quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Un chien pour ma femme (Um cachorro para minha mulher)

[Français]
C'est un gars qui rentre dans un Pet Shop. Il dit a un vendeur :
- Je voudrais un chien pour ma femme.
- Désolé, on ne fait pas les échanges, lui répond le vendeur.

[Português]
Um rapaz entra em uma "pet shop" e diz a um vendedor:
- Eu queria um cachorro para minha mulher.
- Desculpe, a gente não faz trocas, respondeu-lhe o vendedor.

[Tradução]
Vou trocar uma palavra para mudar o sentido do texto; e o interessante é que ainda continua sendo uma piada. Minha proposta: ao invés de "chien" (cão), tivéssemos "chat" (gato), ambas as possibilidades possíveis à cenografia de uma "pet shop".

"Gato" pode ser o animal ou um homem muito bonito. Esses dois significados são possíveis para um mesmo significante, tanto em francês quanto em português, daí a tradutibilidade da piada. O rapaz vai à loja procurando um bichinho (sentido óbvio) e o vendedor acha que ele quer um rapaz bonito (sentido surpreendente). Como quem vai receber o presente será a mulher, e preenchemos com o sentido (não diria homofóbico, mas heterossexual, o qual está na base da homofobia ainda que não neste texto) com "mulher gosta de homem", as duas interpretações para "gato" são possíveis. A graça está no ethos: em geral, não é politicamente correto falar para uma pessoa que ela é feia, assim, "na cara" (isso também na cultura francesa como na brasileira, e em tantas outras). Ainda mais quando a pessoa não perguntou: disso decorre a graça da piada, a surpresa, embora talvez não seja tão engraçada assim por esses dois significados de "gato" serem muito batidos. A rapidez da resposta sugere naturalidade (não teve tempo para pensar): de fato, achava o rapaz feio. Em geral, também não é comum reconhecer-se feio, como o vendedor teria deduzido da fala do rapaz (ou, de forma sarcástica, teria blefado): "se você quer um homem bonito para sua mulher, é porque você não o é, ou ela não o acha, e eu concordo que você é feio". Outro politicamente correto transgredido: o cliente deve ser bem tratado, "cliente tem sempre razão". Faz parte do ethos comercial, exacerbado pela "livre concorrência" capitalista. Assim, seria de se esperar que o vendedor perdesse a piada para não perder o amigo, ou melhor, o cliente. Podemos entender também que o vendedor considera o cliente um gato e se o considera também, dizendo que a troca não seria possível.

Na versão "original" da piada, mantemos a questão do ethos do vendedor em específico e do politicamente correto em geral. A diferença agora é que o vendedor classifica o cliente como um cachorro: a graça está no olhar interpretativo fanfarrão ou de lapso (duas chaves para vermos a voz de um personagem que faz a voz do humor na piada), que, assim, considera que o cliente não queria comprar um cachorro (sentido esperado) mas trocar-se por um (sentido surpreendente), tendo em vista que é a mulher deste cliente a destinatária do presente.

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