WHAT DOES YOUR DADDY DO?
It was the first day of school and the teacher thought she’d get to know the kids by asking them their names and what their fathers did for a living.
The first little girl said, “My name is Mary and my daddy is a postman.”
The next little boy said, “I’m Andy and my Dad is a mechanic.”
It was then little Johnny’s turn and he said “My name is Johnny and my father is a striptease dancer in a cabaret for gay men.”
The teacher gasped and quickly moved on, but later, in the school yard, the teacher approaches Johnny privately and asks if it was really true that his Dad dances nude in a gay bar.
Little Johnny blushed and said, “Nah, he’s actually an auditor for Arthur Andersen but I was just too embarrassed to say.”
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Little Johnny, o Pedrinho deles...
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
Business Advice
The Mexican replied “Only a little while”. The American then asked why didn't he stay out longer and catch more fish??? The Mexican said he had enough to support his family's immediate needs. The American then asked but what do you do with the rest of your time???
The Mexican fisherman said, “I sleep late, fish a little, play with my children, make siesta with my wife Maria, stroll into the village each evening where I sip wine and play guitar with my amigos. I have a full and busy life, señor".
The American scoffed, “1 am a Harvard MBA and could help you. You should spend more time fishing and with the proceeds buy a bigger boat with the proceeds from the bigger boat you could buy several boats, eventually you would have a fleet of fishing boats. Instead of selling your catch to a middleman you would sell directly to the processor, eventually opening your own cannery.
You would control the product, processing and distribution. You would need to leave this small coastal fishing village and move to Mexico City, then LA and eventually NYC where you will run your expanding enterprise”.
The Mexican fisherman asked, “But señor, how long will this all take???"
To which the American replied, “15 to 20 years”.
“But what then, señor ???”
The American laughed and said that’s the best part, “When the time is right you would announce an IPO and sell your company stock to the public and become very rich, you would make millions”.
“Millions, señor ??? Then what???”
The American said, “Then you would retire. Move to a small coastal fishing village where you would sleep late, fish a little, play with your kids, take siesta with your wife, stroll to the village in the evenings where you could sip wine and play your guitar with your amigos”
sábado, 21 de julho de 2007
Corre, pedala... e nada
Esse caso parece ser bom para ilustrar a discussão sobre os limites entre sintaxe e semântica. "Corre" e "pedala", tomando como ponto de partida o triatlo, têm uma significação "literal", que é contrastada com uma significação relacionada ao futebol. No primeiro caso, "corre" tem um sentido de finalidade, de especificidade do tal esporte; enquanto que, no segundo, tem um sentido de meio (correr é um meio para se jogar bem futebol). Mas, ainda assim, há muita semelhança entre os dois sentidos do verbo "correr".
Em "pedala", parece que temos dois verbos diferentes, apesar do sentido futebolístico ter uma relação secundária de metônimia em relação ao sentido mais literal, aplicável ao triatlo. Poder-se-ia dizer que, por isso, são um verbo só, e que o sentido futebolístico é um sentido conotativo em relação ao sentido literal de "pedalar". Mas, isso não é um argumento definitivo, porque as histórias das línguas estão cheias de exemplos de verbos que se formaram por deslocamento e se literalizaram depois. Por exemplo, "chegar" origina do verbo latino "plicare", que significava "dobrar". Um argumento para dizer que se trata do mesmo verbo é que o sentido futebolístico não se perdeu totalmente o sentido original. O que não dá para defender é que, por haver a mesma expressão gráfica e acústica (mesmo significante), trata-se necessariamente de um mesmo verbo; as línguas são repletas de homonímias (dois significados para um mesmo significante).
Interesante pensar que o verbo "pedalar" pode ser tanto transitivo direto quanto intransitivo (pode ou não pedir um complemento, ou, nos termos da sintaxe gerativa, pode ter um ou dois argumentos). No sentido do triatlo, mesmo aí podendo haver intransitividade sintática ("eu pedalei por duas horas"), parece estar subentendido um complemento ("eu pedalei [uma bicicleta] por duas horas"); enquanto que no sentido futebolístico, "pedalar" parece ter um caráter somente intransitivo (ninguém pensaria em "eu pedalei a bola" ou "eu pedalei o adversário"). Essa diferença, para alguns teóricos da teoria sintática (não estou falando de Pasquales), seria suficente para atestar que se tratam de dois verbos com a distinção originada desde o léxico ("momento" anterior à DS, deep structure ou estrutura profunda).
Bom, então, temos "corre" como um verbo muito similar nos dois sentidos. Temos "pedala" como um ainda verbo (ou dois verbos), mas que marca uma distância muito maior a depender de qual dos "frames" de significação (o do triatlo e o futebolístico) estamos tratando. Por fim, temos a palavra "nada", que, no frame do triatlo vem do verbo "nadar". Requer-se certo conhecimento enciclopédico do leitor para saber que o triatlo é composto das três modalidades sugeridas. E é por haver essa (ficcional) correspondência (pelo menos no nível do significante) entre as partes da modalidade e o que Robinho faz (ou vinha fazendo) que este seria convocado para a seleção de triatlo (também um "seleção", o que dá a entender que ele faz muito bem as três coisas: mais um exemplo da ironia aplicada ao sarcasmo). O pleno ajuste é um sinal de agudeza do humor nesta peça (poderíamos pensar em termos de coerência, mas isso fica para outro dia).
No frame futebolístico, não há brecha para o sentido anterior de "nada". Temos, então, que invocar nossa memória e pensarmos que expressões do tipo "fez alguma coisa... e nada", ditas com certa entonação, significam que não houve um certo resultado esperável; ou seja, como se o que viesse antes da expressão "e nada" incluísse um pressuposto de um resultado esperado, que não se confirmou: "correr" e "pedalar" são argumentos favoráveis a uma conclusão diferente de "nada". A interrupção tem um caráter adversativo, de mudança da direção argumentativa: "Robinho é esforçado, MAS não está jogando nada". "Ser esforçado" muitas vezes pressupõe uma traço pejorativo: alguém não tem ou não está mostrando talento (muita transpiração e pouca inspiração). Ora, aqui temos "nada" não mais funcionando como um verbo, mas como um advérbio.
Como podemos, a partir da expressão sintática que dá título a esta postagem, saber se "nada" é verbo ou advérbio? É possível somente supor (se os dois primeiros são verbos, o terceiro deve ser) ou ter uma certeza, que pode ser contestada (é o que a piada faz). E o humor joga exatamente com isso, ao mostrar que um outro sentido, uma outra leitura semântica, seria possível de co-habitar a mesma expressão sintática. As reticências promovem a quebra do fluxo; mais que isso, dá à frase uma dicção, próxima ao uso consolidado que mostramos no parágrafo anterior; e, também, promovem um suspense narrativo, que enfatiza a expressão por vir e serve muito bem ao humor.
A convivência entre esses dois domínios de sentido é condição necessária para a estruturação do humor; ao final da piada, retroativamente, ressignificamos tudo o que foi dito, não apagando o sentido inicial (do triatlo), mas fazendo as expressões serem co-habitadas pelos dois sentidos (triatlo e futebol). O que pode ser um indício de que há uma "consciência" e controle do autor, pelo menos no nível de controle (represamento) no desenvolvimento de seu artefato.
Do ponto de vista da semântica, a leitura do título de nossa postagem mostraria que uma interpretação sintática (saber se "nada" é verbo ou advérbio) muitas vezes só é possível de acontecer (ainda no domínio sintático) com a ajuda da semântica. Do ponto de vista da sintaxe, poder-se-ia pensar que os dois sentidos já estavam lá (na mesma frase, ou haveria duas frases?), autorizados pela sintaxe e aguardando um evento do mundo para semânticamente se definir.
domingo, 15 de julho de 2007
As gafes da TV portuguesa
Quem nos pergunta "você sabe que horas são?" não espera que respondamos simplesmente "sim", mas que lhe informemos essa hora que sabemos (ou que buscamos saber para responder). A pragmática buscaria dar conta de entender como os sentidos são completados pela situação imediata em que os interlocutores estão inseridos.
Costuma-se dizer que "português é burro". E já ouvi colegas meus que viajaram a Portugal dizerem que as tolices portuguesas das piadas de fato acontecem, que os portugueses são burros mesmos. Parece que lá em Portugal também fazem piadas sobre as burrices daqui. A questão parece ser, então, de uma interincompreensão, cujas raízes podem ser historicamente buscadas (condições de produção); é claro que não deve ser algo que prejudique irremediavelmente os sentidos, pois uma interincompreensão pode ser superada pelos interlocutores (reformulando suas falas, por exemplo).
Alguns lingüistas já disseram que as piadas de português (e as piadas de brasileiro, lá em Portugal) se sustentam basicamente sobre uma idéia de "burrice", que na verdade não é "burrice" mas saberes pragmáticos diferentes. Afirma-se que os portugueses têm uma tendência a ficarem mais no enunciado explícito e a buscar menos implicitações na situação ou na enunciação.
O vídeo aqui anexado foi editado no Brasil. Em suas escolhas, retrata certa representação que, fanfarrona ou seriamente, boa parte dos brasileiros faz dos portugueses. Vejamos dois trechos desse vídeo:
[Repórter pergunta e senhora responde:]
- O que que a traz cá?
- Uma camionete.
[Repórter pergunta e garotinho responde:]
- Falas com os cavalos?
- Falo.
- E eles respondem?
- Sim.
- O que é que dizem?
- Dizem assim: hiiiiiiiiiiii!
Muitos leitores podem ter a correta idéia: "esses trechos bem que poderiam ser piadas"; ou tirar dessa idéia uma conclusão valorativa mais geral: "nossa, então as piadas de português não são ficções, acontecem, os portugueses são mesmo burros". Será que a senhora e o garotinho foram "burros" por não entenderem a pergunta, ou simplesmente responderam mais "ao pé da letra" o que o enunciado pedia? Se formos pela primeira opção, rimos dos entrevistados (e português seria mesmo burro); se formos pela segunda, rimos do entrevistador (e português seria astuto ao ler o enunciado "ao pé da letra", "juridicamente" poderíamos dizer).
Parece-nos que tanto a senhora quanto o garotinho não estão troçando, zombando dos repórteres: entendem suas respostas como as únicas possíveis, ou as melhores possíveis. Mas, provavelmente, não eram aqueles os sentidos que os repórteres esperavam; isso provaria que não há uma postura pragmática única em Portugal, que talvez lá os dois usos co-ocorram em proporções parecidas, enquanto que no Brasil um dos usos seria muito hegemônico.
Se aquilo que dissemos dos portugueses (uma variação pragmática) for generalizado, as piadas pragmáticas dos portugueses contra os brasileiros seriam menos comuns, ou restritas a alguns usos em que nós não sejamos pragmáticos e eles o sejam. Mas, ainda que a explicação sirva para os dois excertos do vídeo, não deve se aplicar a todos os usos. Pois, pode haver muitos casos em que os portugueses interpretariam mais pragmaticamente um enunciado e que os brasileiros interpretariam mais "ao pé da letra" (ao pé do lingüisticamente explícito no enunciado). E, no sentido das representações de que os países são diferentes (ou que foram diferenciados por políticas no discurso), as piadas se constituíram como apropriações destes casos pragmáticos para se forjar enquanto um dos mais importantes campos da "batalha".
A forma como o jogador de futebol fala à reportagem, neste vídeo, parece ter outra explicação. O ethos, as idéias, as expressões não são esperados a um jogador de futebol; seria mais adequado a um filósofo. Então, a piada poderia ser que a burrice do português não é só pragmática, mas discursiva: há embutida uma noção nos sujeitos falantes, ainda que justificada em um esteriótipo, de que cada domínio social constitui consigo um jeito mais adequado de falar.
sábado, 16 de junho de 2007
Condenado à morte organiza concurso para escolher sua última piada
Yahoo!Notícias. 16/06/2007.
(Esta notícia vai na íntegra; nem vou comentar. A própria notícia é uma piada, de humor negro.)
WASHINGTON (AFP) - Um homem condenado à morte no Texas por duplo homicídio organizou um concurso de piadas na Internet para escolher suas últimas palavras, antes de receber a injeção letal, no dia 26 de junho.
"Aproveitarei meus últimos dias na Terra (...) Peço que divulguem o concurso que estou organizando. Quero que as pessoas me enviem suas melhores piadas para que possamos escolher a melhor, que vou contar antes da execução", disse Patrick Knight, de 39 anos, à rede de televisão CNN nesta sexta-feira.
Knight prometeu que lerá a piada quando lhe perguntarem quais são suas últimas palavras.
Condenado pelo assassinato de dois vizinhos, em 1991, Knight passou os últimos 16 anos no chamado "corredor da morte" em uma prisão do Texas, estado responsável por um terço das execuções nos Estados Unidos.
Knight disse à CNN que o "corredor da morte" precisa de uma "injeção" de humor: "temos uma situação onde há pessoas inocentes, o que não é o meu caso, que precisam das piadas para aliviar a tensão".
O condenado destacou que, já que vai morrer mesmo, é melhor que isso aconteça com uma risada.
Knight chamou sua página na Web de "Dead Man Laughing" (Homem Morto Rindo), uma piada com "Dead Man Walking" (Homem Morto Caminhando), o livro sobre a pena de morte de Helen Prejean, a freira católica defensora do fim das execuções.
sexta-feira, 20 de abril de 2007
Two attornerys in a diner (Dois advogados em um restaurante)
Two attorneys went into a diner and ordered two drinks. Then they produced sandwiches from their briefcases and started to eat. The owner became quite concerned and marched over and told them, "You can't eat your own sandwiches in here!" The attorneys looked at each other, shrugged their shoulders and then exchanged sandwiches
[Português]
Dois advogados entraram em um restaurante e pediram duas bebidas. Então, montaram sanduiches de suas pastas e começaram a comê-los. O proprietário ficou completamente irritado e foi até eles, “vocês não podem comer seus próprios sanduíches aqui dentro!” Os advogados se olharam, deram de ombros e trocaram entre si os sanduíches.
[Tradução]
O humor é disparado pela palavra "próprios", polissêmica: 1) regra geral muito compartilhada de que não convém ou não faz sentido levar comida própria a um restaurante (visão óbvia, do dono do restaurante); 2) para os advogados (visão surpreendente), "próprios" tem outra significação, a saber, "de sua propriedade", e, trocando os sanduiches, não mais estariam desrespeitando a regra enunciada pelo proprietário. A piada faz menção ao uso preciso de termos e de regras (ethos discursivo) por parte de advogados, muitas vezes por força do ofício, mas aqui (e nas piadas de advogado em geral) talvez sugira mais uma afeição compulsiva desnecessária (inconsciente) ou o uso (consciente) de uma técnica para se beneficiar da situação.
terça-feira, 27 de fevereiro de 2007
Mulheres e crianças primeiro!
- Abandonar o navio! Mulheres e crianças primeiro!
Um senhor, que tinha mulher e seis filhos dentro do navio, aproximou-se e disse, com lágrimas nos olhos:
- Eu estou muito emocionado, Comandante. O senhor é muito humanitário!
- Humanitário uma ova! Depois que os tubarões estiverem de barriga cheia, eles não vão querer saber da gente, meu senhor!
[Tradução]
O comandante ordena: "Mulheres e crianças primeiro!", mas não diz que prioridade elas terão. Pragmaticamente, preenchemos o sentido da ordem do capitão: imaginamos que mulheres e crianças têm prioridade no salvamento, posto que o navio está afundando. "Abandonar o navio!" é para todos; a seguir, uma restrição. "Abandonar o navio!", para algum lugar seguro, pois, a lógica nos ajuda a completar que, se for para morrer, que se permaneça no navio. Por isso, identificamos a exclamação inicial do comandante como desesperada, e não de júbilo, por exemplo. A medida mais urgente das urgentes é a ordem de que mulheres e crianças devem ser as primeiras a abandonar o navio. Apresentamos algumas obviedades acima para mostrar a complexidade das relações demandadas pelo óbvio.
Nossa memória relaciona a cena apresentada com outras cenas que porventura trazemos de navios se afundando. E, eventualmente, nossa memória deduz da fala do comandante o ethos corajoso, verossímil com o que já sabemos de cenas como essa: é muito conhecido o imperativo "o capitão deve afundar com o seu navio", ou a noção de que o comandante deve ser o último a abandonar sua embarcação. Esse se torna, então, para nós, o sentido óbvio da fala inicial do comandante.
O ethos do senhor que vai falar com o comandante não é um qualquer; é motivado pelo fato de ele ter uma mulher e seis filhos dentro do navio (essa informação é relevante), a partir do princípio da relevância informacional: principalmente na piada, diz-se o necessário e útil à narrativa. A emoção do senhor é porque ele imagina uma identificação entre o seu ethos ou sua necessidade e o ethos do comandante. Lembramos que ethos é a posição ética que "exala" de um enunciado; ou seja, ao enunciar, o falante não apenas informa um conteúdo e uma forma; esse conteúdo e essa forma indicam obliquamente uma ética, uma postura, consciente ou não para falante e ouvinte.
A posição daquele senhor permite-nos completar o seguinte sentido para a fala inicial do comandante: "Mulheres e crianças salvam-se primeiro!", ou "Mulheres e crianças entram primeiro no bote salva-vidas!", o que reforça o sentido óbvio que apresentamos anteriormente. Dizer simplesmente que esse sentido óbvio se deve ao conhecimento prévio compartilhado em uma determinada comunidade não basta. Conhecimento prévio sobre quê? Sobre navios que se afundam e sobre a postura que se imagina de seus comandantes. A fala inicial do comandante dá o suporte lingüístico que nos permite acionar esse conhecimento prévio. Em outras palavras, o que colabora para o sentido óbvio ser o sentido óbvio é que a frase, por sua incompletude necessária, deixa-se levar por nossa memória, visitando a situação (a pragmática completa o sentido de "primeiro...") e disparando o ethos corajoso do comandante, sem nos apercebermos, em geral, disso.
A questão não é somente, então, o fato de o comandante ser "humanitário", como diz o senhor; talvez principalmente "corajoso". O discurso humanitário pode estabelecer uma relação interdiscursiva com o discurso corajoso ou militar-corajoso, e o ponto de intersecção entre eles seria o altruísmo. No primeiro caso, um altruísmo um tanto quanto franciscano; no segundo, um altruísmo narcisista, do tipo "sou forte e minha missão é salvar os fracos". Talvez, a essa altura da piada, o senhor fique mais com o primeiro discurso, o comandante fique mais com o segundo e nós fiquemos com os dois, ou mais com um ou com o outro, dependendo de nossa memória discursiva.
A fala final do comandante é surpreendente, e por isso mesmo é a final, o desfecho da piada. "Humanitário uma ova!" revela agressividade, tão ligada ao humor. E anuncia também a nós: "esse sentido uma ova!", isto é, "mude agora a forma como você está lendo essa narrativa!". Essa agressividade marca o rompimento com o ethos politicamente correto do discurso humanitário ou do discurso militar e abre as portas para o destronamento do sentido óbvio. Marca, sobretudo, o nosso rompimento com o sentido primeiro. Com a fala final, o ethos inicial é surpreendido em favor de outro: o egoísta-oportunista. Esse ethos é verossímil pelo que a piada já nos deu: o desespero frente a uma situação de morte. É para fazer fartos os tubarões que as mulheres e as crianças devem saltar primeiro. O desfecho ganha força por querer o comandante estabelecer com o senhor um conchavo, baseado em uma identificação: "[os tubarões] não vão mais querer saber da gente", os machos adultos. Essa tentativa é possível porque o comandante não é o narrador onisciente da piada; não sabe ele que o senhor em questão tem uma mulher e seis filhos no navio. Nós sabemos.
O humor, em geral narrativo, é também a confluência das inúmeras perspectivas enunciativas e situacionais postas em jogo pelos personagens, é o ponto de união de conjuntos polissêmicos. Diante do humor, temos a mesma surpresa que diante de um quadro de Giacometti, quando descobrimos que não está em um único ponto o olhar que se quer do espectador.
A graça não está somente no raciocínio e na ética que sustenta a iniciativa do comandante, mas na relação que esses estabelecem com sua fala inicial. Ao final da piada, recuperamos o enunciado inicial e percebemos que o ethos revelado (final) já era permitido, embora desaconselhável. O desfecho da piada, então, é o lugar em que emerge o sentido possível mas não autorizado a priori. Rimos dessa exceção, dessa conceção ao inusitado. Talvez um frágil riso (risco) de afronta ao hegemônico, se mais não podemos. Depois que normalizamos a nossa impotência por não termos desvendado inicialmente esse novo sentido, podemos rir, expurgados de nossa sensação de inferioridade.
domingo, 25 de fevereiro de 2007
Combing (Pente-fino)
Eleven tons of human hair was stolen from a wig factory in West Fliptown this morning.
Police are combing the area.
[Português]
Onze toneladas de cabelo humano foram roubadas de uma fábrica de perucas em Fliptown Oeste esta manhã.
Os polícias estão fazendo uma operação pente-fino na região.
[Tradução]
A chave está na palavra "combing", que pode significar 1) "penteando" (o cabelo) ou 2) "vasculhando". Em português, a melhor tradução para 2) seria, considerando toda a última frase, "Os policiais estão fazendo uma operação pente-fino na região". "Operação pente-fino" significa "operação minuciosa de busca". Também teria a ver com cabelo e seria uma expressão policial mais corrente em português. Seria interessante descobrir se essa expressão portuguesa tem alguma origem em "combing" (ou vice-versa, algo menos provável, afinal, os colonizados somos nós).
Perceba a quebra de parágrafo. Essa interrupção separa não somente o roubo dos cabelos da ação policial de busca. Tem um efeito suspensivo para enfatizar o que virá posteriormente. Se quisermos encenar em voz alta, poderíamos, ainda, mudar a entonação nessa pausa: a impostação de voz séria da primeira parte daria lugar a uma mais debochada na segunda, recurso prosódico muito usado nas contações de piadas.
A brevidade da última frase serve para sugerir, ironicamente, que aquele assunto é "ridículo" (passível de riso, não sério para ser noticiado, por isso, "vamos mudar logo de assunto"). A frase é curta para nos assustar, para nos golpear desprevinidos. A brevidade, marca lingüística do humor, pode ser expressa em uma lei em geral seguida: o máximo de sentido para um mínimo de suporte. Ou, para adaptar esse enunciado aos conceitos de Saussurre: o máximo de significado para um mínimo de significante. Ora, o humor emerge na perambulação entre dois sentidos possíveis.
Seria equivocado dizer que um dos sentidos para "pente" seria literal (o artefato de ajeitar o cabelo) e o outro, figurado (a operação de busca), pois seria negar a materialidade e a polissemia e aceitar que um significado literal está lá, sempiternamente atrelado a uma coisa ou a uma só coisa. A palavra "chegar" vem do latim "plicare", que significa "dobrar"; "dobrar" era o ato que os navegantes realizavam ao "chegar" de viagem. Apesar disso, nenhuma gramática tradicional diria que o verbo "chegar" é figurado, pois já estaria literalizado. Com esse exemplo, quero dizer que os critérios para dizer se uma palavra é literal ou figurada podem ser subjetivos e variados (por exemplo, considerar ou não a história semântica e morfológica). Apesar de também complicada, prefiro a diferenciação entre sentidos abstratos e concretos, nunca deixando de analisar a situação da ocorrência. Nesta piada, o sentido mais concreto (tocável) seria o 1) (o artefato de ajeitar o cabelo) e o sentido mais abstrato seria 2) (a operação de busca).
Maingueneau (Análise de textos de comunicação) trabalha com a noção de "cenografia"; o gênero desse texto continua sendo "piada", e essa piada trabalha com a cenografia de "notícia" (uma notícia rápida de jornal impresso, ou, mais possivelmente, falado). A "dicção" da piada é própria dos gêneros "notícia" e reitera um discurso hegemônico no campo jornalístico: a síntese de informações ("tempo é dinheiro"), nível de relevância (a curiosidade pode fazer que algo a princípio não relevante se o torne), presentificação da informação, pseudo-realidade. Por essa razão, a localização (West Fliptown), que nesse caso poderia ser desnecessária à piada, se faz relevante para reforçar a verossimilhança jornalística, mantendo assim a ambigüidade piada / notícia.
Se não soubermos a priori que se trata de uma piada, ela pode ficar ainda mais engraçada e interessante de ser analisada. Começamos a ler / ouvir como se fosse uma notícia (gênero e cenografia) e, ao final, seríamos surpreendidos não só pela ambigüidade da palavra "combing" mas também pela ambigüidade do gênero em questão (piada ou notícia), até resolvermos (e rirmos de nosso achado) com a diferenciação: gênero piada e cenografia notícia.
Dentre as teorias do humor, existe a do humor como superioridade. Thomas Hobbes disse que "o riso é um tipo de glória repentina". Ou, atualizando, um narcisismo repentino, e narcisismo não tem necessariamente um sentido repugnante. Quando percebemos algo absurdo e depois conseguimos conformar aquilo em nosso conhecimento de mundo, rimos de alívio! Ou seja (de volta à piada), estamos lendo / ouvindo como se fosse uma notícia, depois nos assustamos com o desfecho e, ao percebermos se tratar de uma piada, rimos, contentes por termos decifrado a simulação noticiosa (e seu porquê) e aliviados por não ser aquilo uma notícia, por policiais não estarem passando de fato o pente nos cabelos roubados. Quando não encontramos a "graça" da piada, nosso narcisismo reage de outra forma: pode surgir o constrangimento (um silêncio ou um rir simulado), a curiosidade ("não entendi, explica de novo"), a ira (revoltar-se contra quem contou a piada e contra quem a entendeu).
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
Un chien pour ma femme (Um cachorro para minha mulher)
C'est un gars qui rentre dans un Pet Shop. Il dit a un vendeur :
- Je voudrais un chien pour ma femme.
- Désolé, on ne fait pas les échanges, lui répond le vendeur.
[Português]
Um rapaz entra em uma "pet shop" e diz a um vendedor:
- Eu queria um cachorro para minha mulher.
- Desculpe, a gente não faz trocas, respondeu-lhe o vendedor.
[Tradução]
Vou trocar uma palavra para mudar o sentido do texto; e o interessante é que ainda continua sendo uma piada. Minha proposta: ao invés de "chien" (cão), tivéssemos "chat" (gato), ambas as possibilidades possíveis à cenografia de uma "pet shop".
"Gato" pode ser o animal ou um homem muito bonito. Esses dois significados são possíveis para um mesmo significante, tanto em francês quanto em português, daí a tradutibilidade da piada. O rapaz vai à loja procurando um bichinho (sentido óbvio) e o vendedor acha que ele quer um rapaz bonito (sentido surpreendente). Como quem vai receber o presente será a mulher, e preenchemos com o sentido (não diria homofóbico, mas heterossexual, o qual está na base da homofobia ainda que não neste texto) com "mulher gosta de homem", as duas interpretações para "gato" são possíveis. A graça está no ethos: em geral, não é politicamente correto falar para uma pessoa que ela é feia, assim, "na cara" (isso também na cultura francesa como na brasileira, e em tantas outras). Ainda mais quando a pessoa não perguntou: disso decorre a graça da piada, a surpresa, embora talvez não seja tão engraçada assim por esses dois significados de "gato" serem muito batidos. A rapidez da resposta sugere naturalidade (não teve tempo para pensar): de fato, achava o rapaz feio. Em geral, também não é comum reconhecer-se feio, como o vendedor teria deduzido da fala do rapaz (ou, de forma sarcástica, teria blefado): "se você quer um homem bonito para sua mulher, é porque você não o é, ou ela não o acha, e eu concordo que você é feio". Outro politicamente correto transgredido: o cliente deve ser bem tratado, "cliente tem sempre razão". Faz parte do ethos comercial, exacerbado pela "livre concorrência" capitalista. Assim, seria de se esperar que o vendedor perdesse a piada para não perder o amigo, ou melhor, o cliente. Podemos entender também que o vendedor considera o cliente um gato e se o considera também, dizendo que a troca não seria possível.
Na versão "original" da piada, mantemos a questão do ethos do vendedor em específico e do politicamente correto em geral. A diferença agora é que o vendedor classifica o cliente como um cachorro: a graça está no olhar interpretativo fanfarrão ou de lapso (duas chaves para vermos a voz de um personagem que faz a voz do humor na piada), que, assim, considera que o cliente não queria comprar um cachorro (sentido esperado) mas trocar-se por um (sentido surpreendente), tendo em vista que é a mulher deste cliente a destinatária do presente.
terça-feira, 20 de fevereiro de 2007
Un couple de randonneurs (Um casal de caminhantes)
Un couple de randonneurs à la campagne. La femme :
- Chéri ... ce paysage me laisse sans voix !
- Parfait, nous campons ici !
[Português]
Um casal de caminhantes no campo. A mulher:
- Querido... esta paisagem me deixa sem voz!
- Perfeito, nós vamos acampar aqui!
[Tradução]
Esta piada pode ser compreendida a partir da noção de ethos discursivo. A fala do homem é ambígua, podendo se inscrever em dois ethos: 1) o amoroso e 2) o insatisfeito (como se a frase fosse dita para amigos em um bar). Para a piada ter graça, a intencionalidade do homem deve se voltar para 2 ("vamos acampar aqui porque aqui você pára de falar") e a mulher deve entender o enunciado do marido em 1 ("ele quer acampar aqui porque eu me encantei com o lugar"). A expressão "sem voz" é um elemento lingüístico ambíguo que sustenta essa ambigüidadade ética. É preciso ter um conhecimento prévio de que, em vários povos, é corrente o discurso de que "mulher fala demais" (2), e que belas paisagens deixam as pessoas sem voz (1). Repare como a versão original retira os verbos, descrevendo a cena como quadros (repetimos isso na versão em português).
segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007
Qui m'a donné? (Quem me deu?)
Le petit gars demande à son père:
- Papa, quand je suis venu au monde, qui m'a donné mon intelligence?
- C'est sûrement ta mère, de répondre le père, car moi, j'ai encore la mienne.
[Português]
O garotinho pergunta ao seu pai:
- Papai, quando eu nasci, quem me deu minha inteligência?
- É claro que foi sua mãe, responde-lhe o pai, porque eu continuo com a minha.
[Tradução]
A ambigüidade incide sobre o verbo dar, que, em francês e em português, no contexto desta piada, pode se referir a "herdar" (sentido óbvio) e "entregar tudo" (sentido surpreendente, que causa a graça).
Upholstery machine (Máquina de estofados)
Did you hear about the man who fell into the upholstery machine?
He's all right, now. In fact, he's fully recovered.
[Português]
Você ficou sabendo do homem que caiu dentro da máquina de estofados?
Ele está bem agora. Na verdade, ele está totalmente recuperado.
[Tradução]
A piada se sustenta na ambigüidade, não traduzível para o português, da palavra "recovered", que pode significar tanto "recoberto" quanto "recuperado".