito depois do ano 500 d.C. (depois de “morto”), o latim clássico continuou sendo a principal língua de cultura do Ocidente. Os trabalhos universitários, os tratados de medicina, matemática, direito e filosofia eram escritos ou reeditados em latim clássico; isso com freqüência até por volta dos séculos XVII e XVIII (depois, as línguas neolatinas passaram a gozar de maior dignidade), e em algumas universidades européias ainda é facultado redigir trabalhos em latim. O Império, que antes perseguia os cristãos, primeiro permite o cristianismo e depois o adota (por Constantino, 314 d.C.) como credo oficial, na esperança de ganhar as massas e camuflar sua decadência; com isso, a Igreja Católica (Apostólica Romana, diga-se) se consolida e toma o latim como sua língua oficial, o que permanece até os nossos dias. Além do mais, o latim está de certa forma vivo nas línguas neolatinas e em outras línguas. Estima-se que o inglês, que não é uma língua neolatina e sim da família anglo-saxã, tenha cerca de 70% de seu léxico (vocabulário) derivado do latim, resultado da época do domínio francês em parte da Bretanha. Essa origem comum faz com que muitas palavras do inglês nos sejam cognatas (identificáveis).

O estudo da etimologia (origem das palavras) é outro aspecto interessante para a formação do professor de português. Um dos dilemas dos estudantes é a ortografia: por que se escreve discípulo, máximo, cidade, sempre e libertação usando letras diferentes para um mesmo fonema /s/? A resposta é que a ortografia, no Brasil padronizada a partir do século XIX e principalmente durante o século XX, muitas vezes buscou recuperar a origem latina das palavras. Em latim tínhamos discipulus, maximus, ciuitas, semper e liberatio, sendo que as letras grifadas representavam sons diferentes, que começaram a coincidir na passagem do latim vulgar para o galego-português. As mudanças do latim vulgar para cada uma das línguas neolatinas não ocorreram de qualquer jeito, mas seguindo certas regularidades. Por exemplo, no português tivemos quase sempre a queda do -l- e do -n- intervocálico, isto é, entre vogais (manus>mão; color>coor>cor), fenômeno que não ocorreu no espanhol (manus>mano; color>color). Em português, o pl- em início de palavra vira ch- (pluvia>chuva; planus>chão), enquanto que no espanhol vira ll- (lluvia; llano). Não vamos nos estender nos exemplos, que são matéria de lingüística histórica, também estudável nas aulas de latim. Interessa para o professor de língua(s) saber dessas regularidades, inclusive porque é mais fácil estudar as línguas neolatinas e até mesmo o inglês quando se conhece um pouco da origem das palavras.

Falei sobre palavras e não vou me ater ao estudo da sintaxe (frase). Vale mencionar somente que as análises sintáticas feitas a partir do latim são de certa forma relacionáveis ao português. Podemos refletir sobre semelhanças e diferenças entre latim e português no que diz respeito às classes de palavras (substantivo, adjetivo, verbo...), aos diferentes papéis sintáticos dos elementos da oração (sujeito, objeto direto e indireto, complemento, adjunto; ordem das palavras), aos tempos e modos verbais, às marcações de caso, enfim... Por isso e pelo que disse no decorrer do texto, acredito que a disciplina de latim, quando no início do curso, pode servir como uma boa introdução aos estudos da linguagem.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Perfugae patriam non amant

Quero desenvolver aqui um ponto que era periférico na postagem "Apanhando do sujeito". Me refiro a um exercício do livro "Gramática Latina", de Napoleão Mendes de Almeida (29ª ed. SP: Editora Saraiva, 2000). O livro pedia para traduzir para o latim a frase "Os desertores não amam a pátria" (o título deste artigo é a tradução esperada pelo livro). Quero dizer que, assim como no quadro de Magritte, "Ceci n'est pas une pipe" (ver nota 1, ao final), ou, isso não é só um exercício de latim.

Nenhum exemplar a que tive acesso, nem site de internet, precisou a data da primeira edição, mas suponho que seja meados da década de 1950. Sendo esta data, quero considerar aqui suas reedições, principalmente as da década de 1960 e 1970 (o livro é reeditado até hoje, considerado ainda o mais completo manual de latim escrito em língua portuguesa - e em latim). Lembrando que para a Análise do Discurso e para semânticas como a do Acontecimento, devemos falar em um passado, um presente e, até, um futuro de um dizer. Ou seja, um dizer é resultado de uma atualização de um passado (ainda que deslocada ou deslocando-se) em seu presente, que não se cessa no seu presente mas instaura um futuro. Estou secundarizando neste texto a ênfase na intencionalidade (ainda que possa haver uma) totalmente consciente do autor, e também não quero e não tenho condições de aprofundar isso.

Neste percurso histórico de um dizer, ele se relaciona com a história externa, ainda que entendamos "externa" somente como "outros enunciados aproximáveis". O exercício de latim em questão ganha um outro caráter após o golpe (para outros, revolução) de 1964. Coloquemos em intertextualidade esse enunciado com outro: "Brasil, ame-o ou deixe-o" era o slogan (grafado ao lado de uma bandeira do Brasil) da máquina militar de propaganda. Este dito tinha por objetivo classificar os revoltosos (em especial os de linhas socialistas, comunistas e anarquistas) como anti-patrióticos. E, de fato, os revoltosos o eram (ou, talvez, a-patriotas), mas as suas razões, obviamente, eram silenciadas pela máquina de propaganda. Podemos marcar algumas dessas razões: o sentido internacionalista dos movimentos comunistas e anarquistas, as ditas atrocidades militares que para os revoltosos eram encobertas pela bandeira nacional.

O discurso da ditadura queria significar os desertores como inimigos da pátria e, por metonímia, inimigos do povo desta pátria, e até mesmo do "Deus" desta (ou daquela, ou da dos militares) pátria. Proponho que este discurso se inscreve em um mesmo campo discursivo do sentido "por trás" (mas não tão por trás assim) daquela frase do manual de latim. Até termos idênticos ou similares se repetem no exercício e no slogan militar: amar, amar; pátria, Brasil; porque não caberia ao exercício do livro falar em Brasil se a língua estudada é anterior ao Brasil inventado a partir de 1500. Se não estamos falando em intenção plenamente consciente de qualquer sujeito, ou de falante, ou de autor, ou do Napoleão Mendes de Almeida, faz muito menos sentido dizerem que estamos acusando o autor por uma previsão de um fato futuro. Estou falando de discurso, de ideologia. Outra coisa: não consegui a primeira nem todas as edições da "Gramática Latina" para saber se o exercício em pauta estava sempre lá ou foi incorporado tardiamente; na 19ª (1983) e na 29ª edição (2000) o exercício estava lá. Isso é algo importante, mas, seja como for, parece adequado dizermos que aquele exercício de latim não fazia parte dos enunciados censuráveis pela ditadura, e talvez por isso mesmo não foi aquele exercício (ou mesmo todo o livro) interditado.

É interessante lembrar o bordão (também interdiscursivo, porque há interdiscursividade na contestação) dos insatisfeitos em resposta ao slogan patriótico dos militares: "O último que sair apague a luz", bordão que queria fazer acreditar que eram muitos os descontentes e / ou que não se fazia questão de estar em uma pátria qualquer, ou, mais especificamente, em uma pátria cujos chefes são os militares pró-capitalismo estadunidense (aqui há a posição de que não eram apenas militares, ou apenas militares patrióticos). Falta só dizer que muitos desses "desertores" não deixaram a pátria por não a amarem, mas porque foram obrigados (direta ou indiretamente) a se exilar, ou a deixar a pátria dos vivos para uma pátria perdida, de um Céu, de um Inferno, de um Hades ou de um nada.

É verdade que a os livros didáticos escolares estão cada vez mais abordando estudos de texto e menos de frases soltas. Diz-se até que é uma tendência: estaríamos nos libertando cada vez mais das tais frases soltas. Mas, é bom lembrar, para alguns propósitos as frases soltas podem ser interessantes, principalmente em discussões decorrentes de ramos da lingüística como os da sintaxe e da semântica, a unidade principal de análise é a frase (Guimarães & Zoppi-Fontana, orgs. "A palavra e a frase"). Devemos nos perguntar sobre a natureza dessas frases. O que fizemos neste artigo pode ser aplicado a livros didáticos em geral, inclusive os de ensino fundamental. Se um exercício pede para encontrar sujeito, predicado, substantivo e adjetivo usando uma frase do tipo "O bom aluno obedece a professora", há um discurso da ordem que engendra uma lição de moral; ísso não é só um exercício de gramática.

Nota (1): "Isto não é um cachimbo", René Magritte.

Isto não é um cachimbo



René Magritte
. "La trahison des images". Lê-se no quadro: "Ceci n´est pas une pipe" ("Isto não é um cachimbo").

Assim como as imagens, as palavras também traem. Traição que não é esporádica, mas constitutiva. A representação de uma coisa (a imagem no quadro) não é uma coisa. Exacerbando isso, a coisa (o próprio cachimbo) pode não ser a coisa (o inomeável, ou o "real" de Lacan). Assim como um cachimbo existente que vejamos é também para nós uma imagem; tem muito de nós no cachimbo. Temos brecha para pensar a questão da ideologia: não é a coisa própria (ou em-si, para certa filosofia) que consta em nossa mente (o cachimbo não está lá dentro), mas algo dessa coisa. Tudo existe enquanto idéia, mas também não sou de certa posição da filosofia idealista (diga-se, do idealismo chinfrim, não o de Platão e Descartes) de total arbitrariedade entre idéia e ideado. Há materialidade, e é pela via da materialidade que devemos dar conta, pelo menos em grande medida, da necessidade (material) de uma ilusão pura (mas material, como a idéia de "Deus"). Apresento este quadro sem grandes aprofundamentos sobre a questão (nem teria bagagem para tal); mais porque o quadro é citado no texto "Perfugae patriam non amant", neste blog.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Two attornerys in a diner (Dois advogados em um restaurante)

[English]
Two attorneys went into a diner and ordered two drinks. Then they produced sandwiches from their briefcases and started to eat. The owner became quite concerned and marched over and told them, "You can't eat your own sandwiches in here!" The attorneys looked at each other, shrugged their shoulders and then exchanged sandwiches

[Português]
Dois advogados entraram em um restaurante e pediram duas bebidas. Então, montaram sanduiches de suas pastas e começaram a comê-los. O proprietário ficou completamente irritado e foi até eles, “vocês não podem comer seus próprios sanduíches aqui dentro!” Os advogados se olharam, deram de ombros e trocaram entre si os sanduíches.

[Tradução]
O humor é disparado pela palavra "próprios", polissêmica: 1) regra geral muito compartilhada de que não convém ou não faz sentido levar comida própria a um restaurante (visão óbvia, do dono do restaurante); 2) para os advogados (visão surpreendente), "próprios" tem outra significação, a saber, "de sua propriedade", e, trocando os sanduiches, não mais estariam desrespeitando a regra enunciada pelo proprietário. A piada faz menção ao uso preciso de termos e de regras (ethos discursivo) por parte de advogados, muitas vezes por força do ofício, mas aqui (e nas piadas de advogado em geral) talvez sugira mais uma afeição compulsiva desnecessária (inconsciente) ou o uso (consciente) de uma técnica para se beneficiar da situação.

domingo, 18 de março de 2007

Barba non facit philosophum

Essa expressão latina significa que não é por ter barba que se é filósofo. Trata-se, pois, de uma crítica aos falsos filósofos, aos que são filósofos só pela aparência (hoje em dia, por diploma) e não em essência. A expressão só nos reforça o que já sabemos: o ofício dos filósofos era considerado um ofício masculino. Abstraindo-a, está dito que o traje não faz o profissional; abstraindo-a mais ainda, a aparência não faz a essência. A tradução para o português daquela expressão seria, quase termo a termo (no latim clássico não havia artigo):

(1) A barba não faz o filósofo.

Ao traduzirmos para o português, um outro sentido, impossível ao latim na expressão original, é acrescentado. Temos, então, duas possibilidades para interpretarmos (1):

(1a) Não é a barba que torna um homem filósofo.
(1b) O filósofo não tem a barba aparada.

Em um primeiro momento, pensaríamos se tratar de expressões antônimas, pois (1a) afirma que a aparência não faz o filósofo e (1b) caracteriza o filósofo como aquele que não faz a barba. Porém, podemos encontrar dois sentidos para (1b), sendo que (1b') marcaria mais fortemente a oposição com (1a):

(1b') Basta possuir barba para ser filósofo.
(1b'') Para ser filósofo é preciso possuir barba.

Em (1b'), possuir barba é condição suficiente para ser filósofo; em (1b''), possuir barba é condição necessária para tal. De (1b'') podemos depreender que "o filósofo" pode querer dizer "todo filosófo" ou "o bom filósofo" (uma prescrição, direcionada a quem é ou deseja ser filósofo, acerca da aparência de todo filósofo ou pelo menos dos bons filósofos). Mas, fiquemos com as expressões (1a) e (1b), deixando um pouco de lado as suas inúmeras nuanças.

Em latim, não é impossível compreendermos a expressão inagural como (1b) porque há, nesta língua, marcação de casos. "Barba" está no nominativo, só podendo ocupar a função de sujeito (ou predicativo do sujeito), ao passo que "philosophum" está no acusativo, só podendo ocupar a função de objeto direto. Embora incomuns, e (2b) ser ainda mais, são possíveis em latim outras expressões, que invertam os termos sem grandes prejuízos de sentido:

(2a) Philosophum barba non facit.
(2b) Philosophum non facit barba.

É claro que alguma mudança de sentido haveria, por exemplo, de enfoque recair sobre "philosophum" (topicalização) e por essas inversões serem estranhadas ou por vezes entendidas como poéticas. O que quero dizer é que, mesmo estando na posição inicial da frase, "philosophum" continua sendo objeto direto, por causa de sua terminação de acusativo (-um). De modo análogo, "barba" está no nominativo e exerce neste enunciado a função de sujeito, independentemente de sua posição. Se eu quisesse dizer algo parecido com (1b), precisaria modificar a terminação de caso dos dois núcleos substantivos, independetemente da ordem.

(3a) Philosophus barbam non facit.
(3b) Barbam philosophus non facit.

Ou seja, a ordem sintática, em latim, não é determinante neste exemplo (em outras, ela o será). Em português, sim, pois não temos terminação de caso e tanto sujeito quanto objeto direto tem natureza substantiva e são não-preposicionados, portanto, sintagmas nominais. (1) é uma tradução para a frase inaugural, mas, sendo ela a escolhida, abre margem para pelo menos duas interpretações. A interpretação privilegiada seria (1a), pois é do padrão sintático do português lançar o sujeito primeiro. Porém, como não há marcação de caso, é possível entender que o objeto direto foi lançado primeiro, por questão de ênfase. É quase como se houvesse uma vírgula que separaria tópico e comentário:

(4) A barba, o filósofo não faz.

Em suma, não há ambigüidade na expressão latina. A expressão em português que traduz a expressão latina pode, sim, comportar ambigüidade, pois pelo menos dois sentidos disputariam a expressão. Isso é "autorizado" pela sintaxe, que permite, no nível da exceção, que o objeto direto ocupe a posição inicial da frase em português. Será a pragmática, a lingüística de texto ou a análise do discurso que poderão ser invocadas para resolver a peleja em favor de um ou outro sentido (ou até mais): qual a situação de interação, quais outros enunciados se relacionam a este, quais as posições discursivas sobre filósofos, barbas, ofícios, aparência, essência?

No caso da tradução latina, as coisas são mais fáceis. Sabendo que a morfossintaxe latina só autoriza uma interpretação, pelo menos no nível superficial, para o que quer dizer a expressão latina. Podemos, então, encontrar uma expressão em português que melhor se aproxime da expressão latina: (1a). Mas, como tradução não é somente reproduzir "conteúdo" mas também levar em conta a expressão, (1) parece ser a melhor tradução, e que os leitores / ouvintes sejam capazes (eles o serão, principalmente se falantes nativos e auxiliados pelo texto) de resolver o impasse. Pois, mesmo em (1a), a polissemia (diversidade de significados) não estaria totalmente resolvida (ela resiste sempre): uma expressão nunca quer dizer uma só coisa. Mesmo um falante do latim poderia entender a frase genérica que apresentamos aqui de "n" formas, não com base na dubiedade sintática, mas em razões pragmáticas, textuais e discursivas.

Por exemplo, se esse falante é filósofo e diz ao dono da barbearia (pessoa) que quer se barbear, e se o barbeador, sabendo que o potencial cliente é filósofo, o desaconselha, o enunciado inaugural deste trabalho poderia significar um posicionamento e uma resposta resoluta daquele falante, e poderia ser lido como algo do tipo "apesar de eu ser filósofo, o senhor pode agora fazer a minha barba". Se aquele enunciado latino aparecesse em um texto atual em português dirigido a advogados, poderia ser uma metáfora de "o terno não faz o advogado".

O verbo "facio" em latim abarca o sentido de "construir, realizar", mas a questão é se pode ser usado também como o usamos em "fazer a barba". A ambigüidade em português é possível não só pela possibilidade de inversão dos termos substantivos, como pelo fato de "fazer", em português, poder significar "construir, realizar" (em "A barba não faz o filósofo") como também "retirar", "fazer a não-barba" ou somente "aparar a barba levemente" (em "O filósofo não faz a barba"). No segundo campo de sentido de "fazer", apesar de a barba ser "desfeita" total ou parcialmente, a ênfase seria no trabalho de aparar a barba, que é feito.

sábado, 17 de março de 2007

Isso é que é versatilidade



foto: Giuliana Gramani. Site kibeloko.blogspot.com. Março/2007.

Trata-se de uma placa publicitária. Sabemos que, na sociedade de troca mercantil de produtos e serviços, essas placas se direcionam para consumidores em potencial. Ou melhor, visam a transformar consumidores potenciais em consumidores de fato, a partir de um estímulo que se julgue bem direcionado. Além de se dirigir para consumidores em potencial, a placa se dirige a todos (inclusive àqueles que aqui não chamamos de "excluídos", e sim de marginalizados, pois não estão fora), por seu caráter oblíquo (perlocucioal, se forsássemos a barra) de propagação de discurso que sustenta a existência tal sociedade mercantil.

As partes da enunciação invocadas nesta placa, assim, são o(s) que oferta(m) os serviços e aos transeuntes daquela rua, que potencialmente seriam convencidos a necessitar de tais serviços, ou não. Nesta sociedade, é papel da propaganda inventar necessidades, que para muitos, antes, tenham sido supérfluas (comprar informações acerca de discos voadores, por exemplo). É claro que a magnitude do chamado vai depender da empresa e das bases históricas que colaborem para um desejo se disseminar. Pela placa, deduzimos se tratar de um pequeno negócio, ou melhor, de três pequenos negócios. Principalmente pelas características da placa (pequena, sem logotipo, sem nome da empresa) e também porque não concebermos como grande três negócios em um mesmo lugar (que, mesmo sem o conhecermos, imaginamos pequeno).

É em relação ao discurso empresarial hegemônico que podemos achar graça nesta placa. Este discurso é homólogo à sociedade capitalista e o entendemos como algo mais geral, especificado majoritariamente em disciplinas que também eclodiram na fase recente do capitalismo, como o da administração e do marketing. De acordo com esse discurso, as empresas devem ter um único ramo. É claro que, depois do toyotismo, o imperativo da diversificação apareceu, habitando lado a lado com a especialização fordista. Mas, em geral, para as empresas, essa diversificação é de várias ordens e não tanto de negócios dispersos. É claro que, por vezes, o toyotismo orientará empresas do setor produtivo a investir em outros setores, como o financeiro e o de serviços (por exemplo, uma montadora de automóveis se tornar também um banco, ou aplicar no capital financeiro). Algo nos diz que não é nesse domínio que encontramos a graça dessa placa.

A diversificação presente na placa (conserto de bolsas, estúdio de gravação e consultoria sobre discos voadores) é uma formulação que se sustenta na face oposta desse mesmo momento do capitalismo. Se o lado mais exaltado pelo discurso empresarial é o da versatilidade que permite maior acúmulo de capital, inspirado em modelos de grandes corporações, o outro lado é o da pauperização e do desemprego de parcelas cada vez maiores dos filhos do trabalho que uma reestruturação produtiva promove.

O imperativo, então, é o mesmo, pois o discurso de certa forma funciona não pontualmente mas enquanto certa estrutura. A solução para o problema é o "mais do mesmo", isto é, uma dose maior de uma mesma lógica que cria e sustenta o problema, cujas raízes o discurso empresarial, por razões ideológicas, não é capaz de apresentar. "Os trabalhadores também devem se diversificar". Isso exime o sistema social de sua culpa e, algo comum à forma-sujeito jurídico-capitalista (pós revolução francesa), responsabiliza o sujeito pelos parcos sucessos e pelos muitos fracassos. O resultado é desemprego, sub-emprego, mundo dos "bicos". A placa em questão guarda certo parentesco com o imenso contingente de pessoas levadas a catar lixo para sobreviver.

Assim, a placa seria engraçada não simplesmente por causa da diversidade, porque ninguém riria de uma placa (ou de um outdoor) que anunciasse "Banco Volkswagen", ainda que uma fábrica de carros e um banco sejam coisas tão distintas quanto consertar bolsas e realizar consultoria sobre discos voadores. Pode ser que rimos da hipérbole: não dois, mas três negócios totalmente distintos. Mas, sobretudo, rimos da precarização e rimos por desconfiar da qualidade dos serviços prestados, uma vez que o discurso empresarial projeta no seu domínio e em outros domínios da sociedade o imperativo do especialista (ainda que o primeiro negócio marcado na placa deva ser o principal, dada às ênfases gráficas: topo, tamanho). Há, aqui, uma idéia de que, em geral, rimos junto com (a partir de) os discursos dominantes. Eles são nossa âncora, mesmo e principalmente quando o humor os contraria, se eles são a âncora de quase tudo (embora não evite contradições). Rimos, por fim, do último ofício, que destoa dos serviços técnicos considerados plausíveis (consertar bolsas e gravar músicas). Rimos por imaginarmos que todos esses ofícios são realizados por uma só pessoa (sobretudo se essa placa estiver à porta não de um ponto comercial mas de uma residência).

sexta-feira, 9 de março de 2007

Hipérbole sobre a redução, da maioridade penal












Glauco. FSP, 13/02/2007.




De início, vejamos certas condições de produção desta charge. Um dos principais temas em evidência no período próximo à data de publicação da charge é o da redução da maioridade penal. Esse tema volta e meia se instala em nossas vidas, em geral vindo à tona logo após um "crime grave" "tomar" a grande mídia. E, nesta, o tema fica por várias semanas, principalmente em veículos e programas mais sensacionalistas. É claro que o tema não aparece de forma neutra; em geral, a grande mídia toma o partido da redução, não só por sua ojeriza, ainda que inconsciente, contra a classe e as camadas subalternas, como também por seu "amor" à audiência desses segmentos, cujo senso comum se mostra favorável à redução. Aproveitando o ensejo midiático e popularesco, medidas legislativas são tomadas pelos parlamentares considerados oportunistas e de direita, com a promessa de que certo projeto de redução será votado logo. Um discurso de viés socialista diria que a grande mídia, ao pautar a redução da maioridade penal como "panacéia dos males da criminalidade", exerce um papel ideológico de silenciar as mudanças estruturais possíveis de serem pensadas com a finalidade de diminuir de fato os chamados índices de violência. Outros posicionamentos, de caráter religioso e por vezes até humanístico-liberal, também são silenciados; muito embora estes se inscrevam nos limites da ordem, têm nuanças (e disso podem pautar reformas necessárias, não revoluções) que os diferenciam do senso comum e da grande mídia no que respeita o tema, relacionadas a noções como as de "amar o próximo", "vide a mim as criancinhas", "bom selvagem" rousseano e "igualdade de oportunidades".

Na charge em questão, diz um dos policiais: "Somando a gang toda passa dos 18 anos!". Se podemos contar quatro cabecinhas, chegamos à uma idade média de 4 anos e meio. Sabemos que são policiais por conta do traje e por estarem fazendo uso de força repressiva. Mas como sabermos para onde os policiais estão levando os garotos? Nosso conhecimento enciclopédico poderia dizer que crianças também podem ser capturadas por policiais, e depois serem encaminhadas a "instituições reeducativas", como a Febem. Essa é uma interpretação possível, mas não é a mais "engraçada" (ainda que o humor seja "negro"), e, por ser a charge engraçada, essa interpretação possível se faz desaconselhável. Tão desaconselhável que nosso conhecimento enciclopédico até falha, isto é, não nos diz da possibilidade de esses garotos estarem sendo encaminhados às "instituições reeducativas". "Esquecemos" aquele conhecimento enciclopédico exatamente por não considerarmos que esses "18 anos" sejam uma informação arbitrária. É por não isolarmos os "18 anos" dos discursos em jogo quanto a esse tema, em dadas condições de produção, ou seja, é por uma noção ainda que vaga desse embate discursivo, que esse número não nos é entendido como arbitrário.

Sendo a hipérbole uma característica do humor em geral e da charge em específico, uma redução ainda mais drástica da maioridade penal é fantasiada. Lemos a expressão "18 anos" como a fronteira entre dois discursos: um que quer que a idade penal mínima permaneça nesse valor, e outro que a quer abaixo. O que antes era a idade mínima para se prender uma pessoa, tornar-se-ia a a idade mínima para prender quatro, ou até mais. É como se, no fundo, fosse a mesma coisa, ou seja, como se um dos discursos em jogo dissesse: "vocês [os adversários] querem que a idade mínima fique acima dos 18 anos... pois bem!". Algumas nuanças de leitura estão dentro deste quadro: podemos entender que os policiais reinterpretam a lei, já que ela é dura de ser mudada, para realizarem seus desmandos (eu relacionaria materialmente essa noção com outros textos que denunciam o abuso da força policial), ou poderíamos entender que quem reinterpreta a lei dessa forma são a posição e os segmentos ou agentes pró-redução, considerados autoritários e personificados naqueles policiais.

Talvez seria possível pressupor um posicionamento do autor: defender a manutenção da idade penal. Estou prometendo há algum tempo falar sobre o "ethos chargista", algo talvez parecido com o "ethos poético": ao poeta é em geral (alguns poetas podem escapar disso) atribuída, aind que tacitamente, a missão de tocar as "grandes questões do espécie humana", com sensibilidade e altruísmo. Ao chargista também há um imperativo parecido, de, ao mesmo tempo, não perder a piada e não perder o amigo. É claro que isso pode ser uma tolice; apenas uma possibilidade, ou preponderância, não uma generalização. Muitas vezes não é o ethos o que pesa, mas a posição discursiva do autor, possível de ser identificada numa série mais ou menos extensa de charges.

Outro índice para dizermos que há um posicionamento do autor é a forma como os policiais são retratados: gigantes, fortes (ou até obesos), bem armados. Os olhos fechados e o rosto ao mesmo tempo idiota e de certa forma feliz sugerem estarmos diante de verdadeiros brucutus. O vigor físico dos policiais contrasta com a fragilidade dos garotos (chargista e nós torcemos para o mais fraco) e nos sugere que não é para uma "instuição reeducativa" que estes estão sendo levados: estão sendo tratados "como gente grande". Arrisco atribuir um comentário latente da charge em relação ao que está expresso (essa possível posição é expressa como um método do interpretar, que aqui emprego): "defendem a posição que defendem porque não vêem e não pensam, são apenas braços armados que realizam os ditames da ordem e do senso comum". Os policiais dizem, não é somente um, apesar da indicação do balãozinho.

Diríamos que o mesmo enunciado expresso pelos policiais poderia transmitir um ethos piedoso, mas para isso seria preciso uma outra configuração física dos personagens, e talvez substituir a palavra "gang", que estigmatiza. Mesmo assim, a posição do autor poderia continuar sendo a de contrariedade à redução da maioridade penal, embora o comentário latente proposto tivesse que ser alterado para algo do tipo: "é porque são sensíveis e espertos que percebem a arbitrariedade de prenderem esses jovens, e por isso realizam a tarefa a contragosto". O fato de a mesma posição poder ser defendida por dois comentários latentes e por duas cenas diferentes que desconfiamos não estar somente na charge (mas também no ethos chargista e no discurso de certo chargista) a ancoragem para supormos o posição da charge e o posicionamento do autor.

Normalmente, a redução da maioridade penal proposta é para 16 anos. Sendo a hipérbole uma característica do humor em geral e da charge em específico, uma redução ainda mais drástica é fantasiada. Essa hipérbole chacoalha o senso comum e talvez assuste em nós certa moção civilizatória de linxar nos outros (se preciso, os outros) os impulsos nefastos similares dos quais já fomos capazes e que foram recalcados em nós. Se essa charge for lida pela chave do discurso socialista (diríamos que há também um discurso na recepção) ela pode sugerir que reduções sucessivas da maioridade penal podem ser "necessárias", porque o problema estrutural não foi atacado. Em um ponto de contato (interdiscursivo) entre o discurso socialista, o religioso e o humanista-liberal, poderíamos ler na charge um posicionamento contra o caráter sanguinário, autoritário e linxatório do senso comum.

quinta-feira, 8 de março de 2007

Dia Internacional (de Luta) da Mulher

Dia 8 de março é conhecido como o "Dia da Mulher". Ou, "Dia das Mulheres". Ou, "Dia Internacional da Luta da Mulher". Ou, "Dia Internacional da Luta das Mulheres". Vou tentar discutir que sentido normalmente se atribui a cada uma dessas expressões. Ou, pelo menos, dividir essas expressões em dois blocos de sentido, com critérios de semelhança interna e exclusão externa. É bom lembrar que, dado o caráter polifônico e traiçoeiro da linguagem, é possível que uma expressão esteja deslocada do sentido mais ou menos óbvio de seu discurso recorrente.

Hoje, passando em frente ao DCE da Unicamp, confrontei-me com um cartaz e com um encontro. O cartaz, na porta da entidade, chamava os interessados para um evento em razão do "Dia Internacional da Luta das Mulheres". Já o encontro era o de um feliz casal de estudantes: o rapaz deu uma rosa vermelha à moça, que o abraçou. Abraçaram-se. Beijaram-se. Cena linda! Temo estragá-la com minha interpretação...

Embora o rapaz não o tenha realizado materialmente (pelo menos não de forma que eu pudesse ouvi-lo, nem me esforcei para tal, diga-se), considerava (e possivelmente também a moça) a data como o "Dia da Mulher", ou "Dia das Mulheres", ou "Dia Internacional da Mulher", ou "Dia Internacional das Mulheres" (creio que não sejam significativas essas diferenças para a análise que proponho, o que não quer dizer que eu acredite em sinonímia perfeita). Vou defender que a atitude do casal estabelece uma relação necessária com uma posição discursiva que aquele casal compartilha. Tenho o direito de errar; são somente suposições, com pretensão de validade. Provavelmente o rapaz (e o casal, dada a reação deslumbrada da moça) reitera certo discurso liberal (talvez com nuanças comerciais, mas não necessariamente), que diz que as mulheres devem ser parabenizadas nesse dia, de preferência com mercadorias, ou melhor, "presentes".

Podemos compreender um discurso outro naquela faixa à porta do DCE. "Dia Internacional da Luta da Mulheres" instaura uma palavra que não há no discurso hegemônico: "luta". A forma com que aquela faixa define o "Dia" procura remarcar alguns traços, principalmente do discurso de viés socialista: rememoração da luta anti-machista, da luta anti-capitalista da qual as mulheres devem participar, da luta de classes. Não se trataria, assim, de considerar que a mulher tem um dia enquanto o homem tem os outros 364; esse domínio ou discurso atribui ao discurso liberal essa divisão. A expressão busca relembrar a motivação (pelo menos inaugural, ou tida como inaugural) da fixação da data: a repressão fatal às trabalhadoras grevistas em uma fábrica norte-americana. Por essa asserção pertencer ao domínio anticapitalista (socialista, anarquista) e por os apelos comerciais e as "congratulações" serem identificados como parte do domínio liberal, há uma demarcação dessa diferença, pelo menos por parte do primeiro domínio. No interior deste domínio (anticapitalista), de dois discursos que neste caso aproximo (socialista e anarquista), parece não haver diferença substancial entre "Dia Internacional de Luta da Mulher" ou "Dia Internacional de Luta das Mulheres", pois a primeira expressão também reforça o caráter coletivo do gênero/sexo "mulher".

A palavra "Internacional" pode constar em qualquer um dos dois domínios que ora coloquei como antagônicos. Porém, no discurso liberal essa palavra, quase desnecessária, tende a reforçar que a data é comemorada em todo o planeta, ao passo que para os discursos anarquista e socialista a palavra, quase obrigatória, remonta, intertextualmente, ao caráter "internacionalista" da luta dos trabalhadores (e das trabalhadoras), ou seja, à ênfase de que a unidade dos desprovidos dos meios de produção deve se dar não em torno da nação e sim na identificação dos "trabalhadores de todo o mundo" contra o capital. Creio que seria interessante buscar textos dos discursos socialista (como aquele entre aspas logo acima, extraído do "Manifesto Comunista" de Marx e Engels) e anarquista para tentar embasar, intertextualmente, os fundamentos das afirmações que fiz acima. Mas, por me parecer essa relação óbvia e por ser o espaço aqui reduzido, não realizarei essa empreitada. Apontar os textos seria somente justificar uma tese que talvez eu defenda aprioristicamente; prefiro defender uma tese talvez a priori sem esses textos então, sabendo, é claro, que um determinados "corpus" poderia também me surpreender.

É interessante perceber que não é preciso ter consciência para repetir (perder-se em) a expressão "Dia da(s) Mulher(es)", ou "Dia Internacional da(s) Mulher(es)", ao passo que para definir a data com a expressão "Dia Internacional da Luta da(s) Mulher(es)" seria demandado um posicionamento de resistência quase sempre consciente. Com "consciente" quero somente dizer que (principalmente) o sujeito do discurso não-hegemônico identifica posições diferentes disparadas pelas expressões, organiza-as e se localiza em favor de uma posição - expressão. Isso porque normalmente o discurso dominante fala mais alto em nós e em todos, mesmo sem o sabermos (por isso é ele dominante), enquanto que o discurso opositivo funciona especificando (tornando espesso) as bases do discurso dominante e contrariando este (por isso é ele contra-hegemônico). Usando de uma imagem do boxe, diria que o discurso não-hegemônico estaria "chamando pra briga" o discurso hegemônico, com a esperança de que o discurso hegemônico aceite o desafio, pois assim aquele se consideraria também um peso-pesado e não um peso-mosca.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Mulheres e crianças primeiro!

Um navio estava afundando e o comandante começou a berrar:
- Abandonar o navio! Mulheres e crianças primeiro!
Um senhor, que tinha mulher e seis filhos dentro do navio, aproximou-se e disse, com lágrimas nos olhos:
- Eu estou muito emocionado, Comandante. O senhor é muito humanitário!
- Humanitário uma ova! Depois que os tubarões estiverem de barriga cheia, eles não vão querer saber da gente, meu senhor!

[Tradução]

O comandante ordena: "Mulheres e crianças primeiro!", mas não diz que prioridade elas terão. Pragmaticamente, preenchemos o sentido da ordem do capitão: imaginamos que mulheres e crianças têm prioridade no salvamento, posto que o navio está afundando. "Abandonar o navio!" é para todos; a seguir, uma restrição. "Abandonar o navio!", para algum lugar seguro, pois, a lógica nos ajuda a completar que, se for para morrer, que se permaneça no navio. Por isso, identificamos a exclamação inicial do comandante como desesperada, e não de júbilo, por exemplo. A medida mais urgente das urgentes é a ordem de que mulheres e crianças devem ser as primeiras a abandonar o navio. Apresentamos algumas obviedades acima para mostrar a complexidade das relações demandadas pelo óbvio.

Nossa memória relaciona a cena apresentada com outras cenas que porventura trazemos de navios se afundando. E, eventualmente, nossa memória deduz da fala do comandante o ethos corajoso, verossímil com o que já sabemos de cenas como essa: é muito conhecido o imperativo "o capitão deve afundar com o seu navio", ou a noção de que o comandante deve ser o último a abandonar sua embarcação. Esse se torna, então, para nós, o sentido óbvio da fala inicial do comandante.

O ethos do senhor que vai falar com o comandante não é um qualquer; é motivado pelo fato de ele ter uma mulher e seis filhos dentro do navio (essa informação é relevante), a partir do princípio da relevância informacional: principalmente na piada, diz-se o necessário e útil à narrativa. A emoção do senhor é porque ele imagina uma identificação entre o seu ethos ou sua necessidade e o ethos do comandante. Lembramos que ethos é a posição ética que "exala" de um enunciado; ou seja, ao enunciar, o falante não apenas informa um conteúdo e uma forma; esse conteúdo e essa forma indicam obliquamente uma ética, uma postura, consciente ou não para falante e ouvinte.

A posição daquele senhor permite-nos completar o seguinte sentido para a fala inicial do comandante: "Mulheres e crianças salvam-se primeiro!", ou "Mulheres e crianças entram primeiro no bote salva-vidas!", o que reforça o sentido óbvio que apresentamos anteriormente. Dizer simplesmente que esse sentido óbvio se deve ao conhecimento prévio compartilhado em uma determinada comunidade não basta. Conhecimento prévio sobre quê? Sobre navios que se afundam e sobre a postura que se imagina de seus comandantes. A fala inicial do comandante dá o suporte lingüístico que nos permite acionar esse conhecimento prévio. Em outras palavras, o que colabora para o sentido óbvio ser o sentido óbvio é que a frase, por sua incompletude necessária, deixa-se levar por nossa memória, visitando a situação (a pragmática completa o sentido de "primeiro...") e disparando o ethos corajoso do comandante, sem nos apercebermos, em geral, disso.

A questão não é somente, então, o fato de o comandante ser "humanitário", como diz o senhor; talvez principalmente "corajoso". O discurso humanitário pode estabelecer uma relação interdiscursiva com o discurso corajoso ou militar-corajoso, e o ponto de intersecção entre eles seria o altruísmo. No primeiro caso, um altruísmo um tanto quanto franciscano; no segundo, um altruísmo narcisista, do tipo "sou forte e minha missão é salvar os fracos". Talvez, a essa altura da piada, o senhor fique mais com o primeiro discurso, o comandante fique mais com o segundo e nós fiquemos com os dois, ou mais com um ou com o outro, dependendo de nossa memória discursiva.

A fala final do comandante é surpreendente, e por isso mesmo é a final, o desfecho da piada. "Humanitário uma ova!" revela agressividade, tão ligada ao humor. E anuncia também a nós: "esse sentido uma ova!", isto é, "mude agora a forma como você está lendo essa narrativa!". Essa agressividade marca o rompimento com o ethos politicamente correto do discurso humanitário ou do discurso militar e abre as portas para o destronamento do sentido óbvio. Marca, sobretudo, o nosso rompimento com o sentido primeiro. Com a fala final, o ethos inicial é surpreendido em favor de outro: o egoísta-oportunista. Esse ethos é verossímil pelo que a piada já nos deu: o desespero frente a uma situação de morte. É para fazer fartos os tubarões que as mulheres e as crianças devem saltar primeiro. O desfecho ganha força por querer o comandante estabelecer com o senhor um conchavo, baseado em uma identificação: "[os tubarões] não vão mais querer saber da gente", os machos adultos. Essa tentativa é possível porque o comandante não é o narrador onisciente da piada; não sabe ele que o senhor em questão tem uma mulher e seis filhos no navio. Nós sabemos.

O humor, em geral narrativo, é também a confluência das inúmeras perspectivas enunciativas e situacionais postas em jogo pelos personagens, é o ponto de união de conjuntos polissêmicos. Diante do humor, temos a mesma surpresa que diante de um quadro de Giacometti, quando descobrimos que não está em um único ponto o olhar que se quer do espectador.

A graça não está somente no raciocínio e na ética que sustenta a iniciativa do comandante, mas na relação que esses estabelecem com sua fala inicial. Ao final da piada, recuperamos o enunciado inicial e percebemos que o ethos revelado (final) já era permitido, embora desaconselhável. O desfecho da piada, então, é o lugar em que emerge o sentido possível mas não autorizado a priori. Rimos dessa exceção, dessa conceção ao inusitado. Talvez um frágil riso (risco) de afronta ao hegemônico, se mais não podemos. Depois que normalizamos a nossa impotência por não termos desvendado inicialmente esse novo sentido, podemos rir, expurgados de nossa sensação de inferioridade.

Apanhando do sujeito II

(Leia a primeira parte desse texto).

Análise da frase:
Ricardo viu Lúcio.

Sautchuk (Práticas de Morfossintaxe) diria que orientar o estudante a perguntar quem realiza o verbo, como forma de descobrir o sujeito, pode gerar confusão, pois a pergunta poderia ter como escopo o objeto direto: "quem Ricardo viu?": "Lúcio".

A autora propõe um outro método, baseado na noção de que o sujeito é o único termo da oração que pode ser substituído por um pronome reto não preposicionado (apenas este pode ocupar aquela função): "Ele viu Lúcio". "Ele" substitui o sujeito, no caso, "Ricardo". Sautchuk sugere, então, que o enunciado esteja na forma de pergunta, sendo que, na resposta, seria obrigatória a presença de um pronome pessoal reto, que substituiria o sujeito:

Ricardo viu Lúcio?
Sim, ele viu Lúcio.

Sautchuk silencia um exemplo. Se eu a frase for "Ninguém viu Lúcio", o estudante teria um curto-circuito semântico:

Ninguém viu Lúcio?
Sim, ele viu Lúcio.

O "ele" pressupõe uma presença positiva, ao contrário do "ninguém". Sintaticamente, podemos substituir "ninguém" por "ele"; mas, semanticamente, não. Nesse caso, a perguntinha tradicional parece melhor, por dar ao "quem" as possibilidades semânticas de vazio ou de presença: "quem viu Lúcio?": "ninguém". "Ninguém" seria o sujeito.

Mas, quero fazer uma outra reflexão sobre esse recurso proposto por Sautchuk. A técnica de substituição apresentada por Sautchuk como alternativa também pode causar a mesma dificuldade descrita por ela em relação àquele método tradicional de pergunta. Sua alternativa pressupõe as noções de pronome reto e pronome oblíquo, o que nem sempre é tranqüilo para o estudante.

Ora, trata-se de uma explicação tautológica de algo que não pode ser visto como tautológico, como se dissesse: "O sujeito aceita ser substituído pelo pronome reto, porque o pronome reto somente pode ocupar a função de sujeito". Em suma, é como se dissesse que o sujeito é o sujeito porque é o sujeito. Mas, imaginando que o aprendiz não saiba qual o termo da oração é o sujeito (lembro que é por isso que a explicação se faz necessária), como vai saber onde subsitui-lo pelo pronome reto? No caso da frase analisada aqui, o "ele" pode substituir também o objeto direto:

Ricardo viu ele.

Os defensores da gramática tradicional tentarão refutar essa possibilidade por estar ela gramaticalmente errada. Mas, não estamos, ainda, discutindo se está errado ou não, até porque, por estarmos falando do ensino dessa gramática, imaginamos que os estudantes não devem dominá-la. E mesmo os estudantes ou os falantes em geral que a dominam oralmente também usam pronome reto na posição de objeto direto. Aquele enunicado não estaria tão "errado" assim, se o critério for menos o que a gramática tradicional prescreve invariavelmente e mais o uso dos falantes cultos na modalidade oral, além do fato de essa oração não ser agramatical, uma vez que é cabível aos falantes do português (agramatical seria algo como: "Ricardo viu o ele").

Desenvolvo aqui os quatro recursos para a identificação do sujeito que apenas citei na primeira parte desse estudo.

1) Natureza substantiva: o sujeito é um sintagma nominal cujo núcleo é um substantivo ou um termo que normalmente não é substantivo mas que foi ali substantivado.
2) Concordância verbo-nominal: o sintagma nominal e o núcleo verbal se articulam entre si em uma oração; a concordância verbo-nominal normalmente é a marca explícita dessa articulação.
3) Impossibilidade de haver sujeito preposicionado: mesmo desconhecendo essa formulação, em geral os falantes se apercebem dela; daí não haver tanta confusão entre sujeito e objeto indireto.
4) Padrão sintático do português: a seqüência preferida é sujeito-verbo-complemento.

Na oração estudada, tanto "Ricardo" quanto "Lúcio" têm natureza substantiva. Ambos têm uma morfologia que os permite concordar com o verbo (terceira pessoa do singular). Não há preposição, daí não ser necessário o recurso em 3. Sobra-nos somente a questão do padrão sintático do português: o sujeito costuma vir antes do objeto. Sem esse recurso, ou sem remontarmos à situação, a gramática não pode dizer que "Ricardo viu ele" está "errado". Por esse recurso, desvendamos o 2: é "Ricardo" quem se articula com o verbo.

Quando dizemos "Nós viu a Maria", temos uma aparente falha na regra 2. O que morfologicamente parece concordar com "viu" seria "a Maria", mas algo nos diz que "a Maria" não está nos vendo e sim sendo vista por nós. Primeiro, por causa do padrão sintático do português (sujeito vir antes, em geral). Segundo, porque aceitamos como gramatical a construção "nós viu", de onde se deduz que "a Maria" é um complemento verbal (objeto direto) e não o sujeito. Assim, a concordância não é causa suficiente para haver articulação. "Nós" se articula com "viu", mesmo não havendo concordância verbo-nominal (não é necessária para a articulação). O que quisemos dizer em 2 é que a concordância verbo-nominal é marca recorrente, e não necessária ou suficiente, da articulação verbo-nominal. Em casos como esse fica evidente que a cadeia semântico-textual e o contexto sociolingüístico podem contribuir na análise, para além dos quatro elementos citados.

Minha proposta é que esses quatro elementos antes descritos sejam trabalhados no ensino gramatical, entendido como um ensino morfológico, sintagmático e semântico (e, aqui, coloco as teorias do texto e da interpretação). É preciso problematizar esses elementos e pesá-los a cada caso estudado. Complementarmente, os dois métodos de perguntas e respostas (tradicional e de Sautchuk) podem ser trabalhados. Isso requer do professor conhecimentos morfossintáticos, nem sempre contemplados na formação acadêmica. Requer também pensar o contexto lingüístico e situacional em que o a oração aparece (daí, preferir trabalhar com textos, nem tanto com frases isoladas).


PÓS-ESCRITO:

Creio que nos artigos "Apanhando do sujeito" (I e II) há mais falhas do que as que de hábito cometo. Apanho de muitos temas, não só do sujeito (risos). Arrependo-me de muita coisa do que escrevo (inclusive isso que fiz aqui, de não começar período com pronome átono). Me arrependo sim. O problema naquele artigo, e na sua continuação, diz mais respeito à falta de profundidade nas discussões gramaticais. Embora não sendo gerativista, tendo a concordar com a idéia de que não é o verbo o centro da frase, mas uma parte do verbo, a saber, a flexão, ou até o seu caráter [+finito] ou [-finito], coisas que em geral estão incluídas no verbo mas que em algumas línguas são elementos isolados, o que nos sugere relativa autonomia em relação ao verbo (se você se cansou desse assunto, mude para o parágrafo abaixo). Outra coisa: não é toda frase que deve ter verbo, mas podemos imaginar haver um verbo atuando mesmo quando não realizado morfologicamente; exemplo: "Minha casa, tão verde". Tudo bem que isso é mais emotivo ou apelativo que "Minha casa é verde", mas o que quero discutir é que verbos podem não estar expressos, pelo menos verbos como "ser", frágil ao ponto de algumas línguas não o apresentar nessas circunstâncias (como o russo, que traz entre o sujeito e seu predicativo um mero hífen; eu diria que o "ser" em português é praticamente um mero hífen). Não vou entrar aqui na discussão se toda frase deve ter sujeito; apenas faço uma ressalva que eu não tinha feito no artigo anterior: para a gramática gerativa, toda oração tem sujeito (sujeito da oração, não necessariamente sujeito que age o verbo), ou expresso, ou oculto, ou realizado / suposto em um expletivo ("it rains"; "it" é expletivo realizado; em português, o expletivo é nulo: "expl.choveu"). Para essas questões, ver Miotto et alii, "Novo manual de sintaxe" (Florianópolis: Ed.Insular, 2004).

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Inclusão, do portão pra fora












Angeli. FSP, 16/02/2007.




A posição presente na charge é que a inclusão desejada ou permitida pelos ricos é hipócrita, limitada (do portão pra fora). A boa intenção da madame (ou das madames) cessa com a primeira linha da legenda. A última frase reforça o distanciamento social entre "ricos" e "pobres". O termo "só" inagura a condição para o que foi dito anteriormente: desde que aguardem do lado de fora do portão. "Só" é aqui um marcador reformulativo, que isola dois discursos: o da hospitalidade caridosa (antes; politicamente correta) e o do distanciamento caridoso (depois).

Forçando um pouco a leitura, poderíamos dizer que as duas formas de caridade, no fundo, são vistas pelo "eu-lírico" chargista como farsantes e não "includentes" de fato, pois mantém a mesma divisão social; o lado "de cá" da divisão é o dentro do portão, cuja metáfora é o dentro do "café" chique em que as madames estão. Ainda que elas deixassem o pobre entrar, o cenário e o figurino marcam o lugar de onde aquelas interlocutoras enunciam. "Interlocutoras" no plural, pois temos sugerido que, embora seja só uma que tome a palavra, é algo que parece ser compartilhado pela outra em silêncio. A em silêncio fala também pela locutora, e a que fala talvez só fale para aquela, no jogo de imagens da enunciação.

Lembro-me que tive na mão certa vez um livro chamado "Manifesto comunista em quadrinhos". O que interessa aqui era a forma como os capitalistas figuravam no começo do livro: gordos, soberbos, opulentos. Assim também Eisenstein retratou os adversários dos trabalhadores e dos bolcheviques em "O Encouraçado Potemkin" e em "Outubro". Quero dizer que os adversários são sempre retratados com opulência, praticando, em geral, de um a todos dos sete "pecados capitais". Creio ter nessa convenção um índice para supor o lugar do autor na charge em questão (além do ethos chargista, que pretendo desenvolver em um outro texto). Embora as mulheres não sejam gordas (podem ter feito lipoaspiração), são opulentas, e o cenário é luxurioso e colabora para que usurpemos mais credibilidade da "boa intenção" enunciada.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Combing (Pente-fino)

[English]
Eleven tons of human hair was stolen from a wig factory in West Fliptown this morning.
Police are combing the area.

[Português]
Onze toneladas de cabelo humano foram roubadas de uma fábrica de perucas em Fliptown Oeste esta manhã.
Os polícias estão fazendo uma operação pente-fino na região.

[Tradução]
A chave está na palavra "combing", que pode significar 1) "penteando" (o cabelo) ou 2) "vasculhando". Em português, a melhor tradução para 2) seria, considerando toda a última frase, "Os policiais estão fazendo uma operação pente-fino na região". "Operação pente-fino" significa "operação minuciosa de busca". Também teria a ver com cabelo e seria uma expressão policial mais corrente em português. Seria interessante descobrir se essa expressão portuguesa tem alguma origem em "combing" (ou vice-versa, algo menos provável, afinal, os colonizados somos nós).

Perceba a quebra de parágrafo. Essa interrupção separa não somente o roubo dos cabelos da ação policial de busca. Tem um efeito suspensivo para enfatizar o que virá posteriormente. Se quisermos encenar em voz alta, poderíamos, ainda, mudar a entonação nessa pausa: a impostação de voz séria da primeira parte daria lugar a uma mais debochada na segunda, recurso prosódico muito usado nas contações de piadas.

A brevidade da última frase serve para sugerir, ironicamente, que aquele assunto é "ridículo" (passível de riso, não sério para ser noticiado, por isso, "vamos mudar logo de assunto"). A frase é curta para nos assustar, para nos golpear desprevinidos. A brevidade, marca lingüística do humor, pode ser expressa em uma lei em geral seguida: o máximo de sentido para um mínimo de suporte. Ou, para adaptar esse enunciado aos conceitos de Saussurre: o máximo de significado para um mínimo de significante. Ora, o humor emerge na perambulação entre dois sentidos possíveis.

Seria equivocado dizer que um dos sentidos para "pente" seria literal (o artefato de ajeitar o cabelo) e o outro, figurado (a operação de busca), pois seria negar a materialidade e a polissemia e aceitar que um significado literal está lá, sempiternamente atrelado a uma coisa ou a uma só coisa. A palavra "chegar" vem do latim "plicare", que significa "dobrar"; "dobrar" era o ato que os navegantes realizavam ao "chegar" de viagem. Apesar disso, nenhuma gramática tradicional diria que o verbo "chegar" é figurado, pois já estaria literalizado. Com esse exemplo, quero dizer que os critérios para dizer se uma palavra é literal ou figurada podem ser subjetivos e variados (por exemplo, considerar ou não a história semântica e morfológica). Apesar de também complicada, prefiro a diferenciação entre sentidos abstratos e concretos, nunca deixando de analisar a situação da ocorrência. Nesta piada, o sentido mais concreto (tocável) seria o 1) (o artefato de ajeitar o cabelo) e o sentido mais abstrato seria 2) (a operação de busca).

Maingueneau (Análise de textos de comunicação) trabalha com a noção de "cenografia"; o gênero desse texto continua sendo "piada", e essa piada trabalha com a cenografia de "notícia" (uma notícia rápida de jornal impresso, ou, mais possivelmente, falado). A "dicção" da piada é própria dos gêneros "notícia" e reitera um discurso hegemônico no campo jornalístico: a síntese de informações ("tempo é dinheiro"), nível de relevância (a curiosidade pode fazer que algo a princípio não relevante se o torne), presentificação da informação, pseudo-realidade. Por essa razão, a localização (West Fliptown), que nesse caso poderia ser desnecessária à piada, se faz relevante para reforçar a verossimilhança jornalística, mantendo assim a ambigüidade piada / notícia.

Se não soubermos a priori que se trata de uma piada, ela pode ficar ainda mais engraçada e interessante de ser analisada. Começamos a ler / ouvir como se fosse uma notícia (gênero e cenografia) e, ao final, seríamos surpreendidos não só pela ambigüidade da palavra "combing" mas também pela ambigüidade do gênero em questão (piada ou notícia), até resolvermos (e rirmos de nosso achado) com a diferenciação: gênero piada e cenografia notícia.

Dentre as teorias do humor, existe a do humor como superioridade. Thomas Hobbes disse que "o riso é um tipo de glória repentina". Ou, atualizando, um narcisismo repentino, e narcisismo não tem necessariamente um sentido repugnante. Quando percebemos algo absurdo e depois conseguimos conformar aquilo em nosso conhecimento de mundo, rimos de alívio! Ou seja (de volta à piada), estamos lendo / ouvindo como se fosse uma notícia, depois nos assustamos com o desfecho e, ao percebermos se tratar de uma piada, rimos, contentes por termos decifrado a simulação noticiosa (e seu porquê) e aliviados por não ser aquilo uma notícia, por policiais não estarem passando de fato o pente nos cabelos roubados. Quando não encontramos a "graça" da piada, nosso narcisismo reage de outra forma: pode surgir o constrangimento (um silêncio ou um rir simulado), a curiosidade ("não entendi, explica de novo"), a ira (revoltar-se contra quem contou a piada e contra quem a entendeu).

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Lula e os doadores de campanha














Glauco. FSP, 01/12/2006.


Maria Rita Kehl afirma que a "queixa estéril" é uma das formas do ressentimento, usada pela massa atônita que não vislumbra uma forma de ruptura (leia). A charge política é um lugar por excelência da queixa: por uma lado, destrona o mesmo; por outro, essa "chiadeira" é pura amargura, puro ressentimento, não revolta. É bom lembrar que, embora seja um gênero de maior "liberdade", ainda está em geral inscrito em grandes veículos de comunicação a serviço da ordem. Por essas e outras muitos se perguntariam se a charge pode ou deve ser mais que ressentimento, sublimado em formas e cores.

Esta charge de Glauco parece aprofundar a crítica. A classe política contitui o quadro preferido de personae dramatis das charges. A charge em questão, ao invés de repetir a tópica das charges em geral ("político é corrupto" e afins), acaba aprofundando o problema: político é corrupto nesse modelo de sociedade (capitalismo), em que o político "aceita" "doações" dos detentores do capital, e com isso fica com o "rabo preso", ou melhor, tem que "carregar nas costas" esses doadores. Nessa minha leitura, a charge pressuporia, intertextualmente, o dito marxiano e marxista: o estado na sociedade capitalista é um instrumento de opressão a serviço da classe dominante contra a classe trabalhadora. O "depois passa" sugere a conformação dos políticos, mesmo daqueles cuja origem não é a da classe capitalista; a expressão é enunciada pelo representante maior do estado: o presidente (Lula).

A relação de intertextualidade das charges se dá não só com outros textos do jornal ou do meio jornalístico, mas também em relação a datas memoráveis (por exemplo, no dia do natal) ou a provérbios e expressões populares. No nosso caso, a expressão é "carregar nas costas", que perde o tom mais abstrato que tem na linguagem comum e ganha aqui concretude. Essa concretude se dá porque a charge precisa "encenar", teatralizar. Daí, o gênero chárgico recorrer sempre a este recurso: materializar um sentido concreto em cena (causando surpresa), que guarde alguma ambigüidade com o sentido abstrato recorrente (já sabido).

O interlocutor de "Lula" é um anônimo (o importante aqui é o presidente), tanto que sua face nem figura; pelas vestes, podemos classificá-lo como um político, ou um acessor, que é novato no meio ou que não está acostumado com as retribuições aos aduladores. A cenografia é a de um "conselho", que reitera o discurso do "se todos tiram proveito...". A proporção (agigantada) e a posição (acima) dos doadores nos sugerem quem de fato teria o poder do estado na mão, e quem é o mero executor (executivo) desse poder (quem o "carrega"), retomando o dito marxista de que o estado capitalista tende a se pôr majoritariamente a serviço da classe burguesa, ainda quando não são sujeitos de origem burguesa que o controlam.

Poderíamos também analisar esta charge sob o ponto de vista do momento político em questão: pós-eleitoral, de transição do primeiro para o segundo governo de Lula (fim de 2006). Acreditamos que a análise da charge pode comportar um recorte mais conjuntural ou mais estrutural; nesta análise, preferimos secundarizar o primeiro em favor do segundo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Apanhando do sujeito

Análise da frase:
Os meninos apanharam de seus colegas maiores.

Este texto não é, strictu senso, uma análise de humor. Mas pode se torná-lo.

O livro "Gramática Latina", de Napoleão Mendes de Almeida, é um bom manual de latim. E só. Alguns posicionamentos políticos e lingüísticos apresentados no prefácio e nos exercícios são bastante reacionários, para não dizer equivocados. Tudo bem que o prefácio retoma uma luta inglória contra os tecnocratas da educação, que queriam (e conseguiram) excluir o latim do quadro das disciplinas obrigatórias do ensino básico. Mas os argumentos de Almeida na defesa do latim são, principalmente hoje, questionáveis. Quanto aos exercícios, não precisa ser muito esperto para saber quão ideológico é, no contexto da ditadura militar, um enunciado como "Os desertores não amam a pátria" (p.43). Pretendo desenvolver esse ponto em um novo artigo; aqui, o foco é outro.

Poderia ser um mérito do livro o traçar um paralelo entre a gramática latina e a portuguesa. Mas, aqui também falha, por adotar a gramática tradicional, demasiado filosófica e pouco morfossintática. É sempre bom, contudo, ressalvar que era a época em que as ciências lingüísticas tinham ainda menor alcance no Brasil do que em nossos dias. Diz o ditado que o filósofo morre pelo exemplo. Pelo menos os exemplos escolhidos pelo autor, para explicar a gramática portuguesa, servem aos seus propósitos. Mas silenciam outros exemplos possíveis. Vejamos:

"Pois bem, quando o sujeito pratica a ação, isto é, quando age, o verbo está na voz ativa. (...) Um verbo está na voz ativa quando o sujeito pratica a ação do verbo.(...)" (São Paulo: Saraiva, 1983: 59).

O autor traça um paralelo entre voz ativa e voz passiva, dando um exemplo para esta última: "O menino foi castigado pelo professor" (ib.).

E conclui:

"Estamos, dessa forma, vendo um caso em que o sujeito recebe, sofre a ação em vez de praticar. Pois bem, quando o sujeito sofre, recebe a ação do verbo, o verbo está na voz passiva". (ib.)

Para contrariá-lo, uso uma frase do livro "Prática de morfossintaxe", de Inez Sautchuk: "Os meninos apanharam de seus colegas maiores" (algo assim). De pronto, lembro que não é possível verter essa oração para a voz passiva, pois seu objeto é indireto (preposição "de"). Ora, quem realiza e quem recebe a ação do verbo "apanhar"? Semanticamente ou filosoficamente, "os meninos" não realizam nada, não "agem" nada. A regra de Almeida e de tantos livros didáticos serve para a grande maioria dos casos, mas não deve ser tomada universalmente. No exemplo anterior, o sujeito "os meninos" sofre (para falar, como o autor, semanticamente) uma ação e nem por isso a frase acima está na voz passiva.

Poderiam dizer que "apanharam" é uma ação realizada pelo sujeito "os meninos". Mas, semanticamente, não é! O que nos permite associar "os meninos" e "apanharam" não é essa regra, mas sim os elementos sintáticos, taxativos em maior ou menor grau: concordância verbo-nominal, natureza substantiva do núcleo do sujeito, impossibilidade de haver sujeito preposicionado ("DE seus colegas maiores" não poderia ser sujeito), padrão sintático do português (sujeito-verbo-complemento).

Queria trazer um exemplo novo. O caso do modo imperativo é muito interessante, para desmentir a regra de Almeida. Vejamos:

"Amor, venha até aqui!"

O sujeito não é amor, mas o "você" oculto; este se articula com o verbo "venha", e não o "ele/a". Ora, os verbos imperativos não representam, em geral, ações que o sujeito "pratica" ou "age", mas algo que se quer que o sujeito pratique. Os imperativos de manutenção poderiam ser ("Fiquem atentos"), mas mesmo esses destacam uma certa ação porvir, que se quer realizada. Então, de início, o sujeito na voz ativa não é somente quem "pratica a ação" (presente), mas também quem a praticou (passado), quem a praticará (futuro), quem deve praticá-la (imperativo) ou quem talvez a pratique (subjuntivo).

É melhor dizer, então, que o sujeito se articula com o verbo de sua oração, e não que realiza a ação, até porque, além dos aspectos já ditos, existem verbos que dão idéia de estado (como os verbos ser e estar) ou de passividade (como "apanhar de"). O verbo "apanhar", quando transitivo direto, sugere sim atividade, e, por pedir objeto direto e não objeto indireto, pode ser vertido para a voz passiva:

Os meninos apanharam as frutas da árvore.
As frutas da árvore foram apanhadas pelos meninos.

Filosoficamente, o sujeito é o termo principal da oração; a gramática tradicional, por sua natureza filosófico-semântica, privilegiará o sujeito e dirá que este e o predicado são os termos essencias de uma oração. A morfossintaxe dirá que o termo essencial e central de uma oração é tão somente o verbo, posto que, por exemplo, "Choveu!" é uma oração sem sujeito. Para a morfossintaxe, então, a melhor pergunta é: com que o verbo se articula? Daí, aquela perguntinha básica da escola, para descobrir o sujeito: "quem apanhou de seus colegas maiores?": "os meninos". Esse tipo de pergunta não questiona se o verbo é ou não uma ação clara, daí ser interessante. E muitas vezes bastará um olhar sintático para localizar o sujeito (qual sintagma nominal concorda com o verbo); outras vezes, será necessário pedir o auxílio de elementos semânticos ou pragmáticos (as piadas são abundantes de exemplos em que o enunciado sintaticamente ambíguo se enriquece de significados contextuais e cotextuais).

Sautchuk irá considerar falho o método de pergunta e resposta antes exposto ("quem apanhou de seus colegas maiores?" "Os meninos"). Irá propor um outro método, que analisaremos na parte dois desse artigo.


(Leia a continuação desse texto)

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

"Ao descer, aperte o botão"

Vi essa frase em um ônibus. Ou melhor, era uma van, um seletivo, micro-ônibus, sei lá. "Como assim, depois de a pessoa descer é que ela deve apertar o botão?" Vamos com calma.

Comecei a falar do contexto externo, sinal de que a área lingüística da pragmática (estudo da relação entre o enunciado e sua situação) faz-se muito necessária para a compreensão dessa frase (e de outras, às vezes mais, às vezes menos). Nesse tipo de ônibus, não costuma haver botão que solicita ao motorista a parada no próximo ponto; normalmente, os passageiros pedem verbalmente, para o motorista ou para o cobrador. Como nesse veículo havia o tal botão, surgiu a necessidade de torná-lo visível, para padronizar a paragem, ou para "enchicar". Como esse tipo de botão existe nos ônibus de grande porte, os leitores nem precisam se questionar qual o botão em questão. A situação nos empurra para um significado do significante "botão": botão de solicitar a parada, e não "botão de camisa", "botão de rosas", "botão de futebol de botão", etc.

O recado estava lá. O espaço era curto, daí não ser possível maiores desenvolvimentos daquele texto. Outros poderão dizer que seria possivel um enunciado sem equívocos que ocupasse o mesmo espaço; algo como "Aperte o botão para descer" (enunciado ainda ambíguo, pois eu poderia gritar para parar e, quando o ônibus o fizesse e eu estivesse prestes a descer, apertaria o botão); ou "Aperte o botão para solicitar a parada". Mas os equívocos estão sempre aí, mesmo em muitos dos enunciados lógica e gramaticalmente perfeitos, mesmo (e, talvez, sobretudo) em textos longos.

É ingênua a idéia, muito presente entre os professores de língua e professores em geral, de que o equívoco é somente um problema de ordem gramatical. Como se os conflitos entre classes, religiões, povos etc. pudessem ser resolvidos com a "boa linguagem". Também dizem isso os pacifistas mais ingênuos. E também professores, jornalistas e etc. que não têm muita informação lingüística para além das regras da gramática tradicional e, para autojustificar sua formação e coagir seus estudantes, leitores e etc. espalham esse tipo de lorota. Um locutor qualquer pode dizer que "houve uma baderna no centro da cidade"; gramaticalmente, tudo certo, mas, se essa "baderna" foi uma manifestação grevista, esse enunciado poderia estar "equivocando" o locutor que não soubesse da origem ideológica de pejorar esses atos.

Voltando a nossa frase. "Ao descer" pode significar um ato concluído, mas também pode sugerir um ato inacabado: um movimento. Então, "ao querer descer..."; "ao movimentar-se para descer, aperte o botão". Quando alguma visita entra em nossa casa e diz "está abafado aqui" (uma variante de um velho exemplo), podemos deduzir que a pessoa quer que abramos a janela, mesmo sem a pessoa, expressa e formalmente, pedir isso. A quem insiste que esse ajuste gramatical em favor da pragmática não procede para o caso da frase do seletivo, devo apelar de vez: ninguém, nem mesmo quem queira usar a lógica gramatical e formal indiscrimiandamente em todas as circunstâncias, desceria do ônibus e depois apertaria o botão, a menos que quisesse troçar do dito. Muitos dos melhores semanticistas formais faziam "concessão" à pragmática se esta pudesse salvar a sentença da falsidade e do ilogismo.

Aquele "troçar" teria graça por causar um combate encarniçado entre o sentido pragmático óbvio e o sentido surpreendente embasado na formalização lógica extrema. Mas, seria muito inusitado, tanto porque esse ato seria difícil ou arriscado ao troçador, quanto porque qualquer falante letrado do português seria capaz de ler a frase e "convertê-la"; ou sequer se aperceber desse "ilogismo", principalmente porque a chave pragmática agiria para recalcar essa outra leitura: o foco recairia sobre "aperte o botão", e "ao descer" ficaria secundarizado; ou somente seria captada a idéia central de cada trecho (descer, aperte, botão), sem a desconfiança paranóica de tudo analisar (como fiz aqui).

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Un chien pour ma femme (Um cachorro para minha mulher)

[Français]
C'est un gars qui rentre dans un Pet Shop. Il dit a un vendeur :
- Je voudrais un chien pour ma femme.
- Désolé, on ne fait pas les échanges, lui répond le vendeur.

[Português]
Um rapaz entra em uma "pet shop" e diz a um vendedor:
- Eu queria um cachorro para minha mulher.
- Desculpe, a gente não faz trocas, respondeu-lhe o vendedor.

[Tradução]
Vou trocar uma palavra para mudar o sentido do texto; e o interessante é que ainda continua sendo uma piada. Minha proposta: ao invés de "chien" (cão), tivéssemos "chat" (gato), ambas as possibilidades possíveis à cenografia de uma "pet shop".

"Gato" pode ser o animal ou um homem muito bonito. Esses dois significados são possíveis para um mesmo significante, tanto em francês quanto em português, daí a tradutibilidade da piada. O rapaz vai à loja procurando um bichinho (sentido óbvio) e o vendedor acha que ele quer um rapaz bonito (sentido surpreendente). Como quem vai receber o presente será a mulher, e preenchemos com o sentido (não diria homofóbico, mas heterossexual, o qual está na base da homofobia ainda que não neste texto) com "mulher gosta de homem", as duas interpretações para "gato" são possíveis. A graça está no ethos: em geral, não é politicamente correto falar para uma pessoa que ela é feia, assim, "na cara" (isso também na cultura francesa como na brasileira, e em tantas outras). Ainda mais quando a pessoa não perguntou: disso decorre a graça da piada, a surpresa, embora talvez não seja tão engraçada assim por esses dois significados de "gato" serem muito batidos. A rapidez da resposta sugere naturalidade (não teve tempo para pensar): de fato, achava o rapaz feio. Em geral, também não é comum reconhecer-se feio, como o vendedor teria deduzido da fala do rapaz (ou, de forma sarcástica, teria blefado): "se você quer um homem bonito para sua mulher, é porque você não o é, ou ela não o acha, e eu concordo que você é feio". Outro politicamente correto transgredido: o cliente deve ser bem tratado, "cliente tem sempre razão". Faz parte do ethos comercial, exacerbado pela "livre concorrência" capitalista. Assim, seria de se esperar que o vendedor perdesse a piada para não perder o amigo, ou melhor, o cliente. Podemos entender também que o vendedor considera o cliente um gato e se o considera também, dizendo que a troca não seria possível.

Na versão "original" da piada, mantemos a questão do ethos do vendedor em específico e do politicamente correto em geral. A diferença agora é que o vendedor classifica o cliente como um cachorro: a graça está no olhar interpretativo fanfarrão ou de lapso (duas chaves para vermos a voz de um personagem que faz a voz do humor na piada), que, assim, considera que o cliente não queria comprar um cachorro (sentido esperado) mas trocar-se por um (sentido surpreendente), tendo em vista que é a mulher deste cliente a destinatária do presente.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Lula: "se beber não dirija"










Kibeloko.blogspot.com, 16/02/2007

Bahktin não tratou de charges, mas seu conceito de destronamento é muito usado nas interpretações deste gênero. Destronar é carnavalizar, é um ato popular que ultraja temporariamente quem os domina econômica e / ou politicamente; e o dominante aceita trocar de lugar, para apaziguar a ferocidade coletiva. E aqui, justo no período de Carnaval de 2007, Lula "deixa-se" destronar de seu posto oficioso. Também podemos dizer que o ethos formal (Lula presidente, logo cansado; tem motorista particular) foi surpreendido pelo ethos fanfarrão (Lula bebum, logo não dirige). É preciso acionar o conhecimento prévio sobre essas facetas de Lula. A legenda: a marca oficial (montagem) do governo faz confrontar o público (Lula fez-se aparecer, para uma campanha educativa no Carnaval) com o privado (o óbvio, por estar Lula escondido no carro). A mensagem "educativa" reforça o sarcasmo, pelo contraste educação no trânsito versus presidente bêbado, e por colocar como um dado o fato de Lula estar bêbado (não põe isso em questão). A fotografia capta um momento, mas não é o real, por ser hiperbólica (exagerada) ou expressiva. Talvez presencialmente ou com uma seqüência de imagens (vídeo) pudéssemos ter mais informações se Lula estava (e em qual grau) bêbado. Charge não é só desenho; as fotomontagens cada vez mais ganham terreno.

Classe operária (Tom Zé)

Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.

Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.

Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.

Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.

Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,
mesmo que elas não entendam seus desígnios.
E assim, depois de determinar
qual é a política conveniente para a classe operária,
Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes
e com o sentimento de culpa aliviado.

(Tom Zé, No Jardim da Política, 1998)

Esta canção marca um eu-lírico que se coloca dentro do domínio da política, mais precisamente dentro do campo discursivo da esquerda. Sim, eu-lírico porque supomos que, apesar de se dizer "Tom Zé", o "cantor engajado", a voz é de uma persona do poema / da letra da canção. O eu-lírico "Tom Zé" é um específico desta canção, ao passo que o autor Tom Zé (quis que isso figurasse sem aspas) é a porção de um sujeito (jurídico?) "realmente existente" que assina e responde por esta e outas canções.

Dentro do campo político e de esquerda, há uma polêmica, entre uma posição menos mediada, chamada, com certo caráter pejorativo, "esquerdista" (ver Lenin, "Esquerdismo, doença infantil do comunismo") ou "trotskista" (mesmo sem alguns desses trotskistas e quase todos os críticos dos trotskistas não conhecerem tanto Trotsky assim), e uma posição que se julga menos imperativa, mais construtivista e de estratégia mais consolidada (por exemplo, de linha gramsciana). No Brasil, essa disputa pode ser vista em vários momentos, como nas propostas que diferenciavam alguns grupos da esquerda armada e a Ação Popular e suas derivações (década de 1960).

Não vou entrar nessa polêmica, até porque houve muitos simulacros (no sentido de Maingueneau) na caracterização de um lado por outro: por exemplo, os chamados trotskistas denominavam seus opostos de "reformistas", "conservadores" e até "igrejeiros", ao passo que estes últimos denominavam aqueles de "inconseqüentes", "desraigados da realidade histórica e social" e até "loucos".

A crítica de Tom Zé estabelece uma intertextualidade explicita e de discurso convergente com o filme "A Classe Operária vai ao Paraíso" (La classe operaria va in paradiso; direção: Elio Petri. Itália, 1971), relação que não vou aprofundar aqui por ser nítida a quem assistir à película.

Un couple de randonneurs (Um casal de caminhantes)

[Français]
Un couple de randonneurs à la campagne. La femme :
- Chéri ... ce paysage me laisse sans voix !
- Parfait, nous campons ici !

[Português]
Um casal de caminhantes no campo. A mulher:
- Querido... esta paisagem me deixa sem voz!
- Perfeito, nós vamos acampar aqui!

[Tradução]
Esta piada pode ser compreendida a partir da noção de ethos discursivo. A fala do homem é ambígua, podendo se inscrever em dois ethos: 1) o amoroso e 2) o insatisfeito (como se a frase fosse dita para amigos em um bar). Para a piada ter graça, a intencionalidade do homem deve se voltar para 2 ("vamos acampar aqui porque aqui você pára de falar") e a mulher deve entender o enunciado do marido em 1 ("ele quer acampar aqui porque eu me encantei com o lugar"). A expressão "sem voz" é um elemento lingüístico ambíguo que sustenta essa ambigüidadade ética. É preciso ter um conhecimento prévio de que, em vários povos, é corrente o discurso de que "mulher fala demais" (2), e que belas paisagens deixam as pessoas sem voz (1). Repare como a versão original retira os verbos, descrevendo a cena como quadros (repetimos isso na versão em português).

O homem que matou o homem que matou o homem mau (Jorge Ben)

Lá vem o homem, que matou o homem que matou o homem mau
Lá vem o homem, que matou o homem que matou o homem mau
Lá vem o homem, que matou o homem que matou o homem mau

Pois o homem que matou o homem mau
Era mau também
Um perigoso pistoleiro
Não tinha pena de ninguém

Procurado por assaltos a banco
Roubo de cavalo e outras coisas mais
Chefe de quadrilha
Não queria a concorrência dos demais

Pistoleiro de aluguel
Cobrava 500 dólares
Pra mandar alguém pro beleléu

E com ele não havia xerife que parasse em pé
O xerife morria ou tinha que dar no pé
Mas um dia, para sorte de todos
Um homem bom e corajoso e ligeiro no gatilho apareceu
Foi aí que o homem mau tremeu

Pois seu lado fraco era a filha do ferreiro
A preferida do homem bom
Marcaram o duelo às duas horas de uma terça-feira
E nesse dia todo o comércio fechou
Só a funerária meia-porta baixou

E dois tiros se ouviram
No chão o homem mau ficou
Dizem que ele morreu foi por amor
E o homem bom com a recompensa que ganhou
Está casado e é xerife do local
Quando ele passa o murmúrio é geral

Lá vai o homem, que matou o homem que matou o homem mau
Lá vai o homem, que matou o homem que matou o homem mau
Lá vai o homem, que matou o homem que matou o homem mau
Lá vai o homem, que matou o homem que matou o homem mau

(Jorge Ben, Big Ben, 1965)

Esta canção é interessante pela questão da circularidade. A história termina da mesma forma como começou, com um novo homem assumindo o protagonismo, o que sugere menção a um estado de coisas "eternizado", em que os postos ou lugares sociais imprimem sua marca nos sujeitos, fazendo-os serem.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

Qui m'a donné? (Quem me deu?)

[Français]
Le petit gars demande à son père:
- Papa, quand je suis venu au monde, qui m'a donné mon intelligence?
- C'est sûrement ta mère, de répondre le père, car moi, j'ai encore la mienne.

[Português]
O garotinho pergunta ao seu pai:
- Papai, quando eu nasci, quem me deu minha inteligência?
- É claro que foi sua mãe, responde-lhe o pai, porque eu continuo com a minha.

[Tradução]
A ambigüidade incide sobre o verbo dar, que, em francês e em português, no contexto desta piada, pode se referir a "herdar" (sentido óbvio) e "entregar tudo" (sentido surpreendente, que causa a graça).

Upholstery machine (Máquina de estofados)

[English]
Did you hear about the man who fell into the upholstery machine?
He's all right, now. In fact, he's fully recovered.

[Português]
Você ficou sabendo do homem que caiu dentro da máquina de estofados?
Ele está bem agora. Na verdade, ele está totalmente recuperado.

[Tradução]
A piada se sustenta na ambigüidade, não traduzível para o português, da palavra "recovered", que pode significar tanto "recoberto" quanto "recuperado".