sábado, 9 de junho de 2007

Isso de querer ser exatamente o que a gente é ainda vai nos levar além

Vou analisar o curioso poema "Incenso fosse música", de Paulo Leminski:

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

É um poema, mas está na seção "Frases curiosas" porque não tenho outra. E também porque é um micro-poema, quase do porte de uma assertiva, de uma sentença. Há linearidade, apesar das quebras de versos (não ou nunca casuais): as quebras neste caso têm valor gráfico-métrico (fazer com que os versos fiquem mais ou menos do mesmo cumprimento), mas essa duração não precisa ser exata e sim estar combinada com blocos (mais ou menos) de sentido.

O humor é algo presente nas poesias de Leminski, como também o caráter aforístico de muitas de suas poesias. Buscam ser "boas sacadas", quebrando a gravidade de certa tradição poética (romântica). Questiona os limites do gênero: o que pode e o que não pode ser poema? Lembro-me de uma frase do Umberto Eco, mais ou menos assim: "poema é tudo aquilo que muda de linha antes da página terminar". Nesse sentido, poema não é o que contém poesia (algo mais geral, que podemos chamar de "metáfora"), mas qualquer coisa que seja dito que é poesia (há poeticidade em tudo, assim); e que também cumpra aquele critério de estruturação.

Mas, não vou me deter tanto a uma análise literária e estilística de Leminski. Pus o que acho essencial para colaborar com a compreensão deste poema, ou deste aforismo. Também não vou me deter no título do poema; muitos títulos servem para dispersar nossa atenção, embora aqui o título se referia também a "X ser Y" (e que "incenso" e "música" são alcançados pela percepção).

Interessa-me discutir brevemente como a forma do que está escrito é motivada pelo significado, a saber, o tema do texto. O texto fala da transformação inesperada de algo que está (ou estava) - sem pretensões - sendo o que deveria ser. A expressão "a gente" é subentendida uma vez e expressa logo depois:

isso de (a gente) querer ser
exatamente aquilo
que a gente é

Em seguida, aparece "nos".

ainda vai
nos levar além

Os gramáticos tradicionais ferrenhos ou os que pensam que entendem de coesão e coerência dirão que Leminski falha ao mudar o personagem: "a gente" seria um coletivo singular (3a pessoa), enquanto que "nos" seria um pronome plural (1a pessoa), sendo ruim (ou errado) que as duas ocorrências estivessem se referindo a um mesmo ser.

Entretanto, as duas expressões podem ter um mesmo referente, e é o caso aqui. Não se trata de uma falha, e sim de uma transformação (aquele "além") do "a gente" em "nós", e é exatamente de uma transformação inesperada que o texto está falando. "A gente" vai sendo (por duas vezes), despretensiosamente, até ser levada além, em "nós", na forma átona "nos", por causa do contexto em que aparece e também para reforçar que está sendo levado, que é o "objeto" (direto) dessa mudança inadvertida. Despretensiosa e inesperada, a mudança engana até o leitor. Aliás, outra coisa que o texto pode estar querendo refletir é: qual é o ponto de mutação, qual o marco a partir do qual dizemos que uma coisa é outra coisa?, se uma coisa converteu-se expressamente em outra e o leitor não percebeu?

Outro aspecto é que "a gente" pode soar como algo um pouco mais abstrato (pode se referir a "nós" ou "a gente" em geral, isto é, "as pessoas"), e se transforma, concretizando-se, em algo que diz respeito a este "nós", ou seja, diz respeito ao autor (ou ao eu-lírico) e a outro(s) englobado(s), podendo, no caso, ser o(s) leitor(es). Isto é, inesperadamente algo que se diz não se sabe se de outrém ou se de nós pode se tornar próximo, transformar-se, despretensiosamente, em algo que se diz sobre nós (aquele que diz mais outro ou outros).

Até pelo fato de não haver sujeito expresso para "querer ser", há até a possibilidade deste lugar estar ocupado (diferentemente do que dissemos antes, numa leitura menos óbvia) não por "a gente" o sujeito, mas por um outro sujeito arbitrário:

isso de (um outro) querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

É claro que, assim, o sentido ficaria um pouco alterado, em relação à análise que eu (eu mesmo) vinha construindo, e por isso nem vou aprofundar (deixo para o leitor fazê-lo). Mas, no fundo, é um pouco do que o texto está dizendo (e poema e aforismo são gêneros que tendem a forçar lacunas de sentido que favoreçam a polissemia): a conversibilidade inesperada não só de um "eu" ("nós") em "outro" ("outros"), como recíproca, também de um "outro" ("outros") em "eu" ("nós").

Relacionada ao plano do conteúdo, o texto traz um ardil no plano da forma. Neste caso, o conteúdo significa mais com a forma trabalhando a seu favor, e a forma tem razão de ser quando relacionada ao conteúdo do dito.

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